Expedição Langsdorf.

Langsdorff chega a Cuiabá

30 de dezembro
 1826 – Langsdorff chega a Cuiabá

Aporta, finalmente na capital da província a expedição científica, chefiada pelo barão Jorge Henrique de Langsdorff, cônsul da Rússia no Rio de Janeiro, incumbida de efetuar exploração em Mato Grosso e Amazônia, patrocinada pelo czar Alexandre I.

A comissão organizada no Rio de Janeiro pelo barão Langsdorff, compunha-se também do botânico Luis Riedel, do oficial da marinha russa Rubzoff, astrônomo de nomeada, do zoólogo Cristiniano Hasse e do reputado pintor Maurício Rugendas. Tendo este à última hora desistido de acompanhar a expedição, foi substituído por Adriano Taunay. Como segundo desenhista figura Hercules Florence.

A 3 de setembro de 1825 embarcaram no Rio de Janeiro com destino a Santos, e só em 1826 iniciaram deveras a viagem pelo rio Tietê abaixo, e subindo pelo rio Pardo, transposto Camapuã, desceram pelo Coxim e pelo Taquari até o rio Paraguai. Após curta demora em Albuquerque a expedição retomava o Paraguai, águas acima e os rios São Lourenço e Cuiabá, em que chegou depois de sete meses e meio de viagem, vencendo 530 léguas e 114 cachoeiras.


Na capital da província foi a comissão recebida dignamente pelo presidente, major de engenheiros José Saturnino da Costa Pereira.

FONTE: Estevão de Mendonça, Datas Matogrossenses, (2ª edição) Governo de Mato Grosso, Cuiabá, 1973, página 347

FOTO: Desenho de Hercules Florence, integrante da Expedição Langsdorff.

Langsdorf faz contato com os guatós

 26 de dezembro
 
1826 Langsdorf faz contato com os guatós


Índios canoeiros em ilustração de Hércules Florence

Deixando Albuquerque (Corumbá) e navegando rio Paraguai acima, a expedição científica Langsdorff, patrocinada pelo governo russo, na foz dos Dourados, contata os índios guatós, dos quais Hercules Florence, desenhista e escriba da comitiva, destaca algumas peculiaridades:

Vivem quase sempre sobre a água, metidos em barquinhos que, como acima disse, têm dimensões diminutíssimas. Quando toda a família está embarcada, a borda da canoa fica com dois dedos acima d’água, o que não os impede de manejarem com a maior habilidade as flechas para fisgarem peixes ou traspassarem pássaros.

FONTE: Hercules Florence, Viagem Fluvial do Tietê ao Amazonas, de 1825 a 1829, Edições Melhoramentos, São Paulo, 1941, página 77

Expedição Langsdorf deixa Albuquerque

19 de dezembro

1826 – Expedição Langsdorf deixa Albuquerque

A comissão científica, patrocinada pelo governo russo, continua sua viagem rio Paraguai acima, rumo à sua próxima escala, Cuiabá:

“No dia 19 de dezembro partimos de Albuquerque. O comandante acompanhou-nos até a praia e, em honra ao sr. cônsul, mandou dar umas salvas. Iam conosco vários guanás.

Continuou nossa navegação com extrema lentidão, tanto mais incômoda quanto os mosquitos não nos deixavam um instante de sossego. É um suplício indizível.
Tornava-se, além disso, de dia para dia mais penoso o modo de subir contra corrente pelo crescimento do rio que tendo, naquela estação de chuvas, recebido já bastante água nas cabeceiras, não permitia mais às zingas alcançarem o fundo. Recorriam então nossos camaradas a umas varas compridas, terminadas em forquilha, com as quais, agarrando os ramos de árvores e troncos ou apoiando a extremidade de encontro a eles, empurravam as canoas por diante. Raros eram, porém, os galhos resistentes e cada vez mais violenta a correnteza. Porisso também nos movíamos com morosidade desesperadora, que os mosquitos, a chuva e a monotonia transformavam em sofrimento quase insuportável.”

FONTE: Hercules Florence, Viagem Fluvial do Tietê ao Amazonas, de 1825 a 1829, Edições Melhoramentos, São Paulo, 1941, página 74

Expedição Langsdorff chega a Albuquerque

 14 de dezembro
 1826 – Expedição Langsdorff chega a Albuquerque


Estampilha do correio russo em homenagem à Expedição Langsdorff, que
explorou Mato Grosso na rota dos bandeirantes
Expedição científica, à frente o conde de Langsdorrff, patrocinada pelo governo russo, em sua longa viagem entre São Paulo e a Amazônia, chega finalmente a Albuquerque:

No dia 13, recomeçamos a navegar contra a corrente e fomos à tarde pousar na margem direita, incomodados por um pé-de-vento que levantava ondas capazes de fazer perigar nossas embarcações. Quando acalmou veio grossa chuva aumentar o tormento a que multidões de mosquitos nos sujeitavam.
Do lado do O. avistávamos então montanhas que em distância aproximada de duas léguas formam uma serra paralela ao curso do Paraguai. Já a mencionei atrás.
Pela manhã de 14, alcançamos a povoação de Albuquerque, assente à margem direita do rio e em terreno um tanto alto e enxuto. Quatro lances de casas em torno de uma praça, uma capelinha intitulada igreja e uma casa para os oficiais de primeira linha, constituem o povoado.

Não vi senão quatro a cinco brancos; o resto era crioulo, caburé, mestiço ou índio. O comandante, oficial de milícias era de cor parda.

 FONTE: Hercules Florence, Viagem Fluvial do Tietê ao Amazonas, de 1825 a 1829, Edições Melhoramentos, São Paulo, 1941, página 70

Langsdorff chega ao rio Paraguai

 12 de dezembro
1826 – Langsdorff chega ao rio Paraguai


Após diversos dias navegando pelo Taquari, a expedição científica Langsdorff, patrocinada pelo governo russo alcança finalmente o rio Paraguai:
Pela manhã de 12 de dezembro entramos na águas do Paraguai, caudal célebre nos anais das missões espanholas e portuguesas pelas vantagens excepcionais que sua navegação proporciona aos vastos territórios em que corre. Tem as cabeceiras do Alto Diamantino, na chapada central da América Meridional; dirige para o sul o majestoso curso e recebe o contingente de sete grandes rios até confluir com o Paraná, onde perde injustamente o nome para cedê-lo ao afluente. Grandes embarcações podem sulcá-lo desde Buenos Aires até Vila Maria e, subindo pelo rio Cuiabá, até a capital de Mato Grosso. É uma extensão de 600 léguas, livre do menor obstáculo, sem cachoeiras, nem corredeiras: em todo o percurso deslizam mansas águas fundas e largas. É o mais belo canal que a natureza formou para permitir ao homem devassar desertos tão dilatados, para povoá-los e dar-lhes as regalias de ativa navegação e imenso comércio. Em qualquer ponto achariam os barcos a vapor florestas para abastecê-los de combustível abundante e fácil. (…)

Abicamos na margem do Paraguai em frente à boca do Taquari e, como nos devíamos demorar até o dia seguinte para deixar o astrônomo fazer suas observações, aí acampamos. À tarde vimos passar o próprio a que acima aludi e que fora a Cuiabá pedir socorros contra os guaicurus.


Quando anoiteceu, ergueram-se do lado dos campos, que na véspera havíamos deixado, grandes clarões, acompanhados de muita fumaça. Eram fogos ateados pelos índios, pois decerto nenhum brasileiro se arriscaria, depois do rompimento de hostilidades, a andar tão arredado de Miranda, o povoado dali mais próximo, e a percorrer as vastidões em que imperam aqueles selvagens.


A todos os camaradas distribuiu o cônsul espingardas, pistolas, pólvora e balas e mandou colocar as sentinelas que durante a noite estiveram alerta afim de impedir qualquer surpresa.
FONTE: Hercules Florence, Viagem Fluvial do Tietê ao Amazonas, de 1825 a 1829, Edições Melhoramentos, São Paulo, 1941, página 68

3 de dezembro

1826 – Langsdorff alcança o rio Taquari

Última cachoeira do agitado rio Coxim antes de sua chegada ao Taquari
Expedição científica, comandada pelo visconde de Langsdorff, patrocinada pelo governo russo, com destino a Cuiabá e a Amazônia, completa seu trajeto pelo agitado rio Coxim:
Logo depois de levantar o pouso, passamos à esquerda pela embocadura do rio Taquari-mirim e pouco adiante entramos no Taquari que aí tem 200 braças de largura. A maior parte do dia foi consumido em vencer a cachoeira Beliago, cuja extensão de meio quarto de légua é semeada de ilhas e rochas à flor ou acima d’água, que, se não produzem quedas, originam fortes correntezas e ondas agitadas, cuja violência as canoas vazias têm que suportar.

Agarramos uma arraia.


Pelas 2 horas da tarde, seguimos viagem, passando ainda por entre diversas ilhas. Ao pôr do sol, os camaradas, para festejarem a transposição da cachoeira Beliago, última até Cuiabá, deram descargas de fuzilaria, gritaram a valer e cantaram até alta noite. Daí por diante, com efeito, a navegação faz-se em rios de curso tranqüilo, sem perigos de corredeiras nem obstáculos que obriguem a descarregar as canoas e por conseguinte a transportar cargas às costas por distâncias não pequenas. Aí, pois, findam os labores mais penosos.

FONTE: Hercules Florence, Viagem Fluvial do Tietê ao Amazônia, de 1825 a 1829, Edições Melhoramentos, São Paulo, 1941, página  57

27 de novembro

1826 – Expedição Langsdorf navega no rio Coxim


Continuando sua viagem por Mato Grosso, com destino a Cuiabá e ao Norte do país, a expedição científica Langsdorf passa cachoeira das Furnas, “onde a canoinha dos caçadores foi a fundo, atirando à água uma espingarda, uma pistola e vários outros objetos que ficaram perdidos.”

Hercules Florence, integrante da comissão dá novas notícias desse dia:

“Vencemos a cachoeira das Anhumas, perto do morro do mesmo nome. O país era tão montuoso. Desde há dias navegávamos junto à base de montanhas cobertas de mato, das quais nascem córregos que com alegre ruído se atiram no rio. Fomos parar junto àquele morro e ali vimos batidas feitas por antas.”
Mais adiante, Florence traça resumido perfil do Coxim:

“O Coxim é pitoresco pelas suas corredeiras, paredões, campos, caapões e montanhas: a pouca largura, as matas, as belas guaitivocas, as praias argênteas, a abundância e variedade de peixes trazem o viajante sempre entretido.

As cachoeiras são numerosas; entre essas algumas há compridas e perigosas: as rochas, a água em borbotões, a espuma formam um verdadeiro caos.”

FONTE: Hercules Florence, Viagem Fluvial do Tietê ao Amazonas, de 1825 a 1829, Edições Melhoramentos, São Paulo, 1941, página 54

FOTO: Rio Coxim, retratado por Hercules Florence

Langsdorff volta à água

 22 de novembro
1826 – Langsdorff volta à água
Águas revoltas nas cabeceiras do rio Coxim
 A expedição científica russa, com destino a Cuiabá e Amazônia, deixa Camapuã na manhã anterior, a cavalo, e no mesmo dia chega ao Porto Furado, no rio Coxim, aonde retoma a viagem fluvial. Hercules Florence registra:
“Dia 22. Ao nascer do sol, chegaram alguns homens de Camapuã, trazendo dois presos amarrados e desertores de Miranda. Ao sr. cônsul pedia o comandante o favor de entregá-los em Albuquerque, quando por lá passasse.

Recomeçamos nossa extensa viagem e, como o rio estava ainda perto de suas cabeceiras e pouca largura tinha, a cada instante passávamos por baixo de caramanchões formados de grandes árvores, ou por arcadas de guaitivocas. De vez em quando também grossos madeiros atravessados sobre a corrente nos detinham o passo. Tudo isso fizera com que desarmássemos as barracas, para não serem despedaçadas pelos ramos e galhos. Não foi senão dias depois que tornamos a levantá-las, ficando todo esse tempo expostos ao sol e ao sereno. Felizmente, o tempo conservou-se sempre favorável.


“Descíamos depressa, virando a todo o momento à esquerda e à direita, conforme as voltas estreitas e múltiplas do rio.


“Vimos a boca do ribeirão do Barreiro Grande e transpusemos o baixio Coroinha.”  
FONTE: Hercules Florence, Viagem Fluvial do Tietê ao Amazonas, de 1825 a 1829, Edições Melhoramentos, São Paulo, 1941, página 53

Langsdorff deixa Camapuã e chega ao rio Coxim

 21 de novembro
1826 – Langsdorff deixa Camapuã e chega ao rio Coxim
A expedição científica, patrocinada pelo governo russo, prossegue sua viagem rumo a Corumbá, Cuiabá e Amazonas, sempre acompanhada pela pena detalhista de Hercules Florence:
“No dia 21 de novembro, depois de uma estada de 43 dias em Camapuã, montamos a cavalo e partimos com direção ao Furado, onde chegamos depois de atravessar sete léguas de terreno montanhoso e em geral desnudado. O aspecto do porto é pitoresco: o Coxim aí não tem mais de 25 braças de largura e, entre copada mataria, corre por sob arcos formados de uma taquara chamada guaitivoca que se ergue à altura das árvores mais elevadas. De cada nó do colmo irradia-se basta ramificação de folhas compridas e finas, que, a modo de ramalhetes, vão progressivamente se tornando menores, à medida que se chegam à ponta. O peso obriga esses enormes caniços a se arquearem até que a extremidade livre, que finda numa bola de folhas, penda perpendicularmente ao terreno. As duas margens estão cheias dessas elegantes monocotiledôneas que cruzam os colmos de lado a lado, formando majestosas e verdejantes arcarias.” 
FONTE:  39 – Hercules Florence, Viagem Fluvial do Tietê ao Amazonas, de 1825 a 1829, Edições Melhoramentos, São Paulo, 1941, página 52

Langsdorff prevê futuro promissor para Camapuã

 10 de novembro

1826 – Langsdorff prevê futuro promissor para Camapuã


O conde de Langsdorf, chefe da expedição científica russa, após alguns dias na fazenda Camapuã, onde permaneceu o tempo suficiente para reabastecer-se para a longa viagem à Cuiabá, após criticar a atual administração da propriedade, previu um futuro bastante promissor para a localidade:

Mesmo que, futuramente, venham a abrir a navegação pelo Sucuriu, a fazenda Camapuã será sempre um ponto importante de apoio para o comércio interno. Ela poderia funcionar como um centro de exportação de vários produtos, inclusive açucar e algodão cru. Aqui se deveria praticar, em larga escala, todos os tipos de pecuária, o que garantiria grande produção de leite, manteiga e queijo. Mas a criação de cavalos e mulas poderia também ser muito lucrativa. Bois, vacas, cavalos e mulas criados aqui poderiam ser vendidos em Goiás com boa margem de lucro, tendo em vista o alto preço desses animais na província sulista de São Paulo.

Mais adiante, Langsdorff, com espírito crítico à gestão da fazenda, adverte e sugere:

Caso uma colônia viesse se estabelecer aqui, o governo deveria cuidar para que os recém-chegados não fossem motivo de chacota por parte do administrador ou comandante. Entre os artesãos, deveria haver necessariamente um bom construtor de moinho, um carpinteiro, um ferreiro e um serralheiro. As carroças e carretas deveriam ser fabricadas de acordo com a medida europeia (o pé), ou então que se trouxessem carretas europeias já prontas.

Por fim, o conde propõe aproximação dos moradores com os índios:

Os vizinhos Caiapós, se recebessem tratamento realmente humano, poderiam ser de grande serventia para o estabelecimento. Aumentariam a população do lugar e ajudariam na construção de fábricas. Logicamente com os mais velhos seria mais difícil de trabalhar, mas as crianças poderiam ser facilmente conduzidas para uma vida civilizada.

FONTE: Georg Heinrich von Langsdorf, Os Diários de Langsdorff (volume II) Editora Fio Cruz, Rio de Janeiro, 1997, página 294

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