A migração para Mato Grosso – Chapada dos Guimarães.

A migração dos trabalhadores gaúchos
para a Amazônia Legal (1970-1985)
III – Os projetos de colonização da Amazônia e suas oposições

Larissa Kashina Rebello da Silva
Bacharel e Licenciada em História pela USP
larissa@klepsidra.net

APRESENTAÇÃO:
Este é a terceira e última parte de um texto que procura abarcar a colonização de gaúchos no norte do Mato Grosso à partir da década de 1970.  São abordadas, nesta parte, os projetos de colonização da Amazônia no período entre 1970 e 1985, suas vinculações com as populações gaúchas migrantes e com as políticas governamentais,  além das oposições ao projeto executado.

INTRODUÇÃO:

O presente trabalho pretende discutir a migração de trabalhadores gaúchos do noroeste do Rio Grande do Sul para o sul da Amazônia Legal, principalmente norte do Mato Grosso, à partir da década de 1970, durante o Governo Militar. Para tanto é importante que se faça uma contextualização da origem destes grupos migrantes no Rio Grande do Sul, no século XIX, que eram na maioria, italianos e alemães.
Em seguida, se fará um panorama das políticas governamentais para a colonização de terras, mais especificamente nas fronteiras agrícolas estratégicas da Amazônia Legal, e a passagem da concessão de colonização para cooperativas.

Através de depoimentos de migrantes, familiares e profissionais que trabalham nesta área, e da bibliografia especializada, se discutirão as condições de vida dos trabalhadores na região de origem, o noroeste do Rio Grande do Sul, os motivos de seu deslocamento, bem como a descrição do caminho que percorreram, e em último momento, as condições de vida na região a que se destinaram. Não se pode prescindir da discussão à respeito da ocupação do espaço, e o encontro com a população local preexistente.

A pesquisa de campo na Amazônia Legal foi feita em cidades do estado do Mato Grosso. É importante comparar a instalação dos gaúchos em uma cidade que está ao sul da Amazônia Legal, que é Primavera do Leste, com o caso das cidades ao norte: Sinop, Lucas do Rio Verde e Sorriso. Há diferenças políticas e geográficas nas ocupações destas regiões.  O estudo da colonização da Amazônia Legal por sulistas foi dividido em três categorias, tais como esta ocorreu: a colonização oficial do INCRA, a colonização por parte de cooperativas e a colonização independente. Os três tipos apresentam realidades diferentes quando ao nível de renda dos migrantes, e as condições de instalação. Para avaliar as singularidades, foi necessária uma ampla coleta de depoimentos, e o estudo da bibliografia sobre cada município visitado.

Parte I: A questão agrária no Rio Grande do Sul
(publicado na edição nº 23 de Klepsidra – clique aqui para acessá-la)

Parte II: A Política de Ocupação das Fronteiras Amazônicas

(publicado na edição nº 24 de Klepsidra – clique aqui para acessá-la)

 

  1. Os Projetos de Colonização na Amazônia

 

5.1 O Plano de Integração Nacional

O principal foco do governo para o Plano de Integração Nacional (PIN) era integrar a região amazônica ao restante do país. A distância física entre os programas de colonização era grande, pois pretendia-se que o povoamento posteriormente desenvolvesse o espaço, gradualmente, principalmente através da construção de rodovias, que estava ligada ao capital especulativo.

O PIN foi criado no dia 16 de junho de 1970, com recursos previstos de incentivos fiscais, doações,  e contribuições de empresas privadas ou públicas, cujo imposto de renda era deduzido em 30%, destinados somente para o Projeto.[18]

O sul do Maranhão, o centro de Goiás e o centro-sul do Mato Grosso, áreas de transição da caatinga para o cerrado, eram a região que mais interessava economicamente ao Governo. O Governo anunciava que a Amazônia tinha o maior rebanho bovino do mundo, quando na verdade não passava de 5 milhões de cabeças.[19]
Os pecuaristas uniam-se aos madeireiros, apoiando-os, pois estes faziam a limpeza do terreno para aqueles.Até 1950, não havia títulos de propriedade de terra nem preços de mercado na Amazônia.

“De 1970 a 1975, nas várias regiões da Amazônia, empresas beneficiadas pelos incentivos fiscais da SUDAM, compraram mais de seis milhões de hectares de terras, espalhando centenas de jagunços pela área. A ocupação se fazia de forma predatória, provocando profunda alteração no meio ambiente e na vida da população local.”[20]

 

Projeto Jarí

Daniel Keith Ludwig comprou na entrada da bacia amazônica um território de 1.200.000 hectares*. “Com uma fortuna constituída à sombra de governos. Seu objetivo era reflorestar para extração de madeira e metais. Ludwig promoveu um grande processo de devastação ambiental na Amazônia.” “Nenhum imposto estava sendo pago e o valor das isenções superava em quatro vezes o montante a ser pago.”[21] A empresa obteve isenção de impostos e taxas sobre importação de máquinas.

Os antigos proprietários foram obrigados, por contrato a deixarem as terras e não mais exercerem atividades nos estados do Amapá e Pará.

Em 1978 o projeto Jarí trouxe uma fábrica de celulose e uma usina termo- elétrica montadas, de balsa, do Japão até a Amazônia. Isto aumentou o uso dito ilegal da terra, ou grilagem, e a emigração para outros estados. Os trabalhadores foram substituídos: saíram os que ali viviam, e entraram nordestinos e sulistas.

O Jarí mantinha outras empresas de processamento: Caolim da Amazônia S.ª, no município de Mazagão, para branqueamento de celulose; Projeto Rizicultura, em S. Raimundo, próximo do rio Amazonas, em área de 15.000 hectares, além do cultivo de cana para álcool.[22]

Houve muitas denúncias de maus tratos no Jarí: não havia casas suficientes, os trabalhadores eram obrigados a assinar recibos de pagamentos não recebidos sob ameaça de morte, e chegavam até a ficar presos.
Outros grandes projetos foram: Trombetas, para extração de bauxita no Médio Amazonas de 1966 (a exploração começa em 1971); o Projeto Carajás: o maior projeto da Amazônia, para exploração de quase todos os tipos de minério, descoberta em 1967 pela Companhia Meridional de Mineração, subsidiada da United States Steel Co.; houve muitos conflitos de terras pela instalação deste projeto, pois eram áreas ocupadas por grupos indígenas, de extrativistas, e além do mais, a exploradora era estrangeira. O Projeto Calha Norte levou a inúmeros conflitos por terras após a militarização das fronteiras.
Esta modificação rápida do ambiente alterou o modo de vida dos que habitavam a floresta.
“ A chegada do estranho aproximou índios e seringueiros, que até aquele momento eram inimigos e rivais na floresta.Os seringueiros criaram a estratégia dos empates de derrubadas, organizando mulheres e crianças para abraçar a área de seringa que seria atingida pela moto-serra.”[23]

 

“Entre 1973 e 1985, mais de 110.000 famílias de migrantes eram candidatas a parceleiras nos projetos de colonização do INCRA; apenas 30.000 conseguiram chegar ao lote de terra através do INCRA.”[24]
O Governo lançou o Projeto Integrado de Colonização – PIC, uma subdivisão do PIN na faixa de 10 Km ao longo da rodovia Transamazônica. Os projetos eram:
PIC Altamira, iniciado em 1970, às margens da rodovia Transamazônica, com área de 2.795.250 hectares; foi o primeiro projeto do PIN; o INCRA quis estabelecer que 75% dos colonos fossem do Nordeste, e 25% do Sul, seguindo o estereótipo de que os nordestinos eram iletrados, preguiçosos, e voltados à caça em vez da agricultura, mas com grande capacidade de superar dificuldades; os sulistas teriam o papel de servir de exemplo aos outros colonos, e de introduzir tecnologia de produção.[25]
Como já foi dito, a mídia era bastante otimista com relação a este projeto. O programa  atingiu um pico de assentamentos em 1972 e foi abandonado. O PIC do Guamá, foi iniciado em 1957 e continuado nas décadas de 70 e 80. Com área de 33.105 hectares, ficava nos municípios de S. Isabel do Pará e Castanhal. Foram assentadas pouco mais de 500 famílias entre 1970 e 1973. PIC Itaituba, iniciado em 1971, tinha área de 356.500 hectares, e ficava no município de Marabá; recebeu 3.500 colonos, dos quais 19% eram do Sul. Estes eram os PIC’s do Pará.
Em Rondônia, também foram instalados diversos Projetos Integrados de Colonização: o PIC Guajará-Mirim, ficava na fronteira com a Bolívia. Não atingiu o objetivo esperado, por causa do pequeno tamanho das terras (25 ha), a baixa fertilidade do solo, a deficiência do crédito. O PIC Ouro Preto, estabeleceu-se em Ouro Preto d’Oeste, em área de 512.585 hectares, e teve mais de 5000 famílias assentadas, das quais menos de 10% vinham do Sul. O PIC Sidney Girão, iniciado em 1972 no município de Guajará Mirim, tinha uma área de 60.000 hectares; teve pouco mais de 600 famílias assentadas ao longo da Rodovia BR 425. O PIC Ji-Paraná, estendia-se por regiões de vários municípios, entre eles: Presidente Médici, Cacoal, Rolim de Moura, Pimenta Bueno; tinha área de 486.137 hectares, e assentou mais de 5000 famílias. O PIC Paulo Assis Ribeiro foi iniciado em 1974, no município de Colorado D’Oeste, em área de 293.580 hectares, entre Rondônia, Mato Grosso e Bolívia; teve 3500 assentados. Os três últimos projetos estavam próximos de reservas indígenas.
No Projeto Agroindustrial Canavieiro – PACAL, iniciado em 1973 no município de Prainha (PA), com área de 15.300 hectares, plantava-se cana-de-açúcar para abastecer outros PIC’s.
No Amazonas, a Colônia Agrícola de Bela Vista, também parte do PIN, teve assentamentos entre 1974 e 1977.
No Mato Grosso, executaram-se os “Projetos de Ação Conjunta-PAC”:
O PAC Peixoto de Azevedo, em área de 120.000 hectares, no município de Guarantã do Norte, ao longo da Rodovia Cuiabá Santarém, com apoio da Cooperativa Tritícola de Erechim Ltda., assentou-se 700 famílias. O Projeto de Assentamento Braço-Sul, também ao longo da Rodovia Cuiabá Santarém, com 115.000 hectares destinou-se ao assentamento de mais de 1000 famílias de “brasiguaios” retornados. Ambos projetos expropriaram índios Kréen Akaroré em 1972 para a construção da rodovia. Estes foram reduzidos de 800, para 80, quando da transformação de suas terras no Parque Nacional do Xingu.

 

5.2. Os Projetos particulares do Rio Grande do Sul:

As cooperativas sulistas responsáveis pelos projetos amazônicos particulares tinham como critério de seleção dos colonos: ser pequeno proprietário, com renda para se sustentar por um ano. Os critérios de seleção para os projetos oficiais eram para homens  entre 21 a 60 anos, casados, com filhos, com boa conduta; possuir tradição agrícola, e não ter propriedade rural. Entre os escolhidos haviam: pequenos proprietários, ou seus filhos, pequenos arrendatários, meeiros, posseiros, assalariados rurais e urbanos; portanto, o critério dos programas oficiais eram menos rígidos que os particulares. Conclui-se que não havia um modelo fixo de migrante, pois o critério era bastante abrangente.

As cooperativas controlavam as atividades dos colonos, como o garimpo (o que foi o caso extremo de Alta Floresta (MT), onde “colonos-garimpeiros” foram espancados até a morte. Também eram dissolvidas, reuniões de grupos que discutissem a situação social dos colonos. Além disso, as cooperativas proibiam de vender a produção sem o intermédio das mesmas, o que mostra mais claramente o seu caráter empreendedor, ávido por abrir novos projetos. Há uma relação de paternalismo por parte dos dirigentes dos Programas, com relação aos colonos.

As colonizadoras ignoraram a presença de outros ocupantes nas terras loteadas, e admitiram apenas o seu projeto como modelo de ocupação da região.

Nos programas privados, os parceleiros que chegaram entre 1970 e 1979, receberam crédito fundiário com prazo de 15 a 20 anos, com  2 a 4 anos de carência a juros entre 6 e 12% ao ano. Com a falta de créditos dados pelo Pró-Terra, os colonos teriam que pagar 20% do valor da terra adiantados, e os juros seriam mais elevados.
Não raro, as colonizadoras estavam ligadas a grupos econômicos em diversas atividades, como extração de madeira, e a agro-indústria, garantindo várias fontes de lucro.

Quase todos os programas tinham uma proteção do governo de preço mínimo: se a colheita não fosse comprada, o governo o fazia.

Como na Amazônia o solo é muito irregular e os lotes eram distribuídos aleatoriamente, um colono poderia receber uma terra mais fértil, ou com fonte de água, ou ouro, enquanto o seu vizinho, não.
Os colonos buscavam produzir e comprar fora do sistema da cooperativa, que em todos os casos queria lucrar sobre a venda dos e para os cooperados.

 

O Programa de Colonização Canarana, da Cooperativa 31 de Março -COOPERCOL, de Tenente Portela, foi inaugurado em 1972, em Barra do Garças, no leste do Mato Grosso, “no Km 335 da rodovia (não asfaltada) BR-158.”[26] Estabeleceu-se em território dos índios Xavantes e Bororo. Barra do Garças é sede do município desde 1948, quando vieram os exploradores de ouro e se instalaram. Até então não havia brancos no local. Já desde 1950, a região foi ocupada por grandes fazendas de gado extensivo, que receberam concessões de terras públicas do Governo do Estado do Mato Grosso. Também chegaram muitos posseiros nordestinos e nortistas, no começo da década de 60. O conflito entre fazendeiros e índios se intensificou tanto que o Exército interveio, deslocando os Xavantes para a reserva indígena Pimenta Bueno no Araguaia mato-grossense.
O Programa de Colonização Canarana ocupava uma área de 39.851 hectares, com 81 parcelas de 470 hectares, destinadas à propriedade familiar.[27] Entre 1973 e 1979, outros 23 projetos de colonização instalaram 1206 famílias no município, sob organização da CONAGRO, empresa do grupo COOPERCOL.
Por falta de espaço agriculturável em Tenente Portela (RS), os camponeses avançaram progressivamente numa reserva indígena Kaingang, por 10 anos sob auxílio do Serviço de Proteção aos Índios, de onde foram expulsos após 20 anos de permanência. A expulsão destes trabalhadores que não tinham nenhuma propriedade, levou a um movimento por reivindicação de terras, que foi fortemente reprimido pelo Governo Militar.
Também em Tenente Portela, um grupo urbano, liderado por um pastor luterano, Norberto Schwantes, conseguiu verba européia para montar uma rádio que dava assistência agrícola. Concluiu-se que o problema da falta de terras estava no minifúndio de trabalho manual, e não pela crise de esgotamento do arroz, como a mídia sempre enunciava. Então, propôs-se que metade dos camponeses fosse transferida para a Amazônia, para aliviar a tensão social causada pela impossibilidade de se adquirir mais terras no Rio Grande do Sul. O projeto foi muito bem aceito pelo INCRA, que sugeriu que Schwantes montasse uma colonizadora, e enviou dois funcionários para orientar o trabalho. O nome 31 de março, era em homenagem ao dia e mês da Revolução de 1964. Schwantes foi uma figura muito polêmica, pois estreitou laços com a ditadura, ao mesmo tempo que dava abrigo a refugiados políticos em Tenente Portela.
Com dificuldades em adquirir terras, a colonizadora tornou a pedir a ajuda do INCRA, que orientou para que recrutassem camponeses para os projetos ao longo da Transamazônica, Altamira e Marabá, que faziam parte do Projeto de Integração Nacional. Os gaúchos dariam o exemplo aos nordestinos. Dos primeiros 76 camponeses que foram, sem a família, para passar 6 meses, a metade voltou[28], horrorizada com as péssimas condições dos projetos. Mas as famílias continuavam a ser transferidas: estima-se que foram 200 famílias através deste convênio.
Formaram-se então dois projetos: em Barra do Garças, para agricultores com mais capital (terrenos de 500 a 1000 hectares), e o projeto da Transamazônica para os camponeses sem recursos. Aderiram 360 pessoas. Apenas 60 permaneceram. Destes interessados, apenas 81 famílias partiram para Barra do Garças. Havia inicialmente 118 camponeses interessados em ir para Barra do Garças, e apenas 22 para a Transamazônica.[29]
Um forte trabalho de propaganda foi feito no Sul, o que efetivamente rendeu muitos deslocamentos de famílias com pouca terra, a maioria delas arrendadas da reserva Kaingang. Era exigido um certo capital pelo próprio Projeto Canarana. Schwantes diz: “(…) mesmo famílias que estavam muito bem aqui, partiram.”[30]
No Sul, houve uma concentração de terras nas mãos de quem comprou dos camponeses que migraram.

O Pró-Terra financiava 80% do preço da terra. Portanto, pode-se dizer que este projeto teve muito incentivo dos governos, estadual e federal.
As condições eram péssimas: os colonos viveram por 1 ano em barracas, muitos foram atingidos pela malária. Barra do Garças, a cidade mais próxima, ficava à 335 Km de Canarana, por estrada de terra, e o preço das mercadorias lá era muito alto. Os colonos sobreviviam do que traziam do Sul, basicamente. Com dois tratores, fizeram a primeira lavoura coletiva, monocultora, de arroz (exigência do INCRA) e instalaram uma serraria para fazer as casas.
Foi projetada uma agrovila, mas logo, os colonos foram viver no centro urbano, por causa da distância da escola, e a falta de encanamento de água e eletricidade, o que fez com que o centro se desenvolvesse rapidamente, à ponto de já em 1982, haver “bairros de ricos e de pobres”, isolados.
Entre 1979 e 1981, o conflito com os índios Xavante se intensificou, sendo no mínimo 210 famílias ameaçadas de expulsão.
Em 1º de maio de 1975, foi fundada a Vila de Canarana, mesmo ano da fundação da COOPERCANA, Cooperativa de Produtores, com 1500 associados em 1980. O principal motivo do sucesso, foram os créditos públicos abundantes, e a tradição agrícola de pequenos produtores do Sul.
A vila tornou-se município ao final de 1979, início do período da crise de esgotamento do solo pelo plantio de arroz. Aproximadamente metade dos colonos se endividou e o Banco do Brasil confiscou as suas máquinas agrícolas. A maioria dos colonos passou a arrendar terras nos arredores, ou partiu para outros estados. Apenas 40% permaneceu em Canarana. Logono início do Projeto, 8 famílias retornaram porque não conseguiram se sustentar. As levas de retornados, tiveram que passar pela humilhação de serem vistos como vadios por sulistas no Sul e em Canarana. Geralmente os que conheciam menos a agricultura mecanizada, foram menos bem sucedidos. Este grupo foi estimulado pelo INCRA a substituir colonos também retornados, desta vez em Rondônia, Terranova e Lucas do Rio Verde.
Os principais motivos da migração deste grupo, segundo Santos[31], eram  a busca de mais terras para os filhos, e o cansaço relativo ao trabalho manual: queriam mecanizar sua lavoura.
O tamanho das terras em Canarana era muito maior que em Tenente Portela: de 14 ha no Sul, para 475 ha no Mato Grosso, aproximadamente, em 1972, e 570 ha em 1984.[32] Mas o tamanho das terras é bastante desigual no projeto, como acontece com a divisão agrária em todo o Brasil.
A produção em Canarana era familiar, e nas épocas de plantio e colheita, meeiros eram contratados, e ficavam com 5% da colheita.
Entre 1983 e 84, deslanchou a produção de soja em Canarana, devido a exploração de uma mina de calcário que possibilitou a correção do solo. No entanto, muitos produtores continuaram a plantar suas culturas de subsistência, pois não queriam mais obter empréstimos do Banco do Brasil. A pecuária também se fortaleceu neste momento.
Os colonos lamentavam a dependência da cooperativa, e a falta de assistência técnica da EMATER: empresa do órgão oficial de extensão rural. A tecnologia do trabalho no cerrado foi desenvolvida pelos próprios agricultores.
Os posseiros que vivam na terra antes do Programa Canarana, nas décadas de 60 e 70 estão em conflito com os fazendeiros até hoje, nos arredores do Programa: Canabrava, Milagrosa, Rio Tanguru e Cascalheira. Foram ressarcidos de suas produções e casas, mas não pelas terras. Os sulistas já chegaram à uma região de conflito, portanto, não foram seus causadores, mas a cidade é dividida entre os nordestinos e sulistas, que vivem ao norte, e os sulistas que vivem ao sul do município.
Santos[33] observa que a relação entre os colonos é de individualismo, e que quase nada resta da cultura camponesa gaúcha em Canarana: 12 anos depois de suas chegada, não havia ainda nenhum sindicato.

Um anônimo de Tenente Portela (RS), conta que seus próprios irmãos mudaram-se para Canarana há 16 anos. Ele nunca mais os viu. Diz que é provável que um deles esteja morto. Seu pai, Nemo ainda vive lá. Os filhos disseram ao pai que iam tentar a vida; foram com um pequeno crédito do governo, mas por iniciativa própria. Com a parte da herança da terra que o pai vendera (eram mais de dez filhos), venderam 26 hectares e hoje eles têm mais de 1000 hectares, conta com ar de esperança o homem.
Em Tenente Portela, plantavam milho e feijão; em Canarana plantam soja e têm centenas de cabeças de gado. “A foto é um escândalo”, diz o homem, cujo sonho é ir com a mulher e os cinco filhos para lá: “já que eles estão ricos e eu pobre…tenho 27 anos e cara de mais de 30 não é?’’
Sr. Ênio vive em Tenente Portela, onde é proprietário de uma padaria e um bar. Conta que sempre foi padeiro. Em 1989, mudou-se para Canarana para trabalhar na Coopercana, como empregado. Diz que voltou com a família porque a esposa não gostava da vida de lá.
Foram sem dinheiro algum, e não tinham terras. Os aparelhos da sua padaria estavam penhorados.
Retornou com dinheiro suficiente para os readquirir e voltar a trabalhar no que sempre gostou de fazer, diz Sr. Ênio.
Os colonos sabiam das fraudes na Coopercana. Um exemplo é de caminhões que vinham com mantimentos, pesavam, e depois passam de novo com a balança em tara, como se o caminhão tivesse descarregado, quando na verdade o motorista levava a carga para si e dividia com os mancomunados. Estas fraudes foram o principal motivo pelo qual o projeto não se sustentou. A Coopercana passou a se chamar Caramuru.

Há três anos, o grupo Maggi, do qual o governador do estado é proprietário, comprou uma área de 40.000 hectares em Canarana; era a antiga fazenda Paraíso. Um grupo de funcionários do supermercado Coopercana se apropriou do terreno; viraram donos e ninguém os desapropriou.
Existe muito tráfico lá, e conseqüentemente, muitos crimes. Teve uma época em que os próprios seguranças da cooperativa estavam envolvidos.
Sobre a instalação no Mato Grosso, Sr. Ênio diz: “Quem mora em favela é nordestino. Gaúcho não. Gaúcho vai e aluga nem que seja um quarto, como eu, que fui sem nada.”
Segundo sua esposa, eles voltaram porque sr. Ênio perdeu o emprego da padaria onde trabalhava. A esposa era escriturária na prefeitura. No dia seguinte às eleições municipais o candidato que perdeu mandou queimar a sede municipal. Todos os arquivos foram perdidos.

O Programa de Colonização Terranova, atual município de Colíder, situa-se às margens da BR 163, no Km 700, no norte do Mato Grosso, que fica em região de floresta tropical. É banhada pelos rios Teles Pires e Peixoto de Azevedo. A terra é seca e dura, e o terreno é plano. A região era território dos índios Kreen-Aka-Rore. O primeiro encontro com os brancos em 1967 resultou num conflito violento. Com a construção da rodovia Cuiabá-Santarém, o governo, através dos irmãos Vilas-Boas, transferiu os índios para uma reserva às margens da rodovia, criada justamente para este fim. Em um ano, a sua população passou de 300 para 150, por causa das doenças dos brancos. Então, em 1974, foram re-transferidos para o Parque Nacional do Xingú.
O Projeto começou a ser implantado em 1978, pela COOPERCANA, a mesma cooperativa responsável pelo Projeto Canarana; à pedido do governo, para assentar gaúchos expulsos das reservas: Nonoaí, Cacique Double e Guarita, territórios Kaingang,  próximos de Tenente Portela. Seriam 1000 colonos, no total. Mais 32 famílias foram re-alocadas, porque viviam em Canarana, mas estavam em território Xavante.
Os gaúchos expulsos dos territórios Kaingang no Sul, estavam alojados no Parque de Exposições do Esteio, próximo de Porto Alegre. A COOPERCANA lhes ofereceu propriedades de 200 hectares, com financiamento de 15 anos, crédito sazonal, casas de madeira, estradas vicinais, escolas e hospitais, onde diziam ser terras férteis e sem doenças. Mas os camponeses hesitaram muito. Havia quatro opções: assalariamento em municípios próximos; assentamento na Colônia Nova Esperança em Bagé, que assentou apenas 128 famílias em lotes de 15 a20 hectares; colonização em Terranova; ou permanecer no Sul sem terra. A maioria, portanto escolheu migrar. Inicialmente, 550 famílias e depois 80 famílias mudaram-se para o Projeto Terranova. As 300 famílias que ficaram no Alto Uruguai (RS), invadiram, um ano depois, a Fazenda Sarandí, que levaria a organização do primeiro acampamento do MST.
O Programa Terranova tinha superfície total de 435.000 hectares, divididos em 1060 lotes rurais. Até julho de 1979, 637 famílias foram assentadas em parcelas de 200 hectares. À partir de outubro, mais 423 terrenos (desta vez de 100 ha) foram distribuídos aos expulsos de Nonoaí, no norte do Rio Grande do Sul, e oeste de Santa Catarina. Os colonos recebiam crédito do Banco do Brasil, através do Pró-Terra.
Os créditos foram liberados com muito atraso. Entre 1979 e 80, a COOPERCANA passou por uma grande crise.
Em 1980, Colíder foi decretada pelo INCRA, zona prioritária de assentamento, por causa de conflitos entre posseiros e fazendeiros com títulos falsos de propriedade. A solução encontrada pelo Governo, portanto, foi incluir mais um grupo no território.
Os colonos vieram, principalmente por causa da mecanização da lavoura na década de 60, que os deixou pressionados pelos “grandes” agro-pecuaristas no Sul, e por não terem capital para mecanizar-se. A consequência da mecanização foi o aumento do preço da terra, que os impediu de expandir sua produção. Além disso, o aumento da família tornava o tamanho das suas parcelas insuficientes.[34]
Muitos colonos são filhos de pequenos proprietários. Por tradição a terra fica para o filho mais novo. Os mais velhos não podem permanecer porque não há espaço.
Outro grupo que foi para Terranova, é o dos “afogados” da barragem de Passo Real (RS), em 1970.
A COOPERCANA também fez uma propaganda forte sobre Terranova, com audiovisuais, e pelo rádio. As promessas eram de que iriam à uma “terra prometida”.
José Vicente Tavares dos Santos avalia que “os colonos chegavam em Terranova desprovidos de recursos financeiros importantes, exceto uma minoria que vendeu seus instrumentos agrícolas antes de partir.”[35]

Tudo o que fora prometido não era como tal na realidade: as casas eram barracos de madeira, não havia água encanada nem instalação elétrica; as terras não haviam sido medidas, nem o terreno fora limpo. Para chegar da agrovila ao lote, tinham que caminhar de 5 a 9 Km, o que fez muitos optarem por vender o lote residencial e viver no terreno da lavoura. Tinham que pescar e caçar, pois seus recursos não eram suficientes para comprar comida. Realmente passavam fome nos primeiros três anos, quando não havia o supermercado da COBAL, pois na época das chuvas, a estrada fica intrafegável.
Não havia assistência médica nas agrovilas. Muitos morreram de malária. Não se sabe quantos. Só construíram uma escola muitos anos depois, e era apenas o ensino primário (4 anos). Foram feitas muitas denúncias, como a de que o alimento enviado pelo Governo Federal era desviado[36], de que o contrato não foi honrado, e de que a Cooperativa vendeu concessões em áreas de reserva florestal.
No cemitério da cidade está escrito em muitas cruzes: “DESCONHECIDO”. Eram pioneiros que abriram a mata e morreram de malária, ou em conflito. Muitos tornaram-se garimpeiros, madeireiros e caçadores.

A medida média das propriedades era de 198 hectares.Na primeira fase da colonização, a atividade era a extração de madeira. No começo da década de 80, começou-se a explorar mais ouro e a diversificar culturas, após o esgotamento das lavouras de arroz.  Os colonos gaúchos partiram para o garimpo[37] para que pudessem continuar na agricultura sem depender de empréstimos bancários. Foi uma atividade sazonal para este grupo.
Uma nova leva de migrantes, chamados de “compradores”, vindos principalmente de Santa Catarina e Paraná, adquiriram os terrenos dos colonos “pioneiros” que retornaram. A condição econômica e social deste segundo grupo era um pouco melhor que a do primeiro, pois já havia mais estrutura em Terranova. Havia também um grande número de posseiros vindos de todas as regiões. Muitos eram garimpeiros. Ocupavam faixas de terra devolutas atrás das parcelas dos colonos, à 5 Km da estrada. Não tinham acesso à nenhuma benfeitoria de Terranova. Produziram todo o seu espaço independentemente.
Houve conflito entre os colonos e os posseiros. Também é nítida em Terranova, como em qualquer outro município originado por colonização uma diferenciação social entre os colonos pioneiros, os que chegaram posteriormente, os posseiros, os dirigentes da colonizadora, e os grandes fazendeiros que já eram proprietários das terras antes da colonização.
Em 1979 foi fundado um centro comunitário de lazer. A bocha, jogo muito apreciado por gaúchos era uma forte atração, o que mostra que o grupo manteve-se coeso, dentro do seu status:colonos parceleiros e colonos compradores não se misturavam. As diferentes religiões, das quais a católica era a mais forte, também cingiam os gaúchos.
A justiça sempre esteve ausente, o que fez com que a violência policial e dos matadores contratados por proprietários para eliminar os posseiros ficasse impune.
Houve muita desistência por parte dos colonos, que retornaram: 80% da primeira leva, entre 1979 e 81, abandonou o Programa. Alguns trocaram uma parcela em Terranova por um lote no Sul, outros trocaram a parcela apenas pela passagem de volta. Estes foram vistos como “pessoas que não querem trabalhar” e “especuladores”[38]
O agricultor Carlos Mouro, migrou de Nonoaí para Terranova do Norte na década de 1980, ao receber uma parcela de 250 hectares. Pegou malária mais de 60 vezes. Todas as manhãs, ele e a mulher, ambos com mais de 40 anos, caminham cerca de 10 Km em mata fechada para chegar à roça; Leva sempre um facão e um rifle, porque há muitos animais selvagens. Sem ter com quem negociar a produção, ele alterna a agricultura com o garimpo. A Colonizadora Cotrel, do município de Erexim (RS), lançou em acordo com o INCRA, em 1980, um programa de colonização no Km 750 da rodovia Cuiabá-Santarém, para assentar os “afogados” das barragens do Rio Uruguai. As barragens estavam sob responsabilidade da empresa estatal Eletrosul, na divisa do Rio Grande do Sul com Santa Catarina. Na comissão de apoio à construção das barragens, estava o vice-presidente da cooperativa, o que indica o interesse na barragem para assentar os sem-terra no projeto amazônico.

Porto dos Gaúchos, nas décadas de 50 e 60, era uma colônia da Conomali, em reserva indígena Beiço de Pau. Lá a principal atividade por muitos anos foi a extração de borracha, que se iniciou com os “soldados da borracha”, nordestinos trazidos durante a Segunda Guerra Mundial, pelo governo federal para coletar látex. A borracha era usada em pneus para as tropas aliadas.
Ultimamente, com a decadência da borracha, estão substituindo a economia pela pecuária e até o plantio de soja.

 

Sorriso, fundada pela colonizadora de mesmo nome, também foi construída ao longo da rodovia Cuiabá-Santarém, foi um desmembramento de Nobres.
“Pacificado” em 1924 e 1942, um grupo de cerca de 40 índios Kayabi foi encontrado pelos irmãos Vilas-Boas às margens do Rio Peixoto de Azevedo. Neste período, os Kayabi consideravam sua, a área compreendida entre o rio Teles-Pires e a margem direita do rio Arinos. A área onde hoje localiza-se o município de Sorriso, fazia parte do seu território. Tiveram um contato violento com seringueiros, alguns até passando a exercer esta atividade. Em 1950, foram “convencidos” a emigrar para o Parque do Xingú.
“A primeira visita com interesse em comprar terra nesta região foi a do Sr. Benjamin Raiser, juntamente com seu filho, Ivo Raiser e seu genro Nelson Frâncio, em 1972. (…) Em final de 1973, estiveram aqui novamente, quando fizeram negócio. Benjamin ofereceu a terra a seu filho e seu genro.”[39] Depois de voltar várias vezes para o Sul, foram morar no município de Sinop, que tinha uma estrutura melhor, como escolas, etc.
Em março de 1975, três pessoas: Claudino Frâncio, de Videiras (SC), seu primo Demétrio Frâncio, residente em Ampére (PR), e Dorival Brandão, residente em Marmeleiro (PR), à convite de Claudino, vieram visitar Nelson e Ivo. O objetivo da compra era formar uma agropecuária.
Como a área que Claudino comprou era muito grande, e seus recursos não eram suficientes, ele voltou para o Sul oferecendo terras aos amigos e parentes. “Claudino tinha uma propriedade de 4000 hectares, e vendeu 1000 para este grupo. Em seguida, vendeu toda a terra e comprou mais 4000 hectares. A notícia chegou rápido pela região Sul e começou-se a organizar caravanas quinzenais para virem conhecer o Mato Grosso.”[40]
O grupo resolveu montar uma imobiliária, para comprar e vender terras. Ricieri ficou no Sul administrando os negócios da família, caso a imobiliária não desse certo no norte. Nelson administrava o escritório in loco. Dna. Idali, esposa de Claudino, com uma fusca, ia e vinha para Videiras (PR) para fazer propaganda das terras que tinham à venda.
“Pensaram em dar à gleba, o nome de Curitiba, e alguém sugeriu que pusessem o nome fantasia de Curitiba, que é Sorriso.”
A primeira área derrubada foi de 50x50m[41], com machado e moto-serra, local onde construíram o primeiro abrigo, de 3x5m: uma espécie de acampamento. Em seguida, construíram uma casa maior que foi chamada de restaurante; de lá começaram a oferecer refeições aos funcionários do 9º BEC: batalhão de engenharia civil, que era o responsável pela construção das estradas na época.
Os pioneiros não conheciam o solo e as possibilidades do Cerrado; então derrubaram com a mesma técnica do Sul. Depois descobriram a técnica local que era muito mais rápida, pois a extensão de terra era muito maior que no Sul: uma corrente puxada por dois tratores. Os sulistas se emocionavam com a queda de tantas árvores ao mesmo tempo, segundo os relatos.
Fizeram a primeira lavoura de arroz coletiva, em 50 hectares, próximo ao rio Lira. Foi o cartão de visita para os colonizadores do Sul.
Assim relata Nelson sobre a expulsão da população que vivia na área que ele comprou: “(…) residiam ribeirinhos (…) quando nós compramos esta área de Sorriso, eram 8000 alqueires. Tinham mais ou menos 200 pessoas aqui em cima, de grileiros. Nós compramos de uma firma do Rio de Janeiro, do Euclides Aranha, que era Ministro de Guerra do Governo Castelo Branco. E nós compramos isso só que limpo, sem ninguém em cima. Eles deram conta. Vieram alí com a justiça e tiraram todo mundo pra fora. Até fiquei arrepiado! Tinha tanta criança! (…) com dois ônibus de policiais levavam na beira de estrada e mandavam embora.”[42]
“Naquela época tinha muito banditismo. Tinham umas fazendas que iam buscar funcionários, prometiam emprego e salário e quando ficavam doentes, ou se exigia alguma coisa, eram mortos. Certa vez, chegou um caminhão cheio de peonada (pau-de-arara), um deles queria comida de qualquer jeito. Estavam alí no posto Sorrisão, o motorista simplesmente puxou o revólver e matou o cara; foram embora e jogaram no rio Lira. Um vizinho do que foi morto, pulou do caminhão e se escondeu no mato; saíram caçando-o, mas não encontraram. Depois ele apareceu e pediu socorro para Dna. Elfrida, para ir de volta para casa no Paraná. Isso acontecia nas fazendas que tinham capatazes e grileiros”, conta Tereza Rubloski.[43]
Auti de Bona, também conta que muitas vezes era obrigado a ceder seus quartos de hotel que serviam de cadeia.
Catarina e Nelson Frâncio mudaram-se de Sinop para Sorriso, em agosto de 1975, quando o restaurante estava quase pronto.
“Se dependessem de comprar madeira em Sinop, tinham que ficar com o caminhão na fila, pois tinha apenas duas fitas (pistas) e os caminhões faziam fila como o INPS!”
Para tanto, usavam a madeira da serraria que abriram.
Os mantimentos, também eram comprados em Sinop, Vera ou Cuiabá. Helmuth Seidel abriu um pequeno mercado que poupou os moradores de viajar para comprar comida.
No início, cozinhavam com galhos de árvore. Catarina pediu ao marido para cavar um cupinzeiro, e usaram-no como forno, o que é muito inusitado.
Em 1976, trouxeram para o restaurante, um gerador, (que substituiu o lampião de gás), geladeira, fogão à gás, fogão à lenha, caixas d’água e outros equipamentos. Até 1976, o abastecimento de água da região era por roda d’água, que bombeava-a do rio Lira. “Em 27 de agosto de 1988, foi inaugurada pelo governador Carlos Gomes Bezerra, a Estação de Captação e Tratamento de Água(…), com capacidade de abastecimento para 1350 famílias(…)”[44] Mesmo assim, o serviço era insuficiente. Apenas em 14 de julho, a “Águas de Sorriso” iniciou a operação do sistema de água.
O primeiro gerador foi instalado em 1978. Até então, a iluminação era feita por velas e lampião.
Este grupo de sulistas da Cooperativa Sorriso, para oficializar a colonização, contratou a PLATEC, empresa prestadora de serviços na área de Topografia, Planejamento e Assistência Técnica, para elaborar o projeto e protocolar junto aos órgãos competentes, que aprovaram-no em setembro de 1979. Foi considerado um “mega-projeto” para a época, pois a área urbana foi projetada para ter 600 hectares, divididos em 4.500 terrenos.[45] Deixaram uma reserva de mata, mesmo que não houvesse legislação para tal.
Em 1982, a colonizadora se dividiu: a Sorriso aumentou seu espectro de atuação e transferiu a sede para Cuiabá. Quem ficou, criou a colonizadora Feliz. João Baptista Frâncio e Anarolino Ceola, saíram para cuidar de atividades particulares. Permaneceram, Claudino e Ricieri. Eles contam que “no início da década de 70, a estrada era muito boa: fazíamos de Sorriso à Cuiabá em 4,5 horas. Já em 81, demorava em torno de 12 a 13 horas, pela intensificação do tráfico.”[46] Maringá tinha uma linha direta para Cuiabá; na maioria das vezes eram os próprios passageiros quem empurravam os ônibus.
“O asfaltamento da BR 163, no trecho que compreende o Posto Gil, até Sinop, 330 Km de rodovia, foi concluído em dezembro de 1984. (…) Segundo um Resumo Histórico do 9º BEC, a implantação de uma extensão de 1.114 Km da BR 163, foi realizada por este órgão entre os anos de 1971 e 1976, ou seja, a sua abertura do trecho que compreende do Trevo do Lagarto até Santarém (…) a pavimentação ocorreu entre 1983 e 1986, sendo que cada trecho ficou à cargo de uma empreiteira, que aproveitando os projetos amazônicos, também receberam incentivos fiscais para construir. A empreiteira Andrade e Gutierrez pavimentou os trechos de Cuiabá até Jangada – 9º BEC, de Jangada até Posto Gil e daí até Rio dos Patos , A Constram, de Olacir de Morais pavimentou, de Rio dos Patos até Rio Verde, Odebrecht pavimentou, de Rio Verde a Rio Celeste, e de Sinop à Itaúba, A Camargo Correa ficou com o trecho de Rio Celeste à Sinop,. O trecho da rodovia que passa por Sorriso, foi asfaltado pela Odebrecht. A BR 163 foi construída através de um convênio celebrado entre o governo Frederico Campos[47], do Mato Grosso, (1979-1982) e o Presidente da República, Ernesto Geisel, porém, a liberação da verba ocorreu apenas no governo Júlio Campos (1982-1985).”[48] A justificativa para o convênio foi a necessidade de abrir estradas para escoar a produção e colaborar com o desenvolvimento do Mato Grosso, após a separação do Mato Grosso do Sul, pois a parte norte, posterior estado do Mato Grosso era menos desenvolvida: tinha menos produção, menos estradas e mais dívidas que a parte sul do estado. Porém, os projetos de abertura da Amazônia já tinham sido implantados. O Mato Grosso recorreu ao BIRD: Banco Interamericano de Reconstrução e Desenvolvimento, buscando empréstimo para a pavimentação da BR 163 e outras “BR’s” que passariam pelo território mato-grossense.
A BR 163 exerceu muita influência na fundação das cidades construídas ao longo de suas margens. Os pioneiros de Sorriso contam que quando chegaram, já havia a promessa de conclusão desta rodovia em três anos. Faz 28 anos e o projeto não foi concluído. A rodovia traria a possibilidade de boa distribuição, e de fácil acesso. Todos os entrevistados consideram a sua renovação um sonho.
Para a Associação Pró-BR, formada pela Associação Comercial e Industrial de Sorriso, que discutia dívidas agrícolas, o problema principal da rodovia não asfaltada, era a chegada dos insumos agrícolas. Então, montaram um grupo, em 29 de agosto de 1995, para asfaltar a BR e utilizar o porto de Santarém. Era uma entidade legalmente constituída, com sede em Sorriso. Isto mostra que os produtores tinham verba para fazê-lo, a ponto de preferir investir na pavimentação, em vez da produção.  Os objetivos da Associação eram: “a- a aglutinação da iniciativa privada dos municípios norte mato-grossenses em prol do desenvolvimento regional e especificamente, para a conclusão da BR 163; b- o estímulo ao desenvolvimento de atividades produtivas e defesa dos interesses econômicos de caráter comum; c- a defesa dos interesses, sócio-político e sócio-econômico junto aos órgãos de fomento, na esfera governamental e dentro da estrutura privada, visando o aprimoramento das condições de vida da população norte mato-grossense. (…) o produtor passará a ganhar por saca de soja exportada, R$ 3,00 a mais se nós compararmos com a saída do porto de Paranaguá, considerando a estimativa de produtividade da safra de 2001/2002 que é de 25 milhões de sacas (…)”[49]
Em Vera, havia irmãs religiosas alemãs que atendiam os doentes de toda a região. A Irmã Adelis foi lembrada como a enfermeira que salvou muita gente e aliviou muitos sofrimentos do povo da região diagnosticando pela sua experiência, e tratando a malária, que era frequente. Dna. Catarina e seus três filhos, por exemplo, contraíram malária, e foram curados pelas freiras.
A Sra. Elfrida Acco, também salvou muitas vidas: trazia alguns remédios, e quando a pessoa estava em estado grave, estendia a rede e ligava no soro, na oficina mecânica do marido. Em 4 de junho de 1980, foi aberto o primeiro hospital e maternidade. Não se fazia cirurgia, apenas atendiam-se casos não muito graves.

Num episódio em que um homem foi picado por uma cobra, seus acompanhantes foram pedir reforço à pé, à 30 Km de distância do local do acidente.
A Igreja Evangélica de Confissão Luterana, foi inaugurada em 1978 por iniciativa de paranaenses e gaúchos, filiada à Sinop. Tornou-se paróquia em 1987.
Ivo e Nelson, pioneiros fundadores da Cooperativa Sorriso, contam que em 1974, vieram abrir divisas na área adquirida. Ivo relata: “Eu fiquei acampado quase um ano, eu e o Nelson, na balsa do Teles-Pires, em baixo de um barraco de plástico. Para ver as divisas e para sobreviver, nós colocamos uma borrachariazinha.” A carne que caçavam, dividiam com os funcionários do 9º BEC, que os ajudou muito.
Em pouco tempo, voltaram para o Sul. Já em 10 de janeiro de 1975, retornaram, alugaram uma madeireira “pica-pau” desativada para serrar madeira para as casas. Voltaram mais uma vez para o sul, e depois novamente para o norte. Foram morar em Sinop que tinha uma estrutura melhor, como escolas, etc.
Catarina e Nelson Frâncio mudaram-se de Sinop para Sorriso, em agosto de 1975, quando o restaurante estava quase pronto. Mas continuava  o problema da distância da escola. Na tentativa de resolver o problema, a Colonizadora alugou uma van para levar e buscar, mas as crianças tinham que acordar às 4:30 da manhã; então mudaram de volta para Sinop.
Dna. Catarina e seus três filhos, contraíram malária, e foram curados pelas freiras de Vera.
Antônio Capellari, chegou em Sorriso há quase trinta anos. Conta que o que hoje é a cidade, era uma planície à beira da rodovia Cuiabá-Santarém, com algumas barracas de lona. Hoje há prédios, casas e pessoas para todos os lados. Hoje têm uma vida confortável, mas passaram por dificuldades: a agência bancária mais próxima ficava à 280 Km de distância, e só se chegava quando a estrada estava trafegável. As máquinas agrícolas eram compradas no Sul, à mais de 2000 Km de distância de Sorriso. Para trazer a carga, tinham que convencer um caminhoneiro a fazê-lo; raramente aceitavam porque ficavam atolados na estrada.*
Atilano Albino da Silva, o Tânio, nos anos 70 foi para Sorriso com mais um peão buscar serviço temporário. Hoje é sócio de uma imobiliária, tem um avião, várias fazendas, planta soja na Bolívia e possui 2,5 milhões de hectares de terra para negociar. Seus pais, pequenos agricultores de Cruz Alta, mudaram-se para o sudoeste catarinense na década de 40. Conta que o negócio da terra já foi muito perigoso: uma só fazenda chegava a ter 12 escrituras falsas e pistoleiros para defendê-las. Hoje os assuntos são resolvidos por advogados. Com a implantação da lavoura da soja, o preço da terra só sobe, conta Tânio.*
Sorriso foi sede, no final de agosto de 2004, do FEMART, festival estadual dos CTG, que durou 3 dias. Sua estrutura é a melhor do estado, e seus grupos (danças, declamação, laço, bocha, etc.) são os mais “temidos” do estado.

 

Sinop: Sociedade Imobiliária Norte do Paraná, é um projeto de colonização que formou os municípios de Vera, Cláudia, Carmen e Sinop. Seus fundadores foram: Ênio Pipino e João Pedro Moreira de Carvalho, entre outros. O grupo já existia desde 1970, quando adquiriu uma área na pré-amazônia mato-grossense, no município de Chapada dos Guimarães, que na época era o maior município em extensão do estado. “A empresa colonizadora deveria ser registrada no INCRA, possuír título de domínio da área a ser colonizada, apresentar plano de viabilidade econômica. Esta também se responsabilizava pela implantação da infra-estrutura básica (demarcação do perímetro da área a ser colonizada, das parcelas individuais); construir escolas, postos de saúde, delimitar o perímetro urbano, dar assistência técnica e creditícia. Caso a colonizadora não implantasse o mínimo de infra-estrutura básica exigida pelo INCRA, podia ter seu registro cassado”[50] O primeiro loteamento, feito em 1972, chamava-se Gleba Celeste. Localizava-se à margem direita do rio Teles Pires, formador do rio Tapajós, na Bacia Amazônica, e à esquerda do rio Tartaruga, pertencente à Bacia do Rio Xingú. Os índios Kaiabys que ocupavam a margem direita do rio Tele