FORTE DE NOSSA SENHORA DOS PRAZERES DO IGUATEMI

FORTE DE NOSSA SENHORA DOS PRAZERES DO IGUATEMI

Mundo Novo, Mato Grosso do Sul – Brasil

MÍDIAS (3)

O Forte de Nossa Senhora dos Prazeres do Iguatemi, hoje desaparecido, estava localizado na margem esquerda do rio Iguatemi, cerca de 12 Km acima da sua confluência com o rio Paraná, próximo à foz do rio das Bagas, atual cidade de Mundo Novo, no Estado de Mato Grosso do Sul.

Após as primeiras demarcações do Tratado de Madrid (1750), a Coroa portuguesa compreende a necessidade da sua presença efetiva para fixar a linha que dividiria os territórios do Mato Grosso dos do Paraguai. Era necessário traçá-las ao sul do curso dos rios por onde transitavam as monções que ligavam Araritaguaba (hoje Porto Feliz, SP) a Cuiabá, via curso dos rios Tietê-Paraná e as contra-vertentes do rio Paraguai, e por essa razão, fixar um estabelecimento o mais próximo possível das possessões espanholas.

Sem recursos, a Coroa portuguesa incumbe a Capitania de São Paulo dessa tarefa, uma vez que os recursos da Capitania do Mato Grosso eram precários e o acesso fluvial norte-sul dificultado. Inicialmente projetado para a margem do rio Ivaí, ou para a margem esquerda do rio Paraná (em território do atual estado do Paraná), prevaleceu a idéia de assentá-lo além, à margem direita daquele grande rio.

Fixado o local na região do rio Iguatemi, conforme reiteradas solicitações do Marquês de Pombal (1750-77) e do Vice-rei D. Antônio Álvares da Cunha (1763-67), o governador da Capitania de São Paulo, Capitão-general D. Luiz Antônio de Souza Botelho e Mourão – Morgado de Mateus (1765-75), faz erguer uma colônia militar (presídio), sob a invocação de Nossa Senhora dos Prazeres. Taunay a ela assim se refere:

“Túmulo de milhares de brasileiros, violentamente arrancados aos seus lares pelo despotismo colonial, e encaminhados como para matadouro certo, foi o ‘Iguatemi’ a causa do terror dos humildes e dos desvalidos da Capitania de São Paulo, durante lustros a fio, a causa do despovoamento intenso do território paulista, a quem arrebatou milhares de almas pelo êxodo e o refúgio nos sertões brutos. E ao mesmo tempo, quanto motivo de sofrimento para os militares e funcionários encarregados de sua localização, da sua guarda e manutenção. Desde os primeiros dias até aos últimos! (…)” [apud Souza (org.), 1999. pp. 11-12].

O Forte do Iguatemi foi erguido de 1765 a 1770, por uma força de 326 homens (Regimento de Dragões Auxiliares da Capitania de São Paulo?) comandados pelo Capitão João Martins de Barros. Em faxina e terra, apresentava planta no formato de um polígono heptagonal irregular, com cinco baluartes e dois meio baluartes nos vértices (“Praça d’Armas de Nossa Senhora dos Prazeres de Iguatemi”. Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro. “Demonstração do terreno imediato à Praça de Nossa Senhora dos Prazeres do rio Iguatemi”. Mapoteca do Itamaraty, Rio de Janeiro).

O Sargento-mór Teotônio José Juzarte, autor do “Diário da Navegação” (1769), assim descreve a praça:

“É esta Praça situada sobre o barranco do Rio Gatemi [sic] o qual terá de largura oito braças, neste lugar, e daí para cima cada vez vai a menos até se perder na Campanha; delineou esta Fortificação o Capitão João Alves Ferreira, que para isso foi mandado pelo Conde da Cunha, Vice-Rei do Estado do Brasil: Foi delineada conforme a regra da Arte, sua figura era de heptágono tinha sete Lados; três tenalhas regulares, e quatro irregulares; porém esta obra estava só principiada com terra, e faxinas, que não davam para defesa alguma, porque se penetrava de dentro para fora, e de fora para dentro quase por toda a parte, e a razão disto era o não haver com que se pudesse continuar a sua construção, porque não havia ferramentas, não havia artífices, nem os homens podiam trabalhar por falta do Diário sustento, e vestuário: Entretanto na dita Praça achamos uma igreja que teria quarenta palmos de comprido, e doze de alto, fabricada de parede de mão seu telhado era de cascas de um palmito a que chamam Jarauba, seu ornato não era nenhum; as casas desta Povoação eram poucas fabricadas da mesma sorte de parede de mão, e os tetos de capim; tinha esta Povoação duas fontes de nativas com boa água; porém Pedra não se encontrava por todo aquele continente; (…) É esta Campanha abundante de gentio Cauan; (…) É este Clima mui doentio (…). Compunha-se a Guarnição desta Praça de um Capitão Mor Regente, um Capitão de Infantaria da Guarnição do Rio de Janeiro João Alvares [Alves?] Ferreira, que foi mandado com caráter de Engenheiro para a fortificar, três Companhias de paisanos pedestres, com seus Oficiais competentes que faziam o número de trezentos homens a saber duas Companhias para a Guarnição da Praça, e uma para o serviço da Marinha; a estes homens se lhes prometeu o soldo de um tostão por dia a cada um Soldado pela forma seguinte: o Capitão Mor Regente que era paisano vencia por, vinte, e cinco mil réis, os Capitães venciam cada um, catorze mil, e quatrocentos os Capelães a dez mil réis, O almoxarife, quatro mil réis por mês, os Tenentes, e Alferes, o oito mil réis, os Sargentos a três mil, e trezentos: Estes eram os soldos que vencia aquela guarnição a qual se achava nua, morta de fome, e em um lugar onde não tinham comunicação para parte alguma.” [apud Souza (org.), 1999. pp. 85-86].

Segundo informe do Governador Luiz Pinto (?) em jun/1770, estava artilhado com quatorze peças de diferentes calibres (SOUZA, 1885:138). O Morgado de Matheus remete para Araritaguaba, em fins de 1772, artilharia, munições e mais petrechos destinados ao Iguatemi, para onde seriam transportados por doze canoas, conjuntamente com setenta presos destinados a preencher os claros da guarnição, dizimada pela malária.

Habitualmente atacada por índios e ameaçada por espanhóis, sofreu um ataque mais sério em 1774 por índios Guaicurus, que devastaram as propriedades circunvizinhas dos colonos, matando vários deles (SOUZA, 1885:139), também habitualmente vítimas da malária.

Durante a invasão espanhola do sul do Brasil, na sequência da invasão da ilha de Santa Catarina (fev/1777), e da Colônia do Sacramento (jun/1777), a colônia no Iguatemi foi atacada pelas forças do governador do Paraguai, D. Agostinho Penido (25/out/1777). O comandante da praça, Capitão José Rodrigues da Silva, conseguiu repelir os ataques iniciais dos espanhóis, tendo capitulado ante a superioridade dos atacantes (c. 3.000 homens), retirando-se com honras militares (27/out/1777).

Arrasado e abandonado pelos invasores, de acordo com SOUZA (1885), em 1854 ainda existiam ruínas da estrutura, visitadas pelo sertanista Joaquim Francisco Lopes em viagem de exploração aos rios Escopil e Iguatemi (Op. cit., p. 139).

O presídio e sua fortificação eram abastecidos pelo Armazém Real de Araritaguaba (hoje Porto Feliz), porto fluvial no curso do alto rio Tietê, de onde partiam as monções, expedições paulistas de mineradores, comerciantes e soldados destinadas a Cuiabá. Este Armazém Real (depósito de armas, munições de boca e de guerra, e tudo o mais necessário ao uso das forças militares da Coroa e das suas repartições civis) existiu pelo menos entre 1767 e 1777, perdendo a função (e a razão de existir) com a queda da praça-forte e Colônia do Iguatemi.

 Personagens relacionados

 IMPRIMIR PERSONAGENS RELACIONADOS

Bibliografias relacionadas

 IMPRIMIR BIBLIOGRAFIAS RELACIONADAS

Links relacionados

Forte de Nossa Senhora dos Prazeres do Iguatemi
Página da enciclopédia Wikipédia versando sobre o Forte de Nossa Senhora dos Prazeres do Iguatemi, que se localizava na margem esquerda do rio Iguatemi, cerca de doze quilômetros acima da sua confluência com o rio Paraná, próximo à foz do rio das Bagas e à atual cidade de Paranhos, no Estado de Mato Grosso do Sul, no Brasil.http://pt.wikipedia.org/wiki/Forte_de_Nossa_Senhora_dos_Prazeres_do_Ig…

Expedição Langsdorf.

Langsdorff chega a Cuiabá

30 de dezembro
 1826 – Langsdorff chega a Cuiabá

Aporta, finalmente na capital da província a expedição científica, chefiada pelo barão Jorge Henrique de Langsdorff, cônsul da Rússia no Rio de Janeiro, incumbida de efetuar exploração em Mato Grosso e Amazônia, patrocinada pelo czar Alexandre I.

A comissão organizada no Rio de Janeiro pelo barão Langsdorff, compunha-se também do botânico Luis Riedel, do oficial da marinha russa Rubzoff, astrônomo de nomeada, do zoólogo Cristiniano Hasse e do reputado pintor Maurício Rugendas. Tendo este à última hora desistido de acompanhar a expedição, foi substituído por Adriano Taunay. Como segundo desenhista figura Hercules Florence.

A 3 de setembro de 1825 embarcaram no Rio de Janeiro com destino a Santos, e só em 1826 iniciaram deveras a viagem pelo rio Tietê abaixo, e subindo pelo rio Pardo, transposto Camapuã, desceram pelo Coxim e pelo Taquari até o rio Paraguai. Após curta demora em Albuquerque a expedição retomava o Paraguai, águas acima e os rios São Lourenço e Cuiabá, em que chegou depois de sete meses e meio de viagem, vencendo 530 léguas e 114 cachoeiras.


Na capital da província foi a comissão recebida dignamente pelo presidente, major de engenheiros José Saturnino da Costa Pereira.

FONTE: Estevão de Mendonça, Datas Matogrossenses, (2ª edição) Governo de Mato Grosso, Cuiabá, 1973, página 347

FOTO: Desenho de Hercules Florence, integrante da Expedição Langsdorff.

Langsdorf faz contato com os guatós

 26 de dezembro
 
1826 Langsdorf faz contato com os guatós


Índios canoeiros em ilustração de Hércules Florence

Deixando Albuquerque (Corumbá) e navegando rio Paraguai acima, a expedição científica Langsdorff, patrocinada pelo governo russo, na foz dos Dourados, contata os índios guatós, dos quais Hercules Florence, desenhista e escriba da comitiva, destaca algumas peculiaridades:

Vivem quase sempre sobre a água, metidos em barquinhos que, como acima disse, têm dimensões diminutíssimas. Quando toda a família está embarcada, a borda da canoa fica com dois dedos acima d’água, o que não os impede de manejarem com a maior habilidade as flechas para fisgarem peixes ou traspassarem pássaros.

FONTE: Hercules Florence, Viagem Fluvial do Tietê ao Amazonas, de 1825 a 1829, Edições Melhoramentos, São Paulo, 1941, página 77

Expedição Langsdorf deixa Albuquerque

19 de dezembro

1826 – Expedição Langsdorf deixa Albuquerque

A comissão científica, patrocinada pelo governo russo, continua sua viagem rio Paraguai acima, rumo à sua próxima escala, Cuiabá:

“No dia 19 de dezembro partimos de Albuquerque. O comandante acompanhou-nos até a praia e, em honra ao sr. cônsul, mandou dar umas salvas. Iam conosco vários guanás.

Continuou nossa navegação com extrema lentidão, tanto mais incômoda quanto os mosquitos não nos deixavam um instante de sossego. É um suplício indizível.
Tornava-se, além disso, de dia para dia mais penoso o modo de subir contra corrente pelo crescimento do rio que tendo, naquela estação de chuvas, recebido já bastante água nas cabeceiras, não permitia mais às zingas alcançarem o fundo. Recorriam então nossos camaradas a umas varas compridas, terminadas em forquilha, com as quais, agarrando os ramos de árvores e troncos ou apoiando a extremidade de encontro a eles, empurravam as canoas por diante. Raros eram, porém, os galhos resistentes e cada vez mais violenta a correnteza. Porisso também nos movíamos com morosidade desesperadora, que os mosquitos, a chuva e a monotonia transformavam em sofrimento quase insuportável.”

FONTE: Hercules Florence, Viagem Fluvial do Tietê ao Amazonas, de 1825 a 1829, Edições Melhoramentos, São Paulo, 1941, página 74

Expedição Langsdorff chega a Albuquerque

 14 de dezembro
 1826 – Expedição Langsdorff chega a Albuquerque


Estampilha do correio russo em homenagem à Expedição Langsdorff, que
explorou Mato Grosso na rota dos bandeirantes
Expedição científica, à frente o conde de Langsdorrff, patrocinada pelo governo russo, em sua longa viagem entre São Paulo e a Amazônia, chega finalmente a Albuquerque:

No dia 13, recomeçamos a navegar contra a corrente e fomos à tarde pousar na margem direita, incomodados por um pé-de-vento que levantava ondas capazes de fazer perigar nossas embarcações. Quando acalmou veio grossa chuva aumentar o tormento a que multidões de mosquitos nos sujeitavam.
Do lado do O. avistávamos então montanhas que em distância aproximada de duas léguas formam uma serra paralela ao curso do Paraguai. Já a mencionei atrás.
Pela manhã de 14, alcançamos a povoação de Albuquerque, assente à margem direita do rio e em terreno um tanto alto e enxuto. Quatro lances de casas em torno de uma praça, uma capelinha intitulada igreja e uma casa para os oficiais de primeira linha, constituem o povoado.

Não vi senão quatro a cinco brancos; o resto era crioulo, caburé, mestiço ou índio. O comandante, oficial de milícias era de cor parda.

 FONTE: Hercules Florence, Viagem Fluvial do Tietê ao Amazonas, de 1825 a 1829, Edições Melhoramentos, São Paulo, 1941, página 70

Langsdorff chega ao rio Paraguai

 12 de dezembro
1826 – Langsdorff chega ao rio Paraguai


Após diversos dias navegando pelo Taquari, a expedição científica Langsdorff, patrocinada pelo governo russo alcança finalmente o rio Paraguai:
Pela manhã de 12 de dezembro entramos na águas do Paraguai, caudal célebre nos anais das missões espanholas e portuguesas pelas vantagens excepcionais que sua navegação proporciona aos vastos territórios em que corre. Tem as cabeceiras do Alto Diamantino, na chapada central da América Meridional; dirige para o sul o majestoso curso e recebe o contingente de sete grandes rios até confluir com o Paraná, onde perde injustamente o nome para cedê-lo ao afluente. Grandes embarcações podem sulcá-lo desde Buenos Aires até Vila Maria e, subindo pelo rio Cuiabá, até a capital de Mato Grosso. É uma extensão de 600 léguas, livre do menor obstáculo, sem cachoeiras, nem corredeiras: em todo o percurso deslizam mansas águas fundas e largas. É o mais belo canal que a natureza formou para permitir ao homem devassar desertos tão dilatados, para povoá-los e dar-lhes as regalias de ativa navegação e imenso comércio. Em qualquer ponto achariam os barcos a vapor florestas para abastecê-los de combustível abundante e fácil. (…)

Abicamos na margem do Paraguai em frente à boca do Taquari e, como nos devíamos demorar até o dia seguinte para deixar o astrônomo fazer suas observações, aí acampamos. À tarde vimos passar o próprio a que acima aludi e que fora a Cuiabá pedir socorros contra os guaicurus.


Quando anoiteceu, ergueram-se do lado dos campos, que na véspera havíamos deixado, grandes clarões, acompanhados de muita fumaça. Eram fogos ateados pelos índios, pois decerto nenhum brasileiro se arriscaria, depois do rompimento de hostilidades, a andar tão arredado de Miranda, o povoado dali mais próximo, e a percorrer as vastidões em que imperam aqueles selvagens.


A todos os camaradas distribuiu o cônsul espingardas, pistolas, pólvora e balas e mandou colocar as sentinelas que durante a noite estiveram alerta afim de impedir qualquer surpresa.
FONTE: Hercules Florence, Viagem Fluvial do Tietê ao Amazonas, de 1825 a 1829, Edições Melhoramentos, São Paulo, 1941, página 68

3 de dezembro

1826 – Langsdorff alcança o rio Taquari

Última cachoeira do agitado rio Coxim antes de sua chegada ao Taquari
Expedição científica, comandada pelo visconde de Langsdorff, patrocinada pelo governo russo, com destino a Cuiabá e a Amazônia, completa seu trajeto pelo agitado rio Coxim:
Logo depois de levantar o pouso, passamos à esquerda pela embocadura do rio Taquari-mirim e pouco adiante entramos no Taquari que aí tem 200 braças de largura. A maior parte do dia foi consumido em vencer a cachoeira Beliago, cuja extensão de meio quarto de légua é semeada de ilhas e rochas à flor ou acima d’água, que, se não produzem quedas, originam fortes correntezas e ondas agitadas, cuja violência as canoas vazias têm que suportar.

Agarramos uma arraia.


Pelas 2 horas da tarde, seguimos viagem, passando ainda por entre diversas ilhas. Ao pôr do sol, os camaradas, para festejarem a transposição da cachoeira Beliago, última até Cuiabá, deram descargas de fuzilaria, gritaram a valer e cantaram até alta noite. Daí por diante, com efeito, a navegação faz-se em rios de curso tranqüilo, sem perigos de corredeiras nem obstáculos que obriguem a descarregar as canoas e por conseguinte a transportar cargas às costas por distâncias não pequenas. Aí, pois, findam os labores mais penosos.

FONTE: Hercules Florence, Viagem Fluvial do Tietê ao Amazônia, de 1825 a 1829, Edições Melhoramentos, São Paulo, 1941, página  57

27 de novembro

1826 – Expedição Langsdorf navega no rio Coxim


Continuando sua viagem por Mato Grosso, com destino a Cuiabá e ao Norte do país, a expedição científica Langsdorf passa cachoeira das Furnas, “onde a canoinha dos caçadores foi a fundo, atirando à água uma espingarda, uma pistola e vários outros objetos que ficaram perdidos.”

Hercules Florence, integrante da comissão dá novas notícias desse dia:

“Vencemos a cachoeira das Anhumas, perto do morro do mesmo nome. O país era tão montuoso. Desde há dias navegávamos junto à base de montanhas cobertas de mato, das quais nascem córregos que com alegre ruído se atiram no rio. Fomos parar junto àquele morro e ali vimos batidas feitas por antas.”
Mais adiante, Florence traça resumido perfil do Coxim:

“O Coxim é pitoresco pelas suas corredeiras, paredões, campos, caapões e montanhas: a pouca largura, as matas, as belas guaitivocas, as praias argênteas, a abundância e variedade de peixes trazem o viajante sempre entretido.

As cachoeiras são numerosas; entre essas algumas há compridas e perigosas: as rochas, a água em borbotões, a espuma formam um verdadeiro caos.”

FONTE: Hercules Florence, Viagem Fluvial do Tietê ao Amazonas, de 1825 a 1829, Edições Melhoramentos, São Paulo, 1941, página 54

FOTO: Rio Coxim, retratado por Hercules Florence

Langsdorff volta à água

 22 de novembro
1826 – Langsdorff volta à água
Águas revoltas nas cabeceiras do rio Coxim
 A expedição científica russa, com destino a Cuiabá e Amazônia, deixa Camapuã na manhã anterior, a cavalo, e no mesmo dia chega ao Porto Furado, no rio Coxim, aonde retoma a viagem fluvial. Hercules Florence registra:
“Dia 22. Ao nascer do sol, chegaram alguns homens de Camapuã, trazendo dois presos amarrados e desertores de Miranda. Ao sr. cônsul pedia o comandante o favor de entregá-los em Albuquerque, quando por lá passasse.

Recomeçamos nossa extensa viagem e, como o rio estava ainda perto de suas cabeceiras e pouca largura tinha, a cada instante passávamos por baixo de caramanchões formados de grandes árvores, ou por arcadas de guaitivocas. De vez em quando também grossos madeiros atravessados sobre a corrente nos detinham o passo. Tudo isso fizera com que desarmássemos as barracas, para não serem despedaçadas pelos ramos e galhos. Não foi senão dias depois que tornamos a levantá-las, ficando todo esse tempo expostos ao sol e ao sereno. Felizmente, o tempo conservou-se sempre favorável.


“Descíamos depressa, virando a todo o momento à esquerda e à direita, conforme as voltas estreitas e múltiplas do rio.


“Vimos a boca do ribeirão do Barreiro Grande e transpusemos o baixio Coroinha.”  
FONTE: Hercules Florence, Viagem Fluvial do Tietê ao Amazonas, de 1825 a 1829, Edições Melhoramentos, São Paulo, 1941, página 53

Langsdorff deixa Camapuã e chega ao rio Coxim

 21 de novembro
1826 – Langsdorff deixa Camapuã e chega ao rio Coxim
A expedição científica, patrocinada pelo governo russo, prossegue sua viagem rumo a Corumbá, Cuiabá e Amazonas, sempre acompanhada pela pena detalhista de Hercules Florence:
“No dia 21 de novembro, depois de uma estada de 43 dias em Camapuã, montamos a cavalo e partimos com direção ao Furado, onde chegamos depois de atravessar sete léguas de terreno montanhoso e em geral desnudado. O aspecto do porto é pitoresco: o Coxim aí não tem mais de 25 braças de largura e, entre copada mataria, corre por sob arcos formados de uma taquara chamada guaitivoca que se ergue à altura das árvores mais elevadas. De cada nó do colmo irradia-se basta ramificação de folhas compridas e finas, que, a modo de ramalhetes, vão progressivamente se tornando menores, à medida que se chegam à ponta. O peso obriga esses enormes caniços a se arquearem até que a extremidade livre, que finda numa bola de folhas, penda perpendicularmente ao terreno. As duas margens estão cheias dessas elegantes monocotiledôneas que cruzam os colmos de lado a lado, formando majestosas e verdejantes arcarias.” 
FONTE:  39 – Hercules Florence, Viagem Fluvial do Tietê ao Amazonas, de 1825 a 1829, Edições Melhoramentos, São Paulo, 1941, página 52

Langsdorff prevê futuro promissor para Camapuã

 10 de novembro

1826 – Langsdorff prevê futuro promissor para Camapuã


O conde de Langsdorf, chefe da expedição científica russa, após alguns dias na fazenda Camapuã, onde permaneceu o tempo suficiente para reabastecer-se para a longa viagem à Cuiabá, após criticar a atual administração da propriedade, previu um futuro bastante promissor para a localidade:

Mesmo que, futuramente, venham a abrir a navegação pelo Sucuriu, a fazenda Camapuã será sempre um ponto importante de apoio para o comércio interno. Ela poderia funcionar como um centro de exportação de vários produtos, inclusive açucar e algodão cru. Aqui se deveria praticar, em larga escala, todos os tipos de pecuária, o que garantiria grande produção de leite, manteiga e queijo. Mas a criação de cavalos e mulas poderia também ser muito lucrativa. Bois, vacas, cavalos e mulas criados aqui poderiam ser vendidos em Goiás com boa margem de lucro, tendo em vista o alto preço desses animais na província sulista de São Paulo.

Mais adiante, Langsdorff, com espírito crítico à gestão da fazenda, adverte e sugere:

Caso uma colônia viesse se estabelecer aqui, o governo deveria cuidar para que os recém-chegados não fossem motivo de chacota por parte do administrador ou comandante. Entre os artesãos, deveria haver necessariamente um bom construtor de moinho, um carpinteiro, um ferreiro e um serralheiro. As carroças e carretas deveriam ser fabricadas de acordo com a medida europeia (o pé), ou então que se trouxessem carretas europeias já prontas.

Por fim, o conde propõe aproximação dos moradores com os índios:

Os vizinhos Caiapós, se recebessem tratamento realmente humano, poderiam ser de grande serventia para o estabelecimento. Aumentariam a população do lugar e ajudariam na construção de fábricas. Logicamente com os mais velhos seria mais difícil de trabalhar, mas as crianças poderiam ser facilmente conduzidas para uma vida civilizada.

FONTE: Georg Heinrich von Langsdorf, Os Diários de Langsdorff (volume II) Editora Fio Cruz, Rio de Janeiro, 1997, página 294

GRANDEZA E DECADENCIA DA SERRA-ACIMA.

JOSÉ DE MESQUITA (Do Instituto Histórico de Mato Grosso) GRANDEZA E DECADÊNCIA DA SERRA-ACIMA 

Cuiabá Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso Anos XII e XIV Números XXVII a XXVIII 1931 e 1932 JOSÉ DE MESQUITA 2 

José Barnabé de Mesquita (*10/03/1892 †22/06/1961) Cuiabá - Mato Grosso Biblioteca Virtual José de Mesquita

Ao meu venerando amigo coronel Pedro Celestino I Quem quer que se proponha a estudar, á luz dos methodos contemporâneos, a evolução racial e o desenvolvimento social cuiabano, ou melhor do homem do norte de Matto-Grosso, de que somos hoje representantes, força lhe será deter-se ante uma figura typica, que marca, por assim dizer, um estagio da nossa civilização: o “senhor de engenho” da Serra-Acima. Posto não constituía uma criação isolada do nosso meio, pois que se enquadra nos moldes dos seus similares, sobretudo do Nordeste, magnificamente estudados por Gilberto Freyre (1), o “senhor do engenho” mattogrossense possue características suas, muito próprias, que as influencias mesológicas vincaram profunda e indelevelmente dos seus sulcos inconfundíveis. Percorrendo-se hoje, ao passo ronceiro dos animaes de sella ou ao leve deslizar dos autos ligeiros, essa zona deserta e merencória que as “taperas” pontilham, aqui e acolá, dos seus vultos espectraes e silentes, o viajante sentirá perpassar-lhe pelo espírito o eco amortecido da vida de outros tempos e a dolorida repercussão de um assado estuante de animação e de riqueza, de pompas e esplendor, que, por cerca de um século, encheu de seus rumores essa região hoje entregue á paz desolada da morte ou esquecimento.

Vestígios, a cada passo, da opulência de antanho, nos acodem ás vistas: nos sobradões em ruína, que desapparecem, entre o mato que lhes encobre o terreiro, grimpalhes pelo muro e cáe-lhes do tecto, em extranhos cortinados de parasitas; nos “engenhos” parados, alguns reduzidos ás “certidões” de pedra, pittoresca maneira por que lhes dão a conhecer os alicerces antigos; nas plantações de cafeeiros centenários, brilhando, ao sol planaltino, como a ostentar a sua resistência e vigor; em todo esse conjuncto mágico e sombrio de vida que se foi e teima, obstinada, em subsistir á própria ruína. . . Foi numa excursão desse gênero, vai por uma década, que, armado o pouso rústico, em noite fria de julho, ao pé do “taperão” solitário do engenho de São José, cabeceiras do Rio Manso, me invadiu, obsidente e invencível, o desejo de escrever, algum dia, para os que vierem depois de nós e já nem estes palimpsestos encontrarem — a epopéa da grandeza e decadência da Serra-Acima. Reuni materiais, colligi dados, perquiri paciente e cuidadosamente os archivos, desgastei dias e dias sem desanimo, no rude e benedictino esforço de pedir a um morto que nos falasse de sua vida, e eis que, ao cabo, saem-me estas laudas escriptas ainda mais com o coração do que com o cérebro, norteadas pelo sentimento antes que pela razão, mas onde, seja como for, se encontrará de futuro, algum manadeiro, ínfimo embora, para melhor e completo estudo do assumpto.

É que, em se tratando do passado a que nos ligam ecos de affectividade profunda, quase diria atávica, difficil se torna guiar a penna pelo puro raciocínio, sem se impregnar de um pouco de romantismo. E, como bem exprimiu Afrânio Peixoto, noutra ordem de idéas mas que se casa ao que vai dito: «O romantismo não morreu. Todos os que amam e aspiram neste mundo, são românticos.» II A mais antiga referencia que, em letra de fôrma, se nos depara á Chapada, data de 1727, quer dizer menos de um decennio após ao descobrimento das minas do Subtil. É o capitão João Antonio Cabral Camello que, nas noticias que dá ao Revdo. P. Diogo Soares, allude a «hum único engenho existente no sitio onde chamam a Chapada» (2). Entretanto, Milliet de Saint Adolphe, em seu valioso “Diccionario Geographico, Histórico e Descriptivo do Império de Brasil”, traducção de Caetano Lopes de Moura, (3) assim se refere á povoação serrana, cuja fundação fixa erroneamente em 1735: «Chapada de S. Anna — chamada também por vezes Chapada de Guimarens (sic). A mais antiga de todas as freguezias da província de Matto Grosso, situada na garganta da serra de São Jerônimo, 10 legoas a leste da cidade de Cuiabá.

Um vieiro d’ouro muito abundante que se descobriu em 1735 nestas montanhas fez que a ellas acodissem quase todos os aventureiros derramados pelas margens do Cuiabá. Edificou-se dentro de pouco tempo naqelle lugar uma igreja da invocação de Santa Anna, que gozou das prerogativas de freguezia, primeiro que nenhuma das desta província. Como a mina da serra de São Jerônimo se fosse esgotando uma parte dos seus habitantes se entregarão á agricultura, e fizerão grandíssimos benefícios vendendo por alto preço o producto de suas lavras aos que se occupavão exclusivamente nas minas. Consta esta freguezia de 4.000 habitantes.»

Há evidentemente um engano de Saint Millet quando á fundação da Chapada. Os Chronistas da historia mattogrossense registam em 1735 a descoberta de ouro no ribeirão Sant’Anna, chapada do mesmo nome, no districto de Matto-Grosso (4). A homonymia das localidades — Chapada, Sant’Anna — determinou no espírito daquelle douto diccionarista a confusão, que Francisco Ignácio Ferreira, mais tarde, encampou e tem servido a justificar outros enganos semelhantes (5). A chapada, como povoado, deve a sua origem a aldea de índios fundada pelo 1º Governador, D. Antonio Rolim de Moura Tavares, em 1750, e entregue á direção do padre jesuíta Estevão de Castro. Luiz Pinto pos-lhe, em 1766, o nome de Santa Anna da Chapada de Guimarães, levado pela «mania de lusitanizar o Brasil, que então vigorava» (6). Em 1775 foram mandados para a Missão muitos índios Chiquitos, segundo relata o mesmo Melgaço, que dá a criação da freguezia por alvará de setembro de 1814. Effectivamente traz data de 28 de setembro daquelle anno, o alvará da creação da freguezia, sendo mais antigas do que ella a do Bom Jesus de Cuiabá (1722), a de Matto-Grosso, da SS. Trindade (1733), a de Vila Maria (1799) e a de Diamantino (1811). A missão logo entrou em declínio, com o afastamento do seu director, que o sectarismo pombalino sacrificára. Mas o germe ficou. O povoado veio a tornar-se o centro da vasta zona agrícola, disseminada pelos engenhos e sítios, pelos arredores, num vasto raio de léguas, vindo a ser o grande celleiro da capital. No começo do século XIX, Luis d’Alincourt se referia ao lugar de Guimarães, como sendo aquelle «onde existe o maior numero e melhores engenhos dos Cuyabanos»(7)

E Hercules Florence que por lá andou, no segundo quartel do século passado, allude á igreja a Chapada como «guardadas as proporções, a mais rica de toda a província em ornamentação architectonica e em baixos relevos dourados». (8) Ainda hoje, a quem visite o decadente povoado, impressionarão, sem duvida, as proporções do vasto templo, como que deslocado naquelle villarejo, dando a idéa da sua grandeza extincta, de que é índice expressivo. De como, nos fins do século XVIII, já se desenvolvera a industria dos engenhos na Serra-Acima, temos flagrante depoimento na seguinte estatística de 1796, publicada na serie dos “Documentos Interessantes para a Historia e Costumes de São Paulo”, vol. 44:

ENGENHOS DE ASSUCAR, RAPADURA E MELADO DISTRICTOS Fabricas Fabricas Escravos Grandes Pequenas Vila Maria — 2 9 S. Pedro d’El-Rei 1 11 49 Cocaes 3 8 68 Porto Geral pª baixo 4 7 96 Serra acima — 2 10 Somma 11 38 300

ENGENHOS DE AGUARDENTE E MONJOLOS DE FARINHA DISTRICTOS

Engenhos Monjolos Canadas de Alqueires de Escravos aguardente farinhas Vila Maria 2 — 150 600 59 S. Pedro d’El-Rei 2 2 175 280 42 Cocaes 3 — 24 500 66 Rio abaixo 5 — 240 1.100 95 Rio acima 2 — 180 — 70 Serra acima 20 6 4030 16.400 728 Somma 34 6 5015 18.880 1.060 (8) Ver. I. H. e G. B., XXXVII

Como se vê, só o districto de Serra-Acima possuía, em escravos e empregados nos engenhos de aguardente, mais do dobro do total dos outros districtos, sendo a sua produção de aguardente e farinha igualmente superior, em avantajadas proporções, á producção global das demais zonas. Tão prospera era a industria que, em 1799, a Metrópole tributou os engenhos de aguardente com um imposto de ½ oitava de ouro, para occorrer ás despesas com os estudantes mattogrossenses enviados a Portugal, a fim de continuar os seus estudos, aos quaes fixou uma pensão annual de 110§000 (9).

III

Uma estatística dos engenhos da Serra-Acima, obedecendo quanto possível á ordem chronologica, fôra trabalho de grande alcance para a reconstituição da Phase áurea, que foi, para essa região, a primeira metade do século XIX. Tentou-a, em ligeiro e interessante estudo, dedicado investigador do nosso passado Prof. Antonio Fernandes de Souza, auxiliado segundo declara, pelas informações do major Paula Correa (10). Mas a menção ali feita de 49 engenhos não contem referencia alguma chronológica, que lhes permita estabelecer a maior ou menor antiguidade, alem de trazer repetições, com differentes nomes dos proprietários, dos mesmos engenhos, como Burity, Rio da Casca, Gloria, Santo Antonio (mencionado três vezes, duas como da Fartura), Quilombo etc.

Com os elementos que me ensejou o archivo ecclesiástico, procurei organizar um censo dos engenhos mais antigos, cuja existência já se assignala nos fins do século XVIII e começos do XIX. São elles os do sargento-mór Antonio da Silva Albuquerque (São Francisco Xavier), de José Álvares dos Santos, (Santo Antonio da Serra), de D. Maria Rodrigues Vilamendes, de D. Maria Theresa de Jesus, viúva de Francisco Corrêa da Costa, (Bom Jardim), de Paulo da Silva Coelho (Santo Antonio das Palmeiras da Lagoinha de Baixo), de Thomaz Felix de Aquino, (Itambé), do capitão-mór José Corrêa dos Anjos, (Quilombo), do cap. Antonio Leite do Amaral Coutinho, do sargento-mór Antonio Joaquim Moreira Serra, (Santo Antonio da Serra), de Valentim Martins da Cruz, de Manoel Rodrigues Tavares (São Romão), de Domingos José de Azevedo (Quilombo), de Joaquim da Silva Prado, (Burity), de João Baptista Ribeiro, (Santa Bárbara), de José Soares de Barros (no Rio da Casca).

De 1820 em diante vamos encontrando referencias a outros engenhos, como sejam, os de José de Sampaio (Itacolomy), de Jeronymo Gomes Monteiro (Baguassú), vendido em 1835 a D. Maria Teresa Guimarães e Silva (11), de Manoel Pereira da Silva Coelho (Abrilongo), de João Manoel Fernandes da Rocha, de Victoriano José do Couto, do Bom Successo, de Francisco Vieira de Azevedo (Nossa Senhora do Carmo), do P. Antonio Tavares Corrêa da Silva, da Água Fria, de José de Lara Pinto (Campo Alegre, da Bigorna, do São José, de Santo Antonio do Monte Alegre, da Ponte Alta, de João Fernandes de Mello (do Gloria), de Paulo Luis Barata (Barroca) e outros. Obedecendo ao espírito religioso do tempo, cada engenho tinha seu orago a que se consagrava a capelinha, erigida sempre ao lado da fabrica e da “casa grande”, dominando a senzala e as plantações.

Quando o nome do padroeiro não constituía a própria denominação do estabelecimento — S. Romão, S. Bárbara — vinha anteposto á designativa do local — S. Antonio das Palmeiras, S. João do Rio da Casca. Succedida, às vezes, viver mais de um engenho com egual denominação, oriunda da sua situação á margem do mesmo rio ou junto da mesma serra. Distinguiam-se, então, pelos seus proprietários, ou por differenciações topographicas: Rio da Casca, dos Corres ou dos Borges, Lagoinha, de Cima ou de Baixo.

IV

Já em 1780 a Chapada constituía um apreciável núcleo de população, com vários engenhos em roda, quando o juiz de fora doutor José Carlos Pereira, em visita á Missão de Sant’Anna do sacramento, erigiu o templo que o chronista dos Annaes qualifica «huma famosa Igreja, coberta de telha, rebocada e cayada, com capella mor, sachristia e caza para o Parocho» (12). A lavoura se desenvolvera, não só a da canna de assucar, empregada no fabrico de aguardente, assucar, rapadura, mas a dos cereaes, e sobretudo a do feijão e milho. A criação de porcos — assignalada por Hercules Florence, nos começos do século XIX — era também grande. O braço escravo constituía o elemento básico do trabalho. No recenseamento de 1829 apareceram vários senhores de engenhos, com menção de «morada no seu sitio da Chapada» e referência á escravatura, orçando algumas vezes por mais de 50.

Florence, o chronista da expedição Langsdorff, em 1827, nos traça dois curiosos painéis da vida dos “engenhos” na sua fase áurea — do Burity e do Quilombo. Neste ultimo, houve mineração, e animada. Alem de Florence, que relata o caso do achado de um diamante de 6.000 gs., o minudente Luis d’Alincourt, na sua Estatística, diz: «No rio Quilombo, da serra da Chapada, aproveitão alguns mineiros bons jornaes» (13). A leitura da curiosa memória do sábio, cuja vida Bourroul esmiuçou, permitte-nos esboçar a largos traços, o ambiente de um “engenho” serrano, no primeiro quartel do século passado, que foi precisamente o seu período de explendor.

O “engenho”, propriamente dito, compunha-se da fabrica, com os seus compartimentos accessorios, alem do monjolo, o moinho de fubá, as tulhas e o paiol. Os “engenhos” mais importantes tinham olaria e alguns até serraria, para o apparelhamento de madeiras. Ao lado da fabrica e capella, a “casa grande”, vasta e patriarchal, com seus cômodos enormes, para abrigar as famílias quase sempre numerosas que se reuniam nas occasiões das festas religiosas, dos aniversários ou no começo da safra, sempre commemorando. Havia os compartimentos especialmente destinados aos hospedes, no que alias, se observava à boa praxe da hospitalidade brasileira e em parte, o prudente conselho de Antonil, que, no começo do século de setecentos, inculcava aos senhores de engenhos: «Ter casa separada para os hospedes, he grande acerto; porque melhor se recebem e com menor estorvo da família, e sem prejuízo do recolhimento, que hão de guardar as mulheres e as filhas, e moças do serviço interior occupadas no apparelho do jantar e da ceia» (14). Ressuscita-se o ambiente austero das velhas casas brasileiras, com sua mobília pesada, de jacarandá, suas caixas e arcas enormes, de couro tauxiado, ou de madeira, os oratórios, a baixella prata, a louçaria, as «camas de vento», as commodas de Castella com gavetas marchetadas, os candelabros de prata velha para o salão e os candieiros de cobre, para o terreiro, o nos dias de «batuque», — e tudo, enfim, que compunha e integrava um estagio social que já desappareceu inteiramente. As viagens eram feitas nos bangues, carregados por possantes escravos “minas” ou “congos”, sendo pouco usada a “cadeirinha”, de que sobre-existe, entretanto, um specimem único, digno de ser decantado por um outro Affonso Arinos, em poder do caprichoso antiquário dr. Euphrasio Cunha.

Vinham sempre os “senhores de engenho” passar na cidade as “festas” da Semana-Santa e do Bom Jesus, coincidindo o inicio da moagem com o fim da primeira daquellas festas (quasi sempre Abril ou Maio) e o termino do serviço do engenho com a aproximação do Natal e Anno Bom. Estacionavam, dest’arte, na cidade, justamente no período das “águas”, o rigor da estação chuvosa, em que o trabalho paralysava nos “engenhos” e, de resto, a vida, confinada ao trato da lavoura, dispensava boa parte dos escravos e aggregados.

V

A importância que, no seu período de esplendor, chegou a ganhar a zona serrana, afere-se, por um lado, através da sua situação de grande empório da Capital, como productora de gêneros de primeira necessidade e, por outro, pelo relevante papel desempenhado em nossa vida politica e social pelos grandes proprietários e “senhores de engenho” da Serra-Acima. Sem chegarem áquella phase em que «o domínio rural é omniproductivo» e na qual aos donos de engenhos foi licito dizer «nesta casa só se compram ferro, sal, pólvora e chumbo» (15), os “engenhos” cuyabanos da Serra-Acima attingiram elevado grau de desenvolvimento e alguns delles podiam ser apontados como estabelecimentos modelares, de accordo com o que o progresso contemporâneo facultava á actividade. Apezar de ser quase todo o trabalho feito pelo braço escravo, que era a única e verdadeira machina agrícola do tempo, grande e notável foi à vida desses estabelecimentos.

Moutinho que, em 1868, visitou um engenho, o das Palmeiras, pertencente ao capitão José Leite Pereira Gomes, assim se refere ao que ali observára: «A plantação consiste, como em todos os outros de serra-acima, em feijão, canna, arroz, milho, etc., mais o rendimento maior é o produzido pela venda de aguardente, que tem um consumo extraordinário na província, razão do seu preço elevado, de que já falamos em um dos capítulos deste livro. O assucar também ali se fabrica, e de boa qualidade. As moendas que servem para a moagem da canna são, na maior parte dos sítios, feitas de madeiras, com varões puchados por mulas ou bois, que, no sitio de que tratamos, são substituídos por grande roda movida por água. Quanto á farinha é feita, como sempre, por meio de monjolo ou moinho. A aguardente é enviada ao mercado em barris feitos de pau de combarú, compondo-se apenas de duas aduelas solidamente ligadas por arcos de ferro, contendo cada um canada e meia de liquido (16).

De par com as culturas mencionadas pelo auctor da “Noticia sobre a Província de Matto Grosso”, floresceu, na Serra-Acima, a do café, que se aclima perfeitamente no altiplano mattogrossense. Em seu precioso livrinho “A estrada de ferro para Matto-Grosso”, o dr. Antonio Gonçalves e Carvalho assim se referia, em Maio de 1875, a respeito: «Dissemos que todos os districtos da Província em geral produzem o café. Em particular, a Chapada (o grypho é nosso) orgulha-se de sua aptidão para essa proveitosa cultura.

Ahi os cafeeiros crescem até acima de três metros, dão regularmente mais de dez libras de producto e não raro uma arroba. Ainda existem os primeiros pés plantados em tão fértil solo: velhos, quanto á edade, de mais de meio século de existência, perdidos alguns no meio do matto que ao redor se desenvolveu, expostos ao estrago dos animaes, ostentam o mesmo vigor antigo, florescem e frutificam sempre» (17). Nesse mesmo interessante ensaio, allude o grande amigo de MattoGrosso ao plantio da batata ingleza «que se aclimatou na Chapada», e diz, como prevendo possíveis objecções ás suas assertivas: «Que não ha exageração no que escrevemos, maximé no tocante ao districto da Chapada (é nosso o itálico), dará fidedigno testemunho a Commissão de engenheiros, que ora se occupa com os estudos da via-férrea desta capital para esse districto.» É ainda esse instructivo opúsculo que nos dá conta, em se referindo á riqueza de Matto-Grosso em madeiras de construcção, de «que o finado commendador João José de Siqueira, cidadão amante do progresso da sua terra e que importantes noticias nos deu sobre ella, offereceu na épocha da administração do também finado conselheiro Ferreira Penna, para figurarem na Exposição Nacional de 1864, assenta bellas amostras de differentes madeiras, tiradas do districto da Chapada, que lá foram devidamente apreciadas» (18). Não constituem um depoimento isolado e sem eco as palavras com que se refere á Chapada o “poeta da Flor de Neve”.

A Commissão Calaça, como ficou sendo conhecida, do nome do seu chefe Dr. José Gomes Calaça, em relatório de 1876, — é justamente aquella a que se refere o dr. Carvalho — assim se exprimiu acerca do districto chapadense, que estudou minuciosamente: «Nos subúrbios da Chapada, que, como já fiz ver se acha num dos pontos mais elevados da serra, existem as melhores plantações de café da província; ahi a fertilidade torna maravilhosa, e o café produz com tal abundancia, que pessoas do lugar, merecedoras de toda a confiança, asseveram-me que, em um dos annos passados, em um só pé, colheu perto de uma arroba. Tive occasião de ver cafeeiros com mais de três metros de altura, dando ainda fructos, e que disseram-me ter mais de trinta annos» (19). Pimenta Bueno (F. A.) que, pouco depois, em 1879, percorreu parte de Matto-Grosso, no desempenho de importante Commissão do Ministério da Agricultura, corrobora dest’arte com sua autoridade os conceitos anteriores: «No districto da Chapada e na serra de São Lourenço as terras são bastante férteis: o café produz perfeitamente nessas alturas e também outros gêneros de cultura que se pode obter nas demais províncias do Império . . .» (20).

Em 1876, — pouco antes de por ali passar o engenheiro illustre, filho do marquez de São Vicente, também ligado á nossa Historia — colhiase, no Bomfim, sitio de José de Lara Pinto, a primeira partida de café destinada á venda no mercado publico de Cuyabá. Quem nol-o conta é o douto ephemerista Estevão de Mendonça, que, ao depois de relatar o acolhimento favorável que teve o producto serrano, enviado, em amostra, para Londres, conclue: «A cultura do cafeeiro, porem, apesar da assombrosa fertilidade das terras do districto da Chapada, encontra-se quasi extinta neste Estado» (21). VI A hegemonia da chapada, como empório agrícola e industrial do Norte, vinha de longa data, e manteve-se durante o período de um século, aproximadamente. A vida do campo estava confinada a estas duas actividades que se completavam e se integravam: a cultura da terra e o fabrico dos productos e sub-productos da canna de assucar. A esse estagio social «vincularam-se — como bem accentua o moderno ensaísta Azevedo Amaral — a escravidão e o predomínio social e político dos proprietários territoriaes, que imprimiam cunho tão peculiar á vida do paiz» (22). Circumscripta a actividade rural aos engenhos, engenhocas ou “fabricas”, espalhados pelos arredores das cidades ou villas, bem é de ver-se que uma feição particular caracterizaria esse período, matizando o ambiente social e político da época de suas tintas inconfundíveis.

Alfredo Brandão, citado pelo douto Professor Bernardino de Souza, na “Onomástica Geral da Geographia Brasileira”, nos dá, em um livro valiosíssimo, curiosa pintura da vida do engenho no Norte, offerecendo similitude, em vários pontos, com a dos nossos engenhos da Serra (23). Diversos eram os systemas de uso na província — desde as moendas pequenas ou escaroçadores, com alambiques «que formavam de tachos», os engenhos a boi (parece não ter sido usado o cavallo como instrumento de tracção, a exemplo de outras zonas) até o “engenho d’água”, que representava o maior grão de progresso no gênero (24), predecessor do engenho a vapor e das usinas de hoje. A quem se deve attribuir a primazia do cultivo e exploração da canna de assucar na Serra-Acima ? Virgilio Corrêa Filho confere ao brigadeiro Antonio de Almeida Lara a gloriosa dessa iniciativa (25).

Effectivamente, parece haver sido o grande sertanista o introductor da canna em Cuyabá, segundo o affirma o tosco rhapsodo das nossas primeiras eras, Barbosa de Sá, quando, na Relação dos Povoados, narra, nas aphemerides do anno de 1728, que Lara, após a partida do capitão-general Rodrigo César, preparou «duas canoas de guerra, com outras de montaria, com escravos seus e alguns homens brancos, todos com boas armas, e fazendo isto á sua custa os enviou a procurar as canas, com que fez o brigadeiro um bom quartel . . .» João Severiano que reproduz, em nota, esse tópico do primeiro chronista cuyabano, presume ser a canna indígena da província, pelo facto de, pouco antes, o mesmo Sá se referir á existência della «pelos serões das vargens da habitação dos Guatoz, Xacoéres e outras» (26).

Não há, entretanto, fonte segura que auctorize crer a tenha sido Lara o introductor da canna de assucar na Chapada, comquanto o próprio monographista das “Notas á margem”, em uma das suas preciosas annotações ás Chronicas do Cuiabá assevere haver Lara tido a Chapada por fazenda sua (27). V. Corrêa Filho deve ter-se baseado para fazer tal asserto nos linhagistas Pedro Tasques e Silva Leme, segundo os quaes o filho de João Raposo, figura de alta relevância nas gestas de nossa Historia, possuíra uma «fazenda assaz populosa» na Chapada (28).

Seria porem, na Chapada cuyabana, que, ao depois, veio a chamar-se de Guimarens ou na de Matto-Grosso, de fallaz homonymia, por ser também de Sant’Anna, que levou Saint-Milliet a um deplorável engano, como já verificamos no inicio deste ensaio ?

Não vejo elementos que induzam a uma affirmativa assaz clara e fora de duvida. Por um lado, temos a presunção de se tratar da Chapada de Leste, por que os ANNAES de Cuyabá contam que o ouvidor Lanhas se fora «com o brigadeiro Antonio de Almeida (Lara) para a chapada, por onde andou alguns tempoz em descobrimentoz de ouro e cassando perdizes» (29).

Por outro, entretanto, força é convir que Lara andou também pela chapada de Oeste, e a essa circumstancia allude o chronista de Villa Bella, Nogueira Coelho, nas ephemerides do anno 1736 (30). É para notado ainda o facto de não constar na relação das sesmarias concedidas em Matto-Grosso, nos annos de 1726 e seguintes, nenhuma de nome Chapada do Tte. Cel. Almeida Lara, cujo nome, alias, figura naquela valiosa separata do vol. XXVI da Revista I. H. e G. de São Paulo. Três sesmarias foram concedidas, com a denominação de Chapada, uma ao ouvidor Lanhas Peixoto, a 27 de Novembro, outra a Gervásio Leite Rabelo, a 9 e outra ainda a Plácido de Moraes, a 12 de Dezembro de 1726, sendo que a segunda foi declarada sem effeito, por ser o concessionário Secretario do Governador, o que diz bem alto da moralidade administrativas dessas eras distantes e tão caluniadas (31).

Lara, o grande sertanista, que desempenhou na phase colonial, quando nem siquer Capitania independente era Matto-Grosso, um papel de extraordinária saliência, bem pode não ter sido o primeiro introductor da canna na Chapada, o patriarcha da incipiente industria sacharifera que tanto dinheiro canalizou para essa zona previlegiada da Serra-Acima, hoje entregue, com rara excepção, ao abandono e ao indifferentismo das administrações republicanas. Certo, porem, é que a elle se deve a precedência sobre qualquer outro plantio da canna no Norte de MattoGrosso. E isto só já lhe confere direito incontestável á gratidão dos posteros e ao culto dos que aprenderam a ler, nos pergaminhos do Passado, os actos dignos e nobres dos bem feitores da humanidade (32).

Antonio de Almeida Lara, Brigadeiro e sargento-mór das Minas do Cuiabá, descendia pelos 4 costados de illustres bandeirantes. Faleceu em Cuiabá, em 1742, sendo nesse mesmo anno inventariado, não em 1750, como por equivoco, affirma na nota referida V. Corrêa Filho.

VII

Os índices demographicos da Chapada, comquanto falhos e calcados em documentos truncados e muitas vezes deficientes, permittem esboçar, em linhas geraes, o diagrama evolutivo da zona que faz objecto deste ensaio. O districto de Serra-Acima, que teve sua origem na missão da Aldeia Velha, em 1750, desenvolveu-se lentamente, através de crises de varias espécies, attingindo a phases de relativo progresso, como as que marcam o decennio de 1820 a 1830 e o inicio do terceiro quartel do século XIX.

Dos livros de assentamentos relativos á freguezia de Sant’Anna do Sacramento, que sobreexistem no archivo ecclesiástico, pude colligir dados estatísticos que auctorizam a crer haja sido o período mediante entre 1850 e 1865 o do explendor e grandeza da Serra-Acima. Paciente trabalho de pesquiza nesses velhos códices, datantes os mais antigos do século XVIII — o livro 1º de casamentos é de 1798 — levaram-me a concluir com segurança que a Chapada teve nesse período o seu maior florescimento. O numero de baptismos que, na década 1820-130, oscilara entre o mínimo de 6 (1830), e o maximo de 28 (1829), para descer na seguinte até 1 (em 1833), e na de 1840-1850 conservar-se entre 8 (em 1846) e 24 (em 1841), eleva-se, a partir de 1854, aos seguintes algarismos significativos: 1854 – 50; 1855 – 49; 1856 – 43; 1857 – 38; 1858 – 22; 1859 – 58; 1860 – 31; 1861 – 34; 1862 – 54; 1863 – 36; 1864 – 24; 1865 – 40 e 1866 – 43. Os óbitos, por outro lado, que em 1827, não ultrapassavam de 12 e na década de 1840 andavam entre 4 (1842) e 6 (1844), attingem em 1855 a 15, subindo progressivamente a 17, em 1856, 24, em 1859, 27 em 1863, 30 em 1865 e 32 em 1866, com curvas de pequena depressão nos annos intermediários. Quanto aos casamentos, offerece-nos o cotejo entre o primeiro e terceiro quartel do século passado estas cifras expressivas — maximo em 1803, com 28 casamentos, sendo 12 de escravos e mínimo em 1804, com 6, dos quaes 4 de escravos (seria por ser o anno bissexto ?); — 1810 a 1820: maximo em 1811, com 17, 6 dos quaes de captivos e mínimo em 1813 e 1819, com 8 cada anno, sendo no primeiro 6 de livres e 2 de escravos e no segundo 5 de livres e 3 de escravos; — 1820 a 1830: maximo em 1824, com 25 casamentos e mínimo em 1830, com 2 apenas; de 1854 a 1866 com estes números: 1854 – 3; 1855 – 6; 1856 – 4; 1857 – 10; 1858 – 11, 1859 – 7; 1860 – 6; 1861 – 3; 1862 – 4; 1863 – 4; 1864 – 4; 1865 – 6 e 1866 – 2.

É preciso notar, quanto aos casamentos, que certo desequilíbrio que se verifica na progressão vai á conta da circunstancia de muitos enlaces, sobretudo da fidalguia rural, se fazerem na cidade, o que se não dá, pelo menos com a mesma proporção, a respeito dos nascimentos e óbitos. Esses elementos se aliam e completam si os considerarmos tendo em vista outras fontes informativas, como, por exemplo, relatórios da presidência da província, entre outros o do Barão de Melgaço, datado de 3 de maio de 1852, que dá para a freguesia da chapada 136 votantes, quota bastante avultada e indicativa da vida e animação daquella zona rural. Já em 1869 — depois da “varíola” que devastou a província (33) e no fim quasi da “guerra do Lopez”, um recenseamento feito pelo bispo D. José e mencionado por Moutinho arrolava 350 fogos, dentro do povoado, com 1600 moradores, 900 dos quaes escravos. Trez annos após, o censo de 1872 accusava um total de 2611 habitantes em toda a Serra-Acima, assim distribuídos: homens — 1358, dos quaes 416 escravos e mulheres — 1253, das quaes 328 escravas. Pimenta Bueno, no seu trabalho já citado, dá, em 1879, um total de 2165 habitantes para o districto da Chapada, sendo 1092 do sexo masculino e 1073, do feminino, o que, mesmo representando uma linha decrescente, em relação ás cifras anteriores, ainda collocava a Serra-Acima em nível demographico, superior a Diamantino e Villa Bella e pouco inferior a Poconé e Guia (34). É, por sem duvida, a edade áurea da Serra-Acima, o seu período de esplendor, a assignalada década e meia que vai de 1850 a 1865, aproximadamente. Os engenhos prosperam francamente. A introducção de escravos avoluma-se. Novas estradas se abrem, rasgando, aqui e ali, fraldas escarpas e as penedias do grande massiço central. É a velha Bocaina que o commendador João José de Siqueira, senhor do “Burity”, adapta ao trafego, melhorando-lhe as condições de actividade no “Pega-mão” e no “Tope de Fita”; são as outras vias de penetração e acesso, desde a do “Capitão Agostinho”, na extrema sulina da Serra até a do “Quebra-Gamella” a mais septentrional, passando pela de “Manoel Antonio”, do “Xavier”, da “Ruça” (35) e do “Magessi”. Expande-se o domínio rural dos “senhores de engenho”, numa penetração ousada, devastando sertões, levando as suas posses, numa arrancada heróica, pelo planalto a dentro, num raio de dez e mais léguas, cujo ponto de apoio e centro de irradiação ficou sendo o antigo arraial e aldeia missionária, já então convertida em povoação de Sant’Anna da Chapada, centro nuclear da vida, da industria e da lavoura de toda a Serra-Acima. Fácil se torna enquadrar o phenomeno histórico do esplendor da Chapada, no período alludido, dentro da própria evolução politica da Província e do Império de que esta fazia parte. Matto-Grosso, refeito das borrascas jacobinas em que estourara, como preia-mar irreprimível, o motim sangrento de 1834, tinha entrado, justamente ao abrir-se a segunda metade do século XIX, numa phase de acalmia e serenidade, de trabalho e de paz, synthetizada na politica moderada de um presidente como Leverger e na acção constructora de um Delamare, de um Albino de Carvalho e de um Couto de Magalhães.

Essa situação manteve-se, inalterada, até o deflagrar de novos flagellos, como a guerra, em 1864, e a varíola, em 1867. Fica assim esse período, entre 1850 e 1865, como um parenthesis de bonança, na vida tormentosa da infeliz província, quasi sempre abandonada dos poderes centraes, e ainda hoje entregue á sua própria sorte nas mais duras e árduas vicissitudes. Si volvermos, por outro lado, a vista para o quadro geral da situação brasileira, certo nos convenceremos, sem dificuldade, de que o país atravessava, nesse período, uma dessas quadras de lento labor reconstructivo, com o advento do segundo reinado, inaugurada a chamada “politica de conciliação” do marquez de Paraná, fechado o cyclo das guerras intestinas, a ultima das quaes, a “revolução praieira”, tivera justamente o seu remate em 1849. Abria-se para a nação aquella «época de renascimento, de expansão, de recomeço, em que se renovou o antigo systema político decrépito, em que se creou o apparelho moderno de governo, e se dilatou extensivamente, não para a classe politica somente, para todas as classes, o horizonte que as comprimia» (36). Era, pois, o Brasil, a província, o districto da Serra-Acima, num rythmo uníssono, caminhando, a passadas seguras, para o progresso, na paz tranquilla em que se arrima o trabalho, se esteia a producção e se consolidam as finanças. Phase de auspiciosas esperanças, mas, infelizmente, ephemera, pois não tardaria a estalar, como um raio em noite serena, a guerra externa, de que Matto-Grosso seria uma das primeiras victimas e, como sempre, das mais sacrificadas. (36) Joaquim Nabuco — Um estadista do Império, I, 176. JOSÉ DE MESQUITA 18 VIII 1867 marca para o prospero districto da Serra-Acima o inicio fatídico da sua decadência. Já três annos antes o fantasma aterrador da guerra ermara sítios e engenhos, desorganizando profundamente o trabalho rural. Sobre um flagello — o da guerra — outro viera, mais cego e virulento na força inconsciente da sua expansão — a peste. A extensão e intensidade do surto epidêmico das “bexigas” na zona Norte da província são assaz conhecidas. Não havia poupar-se na lúgubre tragédia, que enluctou talvez 90% dos lares cuyabanos, a florescente povoação Planaltina. A esses revezes, outros viriam accrescentar-se, conjugados mallignamente na tarefa de precipitar o declínio da formosa região serrana. Entre os factores precípuos da decadência da Serra-Acima um avulta, que escapou á perspicácia do nosso historiographo V. Corrêa Filho quando em seu “Matto-Grosso”, obra de cabeceira para quantos se dediquem aos estudos das cousas de nossa terra — apontou como causa única do degresso da Chapada «a extinção do braço escravo, que apparentemente compensava, pela sua barateza, as difficuldades de transportes, serra acima» (37). Referimo-nos ás incursões dos índios, cujos ataques, sobretudo no decennio anterior a 1880, chegaram quase ás portas da própria Chapada. Documentos coevos nos auctorizam a reconstituir o ambiente de terror criado por essas aggressões freqüentes, de dramático desfecho muitas vezes. A abolição veiu apenas desferir o gole de misericórdia, accelerar o collapso, que uma lenta agonia de cerca de 12 annos vinha processando. Como é sabido e familiar a quem se dedique á investigação do nosso passado, data de 1886, no governo de Galdino Pimentel, a primeira tentativa bem organizada de catechese dos coroados que infestavam o altiplano, desde as cercanias da Chapada até o alto sertão, constituindo-se temível perigo para os viajantes e tropas que demandavam o Rio Grande (hoje Registro do Araguaya), a caminho da Corte. A situação anterior fica delineada em synthese expressiva nas seguintes palavras de João Augusto Caldas, que, em interessante e pouco divulgada monographia, se occupou do assumpto: «Começaram com freqüentes correrias em represália; e foi tal a ousadia com que as praticavam que não escapou dellas os sítios mais próximos da capital. O desanimo foi geral: lavradores houve que perderam a família toda; seus bens não tinham segurança; suas casas eram incendiadas; tudo abandonavam e iam procurar abrigo nos lugares povoados» (38).

De longa data vinham as depredações dos selvagens na região Planaltina, podendo-se dizer que ellas foram assumindo, num crescendo espantoso, proporções taes que se constituíram, alfim, verdadeiro terror e angustia permanente para os habitantes da zona. Já em 1857, o “Noticiador Cuiabano” assim se exprimia com relação ao assumpto: «Apezar dessa fertilidade, a lavoura definha consideravelmente. As fabricas desapparecem e o excessivo preço dos escravos é uma barreira aos que pretendem estabelecimentos agrícolas. Por uma parte as hordas selvagens que em pilhagem accometem os lavradores destituídos de forças e recursos de afugental-os para o interior das matas, destruindo as roças — incendiando os prédios, matando os escravos e trabalhadores . . . (39). O mesmo jornal, dois annos após, aludia, em seu artigo de fundo “A actualidade”, ás “fabricas” «cercadas de indígenas, que acomettem a vida dos escravos (hoje tão caros) e a dos proprietários e suas famílias sujeitos ao excessivo preço das bestas, únicos vehiculos de conducção, e nestes últimos tempos tão extraordinariamente conducentes a prejudicar os fazendeiros, em razão da peste cadeira, que açouta tudo, tudo desacoroçoa» 40). Aponta a referida folha ainda, como concousas do esmorecimento da vida rural na Serra-Acima, a aggravação dos impostos e o pavor do recrutamento aberto, que determinavam «receios dos camaradas em descerem dos sítios», adiantando que a presidência ordenara á policia fizesse «soltar immediatamente toda pessoa, que for presa para recruta, uma vez que tenha vindo em canoa ou com carregamento de gêneros alimentícios» (41). A Situação vai se engravecendo a partir de 1866, com o êxodo occasionado pela guerra e pela varíola, rarificando os núcleos de população campesina e tornando, des’arte, menos efficaz a resistência e, conseqüentemente, mais amiudados e ousados os assaltos. Em 1879 o presidente João José Pedrosa no seu relatório á Assembléa diz haver-lhe officiado, a 4 de fevereiro desse anno, o chefe de policia «participando que os índios, em numero de 200 a 300, aproximavão-se da freguesia da Chapada» e, pouco adiante, transcreve um outro officio da mesma autoridade, que era então o dr. Milciades Augusto de Azevedo Pedra, em que se lêem as seguintes palavras bastante expressivas para memorar o estado da zona sacrificada: «Com especialidade a Comarca desta Capital, a mais populosa e rica, é a que tem sido e continua a ser a mais vexada; porquanto quasi a um só tempo tem sido assaltada, pelo norte — na Chapada — pelo nascente — no Aricá — e pelo poente — na Guia, — de modo que quasi podemos dizer que nos achamos em estado de sitio» (42). É ainda o mesmo dr. Pedra que, no officio referido, narra um ataque dos índios no lugar chamado “Soberbo”, a 15 léguas da Capital, sendo mortas 8 pessoas e allude a uma communicação do sub-delegado da Chapada de haver mais «17 victimas a lamentar, inclusive uma gravemente ferida.» “O Povo”, de José Maria Velasco, ainda nesse anno de 1879, noticia, em correspondência da Chapada, que os índios coroados se achavam «estacionados em grande numero nas immediações dessa Freguezia cujos habitantes ameaçavam», tendo chegado a aggredir o dono do engenho “Abrilongo”, Francisco Correa da Costa (43). Pouco depois de 1881, já na década abolicionista, “A Província de Matto Grosso” dá conta das medidas tomadas pelo Governo abrindo um credito de 25:000§000 para a organização de uma força de 50 homens, sob commando de Generoso Alves Correa, senhor do engenho do “Rio da Casca”, «pata bater as partidas e ir até as malocas dos selvagens com o mesmo fim» (44). Pouco após, em 1882, lemos n’”A locomotiva”, numa curiosa descripção das “festas da Chapada”, este tópico indicativo do estado de animo reinante: «E ao passo que a população rarêa procurando abrigar-se nos centros populosos, affugentadas pelos aborígines que infestão as suas paragens, onde fazem constantemente os mais hediondos morticínios, enfraquecendo assim a lavoura, — a Igreja campeia altiva e sombranceira no centro daquela planície immensa . . .»

(45). “A Brisa”, em 1884, dizendo que «não ha lugar algum da serra acima e será abaixo, até as adjacências desta cidade, que não tenha sido atacado!» (46) e “O Expectador”, em 1886, fazendo no seu editorial, “Os Selvagens” doloroso e flagrante appello ao governador sobre alarmante situação criada pelas «incessantes correrias dos selvagens, cuja ousadia recrudesce e assume proporções assustadoras» (47) — são tantos depoimentos fidedignos a nos convencer da deplorável situação daquella época, que a expedição Duarte veiu attenuar, posto não a solucionasse de todo em todo.

Mais eloqüentes, entretanto, que as noticias dos periódicos locaes, se nos antolham, pela sua fidelidade e precisão, os assentamentos de óbitos da freguezia, nos quaes os vigários, com rara minudencia, inseriam as particularidades que cercavam os fallecimentos. Assim é que, para não alongar de muito este capitulo, citaremos os ataques do “coroados” a 11 de agosto de 1875 no sitio “Olhos d’Água”, matando Manoel Pereira Borges; a 19 do mesmo mês e anno, no “Quilombo”, trucidando a africana Theresa Pereira da Silva e outra escrava de nome Rita; a 27 de janeiro de 1877, na Bocaina, em que foi morto Manoel Victal, filho de Maria Gouveya; a 21 de junho desse anno, nos “Olhos d’Água”, meia légua distante da sede da freguezia, em que pereceram «assassinados barbaramente pelos índios» a referida Maria Gouveya, solteira, de 43 anos, Maria da Conceição, solteira de 14 annos e Manoel do Nascimento, solteiro, de 80 annos; e, finalmente a 18 de abril de 1878, no “engenho do Burity”, sucumbindo a uma flechada, na horta, o escravo Felippe (48).

Souza Lobo, em um interessante livro “São Paulo na Federação” assim se externou, com muita felicidade, acerca da extincção do trabalho servil em nosso país: «A abolição dos escravos foi mais um problema sentido que raciocinado.». Delle é também este incisivo conceito: «Libertos os escravos, o trabalho nacional,de chofre, desabou» (49). Si, em outras zonas, a esse desmoronamento foi, pouco a pouco, se seguindo o trabalho lento de reconstruccão, com elementos extranhos, não assim na província de Matto-Gosso, e sobretudo na região serrana, cujo afastamento, além das condições peculiares da vida, não permittiu a substituição do braço escravo pelo braço livre, que viesse reavivar as industrias e a lavoura feridas de morte com a abolição. A situação da Serra-Acima era, depois da guerra, a que ficou esboçada no ultimo capitulo, de terror, de desanimo, de deperecimento, diante dos assaltos contínuos dos indígenas, das difficuldades de transporte, do aggravamento dos impostos e encarecimento dos escravos e dos animaes de tracção e carga, quando, de súbito, a noticia da lei áurea caiu como uma granada sobre um arraial já quasi deserto, naquella meia-vida a que se reduzira o tumulto e a animação dos velhos “engenhos”. Era a estase final, após dura e prolongada agonia. Percebem-se naquelles rincões solitários, como Euclydes da Cunha visionava no Valle do Parahyba, victima do mesmo phenomeno histórico, «na calada dos ermos, todas as sombras de um povo que morreu, errantes, sobre uma natureza em ruínas» (50).

Colhi, na ultima excursão que fiz pela Chapada, em Dezembro, impressões curiosas acerca do desfecho dramático da campanha abolicionista nas propriedades da Serra-Acima. Engenhos e fabricas houve que se ermaram do dia para a noite, mal apenas a noticia, transmitida por mensageiros interessados, echôou, alvissareiramente, pela planície serrana, como um «hallali» de liberdade e de victoria para os infelizes captivos e, ao mesmo tempo, como o «dies iræ» doloroso para os “senhores” que se viam, de repente, empobrecidos e defraudados no maior acervo dos seus haveres.

No Rio da Casca, “engenho” de Generoso Alves Corrêa, festejava-se o casamento de sua filha Umbelina com João Ludgero de Siqueira, filho do Com. João José de Siqueira (já então fallecido) e um dos condôminos do “Burity”.

Uma festa ruidosa, eis que se tratava da alliança de duas importantes famílias serranas, de “senhores de engenhos”, vale dizer da aristocracia rural da época. Afflluiram á propriedade moradores dos arredores e parentes dos noivos. Era ao inicio da moagem, a época alegre dos “engenhos”, rumorosa e trepidante, que evoca o barulho das rodas d’água, o monótono canto-chão dos monjolos, a cantilena dos escravos no cannavial, que o sol do inverno redoura, e o aroma dulcíssimo do mel, a encher os ares circumdantes de sua deliciosa e ennervante poesia. . . Depois do período de «fogo morto», que é o que vai de Outubro a Abril, em que só a terra trabalha, no lento labor de sua gestação, e o “engenho” dorme, parado e silencioso, á espera da nova “safra”, exsurge, com os primeiros frios da “Santa Cruz”, a vida, a animação, o ruído da moenda, a azafama alegre do trabalho. Era pouco depois do São João e, no terreiro grande,ardiam ainda, no brasido, as fogueiras votivas com que a crença ingênua do povo festeja o Baptista. Estava marcada para 28 de Junho a festa das bodas, já havendo chegado, alem do vigário, o P. João Xavier, as testemunhas, João Augusto de Siqueira e Joaquim Sulpicio de Cerqueira Caldas — irmão e cunhado do noivo — e grande numero de parentes, amigos e vizinhos. No dia marcado celebrou-se, com suggestiva belleza do ritual catholico, o enlace do João e Umbelina. A boda continuava, porem, como de praxe, ainda por alguns dias, até que se retirassem os recémcasados e os convivas. E a alegria, o prazer, a animação reinava ainda no “engenho”, interrompido o labor num parenthesis festivo, entre a sanfona do salão e a viloa rústica do “siriri”, quando, ao longo chiar das rodas cantadeiras, um carro de boi entra pelo terreiro do “engenho”, trazendo noticias da cidade, donde provinha. E, como um raio que estalasse em noite serena, corre numa entremescla de sorpresa, prazer e mágoa, a nova de que «já não havia escravos no Brasil». Comquanto muito intensa andasse na província a campanha redemptora, a abolição immediata e sem restricções sorprehendeu grandemente não só aos senhores de escravos — que viam desapparecer na voragem de um decreto imperial quase toda a sua riqueza, como os próprios captivos, prezas que ficaram de verdadeira desorientação ante a liberdade total e imprevista. No “Rio da Casca” ficaram apenas três escravos. Nem houve prender aos outros com a continuação da festa: foram sahindo, sem mais, num alvoroço de ave que se desengaiola, tonta de luz e ébria da liberdade de voar. Epilogava-se assim, num ambiente de tristeza, aquella festa, entre rumor e risos iniciada.

Testemunha ocular desse evento significativo contou-me que D. Deolinda, esposa do senhor do “Rio da Casca”, chorava, ao ter, de chofre, a noticia. Um desnorteio completo, uma debandada em regra, tumultuária e célere. No “Burity”, quando chegaram os noivos, — que se casaram ricos e accordaram pobres, como num sonho — a mesma desolação, a mesma impressão de abandono. De mais de uma trintena de escravos que existiam no “engenho” dos Siqueiras restava uma meia dúzia, si tanto, de inválidos, que não viam mais preço em ser livres e um ou outro cuja dedicação aos donos se sobrepunha heroicamente ao próprio sentimento nativo de independência. O mesmo quadro, com pequenas variantes, nos demais “engenhos” e sítios. A “Serra-Acima” recebia o ultimo golpe, o ferimento mortal incicatrizável, pelo qual se lhe escoariam as derradeiras energias morrentes. Os escravos, ao envés dos que «fugindo ao captiveiro», no lindo poemeto de Vicente de Carvalho, rumaram ás «collinas azues do Jabaquara», procuravam, procuravam, agora que ninguém os detinha, a baixada propicia, rumo á cidade que os attrahia com vida livre e sem peias, longe da disciplina do trabalho rural a que se viam até pouco manietados. Era um êxodo geral e completo; era o irreparável fracasso da industria assucareira e da lavoura na Chapada, desprovida, dess’arte de braços, sem possibilidade de substituir no momento pelo braço JOSÉ DE MESQUITA 24 livre ou pela machina; era, emfim, o cyclo da decadência que se precipitava num desfecho doloroso, após o lento processus de duas décadas de agonia. Ouvia, entre curioso e commovido, a narração do episodio das núpcias no “Rio da Casca” e, sem que o sentisse, a lembrança me trazia á mente aquelle passo do “Natalia” de Alberto de Oliveira, em que o mágico evocador e colorista de nossa vida rural pinta, em tercetos admiráveis, a debandada dos escravos da fazenda “Esperança”, após o 13 de Maio.

São versos — mas não destoam, por muito verdadeiros no desenho, de um bosquejo histórico, antes como que lhe empresta, com sua delicadeza e gracialidade musical, um encanto que doutra forma jamais teria este ensaio. Fechemos, pois, este capitulo, que se poderia chamar o da desesperança e morte dos “engenhos”, com estas estrophes commovedoras em que o velho pai de Natalia relata ao viandante o “delenda” merencório da sua “Esperança desesperançada”: «— A flor do cafezal, filha de Outubro, Reclamando a colheita, a rir-se agora, Já mudada se achava em fructo rubro. Naquelle mez a várzea se melhora Com a estação mais regrada e água da serra, Ao sol pompeando todo caule enflora; Viça o vesco faval, com o humor que encerra; Os grãos amojam nas espigas de ouro; Racha com as grossas tuberas a terra. Mas com que mãos colher tanto thesouro? As mãos Maio as levou, levando o escravo, Maio agora tornado sestro agouro. Meu mal, assim pensando, afflicto aggravo; Nas terras, nas lavouras em abandono Em desesperação os olhos cravo. Depois, apouco e pouco, um meio somno Me vem. Olho estas cousas com fastio, E deixo-as ir, como se vae sem dono Barco largado na tensão do rio.» (51)

Dahi por diante, a historia da “Serra-Acima” é a de um velho burgo abandonado, digno de figurar na galeria lobatiana das Oblivions e Itaócas, em que «toda a ligação com o mundo se resume no cordão umbilical do correio — magro estafeta bifurcado em ponteagudas éguas pisadas, em eterno ir e vir com duas malas postaes á garupa, murchas como figos seccos» (52). Assim foi que a conheci, quando, a 5 de Julho de 1924, pela primeira vez lá estive, tendo feito a viagem a cavalo, pela “Bocaina” e voltado, dias após, pela serra do “Quebra-Gamela”. Tenho viva, presente, real impressão da chegada, á noite, depois de uma longa caminhada, ao ar frio do planalto, que me impressionara desde o “Tope de Fita”. Ao fim da planície interminável, daquella chan formosa, que a viração dos começos de imverno varria docemente, á hora romântica do crepúsculo, vi apontarem, á beira do trilho, que a noite já mal permittia distinguir, os primeiros casebres, ranchinhos beira-ao-chão, que me delatavam a aproximação do histórico e vestuto povoado. E foi com indissimulável commoção que saltei na praça ampla, toda a crepitar em meio á noite negra, ao clarão das luminárias, emquanto no céu, alto e escuro, outras infinitas luminárias se accendiam, como para uma recepção festiva aos viandantes retardatários. Via aquelle vasto largo, com a sua enorme igreja, cujo adro é feito de pedrinhas do Coxipó, que lenda affirma terem sido conduzidas pelos índios, sob direção dos “padres da missão”, e, na calada da noite morta, depois que todos se retiraram, eu me pus a evocar-lhe os dias antigos da Aldeia Velha, os dias mais recentes da Chapada de Guimarães, como núcleo radiador e centralizador dos “engenhos”, produzindo para abastecer a capital, a que os cargueiros e as tropas, em lotes de muares, tangidos aos suggestivos gritos dos arrieiros e ao toque das sinetas das “madrinhas”, levavam, seguidamente, cereaes, assucar, aguardente e outros artigos, para trocar pelas mercadorias “de fora”. Imaginava a Chapada ruidosa e festiva de outros tempos e, ao ver, da janella da sacristia onde fizera o meu pouso, as ultimas luminárias que se iam lentamente apagando, ao cantar dos gallos, núncio da madrugada próxima e bemvinda, minha imaginação se desenhava, num expressivo symbolismo, a lembrança da Chapada de hoje, moribunda e decadente, como aquellas luzes que ha pouco viramos estrellejando a linda noite serrana . . .

A zona assucareira se deslocou do planalto para a beira-rio. Já em 1884, antes da abolição, o relatório do Barão de Batovy accusava a existência, nas margens do Cuyabá, de dois engenhos a vapor, aperfeiçoados — o de Joaquim José Paes de Barros (Conceição), que foi o iniciador dessa industria no Rio Abaixo, e o Cesário Corrêa da Costa (Flechas) (53). Em 1885, organizava-se a “Companhia Engenho Central de Cuyabá”, «com o fim de estabelecer uma fabrica de assucar e aguardente, empregando dentre os apparelhos e processos mais aperfeiçoados, os mais convenientes . . .» (54). É a machina, pouco a pouco, substituindo o homem, na evolução natural da industria. As zonas do Rio Abaixo e Rio Acima offereciam melhores possibilidades de transporte, graças á natural condição, que faz dos rios «routes qui marchent» no conceito de Pascal.

Por outro lado, a navegação do Prata, depois da guerra, franca e desimpedida, diminuiu o transito pelo sertão, pouco a pouco abandonado devido ás correrias dos índios. E os últimos governos da monarchia, bem como as primeiras administrações republicanas, em Matto Grosso, viram, com um indifferentismo chocante, consumar-se a obra do declínio e da quase extinção da Chapada (55). No governo do dr. Antonio Corrêa da Costa, em 1896, cogitou-se na «abertura de uma estrada de fácil transito para essa Capital» e ao mesmo tempo na «entrada de immigrantes ou colonos, com vista de localisal-os em serra acima» (56).

O lamentável desfecho que encerrou, ainda a meio caminho, a administração do dr. Corrêa, não permittiu a execução dos seus planos e ainda uma vez ficou a Chapada á espera de um soccorro que lhe impedisse a completa ruína e o total abandono.

No governo do cel. Antonio Cesário uma leva de immigrantes nacionaes, cearenses na sua mor-parte, localizou-se na “Ponte Alta”, formando uma esperançosa colônia, de que subsistem algumas famílias, radicadas definitivamente na Serra. Essa tentativa, porem, de colonização, se destinava ao mesmo mallogro a que, em ponto maior, havia de condemnar-se a introducção de immigrantes estrangeiros, na maioria rumenos, scheco-slovacos e alemães, que, em 1927, o governo Mario Corrêa pretendeu localizar na colônia do “Cajurú”. Bellos sonhos, por sem duvida, mas, como sonhos, destituídos de base real que os tornasse exeqüíveis!

Assim foi a malfadada cidade serrana, na beira da escarpa que desce entre o Capão Secco e o Apertado, com um panorama de duma belleza estonteante e que deslumbra o próprio europeu . . . mas que, a não ser isso, condição nenhuma possuía para se tornar um centro habitável. A administração que deveria notabilizar-se pelo seu carinho para com a zona chapadense foi a do cel. Pedro Celestino, que, com ser filho do “Bom Jardim”, districto da Serra-Acima, nas duas vezes que governou o Estado, em 1908 – 1911 e em, 1922 – 1925, encarou resolutamente e resolveu com efficiencia problemas importantes de viação que interessavam á Chapada. No primeiro governo de Pedro Celestino, sob a direcção do engenheiro civil Virgilio Alves Corrêa Filho, foi reconstruída a estrada da Boacina, que, atravessando o Coxipó, no Juru-Mirim, segue, depois de transpor o Aricásinho, rumo á serra, que começa a galgar desde as chamadas lavras do “Médico”.

É a velha estrada reúna da Serra, a de maior trafego, por onde, annos a fio, se escoaram tantas riquezas e se intercambiaram tantos productos agrícolas e fabris. Os trabalhos de reconstruccão, cujo relatório traz data de 18 de outubro de 1910, foram levados a effeito dentro do primeiro período governativo de cel. Pedro Celestino, a quem, cerca de um deccenio após, caberia pela segunda vez, novamente á testa da administração, realizar a grandiosa obra da rodovia Cuyabá — Chapada, pela estrada do “Portão do Inferno”. A 13 de maio de 1924, dando conta a Assembléa Legislativa dos emprehendimentos do seu governo, dizia haver determinado os necessários estudos, dos quaes resultaria um percurso de 70 kms. a vencer, com um orçamento calculado em 350:000§000 (57). Um anno depois a 13 de maio de 1925, o dr. Estevão Alves Corrêa, que o succedera no governo, podia annunciar na sua Mensagem a construcção de «mais de 50 kilometros, incluindo 14 na secção da subida do planalto» (58). E ao transmittir o governo, a 22 de janeiro de 1926, ao dr, Mario Corrêa da Costa, o dr. Estevão Corrêa dava conta de achar-se construída a estrada até 120 kilometros alem de Rondonópolis, em demanda de Santa Rita do Araguaya (59). Em novembro de 1925 a estrada de rodagem já era francamente transitada e, nessa occasião, ti- (57) Mensagem de 13 de Maio de 1924, pag.59. (58)

Mensagem de 13 de Maio de 1925, pag.52. (59) A synthese de um governo, págs. 21 e 27. JOSÉ DE MESQUITA 28 vê opportunidade de percorrel-a em optimas condições de trafego A instalação da Usina hydro-electrica do Rio da Casca, no governo Mario Corrêa, veio, por outro lado, despertar a attenção e interesse pela zona Planaltina, que, assim, nas administrações que se seguiram, continuou a merecer certo carinho e cuidado por parte dos governos. Ha muito, entretanto, ainda a fazer em prol dessa zona da “SerraAcima”, que merece dos contemporâneos, tão egoístas e indifferentes, pelo menos a respeitosa estima e o carinho filial que nos desperta a presença de uma velha avozinha a nos evocar os bons e saudosos tempos de antanho. Que essa estima e esse carinho lhe não faltem por parte das futuras administrações de nossa terá, bem orientadas pelo desejo de engrandecer este torrão querido, valorizando-lhe os productos, explorando-lhe os inexgottaveis vêeiros de riquezas, para que, olhos fitos no porvir distante, jamais lhes deslembre o passado glorioso e evocativo, de que a Chapada constitue uma das paginas mais bellas e immorredouras . . .

(Da série “GENTE E COUSAS DE ANTANHO”) (Cuiabá, Nov.º 1931 a Janeiro 1932)

(1) Vida social no Nordeste, no Estado de Pernambuco, edição do Centenário, pag. 75

(2) Rev. do I.H. e G.B., volume IV, 497. 

(3) Vol. I, pag. 271.

(4) MELGAÇO — Apontamentos chronologicos, na Rev. M. Grosso, anno I, n.6, pag. 183; V. CORREA FILHO, Á cata de ouro e diamante, pag. 22.

(5) F. IGNACIO FERREIRA, Diccionario Geoagraphico das Minas do Brasil, pag. 722.

(6) Nota da Rev. I.H. e G. Brasileiro, vol XLVII, 483, nos apontamentos para o Diccionario, de Leverger.

(7) Officio do Barão de Lages. Rev. I.H. e G.B. , XX, pag. 389.

(8) Ver. I. H. e G. B., XXXVII

(9) Doc. Históricos, XLIV, 335. 

(10) O Matto Grosso, de 17 de Janeiro de 1926

(11) Escriptura no L. VI, 27v do 2. Cartório. 

(12) Ver, nesta serie, o folhetim, XII “Um fervoroso e devo Ministro”.

(13) Annaes da Biblioteca Nacional, III, 269. 

(14) Cultura e opulência do Brasil, edição de 1923.

(15) Oliveira Vianna — Evolução do povo brasileiro, 63.

(16) Itinerário da viagem de Cuyabá a São Paulo, pag.14.

(17) A. Bueno — Ob. Cit. nota 2ª. Pag. 59.

(18) Ob. Cit. Nota 4ª. pag.67.

(19) Estrada de ferro de Cuyabá á Lagoinha, Rio, 1876.

(20) Memória justificativa dos trabalhos de que foi encarregado — Rio — 1880, pag.57.

(21) Datas Mattogrossenses, I, 357.

(22) Ensaios Brasileiros, 162.

(23) Viçosa de Alagoas, págs. 215 e seguintes.

(24) Festejou-se, faz pouco, o centenário do engenho d’água, do Norte, sendo celebrado como o «grande instrumento do progresso brasileiro».

(25) MATTO-GROSSO, 325. (26) Viagem ao redor do Brasil, I, 149, nota A.

(27) Ver. do I. H. M. Grosso, III, 76 nota H.

(28) Nobiliarchia Paulistana, 459 e Genealogia Paulistana, III, 544.

(29) Annaes do Senado da Câmara, anno de 1727.

(30) Memórias Chronologicas, R. I. H. e Goegraphico, XIII,133.

(31) Patentes, provisões e sesmarias, J. B. Campos Aguirre, págs 39 e seguintes.

(33) Somente as victimas das “bexigas” cujo óbito foi registado pelo então vigário P. Caldas, attingem a 124, de Setembro a Dezembro de 1867. Ver, nesta serie “O anno das bexigas”, II, que traz minudente dados estatísticos sobre a extensão do flagello que assolou a Província de Matto-Grosso. 

(34) Pimenta Bueno, op. cit. 75. 

(35) V. Correa Filho dá-lhe essa graphia no seu “Relatório sobre o melhoramento da Estrada da Chapada”, 1910, e posto já tenha visto com a forma Russa prefiro aquella, pois penso derivar de «ruça» que, na Serra, traz o significado de neblina, cerração muito forte, phenomeno athmosferico ali commum e que dá á paisagem um ar «ruço», grisalho. 

(37) Matto Grosso, 333.

(38) Memória histórica sobre os indígenas da província de Matto Grosso, Rio, 1887, págs. 19 e 20.

(39) N. 23, de 4 de Outubro de 1857.

(40) N. 98, de 20 de Março de 1859.

(41) N. 99, de 27 de Março de 1859.

(42) A Província de Matto Grosso, ns. 40 e 41, de 5 e 12 de Outubro de 1879.

(43) Edição de 22 de Agosto de 1879.

(44) Numero de 27 de Fevereiro de 1881.

(45) N. 6, de 26 de Fevereiro de 1882.

(46) N. 6, de 17 de Fevereiro de 1884.

(47) N. 123, de 3 de Julho de 1886.

(48) Archivo Ecclesiástico, 2º livro de óbitos, 1854—1878. (49) Ob. Cit. págs. 112 e 113.

(49) Ob. Cit. págs. 112 e 113.

(50) Contrastes e confrontos, 6ª. Ed. Pag. 218.

(51) Poesias, III, 274.

(52) M. Lobato — Cidades Mortas, pag. 10.

(53) Relatório de 1 de Outubro de 1884. Fala também num engenho de Carcano & Colombo, em Corumbá.

(54) O Espectador, de 22 de Janeiro de 1885.

(55) O projeto de estrada de ferro do Calaça foi a ultima tentativa séria em favor da Chapada, levada a effeito na administração monarchica, e infelizmente inefficás.

(56) O Republicano, de 16 de Abril de 1896.
Nota de pesquisa: “Grandeza e Decadência de Serra-Acima”, consta como verbete, nos seguintes livros de referência:  Revista portuguesa de história; Volume 33, Part 1, Universidade de Coimbra. Instituto de Estudos Históricos Dr. Antônio Vasconcelos, 1999, pág. 329;  Casa-Grande & Senzala: formação da família brasileira sob o regime da economia patriarcal; Volume 2, Gilberto Freyre, J. Olympio, 1978, pág. 398;  Intérpretes do Brasil, Volume 2, Silviano Santiago, Editora Nova Aguilar, 2000, pág. 575.

O que é o SNUC?

O que é o SNUC?

A Constituição Federal de 1988 assegura a todos, em seu artigo sobre meio ambiente (art. 225), um “meio ambiente ecologicamente equilibrado” e impõe ao Poder Público o dever de defendê-lo e preservá-lo. Um dos instrumentos que a Constituição aponta para o cumprimento desse dever é a “definição de espaços territoriais e seus componentes a serem especialmente protegidos”, ou seja, indica que o Poder Público deve criar áreas protegidas e garantir que elas contribuam para a existência de um “meio ambiente ecologicamente equilibrado”.


PARNA do Pico da Neblina (AM) 1994  / ROBERTO LINSKER/www.terravirgem.com.br

A partir dessa base constitucional, o país concebeu um Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC), ou seja, de um tipo de áreas protegidas. O processo de elaboração e negociação desse Sistema durou mais de dez anos e gerou uma grande polêmica entre os ambientalistas.

O resultado (Lei nº 9.985/2000) – uma tentativa de conciliação entre visões muito distintas – apesar de não agradar inteiramente a nenhuma das partes envolvidas na polêmica, significou um avanço importante na construção de um sistema efetivo de áreas protegidas no país.

O SNUC originou-se de um pedido do Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal à Fundação Pró-Natureza (Funatura), uma organização não governamental, em 1988, para a elaboração de um anteprojeto de lei instituindo um sistema de unidades de conservação. Uma das dificuldades, já evidente na época, era definir as categorias de manejo, excluindo figuras equivalentes e criando novos tipos de unidades onde foram identificadas lacunas. O anteprojeto foi aprovado pelo Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) e em maio de 1992, já na qualidade de Projeto de Lei foi encaminhado ao Congresso Nacional.

Em 1994, o deputado Fábio Feldmann apresentou um substitutivo ao Projeto de Lei do SNUC, introduzindo modificações significativas no texto original e dando início à polêmica centrada na questão da presença de populações tradicionais nas unidades de conservação que duraria ainda seis anos.


PES do Jalapãp (TO)  - Pôr do sol na beira do rio  / Rosimeire Rurico

Em 1995, novo substitutivo foi apresentado, dessa vez pelo deputado Fernando Gabeira, aprofundando as divergências entre os ambientalistas e alimentando, ainda mais, a polêmica. Após inúmeras reuniões, audiências públicas, versões e modificações, o projeto foi aprovado no Congresso em 2000, mas teve ainda alguns dispositivos vetados pelo presidente, como por exemplo a definição de populações tradicionais. Veja abaixo as diferentes categorias de unidades de conservação do SNUC e suas definições.

Categorias de UCs no SNUC


RESEX Verde Para Sempre, Porto de Moz - PA 2006  / Leonardo F. Freitas

O SNUC divide as categorias de unidades de conservação federais em dois grandes grupos: proteção integral e uso sustentável. Cada um desses grupos possui diversas categorias de unidades; o grupo de proteção integral é formado por cinco diferentes categorias, sendo elas Estação Ecológica, Reserva Biológica, Parque Nacional, Monumento Natural e Refúgio de Vida Silvestre.

Já no grupo de uso sustentável, as categorias são: Área de Proteção Ambiental, Área de Relevante Interesse Ecológico, Floresta Nacional, Reserva Extrativista, Reserva de Fauna, Reserva de Desenvolvimento Sustentável, Reserva Particular do Patrimônio Natural.

Entretanto, como o SNUC pressupõe complementariedade por meio dos Sistemas Estaduais e Municipais de Unidades de Conservação, em algumas situações podem haver UCs de categorias diferentes das acima listadas. Leia mais sobre as diferenças entre as categorias clicando aqui.

 

Saiba Mais
Brasil 2000. Lei Federal Nº 9.985 de 18/07/2000. Regulamenta o artigo 225 da Constituição Federal e institui o Sistema Nacional de Unidades de Conservação e da outras providências.

Brasil. 2002. Decreto Federal Nº 4.340 de 22/08/2002. Regulamenta a Lei Nº 9.985 de 18/07/2000 (SNUC) e da outras providências.

Referências

Brasil 2000. Lei Federal Nº 9.985 de 18/07/2000. Regulamenta o artigo 225 da Constituição Federal e institui o Sistema Nacional de Unidades de Conservação e da outras providências. Disponível clicando aqui.

Rio da Casca Ecological Station





Rio da Casca Ecological Station – Wikipedia





Rio da Casca Ecological Station

From Wikipedia, the free encyclopedia
Jump to: navigation, search
Rio da Casca Ecological Station
Estação Ecológica do Rio da Casca
Map showing the location of Rio da Casca Ecological Station

Map showing the location of Rio da Casca Ecological Station
Nearest city Chapada dos Guimarães, Mato Grosso
Coordinates 15°33′42″S 55°26′35″W / 15.561613°S 55.44297°W / -15.561613; -55.44297Coordinates: 15°33′42″S 55°26′35″W / 15.561613°S 55.44297°W / -15.561613; -55.44297
Area 3,534 hectares (8,730 acres)
Designation Ecological station
Created 27 May 1994
Administrator Coordenadoria de Unidades de Conservação, MT

The Rio da Casca Ecological Station (Portuguese: Estação Ecológica do Rio da Casca) is an ecological station in the state of Mato Grosso, Brazil. It protects a partly deforested area of savanna.

Location[edit]

The Rio da Casca Ecological Station (ESEC) is divided between the municipalities of Chapada dos Guimarães (76.61%), Cuiabá (10.84%) and Campo Verde (12.52%) in the state of Mato Grosso.[1] The ESEC has two parts, one with an area of 3,329 hectares (8,230 acres) and the other with an area of 205 hectares (510 acres).[2] The total area is 3,534 hectares (8,730 acres).[1] It lies to the east of the MT-450 state highway and is south of the BR-251 federal highway.[3]

History[edit]

The Rio da Casca Ecological Station was created by state governor decree 6.437 of 27 May 1994. The consultative council was created on 15 December 2014.[4]

Environment[edit]

The ESEC is just over 87% savannah, and about 13% contact between savannah and seasonal forest. It overlaps about 7% with the Chapada dos Guimarães Environmental Protection Area.[5] The ESEC was about 65% deforested at time of creation, and since then has lost a further 4% of forest coverage.[6] The Casca River, a tributary of the Roncador River, runs through the ESEC from south to north.[3]

Notes[edit]

  1. ^ a b ESEC do Rio da Casca – ISA, Informações gerais.
  2. ^ Serys Slhessarenko 1994.
  3. ^ a b ESEC do Rio da Casca – ISA, Informações gerais (mapa).
  4. ^ ESEC do Rio da Casca – ISA, Historico Juridico.
  5. ^ ESEC do Rio da Casca – ISA, Características.
  6. ^ Roberta dos Santos et al. 2006, p. 7.

Sources[edit]





Caixa d’água

Caixa d’água
Reservatório criado por organização nordestina utiliza sobras de telhas e é capaz de armazenar até mil litros de água 

 

Algumas vezes, uma boa ideia pode ter como ponto de partida uma situação inusitada. No caso do inventor e administrador da Agência Mandalla, Willy Pessoa, a criação de uma caixa d’água surgiu com um tropeço. Depois de ter inventado o chalé codorna (matéria publicada na edição 280, de fevereiro de 2009), algumas telhas que serviram para a cobertura do galinheiro ficaram espalhadas pelo chão. E, ao tropeçar em uma delas, Willy quis inventar alguma coisa que pudesse reaproveitá-las.A Agência Mandalla fica no Nordeste do Brasil, uma região conhecida pela escassez de água e, segundo Willy, pela escassez de informação. Não foi difícil para ele juntar as telhas com a questão da seca para criar um reservatório de água capaz de armazenar até mil litros.

Com um formato hexagonal, as caixas d’água são simples, fáceis de fazer e ficam prontas em apenas dois dias, tempo suficiente para a argamassa secar. O único conhecimento prévio é saber preparar a massa com cimento e areia. A atenção deve ser redobrada na hora de cortar as telhas, amarrar os ferros e aplicar a argamassa. O reservatório tem 1,22 metro de altura, seis lados de 50 centímetros cada e 84 centímetros de abertura.

Como o investimento é de cerca de 70 reais, o reservatório é ideal para agricultores familiares e até pessoas que moram na cidade e desejam armazenar a água da chuva. É preciso tomar cuidado com eventuais rachaduras que podem estragar a caixa.Para isso, evite deixar o reservatório seco por mais de dois dias e pinte o lado externo das telhas. Outra dica importante: providencie uma tampa para quando não estiver usando a caixa, assim, evita-se a proliferação de doenças e de insetos, como o mosquito da dengue.

Mais informações: Agência Mandalla DHSA, Av. Rui Barbosa, 1101, João Pessoa, PB. CEP 58040-491. Tel. (83)3243-2621, comunicacao@agenciamandalla.org.br, www.agenciamandalla.org.br
Você tem um invento e gostaria de divulgá-lo nesta seção? Então envie um breve resumo de sua invenção para grural@edglobo.com.br . Não se esqueça de colocar seu nome completo, endereço, e-mail e telefone para que possamos entrar em contato
Mãos à obra

 

Material
• 03 telhas onduladas de zinco de 2,44 metros de comprimento por 50 centímetros de largura cada
• 04 quilos de ferro de 4,2 milímetros de espessura
• 02 quilos de arame pré-cozido
• 01 saco de cimento
• 03 carrinhos ou 15 latas de 20 litros de areia
• 01 colher de pedreiro

PASSO A PASSO

Caixa-d‘água feita a partir de pneus usados

Caixa-d‘água feita a partir de pneus usados é barata, fácil de montar e ainda ajuda a combater o mosquito da dengue 

 

A idéia partiu da necessidade de construir um viveiro florestal extremamente barato para o produtor rural. De quebra, acabou servindo também para resolver uma questão de saúde pública. Pesquisadores do departamento de Engenharia Rural da Esalq e do Centro Ecológico Flora Guimarães Guidotti, ambos em Piracicaba, SP, desenvolveram um projeto de caixa-d’água a partir de pneus velhos. Com isso, deram fim a um material que se tornou o grande berçário para o Aedes aegypti, mosquito transmissor da dengue.Além de aproveitar pneus largados em quintais, garagens e borracharias, o invento auxilia o agricultor a irrigar uma horta, um viveiro de plantas e até mesmo saciar a sede da bicharada. O reservatório serve também para armazenar água da chuva e para uso doméstico, exceto consumo humano, pois os pneus podem soltar alguns resíduos. Os níveis de contaminação, porém, são extremamente baixos, não havendo riscos para plantas e animais.

Segundo o engenheiro florestal Marcelo Precoppe, o número de pneus pode variar de acordo com a necessidade do agricultor, desde que não ultrapasse dois metros de altura. O importante é que não tenham buracos para não causar vazamentos. Bor-racharias costumam fornecer gratuitamente pneus velhos. Por isso, o custo de montagem da caixa-d’água sai por 100 reais, em média. Embora seja difícil precisar sua vida útil, estima-se que possa durar 15 anos. E vale reforçar: o reservatório não dispensa tampa. Sem ela, o combate ao mosquito da dengue torna-se inútil.

Montagem
• 1º passo
Antes de começar a montar a caixa-d’água, defina o local onde será colocada. Para um viveiro de mudas ou uma horta, por exemplo, deixe-a o mais próximo possível do canteiro para evitar perda de pressão da água. O importante é que o lugar escolhido para o reservatório seja plano e liso. Pode-se pavimentar o chão com cimento ou colocar um assoalho de madeira, mas o sistema também funciona em terra batida.• 2º passo
Coloque o tapete de borracha no local escolhido. Lave bem todos os pneus e seque-os por fora. Pegue um deles e passe massa para calafetar numa das faces, em duas faixas com distância de 1,5 centímetro uma da outra (veja a ilustração em detalhe). Preencha o espaço entre eles com vedador de calha. É importante aplicar a massa em duas faixas porque, como o vedador de calha é viscoso e se espalha facilmente, pode ser que se forme uma camada muito fina e, portanto, suscetível a vazamentos. A massa garante melhor vedação.• 3º passo
Assente o primeiro pneu no tapete e espere cerca de 30 minutos para colocar o próximo. Não mexa até secar bem para evitar que a massa e o vedador de calha se espalhem. Repita o segundo passo, colando um pneu sobre o outro até atingir a altura desejada.• 4º passo
A torre de pneus pode ser abastecida, por gravidade, por outra caixa-d’água ou pelo bombeamento de uma nascente. Em qualquer caso, fixe a bóia ao cano de PVC por onde a água chega ao reservatório.• 5º passo
Para dar maior sustentação à caixa-d’água e evitar que ela tombe, circunde-a com os quatro mourões. Enterre cada um deles a cerca de 40 centímetros. Por fim, passe o arame entre as estacas, fixando-as firmemente.• 6º passo
A tampa pode ser feita com materiais disponíveis na propriedade ou comprada no mercado por cerca de dez reais. Você pode fazer uma com plástico e mangueira de polietileno. Basta fazer um círculo com o mesmo diâmetro do pneu (de cerca de um metro) e cobri-lo com o plástico. Para fixá-lo, utilize arame. A tampa é fundamental para evitar que a água fique exposta à sujeira e também à proliferação do mosquito da dengue.

• 7º passo (opcional)
Quem for utilizar a caixa d’água para alimentar um sistema de irrigação ou uma horta, é recomendável comprar uma bomba submersa do tipo sapo, colocá-la no fundo do reservatório e ligá-la a uma tomada. Conecte-a em uma mangueira de polietileno. Esses materiais são facilmente encontrados em lojas de produtos agropecuários.

Material
6 pneus velhos de caminhão. Podem ser colocado mais, de acordo com a necessidade;
1 tapete de borracha com, no mínimo, um centímetro de espessura e dimensões suficientes para que nenhuma parte do pneu fique em contato com o solo;
4 tubos de vedador de calha;
8 caixas (350 gramas) de massa para calafetar;
1 bóia de caixa-d’água de 3/4 de polegada;
1 tampa do tamanho do pneu (pode ser de plástico, borracha ou madeira);
4 mourões de madeira de 1,80 metro de altura;
2 metros de arame;
4 metros de mangueira de polietileno;
3 metros de plástico
Torre de pneus
Além de abastecer pequenas propriedades, o reservatório pode ser usado para captar e armazenar água da chuva

Banco Rio e Mato Grosso

SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.23 issue45The "Black Venus": Josephine Baker and afro-atlantic modernityThe modernization of the staff and war material in the Brazilian navy on the eve of the sailors' mutiny in 1910: models and contradictions author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing

Estudos Históricos (Rio de Janeiro)

Print version ISSN 0103-2186

Estud. hist. (Rio J.) vol.23 no.45 Rio de Janeiro Jan./June 2010

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-21862010000100006

ARTIGOS

 

Joaquim Murtinho, banqueiro: Notas sobre a experiência do Banco Rio e Mato Grosso (1891-1902)

 

Joaquim Murtinho, banker: Notes on the experience of Rio and Mato Grosso Bank (1891-1902)

 

 

Paulo Roberto Cimó Queiroz

 

 


RESUMO

O Banco Rio e Mato Grosso, fundado no Rio de Janeiro em 1891 e liquidado em 1902, foi a primeira instituição bancária a operar em Mato Grosso. Tendo como fontes documentos do próprio banco, este trabalho busca traçar sua trajetória e discutir suas vinculações com a economia e a política mato-grossenses. Conclui-se que a ação do banco nesse estado correspondeu a um amplo plano e contribuiu para o processo de modernização e de crescimento econômico – embora tal crescimento, limitado às atividades primário-exportadoras, tenha sido caracteristicamente excludente. Sugere-se também que as atividades econômicas, em Mato Grosso, podiam ser afetadas pelas disputas políticas internas.

Palavras-chave: História bancária; modernização; crescimento econômico; conflitos políticos; erva-mate.


ABSTRACT

The Rio and Mato Grosso Bank, founded in Rio de Janeiro in 1891 and closed in 1902, was the first bank to operate in Mato Grosso. Based upon documents of the bank itself, this paper aims at tracing its trajectory and discussing its connections with economics and politics of Mato Grosso. It follows that the bank’s action in this state corresponded to a broad plan and contributed to the process of modernization and economic growth – although this growth, being limited to primary-export activities, has been characteristically exclusive. It is also suggested how economic activities, in Mato Grosso, could be affected by political infighting.

Key words: Banking history, modernization, economic growth, political conflicts, Paraguayan tea.


RÉSUMÉ

La Banque Rio et Mato Grosso, fondée à Rio de Janeiro en 1891 et fermée en 1902, a été la première banque opérant dans l’état de Mato Grosso. Cet article, ayant comme source les documents mêmes de la banque, essaye de retracer la trajectoire de l’instituition et de discuter ses liens avec l’économie et la politique du Mato Grosso. C’était possible de conclure que l’action de la banque dans cet état a correspondu à un large plan et a contribué au processus de modernisation et de croissance économique – encore que cette croissance, limitée à des activités primaires d’exportation, a eu une caractéristique exclusive. Il est suggéré aussi comment les activités économiques, au Mato Grosso, pourraient être affectés par des disputes politiques internes.

Mots-clés: Histoire bancaire, modernisation, croissance économique, conflits politiques, maté.


 

 

O Banco Rio e Mato Grosso,1 primeiro estabelecimento de crédito a operar no antigo Mato Grosso, não foi ainda objeto específico de nenhum estudo. A historiografia especializada tem, de fato, ressaltado a carência de estudos sobre a história monetária e bancária, não apenas no Brasil como em toda a América Latina.2 Saes, por exemplo, observou que os estudos disponíveis “sugerem, de modo geral, que se privilegiou a pesquisa empírica, tendo em vista a dispersão das informações básicas”, de modo que “cada pesquisa tendeu a preocupar-se com temas e problemas peculiares” (Saes, 2001:5).

Com o presente texto, busco portanto superar pelo menos o contexto de “dispersão das informações básicas” com vistas a contribuir para “a elaboração de uma história monetária e bancária mais abrangente, que possa incorporar as diversas questões levantadas nas experiências estudadas” (Saes, ibid.). Ademais, para além da história bancária, busco contribuir para a compreensão da experiência do BRMT em suas relações com o processo de modernização e de crescimento econômico em Mato Grosso, visto que tal experiência situa-se precisamente em um período de aggiornamento (Singer, 1985:352), marcado pela emergência, no Brasil, do “paradigma moderno” (Herschmann & Pereira, 1994:10) e por uma “larga expansão das forças produtivas” (Prado Júnior, 1987:207). Procuro, finalmente, situar a experiência do BRMT no contexto dos jogos de poder no então estado de Mato Grosso.

O BRMT foi fundado com base em uma autorização concedida pelo Governo Provisório da República (Decreto nº 1.149, de 6.12.1890)3 e seus incorporadores foram Francisco Moreira da Fonseca, Francisco Murtinho e Francisco de Paula Mayrink. Constituído em assembleia no Rio de Janeiro, em janeiro de 1891, o banco operou regularmente até julho de 1902, quando entrou em processo de liquidação amigável. Sua presidência foi exercida por Joaquim Murtinho até setembro de 1896 e por Francisco Murtinho4 a partir de maio de 1897.

A respeito do contexto específico da fundação do banco, cabe lembrar que, ainda no regime monárquico, em meio à escassez de meios de pagamento e à crença de que “era necessário utilizar a rede bancária privada como agente supridor dos recursos monetários demandados pela economia”, intensificara-se a criação de bancos, o que levou a uma febril especulação com os papéis dessas instituições. A instauração da República sustou por um momento esse processo, mas logo em seguida o novo regime “aceitou continuar a política de empréstimos aos bancos particulares” (cf. Levy, 1977: 144-149).

O decreto 1.149 concedia ao BRMT preferência na obtenção dos “favores” (aí incluída a “cessão gratuita de terras”) assegurados aos “bancos regionais” pela legislação da época (Decreto nº 165, de 17.1.1890). Assim, já em dezembro de 1890 (antes, portanto, da efetiva constituição do banco), seus incorporadores assinaram com o governo federal um contrato pelo qual poderiam receber gratuitamente em Mato Grosso, para fins de colonização, 500 mil hectares de terras, divididos em dez glebas de 50 mil ha cada uma (R-1893).5

Embora tenha atuado também na praça do Rio de Janeiro, onde ficava sua sede, o “fim principal” do banco era, desde o início, “operar em Mato Grosso” (cf. R-1892), onde manteve de fato uma “caixa filial” (na cidade de Corumbá) e uma agência (na capital, Cuiabá).6 Desse modo, o BRMT tem sido mencionado pela historiografia relativa a temas mato-grossenses/sul-mato-grossenses. Trata-se aí, contudo, de rápidas menções en passant, nas quais o banco tem sido lembrado apenas por suas relações com o importante ramo da extração de erva-mate, pelo fato de haver constituído, em setembro de 1891, a célebre Companhia Mate Laranjeira (CML). Essa companhia, que chegou a deter um autêntico monopólio sobre a exploração dos ervais nativos existentes no extremo sul do então estado de Mato Grosso,7 transformou-se em uma grande e potente empresa, que dispunha de sua própria infraestrutura de extração e comercialização, comandava milhares de trabalhadores e exerceu um papel dominante na economia ervateira sul-mato-grossense até a década de 1940. Desse modo, o banco ficou relegado praticamente à condição de uma espécie de nota de rodapé na história de sua criatura mais famosa.

Num estudo pioneiro sobre a história econômica de Mato Grosso/Mato Grosso do Sul, por exemplo, o BRMT é citado apenas na seguinte passagem: “Os ervais do Sul mato-grossense […] tiveram sua exploração monopolizada pela Companhia Mate Laranjeira, ligada ao Banco Rio e Mato Grosso, de existência transitória, numa experiência que configurou, pela vez primeira, a interferência clara do capital financeiro na produção regional” (Alves, 1984: 30-31; ver referências semelhantes em Borges, 2001:128 e Arruda, 1997:33). Outros estudos relevantes, inclusive sobre Corumbá, sequer se referem ao banco (cf. Corrêa, 1999; Ito, 2000; Souza, 2008). Zephyr Frank, enfim, chega a inverter, por lapso, as habituais referências, ao situar o BRMT como “a holding company set up by the Mate Laranjeira Company” (Frank, 1999: 85).

Menções um pouco mais extensas, embora ainda de passagem, encontram-se em dois trabalhos relativos a Joaquim Murtinho: a biografia escrita por Virgílio Corrêa Filho (1951) e o livro de Fernando Faria (1993). A primeira, de sentido predominantemente elogioso, situa o BRMT como um empreendimento “fecundo em consequências econômicas” (Corrêa Filho, 1951:50). Já em Faria, as referências a Murtinho e ao banco são essencialmente negativas. Lançando mão do conceito de “privatização do Estado”, o autor enfatiza acima de tudo a aparente disposição, por parte da família Murtinho e de seus aliados, de dominarem completamente a economia e a política mato-grossenses, por meios espúrios e mesmo violentos, com o único objetivo de se locupletarem de poder e riquezas (cf. Faria, 1993: passim.). Reservo-me para discutir adiante, com mais profundidade, tais relevantes questões. Por ora, passo a expor, brevemente, a trajetória do banco.

 

A trajetória do BRMT

Segundo os estatutos, o capital do banco seria de 20 mil contos, em 100 mil ações de 200$000 (cf. Ata da assembleia de constituição, 29.1.91). Entretanto, em face da dura realidade da praça do Rio, no rescaldo do Encilhamento, decidiu-se reduzir a seis mil contos o capital a ser efetivamente realizado (cf. Ata da assembleia extraordinária de 14.1.1892). O BRMT era considerado, por seu próprio presidente, um banco “pequeno” (R-1901) e, de fato, seu capital realizado estava, em 1891, abaixo da média (7,4 mil contos) do conjunto dos “bancos e casas bancárias” do Rio de Janeiro (cf. Levy, 1977: 164). Esse capital era, contudo, equivalente ao de dois importantes bancos paulistas da mesma época, a saber, o Banco do Comércio e Indústria de São Paulo e o Banco de São Paulo, ambos com um capital realizado de 5 mil contos (cf. Saes, 1986: 153-154).

Segundo um conceito que pertence, por assim dizer, ao senso comum historiográfico sobre Mato Grosso/Mato Grosso do Sul, o BRMT seria o “banco dos Murtinho” (cf. a frase de Nícia V. Luz, 1980: 26). Contudo, na lista dos subscritores das então 100 mil ações do banco, em janeiro de 1891, aparecem nada menos que 155 nomes, entre pessoas físicas e jurídicas. De todo modo, como mostra a Tabela 1, os dez maiores subscritores detinham 37% do total das ações (cf. lista in Arquivo Nacional – Fundo Junta Comercial do Rio de Janeiro, livro 54, registro 1.333).8

 

 

Entre os subscritores encontram-se vários outros bancos, além dos incluídos na tabela acima: o Banco dos Comerciantes (1.000 ações), Agrícola do Brasil (1.000), Colonial do Brasil (1.000), Luso Brasileiro (1.000) e Itália Brasile (250). A lista revela ainda a forte presença de vários outros capitalistas da praça do Rio de Janeiro. Além dos que constam na tabela, aparecem, por exemplo, J. Modesto Leal (500 ações) e vários integrantes das famílias Braga, Zenha, Fonseca etc.

Joaquim e Francisco Murtinho aparecem, por sua vez, com uma subscrição abaixo da média: apenas 600 ações cada um. Pode-se certamente supor que ambos, ou outros membros de sua família, fossem também acionistas de algum ou alguns dos bancos subscritores. Mesmo assim, parece totalmente fora de questão a ideia de que “os Murtinho” fossem os “donos” do banco ou detivessem seu completo controle.

Eles tiveram, provavelmente, a ideia e a iniciativa da fundação do estabelecimento, além de terem sido responsáveis por sua alta administração. De fato, Joaquim Murtinho estava solidamente estabelecido no Rio de Janeiro, ainda no período imperial, como professor e sobretudo como médico. Entre seus pacientes, além de outras importantes figuras do mundo político nacional, estava o próprio Deodoro da Fonseca. Desse modo, ele detinha apreciável influência nos bastidores do Governo Provisório, tendo mesmo obtido para seu irmão Francisco uma das concessões incluídas no conhecido Decreto nº 862, de 16.10.18909 (Corrêa Filho, 1951:50 e 53).

Os dois irmãos, contudo, não agiam sozinhos. Tanto na concessão do decreto 862 como na do BRMT, Francisco Murtinho aparece ao lado do célebre Francisco Mayrink, fundador do Banco Construtor do Brasil, “decano do mercado” do Rio de Janeiro e detentor de “preponderante influência” sobre o ministro Rui Barbosa (Carvalho, 2004:126, 131). Desse modo, o lançamento do BRMT parece haver sido mais um dos vários negócios comandados por Mayrink nesse período. De fato, a lista dos subscritores mostra que Mayrink ali aparece por si próprio (7.050 ações) e por instituições e pessoas a ele notoriamente vinculadas, como o Banco Construtor do Brasil (2.500), o Banco de Crédito Real do Brasil (4.000), o barão do Alto Mearim (3.000 ações) e o visconde de Assis Martins (1.000), além do barão de Oliveira Castro e João da Matta Machado (500 ações cada um).10

Na presente pesquisa não foi possível encontrar, até o momento, outras listas que relacionassem os acionistas ao número de ações que possuíam.11 Tudo que se tem é uma lista dos nomes dos acionistas presentes ou representados nas duas últimas assembleias do banco, em 10.7.1902 e 26.2.1903. Nelas aparecem ainda cerca de 60 nomes, destacando-se membros das famílias Oliveira Castro/Alvim (16 nomes), Moreira Fonseca/Luz (oito) e Zenha/Nogueira de Moraes (sete). Desse modo, parece possível dizer que a diretoria do banco efetivamente precisava, em razoável medida, prestar contas aos acionistas – cuja impaciência e temores, aliás, podem ser surpreendidos em vários momentos nas entrelinhas dos relatórios da diretoria, dos pareceres do conselho fiscal e das atas das assembleias gerais12 .

É certo que, pelo que indicam os dados constantes nos balanços, o BRMT desfrutou sempre de uma situação relativamente sólida, até mesmo no contexto da crise nacional da virada do século. Tais dados indicam, de fato, uma tendência de crescimento dos depósitos e uma confortável disponibilidade de caixa, e os próprios empréstimos, embora não mostrem desempenho excepcional, parecem haver-se recuperado mesmo em meio à crise (cf. os balanços na série de relatórios de 1891 a 1901). Por outro lado, o banco jamais se caracterizou como uma instituição especialmente lucrativa (cf. Tabela 2). Ao contrário, sua rentabilidade apresenta uma clara tendência declinante, antes mesmo do agravamento da situação econômico-financeira do país no final do século XIX – o que certamente ajuda a compreender a aparente indisposição de parte dos acionistas.

 

 

No essencial, a ação do banco não parece haver-se dado na esfera da concessão de crédito. Ao contrário, o BRMT parecia constituir uma espécie de holding empenhada em outras atividades além daquelas propriamente ligadas à intermediação financeira, tanto que os próprios relatórios afirmam, reiteradamente, que as “operações industriais” constituíam a parte mais importante de suas atividades.

Na verdade, a julgar pelos documentos, o banco viveu, no que concerne às operações na praça do Rio, em estado de constante “retração”, em decorrência das crises econômicas e políticas de âmbito nacional (cf., p. ex., R-1892). É também constante o registro do descompasso entre as operações comerciais (desenvolvidas sobretudo no Rio) e as industriais (localizadas sobretudo em Mato Grosso). As primeiras, dizia Joaquim Murtinho em 1895, eram feitas “com a máxima prudência e mesmo com certo retraimento”; “em compensação, as operações industriais alargaram-se e tendem a desenvolver-se cada vez mais” (R-1895).

Na crise bancária de 1900, o BRMT parece haver-se colocado inicialmente em situação relativamente confortável: “conseguimos atravessar a crise”, diz o relatório, “fazendo sempre com pontualidade os nossos pagamentos” (R-1901). Mesmo assim, o banco havia sido “sensivelmente” afetado pelos efeitos da crise, tendo sido reduzido, pela primeira vez, o valor dos dividendos (R-1901). Já no ano seguinte, a situação do banco se teria tornado bem mais dramática, com o que se delineava o sombrio quadro que, logo em seguida, iria justificar a liquidação: “Os perniciosos efeitos da crise bancária de 1900 […] vieram modificar seriamente as boas condições de segurança e solvabilidade que acompanhavam em grande parte as nossas transações, ocasionando-nos com isso prejuízos verificados em não pequena monta” (R-1902).

Em Mato Grosso, o banco realizou operações comerciais por meio da caixa filial de Corumbá e da agência de Cuiabá – aliás, dirigida, até 1899, pelo conhecido líder político mato-grossense Pedro Celestino Corrêa da Costa. Pelo que se deduz dos relatórios, foi crescente, ao longo dos anos, o volume dessas operações, embora elas não pareçam ter sido jamais significativas no conjunto das atividades da instituição, em termos de produção de lucros.

Menciona-se regularmente a participação do banco no comércio exterior mato-grossense: “praças estrangeiras que têm negócios diretos com as de Mato Grosso”, diz-se em 1896, estavam “recorrendo ao Banco e por somas não pequenas, para realizar os respectivos embolsos e pagamentos” (R-1896). Mais para o fim do século, as transações em Mato Grosso aparecem como uma forma de compensar a queda nos negócios na praça do Rio de Janeiro. A diretoria resolve mesmo ampliar os recursos à disposição da caixa filial, e desde então o banco passaria a emitir por essa caixa “vales-ouro” para os pagamentos da tarifa em ouro sobre as mercadorias importadas (R-1899).

O BRMT interessou-se também, em Mato Grosso, pelo ramo da exploração da borracha.13 A julgar, contudo, pelo que dizem os relatórios, as relações do banco com esse ramo constituíram uma longa série de fracassos. No correr dos anos, os documentos denotam uma certa impaciência dos acionistas, à qual a diretoria, frequentemente auxiliada pelo conselho fiscal, responde com evasivas e palavras tranquilizadoras (cf., por exemplo, o modo como Joaquim Murtinho se refere ao tema in R-1895). E quando, entre 1900 e 1901, as perspectivas pareciam finalmente alvissareiras, elas foram destruídas pela irrupção de violentos conflitos políticos “nas localidades que estão em correspondência com a zona seringueira”, do que decorrera a falta de pessoal e “outros não pequenos prejuízos que a perturbação da ordem pública ocasiona” (R-1902). Desse modo, o banco entrou em liquidação sem haver chegado a beneficiar-se da exploração seringueira (cf. o relatório dos liquidantes, 1903).

Muito maior êxito obteve o banco, como foi dito, no ramo ervateiro. A exploração dos ervais do antigo sul de Mato Grosso teve início após a abertura da navegação brasileira pelo rio Paraguai, que representava uma fácil via de acesso ao principal mercado consumidor da erva-mate, a Argentina. Desde o início, essa atividade caracterizou-se por uma estreita vinculação entre as esferas pública e privada (Arruda, 1997). Como os ervais situavam-se em terras devolutas, o interessado dependia de autorização governamental para explorá-los, o que era feito por meio de arrendamentos por prazo determinado. Na década de 1870, começou a destacar-se nesse cenário um empresário chamado Tomás Laranjeira. Graças a suas relações de amizade com os dirigentes provinciais/estaduais, Laranjeira obteve sucessivas concessões, num processo que culminou, já em 1890, na obtenção de direitos exclusivos sobre uma vastíssima área, que abrangia quase toda a região ervateira do estado (Decreto nº 520, de 23.6.1890).

No ano seguinte, Laranjeira obteve também autorização para organizar, sob a denominação de Companhia Mate Laranjeira, uma sociedade anônima que teria como principal finalidade explorar sua concessão (cf. Decreto nº 436C, de 4.7.1891). Essa companhia foi efetivamente constituída em setembro de 1891, sendo que, das 15.000 ações em que se distribuía seu capital (três mil contos de réis), 14.540 foram subscritas pelo BRMT (cf. Arquivo Nacional – Fundo Junta Comercial do Rio de Janeiro, livro 62, reg. 1565).14 Desde então, os relatórios do BRMT consignam invariavelmente, a cada ano, os bons resultados financeiros da empresa e os grandes benefícios que daí resultavam para os acionistas do banco.

 

O “Porto Murtinho” e o amplo plano do BRMT no antigo sul de Mato Grosso

O exame da documentação sugere que a ação do BRMT em Mato Grosso correspondeu a um amplo plano, centrado no estabelecimento de um novo porto no médio Paraguai. De fato, o banco possuía, conforme já referido, uma concessão para a fundação de núcleos coloniais. Além disso, o contrato da CML com o governo exigia que a empresa, que efetuava suas operações comerciais pelo porto paraguaio de Concepción, passasse a efetuá-las por um porto situado em território mato-grossense (Corrêa Filho, 1925:20). Desse modo, Joaquim Murtinho e seus colaboradores (dentre os quais se destacou o engenheiro e político mato-grossense Antônio Corrêa da Costa15 ) deliberaram estabelecer no rio Paraguai um porto que, além de servir à exportação da erva e à montagem dos núcleos coloniais, pudesse tornar-se o entreposto do comércio de todo o extremo sul do estado (cf. ofício à presidência de Mato Grosso em 13.11.1894, in R-1895).

Embora se deva admitir que tal plano incluísse, no estilo daquele tempo, uma boa dose de simples retórica, parece inegável que, na época e condições em que foi formulado, esse projeto era bastante plausível. O extremo sul de Mato Grosso se constituía, especialmente após o final da guerra com o Paraguai, em uma típica frente de expansão, recebendo migrantes provenientes de outras províncias/estados (Minas Gerais, Goiás, São Paulo, Paraná, Rio Grande do Sul) e da República do Paraguai, os quais, além de se empregarem na extração ervateira, dedicavam-se à pecuária bovina. Para esses novos habitantes, o rio Paraguai constituía uma óbvia via de comércio. Até então, contudo, o único porto brasileiro nesse rio, habilitado para o comércio de importação e exportação, era o de Corumbá, situado em posição excêntrica e a enorme distância dessas zonas pastoris e ervateiras. Desse modo, os habitantes dessa região realizavam suas transações, em grande parte sob a forma de contrabando, com o referido porto de Concepción.

Nesse contexto, a argumentação em favor de um novo porto era verdadeiramente irrefutável: ele favoreceria a exportação de erva-mate, o povoamento, o abastecimento e o comércio em geral dos habitantes do sul e, ao atrair a corrente comercial dirigida a Concepción, ampliaria as rendas da União e do estado. Para o banco, os benefícios viriam sobretudo sob a forma da valorização de suas terras, tanto as dos núcleos coloniais como outras por ele adquiridas no mesmo local. Desse modo, pode-se talvez dizer que a ação do BRMT correspondeu a uma primeira tentativa de implantar, nessa região, uma autêntica “frente pioneira” (cf. Martins, 1971).

Uma vez que nas margens do rio Paraguai, na região em foco, “os terrenos devolutos são todos alagadiços na estação das águas”, o banco começou por adquirir, em julho de 1892, o único local considerado adequado para a fundação do porto: uma fazenda chamada Três Barras, com 4,3 mil ha (R-1893). Para efeito da “cessão gratuita” prevista no contrato referente aos núcleos coloniais, o banco escolheu terras contíguas à fazenda. Do porto para o interior, em direção aos ervais, a CML cuidou de abrir uma estrada, que deveria constituir um importante elemento de integração dos planos: além de oferecer uma “saída franca” para os futuros produtos dos núcleos coloniais (R-1893), ela valorizaria as terras do banco e constituiria o primeiro passo da pretendida transformação do porto em um grande entreposto.

Foi logo demarcada a área do primeiro núcleo colonial, com 50 mil ha (R-1894). O porto da antiga fazenda passou a ser denominado, pelo banco, “Porto Murtinho”, e ali já estavam “prontas e funcionando”, em 1894, “todas as construções e obras” destinadas à CML, isto é, as instalações do porto, depósito, “ponte para trapiche”, guindastes etc. (R-1895). Ao mesmo tempo, o banco tomava providências para a habilitação legal de seu porto, visto que todo o projeto dependia da existência, ali, de uma “mesa de rendas alfandegada” (R-1895). O banco parecia tão ansioso pela instalação da mesa que, como meio de “abreviar” o processo, mandou construir um “edifício apropriado” à repartição e ofereceu-o “gratuitamente” ao governo federal (R-1895).

A instalação de tal mesa foi, contudo, um processo demorado, efetivado apenas em maio de 1898 (cf. R-1899) e em cujo curso aparecem os primeiros sinais de mudança nos planos. A ausência da mesa dificultava, segundo os relatórios, o cumprimento do prazo que o banco tinha para fundar o primeiro núcleo (R-1896)16 . Assim, o banco terminou por obter do governo a novação de seu contrato. Pelas novas estipulações, assinadas em maio de 1898, o banco ficava dispensado da obrigação de colonizar a gleba de 50 mil ha já demarcada; ao mesmo tempo renunciava ao direito às outras nove glebas e a “todos os outros favores” originalmente previstos; contudo, a título de “compensação dos gastos” já feitos com o “beneficiamento” daquela primeira gleba, o banco adquiria plena e incondicional propriedade sobre ela (R-1898).

A despeito de tal mudança, o banco mantinha, pelo que consta, o projeto de fundar ali não apenas um núcleo colonial, mas também uma nova cidade. Segundo dizia Francisco Murtinho, “anunciamos o aforamento dos lotes de terrenos da cidade que temos projetada. O sucesso foi prometedor, pois já estão aforados muitos dos referidos lotes e a procura continua com certa animação” (R-1899). Mantinha-se igualmente o projeto de converter o Porto Murtinho em um polo comercial, conforme voltava a expor o presidente do banco no ensejo da efetiva instalação da mesa de rendas:

[a] Companhia Mate Laranjeira, que, por falta da Mesa de Rendas, tem demorado a sua mudança definitiva para aquele porto, naturalmente agora a fará, levando consigo importantes fatores de prosperidade para essa localidade. […] os ricos municípios do sul de Mato Grosso, até hoje tributários forçados da República do Paraguai, […] aproveitando a estrada aberta pela Companhia Mate Laranjeira, mudarão também para ali […] toda a sua corrente comercial […]. Com os poderosos elementos provenientes dessas duas mudanças, rapidamente se irá povoando o território adquirido pelo Banco e consequentemente aumentando o seu valor (R-1898).

Entretanto, os documentos do banco expressam, nos anos finais do século XIX, preocupações com a lucratividade de seus investimentos em Porto Murtinho, havendo indicações de que, até então, os gastos ainda superavam os lucros (cf., p. ex., R-1900). Além disso, as circunstâncias mostram claramente o fracasso do projeto do novo polo comercial. De fato, logo a diretoria constatava que, mesmo com a mesa de rendas, não seria tão fácil atrair o comércio para seu porto: a “corrente comercial emanada dos riquíssimos municípios do sul de Mato Grosso […] infelizmente continua, senão completamente, ao menos em grande parte a ser desviada para a vila Concepción” (R-1901; idem em R-1902). Desse modo, as últimas esperanças de salvação do projeto eram depositadas em uma controvertida tentativa de impedir a continuação do comércio ilícito por meio da repressão legal, nos termos de um convênio, assinado entre a União e o estado (cf. R. 1902), pelo qual se criava uma “guarda aduaneira”.17

 

O BRMT, a economia e a política do antigo Mato Grosso

Referindo-se à atuação empresarial de Joaquim Murtinho, seu biógrafo diz que, ao invés de simplesmente aventurar-se, “por atração ao ganho, em transações bolsistas”, ele “cuidaria de drenar boa porção dos recursos disponíveis de momento, gerados pela inflação, em benefício de sua terra natal” (Corrêa Filho, 1951:49). Fernando Faria, por outro lado, como já foi visto neste trabalho, prefere qualificar a ação dos Murtinho como “megaespeculação”, voltada a “monopolizar as concessões públicas e as oportunidades lucrativas” da economia mato-grossense (1993:213, 217).

A visão de Faria não é, por certo, propriamente equivocada. Zephyr Frank, por exemplo, assinala que oligarquias como a dos Murtinho “ruled on account of their guile, brute force, and control of sources of political patronage and economic resources linked, frequently, to state-sanctioned monopolies” (Frank, 1999:366; v. tb. Corrêa, 1995). É certo também que, como já foi apontado no início deste texto, surgia nessa época, no Brasil, um novo conjunto de “valores e modelos” (Herschmann & Pereira, 1994: 26). Com o advento da República, tem-se a “eclosão de um espírito que, se não era novo, se mantivera, no entanto, na sombra e em plano secundário: a ânsia de enriquecimento, de prosperidade material” (Prado Júnior, 1987:208). Esse novo “espírito”, por sua vez, estimulou o protagonismo de “aventureiros e especuladores de última hora”, presas de um “arrivismo sôfrego e incontido” (Sevcenko, 1985:26).

Mas parece igualmente certo que esse “novo espírito dominante” estimularia “ativamente a vida econômica do país, despertando-a para iniciativas arrojadas e amplas perspectivas” (Prado Júnior, 1987: 209). O próprio Sevcenko aponta, de fato, como “desfecho” do referido “processo de substituição das elites sociais”, a “consagração do progresso como o objetivo coletivo fundamental” (1985: 30). Enfim, com relação ao próprio Encilhamento, como já observou Maria Bárbara Levy, uma “reflexão menos apaixonada e mais científica” revela que ele “continha elementos positivos” e “acelerou o processo de formação de capital”, de modo que as empresas criadas na época não foram necessariamente simples “bolhas de sabão” (Levy, 1994: 141-142, 146). Desse modo, as descrições de Faria afiguram-se um tanto caricaturais, fundadas num viés moralista que não me parece o mais adequado à correta compreensão dos respectivos fenômenos.18

 

 

Sevcenko descreve a “regeneração” então em curso no Brasil como “um foco de vigorosas mudanças e uma atividade econômica febril, centrados numa cidade [no caso, o Rio de Janeiro] e irradiados para todo o seu hinterland, num único movimento convulsivo e irresistível” – um processo que podia, aliás, “ser entrevisto com pequenas diferenças temporais e variações regionais, por exemplo, em Paris ou em Buenos Aires, Nápoles, Belo Horizonte, São Paulo, Manaus ou Belém”. Tal processo relacionava-se ao impetuoso desenvolvimento do capitalismo em escala global, que estimulava, entre outras coisas, a instalação de infraestruturas destinadas “ao incremento das indústrias extrativas e ao beneficiamento de matérias-primas” – com o que se dotavam “as regiões de baixa ou nenhuma capitalização” com o “equipamento produtivo necessário para adaptar-se ao ritmo e ao volume da demanda” externa (1985: 44).

Nota-se, de fato, que o advento da República avivou o interesse empresarial pela economia mato-grossense. Entre 1891 e os anos iniciais do novo século registra-se a formação de várias empresas, fundadas no Rio de Janeiro, em Buenos Aires, em Montevidéu, na Bélgica etc., voltadas ao ramo das charqueadas, aos negócios da borracha e à extração de minérios como ouro, diamantes e manganês (cf., p. ex., Queiroz, 1997: 41-43).

É certo que poucas dessas empresas efetivamente prosperaram. De todo modo, o caso do BRMT parece ser uma experiência particularmente bem-sucedida (no que concerne, pelo menos, à economia ervateira) de impulso econômico irradiado do Rio de Janeiro para o hinterland. De fato, parece não haver dúvidas de que a criação do banco permitiu que capitais fossem reunidos e em seguida aplicados, em boa parte, em atividades produtivas, sobretudo em Mato Grosso. Foi, efetivamente, com os capitais aportados pelo banco que a Companhia Mate Laranjeira pôde expandir sua infraestrutura e sua produção e, em seguida, seus lucros. Capitais foram efetivamente imobilizados em Porto Murtinho, na construção de uma infraestrutura que foi amplamente utilizada pela CML e pouco depois (1911) deu origem a um novo município. As rendas provenientes da economia ervateira, enfim, chegaram a ser muito significativas no conjunto da receita do estado, embora fossem relativamente baixos os valores cobrados da CML sobre o arrendamento dos ervais e a exportação do produto. Em outras palavras, parece possível concluir que o banco contribuiu para o crescimento econômico regional, por meio, sobretudo, da expansão das atividades exportadoras.

É necessário, evidentemente, discutir os conteúdos concretos desse tipo de “desenvolvimento”. Trata-se aqui da conhecida modernização conservadora, conforme aponta Ianni ao assinalar que, no processo estimulado pela abolição e pela república, “estava em marcha uma singular revolução pelo alto” (Ianni, 2004:23). Para Ianni, de fato, a economia brasileira, vista em ampla perspectiva histórica, “moderniza-se de modo mais ou menos contínuo, crescente”; entretanto, “a própria sociedade moderniza-se pouco. As relações sociais e políticas desenvolvem-se com dificuldade […]. Além das heranças oligárquicas e patrimoniais, emergem os interesses dominantes aglutinados em diretrizes governamentais” (2004:109, 111).

Com relação especificamente ao caso mato-grossense, parecem-me especialmente valiosas as conclusões a que chegou Zephyr Frank, em sua pesquisa sobre as transformações ocorridas em Mato Grosso nesse período. Frank concluiu que o desenvolvimento das atividades exportadoras, ao mesmo tempo em que proporcionou uma elevação da renda per capita mato-grossense a níveis bem acima da média brasileira, acentuou, de fato, as desigualdades: “export-led growth contributes to higher levels of economic inequality” (Frank, 1999: 304-305). Tal conclusão parece aplicar-se especialmente ao caso da economia ervateira. Com efeito, pode-se supor que, sem os capitais reunidos pelo banco, não teria sido possível que uma única empresa lograsse explorar, com eficiência, a vasta concessão obtida por Laranjeira. Desse modo, portanto, talvez a economia ervateira sul-mato-grossense pudesse ter-se encaminhado para um padrão semelhante ao que era então adotado nos estados do sul do país, onde a exploração era realizada por um grande número de pequenos proprietários.

 

A liquidação do BRMT

Para iniciar essa discussão, é preciso lembrar que, durante o período de existência do banco, ocorreu uma grave cisão entre os integrantes do grupo político que, desde 1891, estava no poder em Mato Grosso, isto é, o grupo que incluía, além dos Murtinho, lideranças como Generoso Ponce e os irmãos Antônio e Pedro Celestino Corrêa da Costa. Em 1898, Manuel Murtinho negou-se a apoiar o nome escolhido por Ponce para a presidência do estado. Ponce, contudo, insistiu em seu candidato e levou-o à vitória, em março de 1899.

Nos termos da “política dos governadores”, arquitetada pelo então presidente Campos Salles, deveria ter prevalecido o eleito de Ponce, já que este último detinha o controle da maior parte do Partido Republicano em Mato Grosso. Entretanto, Campos Salles preferiu, neste caso, prestigiar o irmão de seu ministro da Fazenda. Desse modo, as tropas federais em Mato Grosso permaneceram impassíveis enquanto, por meio de violenta pressão armada, os aliados reunidos por Manuel Murtinho forçaram a Assembleia Legislativa a convocar novas eleições – nas quais, como seria de esperar, foi “eleito” o candidato de Murtinho. Reagindo finalmente, por sua vez, às continuadas perseguições e violências praticadas pelos novos donos do poder, os poncistas desfecharam em 1901 uma revolta armada – a qual foi, contudo, violentamente sufocada pelas forças governamentais, formadas majoritariamente por tropas irregulares arregimentadas pelos “coronéis” situacionistas (cf. Corrêa Filho, 1933; Corrêa, 1995).

Como resultado desse processo, o estado, que havia conseguido liquidar toda a sua dívida e vinha registrando sucessivos e crescentes saldos orçamentários, viu suas finanças entrarem em rápido colapso. Para sustentar a repressão à revolta poncista, o governo recorreu a empréstimos e ao lançamento de apólices, de tal modo que, em 1902, a dívida ascendia já a cerca de 2,6 mil contos de réis, enquanto a receita caía de 3,8 mil contos no mesmo ano a 1,6 mil em 1904 (cf. Mensagem19 do presidente do estado em 10.1.1903; Corrêa, 1995:89). O mesmo processo igualmente repercutiu sobre o BRMT. Em primeiro lugar, a ruptura política privou o banco de dois importantes colaboradores em Mato Grosso, os quais preferiram permanecer leais ao derrotado Ponce, os já citados irmãos Corrêa da Costa.20 Além disso, os conflitos armados ocorridos em 1901 atingiram, com particular violência, o município de Diamantino, onde se situavam as bases de operação de muitas empresas de exploração da borracha, entre as quais aquela criada pelo banco.

Na historiografia mato-grossense/sul-mato-grossense encontra-se difusamente presente a ideia de que essa ruptura política teve um fundo econômico, isto é, a necessidade, por parte “dos Murtinhos”, de proteger as concessões da Companhia Mate Laranjeira – para o que era sempre necessário “ter gente na política e em posições de mando” (Menezes, 2007:93-94). Na verdade, contudo, até onde se sabe, nada indica que, antes da ruptura de 1899, os interesses econômicos “dos Murtinho” estivessem sob ameaça. Ao contrário, o que se percebe é que pelo menos os Murtinho e os Corrêa da Costa estavam juntos e felizes, no poder e no banco. A historiografia, aliás, não costuma realçar a presença dos Corrêa da Costa no BRMT, o que pode ser interpretado como um sinal de sua dificuldade (sobretudo no que concerne à historiografia “tradicional”, que mais se ocupou de temas da história política) em admitir que as disputas políticas internas tiveram, como mostrou Frank, um grande peso negativo na trajetória econômica de Mato Grosso:

the most frequently adduced factors in frontier underdevelopment – imperialism, dependency, and a failed transition to capitalism – while important, were not primary causes for Mato Grosso’s failure to develop economically […]. The roots of underdevelopment in Mato Grosso were, instead, geographical, cultural, administrative, and political – that is, endogenous factors (Frank, 1999:435).

Em outras palavras, o que é preciso explicar neste caso, a meu ver, não é a necessidade “da Companhia” ter amigos poderosos (isso é evidente) mas sim o contrário, isto é: por que “a Companhia” (na verdade, o banco) perdeu em 1899 parte desses amigos, que estavam com ela desde o começo.

O fato de os Corrêa da Costa só se terem afastado do BRMT após o agravamento do confronto entre Ponce e Manuel Murtinho, em 1899, parece sugerir a hipótese de que a gênese dessa ruptura não é econômica, mas essencialmente política. De fato, a julgar pela unânime avaliação da historiografia, Manuel Murtinho não se considerava “abaixo” de Ponce, e certamente viu na ascensão do irmão Joaquim ao ministério de Campos Salles a oportunidade de disputar a primazia do mando em Mato Grosso. As atitudes de Ponce, por sua vez, contribuíram para o desenrolar da disputa: inebriado com o próprio prestígio, Ponce começara a abusar de sua liderança, numa atitude fortemente personalista (Corrêa Filho, 1933:46-47; Menezes, 2007:54). O que se desenha aí, portanto, parece ser em grande parte uma disputa de egos, um confronto entre o extremo personalismo de Generoso Ponce e a fria ambição de Manuel Murtinho.21

Feitas estas considerações, pode-se agora voltar ao tema da liquidação do BRMT. A esse respeito, a historiografia veicula uma versão segundo a qual essa liquidação teria sido um processo “fraudulento” (v., p. ex., Corrêa Filho, 1925: 41-42; Faria, 1993: 225-229). Tal versão – formulada e difundida, ainda em 1902, pelo próprio Antônio Corrêa da Costa, ex-superintendente industrial do banco em Mato Grosso, e por Generoso Ponce, então senador – sustenta que as ações do banco haviam sido deliberadamente conduzidas à desvalorização por meio de manobras das diretorias da CML e do banco (ambas presididas por Francisco Murtinho).

Penso, contudo, que essa explicação não pode ser acolhida sem maior exame e discussão, pois foi produzida num contexto de violenta luta política. De fato, Corrêa da Costa podia ter sido, até 1899, um importante funcionário do BRMT; já em 1902, contudo, era um feroz adversário do grupo em que haviam ficado os Murtinho. Seu próprio grupo havia sofrido, tanto antes como depois da tentativa de revolta em 1901, inúmeras violências, praticadas ou sustentadas, direta ou indiretamente, pelos mesmos Murtinho. Além disso, penso que devemos sempre colocar sob suspeição toda explicação, em História, que envolva raciocínios de tipo “conspiratório”. Como já foi visto, não parece possível dizer que “os Murtinho” detinham total controle do BRMT, de modo que, para além do aspecto em si nebuloso das supostas manobras de diretoria, parece duvidoso que tais manobras fossem capazes de iludir experimentadas figuras do meio financeiro do Rio de Janeiro.

Assim, caso se rejeite ou pelo menos suspenda a ideia de uma conspiração, pode-se dizer que os dados do último relatório da diretoria do banco – somados, ademais, ao já referido histórico de baixa rentabilidade da instituição – eram efetivamente desanimadores: 1) depois de anos de espera pela mesa de rendas de Porto Murtinho, descobre-se que ela não atrairia tão “naturalmente” as correntes de comércio, e seu êxito ficava na dependência de uma “fiscalização” que não poderia ser senão inócua, como podia concluir qualquer pessoa que tivesse uma mínima noção da enorme porosidade das fronteiras secas do extremo sul do estado; 2) depois de anos de espera pelos lucros da borracha, fatores “extraordinários” desmanchavam, de um golpe, toda a estrutura montada; 3) a própria CML, embora em boa situação, lucrava menos, devido sobretudo à alta cambial, enquanto no Rio a situação da praça, que nunca fora boa, ficava pior.

Vistas as coisas por esse ângulo, talvez não se possa considerar despropositada a decisão dos acionistas – os quais, em face do sombrio relatório de 1902, aprovaram a realização de um estudo “sobre a conveniência ou não de entrar o Banco em liquidação amigável” (Ata da assembleia geral ordinária, 31.5.1902). As análises então realizadas parecem mostrar duas coisas: as elevadas expectativas com os lucros da borracha e o temor da instabilidade política em Mato Grosso. De fato, o referido estudo, apresentado em julho de 1902, dizia expressamente que, para compensar as reduções no ativo comercial, decorrentes da crise bancária, contava-se “com os recursos extraordinários que deviam produzir os novos empreendimentos industriais, montados em grande escala no Estado de Mato Grosso” – o que, porém, fora frustrado pela “revolução” ocorrida nesse estado. Enfatizando, assim, tanto as “condições desfavoráveis” da praça do Rio como a “situação de luta intensa em que se acham atualmente os partidos políticos em Mato Grosso”, os autores concluem, dirigindo-se aos acionistas, que seria “duvidoso prosseguir nas operações do banco sem arriscar totalmente a sorte do vosso capital”. A liquidação amigável era, portanto, a solução recomendada, uma vez que o banco achava-se “em situação de pagar integralmente aos seus credores” (Ata da assembleia geral extraordinária em 10.7.1902).

 

Conclusão

Ao que tudo indica, a ação do BRMT em Mato Grosso correspondeu a um amplo plano que, embora incluindo e integrando a exploração ervateira, ia além dela. Embora apenas parcialmente exitosa, essa ação contribuiu para o crescimento econômico regional, tendo representado uma notável experiência de impulso econômico irradiado do Rio de Janeiro para o hinterland nacional. No entanto, na medida em que se resumiu, ao fim e ao cabo, à esfera das atividades primário-exportadoras, esse crescimento foi caracteristicamente excludente: implicou em maior desigualdade, gerou novos latifúndios, propiciou acumulação de capital fora da região etc.

A trajetória do BRMT parece mostrar, enfim, o quanto as atividades econômicas, em Mato Grosso, podiam ser afetadas pelas disputas internas pelo poder. De fato, o banco não parecia estar necessariamente “fadado a soçobrar” (expressão de Corrêa Filho, 1951:50), nem em função da crise bancária de 1900 nem, muito menos, por haver sido um produto do Encilhamento. Desse modo, a violenta ruptura do equilíbrio de poder naquele estado pode ter sido determinante na própria decisão acerca da liquidação do estabelecimento.

 

Notas

1 Aqui designado, por comodidade, pela sigla BRMT.

2 Como apontou Carlos Marichal, “en la mayoría de las historias económicas generales” prestava-se “poca atención al papel de los bancos en la evolución económica a largo plazo” (2002: 47).

3 Toda a legislação referida neste trabalho pode ser consultada em www2.camara.gov.br/legislacao.

4 Os irmãos Murtinho (Manuel, Joaquim e Francisco) eram naturais de Cuiabá, de onde saíram ainda jovens para estabelecerem-se, de modo praticamente definitivo, no Rio de Janeiro (embora os dois primeiros, sobretudo, mantivessem estreitos vínculos políticos com o estado natal).

5 Para simplificar a redação, os relatórios apresentados pela diretoria do banco às assembleias de acionistas são aqui designados pela letra R seguida do ano em que se realizou a assembleia (ficando claro, portanto, que um relatório assim designado se refere às atividades do ano anterior).

6 Antes da abertura do rio Paraguai à navegação brasileira (1856), Cuiabá era o principal polo comercial da então província de Mato Grosso. Após 1856, essa função foi sendo gradativamente assumida por Corumbá (estrategicamente situada às margens daquele rio), onde tenderam a concentrar-se as casas comerciais que efetuavam o comércio de importação e exportação (v. Figura 1, ao final do texto).

7 Como se sabe, a porção meridional do antigo Mato Grosso, onde se situavam os ervais, foi transformada, em 1977, no atual estado de Mato Grosso do Sul.

8 É preciso notar que, nesse documento, muitos nomes aparecem total ou parcialmente ilegíveis, uma vez que a lista foi preenchida pelos próprios subscritores, os quais, em alguns casos, no lugar dos nomes apuseram simplesmente suas assinaturas.

9 Concedia-se “ao engenheiro Francisco Murtinho e ao Banco Construtor do Brasil” uma ferrovia que, partindo de Catalão (Goiás) e passando por Cuiabá, terminaria na fronteira de Mato Grosso com a Bolívia (art. 4º).

10 A respeito do “vasto grupo de associados” de Mayrink, ver Carvalho, 2004:126.

11 Essas listas não se encontram nos relatórios do banco nem entre os demais documentos existentes no fundo da Junta Comercial. O fundo da Bolsa de Valores do Rio de Janeiro (Arquivo Nacional), por sua vez, não possui quaisquer documentos do BRMT.

12 Na Assembleia de 1894, por exemplo, um acionista chegou a questionar abertamente a diretoria a respeito de um deficit verificado na caixa filial de Corumbá (cf. Ata da Assembleia de 29.5.1894), e no ano seguinte o conselho fiscal julgava mesmo necessário defender expressamente as concessões que faziam parte do ativo do banco, “concessões que hoje seriam dificilmente obtidas” e cujo eventual abandono “jamais teria justificação plausível” (in R-1895).

13 Como se sabe, a porção norte de Mato Grosso, pertencente à Amazônia, possuía extensos seringais.

14 Para não alongar demasiadamente o presente texto, deixo de referir-me às diferentes versões apresentadas pela historiografia acerca do processo pelo qual “os Murtinho” se tornam proprietários da concessão de Laranjeira (v., a esse respeito, Arruda, 1997). Registro, de todo modo, que esse empresário continuou vinculado ao negócio como integrante da administração tanto da CML como do BRMT.

15 Nomeado, em dezembro de 1891, “superintendente industrial” do banco em Mato Grosso (R-1893).

16 Joaquim Murtinho descreve, a tal respeito, uma situação que parece verdadeiramente surreal: era necessário que todo o material importado para as obras fosse “primeiro a Corumbá sujeitar-se às devidas formalidades fiscais, tendo depois de voltar a Porto Murtinho”, com enorme acréscimo de tempo e despesas (R-1895).

17 Essa guarda, contudo, não durou senão alguns meses, tendo sido desativada após um ataque armado comandado por grupos interessados no comércio com Concepción.

18 A esse respeito penso ser válida, embora referida a um contexto algo diverso, a seguinte observação de Hobsbawm: “mesmo o homem de negócios mais limitado à procura do lucro em, digamos, minas sul-africanas de ouro e diamantes jamais pode ser tratado exclusivamente como uma máquina de ganhar dinheiro. Ele não ficava imune aos apelos políticos, emocionais, ideológicos, patrióticos ou mesmo raciais associados de modo tão patente à expansão imperial” (Hobsbawm, 1988: 94-95).

19 As mensagens presidenciais aqui referidas podem ser consultadas em www.crl.edu/content/brazil/mato.htm.

20 Para se avaliar o peso político desses colaboradores, basta lembrar que ambos chegaram à presidência do estado: Antonio ainda na década de 1890 e Pedro Celestino em duas oportunidades, nas décadas iniciais do século XX.

21 Abusando, talvez, da imaginação, arrisco-me mesmo a sugerir que os demais personagens importantes desse processo foram levados a assumir certas posições contra a sua própria vontade. Em outras palavras, a espiral de violência desencadeada em 1899 por Manuel Murtinho, ao estrangular o espaço de atuação política, arrastou para campos opostos, pela força das respectivas lealdades, personagens que nenhum outro motivo teriam para desentender-se – como, de um lado, os Corrêa da Costa e, de outro, o próprio Joaquim Murtinho.

 

Referências bibliográficas

ALVES, Gilberto Luiz. Mato Grosso e a história – 1870-1929: ensaio sobre a transição do domínio econômico da casa comercial para a hegemonia do capital financeiro. Boletim Paulista de Geografia, S. Paulo, n. 61, 1984, p. 5-81.         [ Links ]

ARRUDA, Gilmar . Frutos da terra: os trabalhadores da Matte-Larangeira. Londrina: UEL1997.         [ Links ]

BORGES, Fernando T. M. Do extrativismo à pecuária: algumas observações sobre a história econômica de Mato Grosso – 1870 a 1930. 2. ed. São Paulo: Scortecci, 2001.         [ Links ]

CARVALHO, Ney. O Encilhamento: anatomia de uma bolha brasileira. Rio de Janeiro: Comissão Nacional de Bolsas, 2004.         [ Links ]

CORRÊA FILHO, Virgílio. À sombra dos hervaes mattogrossenses. São Paulo: Ed. S. Paulo,1925.         [ Links ]

____________. A República em Matto Grosso. Revista do Instituto Histórico de Matto Grosso, Cuiabá, ano 15, t. 29-30, 1933, p. 3-81.         [ Links ]

____________. Joaquim Murtinho. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional,1951.         [ Links ]

CORRÊA, Lúcia S. História e fronteira: o Sul de Mato Grosso, 1870-1920. Campo Grande: UCDB, 1999.         [ Links ]

CORRÊA, Valmir B. Coronéis e bandidos em Mato Grosso: 1889-1943. Campo Grande: UFMS, 1995.         [ Links ]

FARIA, Fernando A. Os vícios da Re(s)pública: negócios e poder na passagem para o século XX. Rio de Janeiro: Notrya, 1993.         [ Links ]

FRANK, Zephyr. The Brazilian far west: frontier development in Mato Grosso, 1870-1937. Tese (Doutorado em História) – University of Illinois at Urbana-Champaign, Estados Unidos, 1999.         [ Links ]

HERSCHMANN, Micael & PEREIRA, Carlos A. Messeder. O imaginário moderno no Brasil. In: __________ (orgs.). A invenção do Brasil moderno. Rio de Janeiro: Rocco, 1994, p. 9-42.         [ Links ]

HOBSBAWM, Eric. A era dos impérios (1875-1914). Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988.         [ Links ]

IANNI, Octávio. A ideia de Brasil moderno. 3. reimpr. São Paulo: Brasiliense, 2004.         [ Links ]

ITO, Claudemira A. Corumbá: o espaço da cidade através do tempo. Campo Grande: UFMS, 2000.         [ Links ]

LEVY, Maria Bárbara. História da Bolsa de Valores do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: IBMEC, 1977.         [ Links ]

______ . A indústria do Rio de Janeiro através de suas sociedades anônimas: esboços de história empresarial. Rio de Janeiro: UFRJ, 1994.         [ Links ]

LUZ, Nícia Vilela. Joaquim Murtinho e o darwinismo econômico. In: IDEIAS econômicas de Joaquim Murtinho. Brasília: Senado Federal, 1980.         [ Links ]

MARICHAL, Carlos. Historiografía de la banca latinoamericana: su despegue, 1970-1993″. In: SZMRECSÁNYI, Tamás e MARANHÃO, Ricardo (orgs.). História de empresas e desenvolvimento econômico. São Paulo: Hucitec, 2002.         [ Links ]

MARTINS, José de Souza. Frente pioneira: contribuição para uma caracterização sociológica. Estudos Históricos, Marília, n. 10, 1971, p. 33-41.         [ Links ]

MENEZES, Alfredo M. A morte de Totó Paes: política no interior do Brasil. Cuiabá: Carlini & Caniato, 2007.         [ Links ]

PRADO JÚNIOR, Caio. História econômica do Brasil. 35. ed. São Paulo: Brasiliense, 1987.         [ Links ]

QUEIROZ, Paulo R. Cimó. As curvas do trem e os meandros do poder: o nascimento da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil (1904-1908). Campo Grande: UFMS,1997.         [ Links ]

SAES, Flávio A. M. de. Crédito e bancos no desenvolvimento da economia paulista: 1850-1930. São Paulo: IPE/USP1986.         [ Links ]

_____. A moeda, o crédito e o financiamento da produção. Estudos Avançados, São Paulo, vol. 15, n. 41, p. 77-90. 2001        [ Links ]

SEVCENKO, Nicolau. 1985. Literatura como missão: tensões sociais e criação cultural na Primeira República. 2. ed. São Paulo: Brasiliense.         [ Links ]

SINGER, Paul. O Brasil no contexto do capitalismo internacional – 1889-1930. In: FAUSTO, B. (dir.) . História geral da civilização brasileira. 4. ed. São Paulo: Difel, t. 3, vol. 1, 1985, p. 345-390.         [ Links ]

SOUZA, João C. de. Sertão cosmopolita: tensões da modernidade de Corumbá (1872-1918). São Paulo: Alameda, 2008.         [ Links ]

Documentos do Banco Rio e Mato Grosso:

Ata da assembleia de constituição [29.1.1891]. Diário Official da União, Rio de Janeiro, 20 mar. 1891, p. 1187-1190.         [ Links ]

Ata da assembleia extraordinária de 14.1.1892 – Arquivo Nacional, Fundo Junta Comercial do RJ, livro 65, registro 1701.         [ Links ]

Ata da assembleia geral ordinária em 29.5.1894. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 27 jun. 1894, p. 6.         [ Links ]

Ata da assembleia geral ordinária em 31.5.1902. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 14 jun. 1902, p. 5.         [ Links ]

Ata da assembleia geral extraordinária em 10.7.1902. Diário Official da União, Rio de Janeiro, 23 jul. 1902, p. 3157-3158.         [ Links ]

Lista de subscritores das ações [jan. 1891] – Arq. Nacional, Fundo Junta Comercial do Rio de Janeiro, livro 54, registro 1333.         [ Links ]

Relatórios anuais apresentados às assembleias ordinárias dos acionistas, publicados no Jornal do Commercio do Rio de Janeiro nas seguintes edições: 22.5.1892 (p. 8); 21.5.1893 (p. 6); 27.5.1894 (p. 5); 26.5.1895 (p. 4); 26.5.1896 (p. 8); 2.5.1897 (p. 6); 28.5.1898 (p. 4-5); 29.5.1899 (p. 4); 29.5.1900 (p. 5); 29.5.1901 (p. 6); 31.5.1902 (p. 4).         [ Links ]

Relatório dos liquidantes [à] assembleia geral de 26 de fevereiro de 1903. Diário Official da União, RJ, 26 fev. 1903, p. 1112.         [ Links ]

Documento da Companhia Mate Laranjeira:

Escritura de constituição da sociedade anônima “Companhia Matte Laranjeira” [5.9.1891] – Arquivo Nacional, Fundo Junta Comercial do Rio de Janeiro, livro 62, registro 1565.         [ Links ]

 

 

Artigo recebido em 29 de dezembro de 2009 e aprovado para publicação em 8 de abril de 2010.

 

 

Paulo Roberto Cimó Queiroz é Professor associado da Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD) e estagiário de pós-doutorado pela Universidade Federal Fluminense, 2008-2009 (prcqueiroz@uol.com.br).

 

 

Este trabalho é parte de uma pesquisa maior, desenvolvida, com bolsa do CNPq, no âmbito de um estágio de pós-doutoramento recém-realizado na UFF. Foi apresentado, em uma primeira versão, no 8º Congresso Brasileiro de História Econômica / 9ª Conferência Internacional de História de Empresas, realizados em Campinas em set. 2009. O autor agradece o auxílio do Prof. Flávio Saes na interpretação dos balanços do banco – assumindo, contudo, integral responsabilidade pelas conclusões aqui expostas.

Creative Commons License All the contents of this journal, except where otherwise noted, is licensed under a Creative Commons Attribution License

José de Mesquita

 

 

BIOGRAFIA
José de Mesquita
COLETÂNEA DE OBRAS
Poesias (Poesias, 1919)
Elogio histórico, do Dr. Antonio Correa da Costa (Discurso, Revista IHMT, 1920)
Relatório da Administração da Justiça de Mato Grosso (Relatório da Procuradoria Geral do Estado, 1920)
O Capitão-mór André Gaudie Ley (Ensaio de reconstituição histórico-genealógica, Revista IHMT, 1921)
Elogio histórico, de Dom Carlos Luiz de Amour e Antonio Modesto de Melo (Discurso, Revista IHMT, 1921)
Mato Grosso através de sua literatura (Ensaio, Revista do Brasil, Rio de Janeiro,1924)
Elogio fúnebre, do General Doutor Caetano Manoel de Faria e Albuquerque (Discurso, Revista IHMT, 1925)
Um homem e uma época (Ensaio biográfico de José Barnabé de Mesquita “Senior”, Revista IHMT, 1925)
Uma efeméride notável (Discurso, Revista IHMT, 1926)
A Cavalhada (Contos, 1927)
Terra do Berço (Prefácio de D. Aquino Correa, Sonetos, 1927)
Elogio Fúnebre do Professor João Pedro Gardez (Discurso, Revista IHMT, 1927)
Monsenhor Bento Severiano da Luz (Ensaio biográfico, Revista IHMT, 1927)
Um Paladino do Nacionalismo, Elogio do Doutor José Vieira Couto de Magalhães (Discurso, Revista AML, 1928)
Thaumaturgo do Sertão (Ensaio Biográfico – Frei José Maria de Macerata, Revista IHMT, 1928)
Semeadoras do Futuro (Discurso paraninfal, Escola Normal de Cuiabá, Cuiabá, 1929)
Da Epopéia Matogrossense (Sonetos, 1930)
Corá (Conto sertanejo, Revista Nova, São Paulo 1931)
Do Jardim Místico (Sonetos, Revista AML, 1931)
Um rapaz alegre (Conto, Revista CML, 1931)
O poeta da “Flor de Neve” (Ensaio, Revista de Cultura, Rio de Janeiro, 1931)
Grandeza e decadência da Serra Acima (Ensaio de reconstituição histórica, Revista IHMT, 1932)
Elogio histórico dos sócios Des. Luis da Costa Ribeiro e Dom Antonio Maria Malan (Discurso, Revista IHMT, 1932)
Atentado contra a Justiça (Tese de Direito, 1932)
Espelho de Almas (Contos, Premiado pela Academia Brasileira de Letras, 1932)
João Poupino Caldas (Ensaio Biográfico, Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso, 1934)
Epítome da Historia Literária de Mato Grosso (Ensaio, Revista de Cultura, Rio de Janeiro, 1934)
Elogio fúnebre de João Cunha, João Carlos Pereira Leite e Joaquim Pereira Ferreira Mendes (Revista IHMT, 1935)
O Sentido da Literatura Matogrossense (Conferência, Centro Mato-grossense, Rio de Janeiro, 1936)
Pela Boa Causa (Conferências, Leituras Católicas, Niterói, 1936)
Ao Contacto da Mocidade (Oração, Inauguração do Grêmio Literário José de Mesquita, Cuiabá, 1936)
O Natal do comunista (Conto, Revista de Cultura, Rio de Janeiro, 1936)
Primeira Missa (Poesia, Revista de Cultura, Rio de Janeiro, 1936)
As Duas Imprensas (Soneto, Revista de Cultura, Rio de Janeiro, 1936)
A reconstitucionalização (Discurso, Tribunal de Justiça de Mato Grosso, Cuiabá, 1936)
Letras Mato-grossenses (Conferência, Seção especial, 1º Congresso das Academias de Letras, Rio de Janeiro, 1936)
A Academia Mato-grossense de Letras (Tese, 1º Congresso das Academias de Letras, Rio de Janeiro, 1936)
Evolução e Aspectos da Criminalidade em Cuiabá (Tese, Conferência Brasileira de Criminologia, Rio de Janeiro, 1936)
Alberto Rangel – Gastão de Orléans – O Último Conde D’Eu, São Paulo,1935 (bibliografia, 1936)
Coletânea de Poesias(Poesias, Revista de Cultura, Rio de Janeiro, 1937-1941)
As Necrópoles Cuiabanas (Ensaio de reconstituição histórica, Revista IHMT, 1937)
Piedade (Romance, 1937)
Literatura Borora (Ensaio, Anuário Brasileiro de Literatura, Rio de Janeiro, 1938)
Sonetos (Sonetos, Revista AML, 1938)
Centenário de Couto de Magalhães (Discurso, Revista AML, 1938)
Invocação a Jesus (Oração, 1939)
O sentimento de brasilidade na história de Mato Grosso (Discurso, Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, RJ, 1939)
Professoras novas para um Mundo novo (Discurso paraninfal, Escola Normal Joaquim Murtinho, Campo Grande, 1939)
De Lívia a Dona Carmo (Tese, 2º Congresso das Academias de Letras e de Intelectuais, Rio de Janeiro, 1939)
Sorocabanos em Mato Grosso (Crônica, Anuário Genealógico Brasileiro, 1939)
Livros de minha estante (Crônica, Jornal “A Cruz”, Cuiabá, 1939)
Manoel Alves Ribeiro (Ensaio Biográfico, 3º Congresso de História Nacional, Rio de Janeiro, 1938)
Paz e Justiça (Oração, Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, São Paulo, 1939)
A Chapada Cuiabana (Ensaio de Geografia, 9º Congresso Brasileiro de Geografia, Florianópolis, 1940)
O Exército, fator de brasilidade (Discurso aos soldados, 16º Batalhão de Caçadores e da Policia Militar, Cuiabá, 1940)
A descendência de Ricardo Franco (Ensaio Genealógico, Anuário Genealógico Brasileiro, 1940)
Rondon, o novo bandeirante (Discurso, Revista IHMT,1940)
Os Jesuítas em Mato Grosso (Discurso, Centenário da Companhia de Jesus, Revista IHMT, 1940)
O Adeus da Academia ao Acadêmico Franklin Cassiano da Silva (Discurso, Revista AML, 1940)
Centenário do Patrono Prof . José Estevão (Discurso, Revista AML, 1940)
Do Poema da Serra (Sonetos dedicados á Chapada dos Guimarães, Revista AML, 1940)
A Política Nacional do Rumo a Oeste (Discurso, Boletim do Ministério do Trab. Ind. e Com., Rio de Janeiro, 1941)
A Academia Mato-grossense de Letras (Notícia Histórica, Escolas Profissionais Salesianas de Cuiabá, 1941)
Sonetos para minha mãe e minha mulher (Sonetos, Revista de Cultura, 1941)
Três Poemas da Saudade (Poemas, 1943)
Espírito Mato-Grossense (Ensaios de história política de MT, Revista Cultura Política, Rio de Janeiro, 1941-1943)
Troncos raciais da família Mato-Grossense (Ensaio, Revista Cultura Política, Rio de Janeiro, 1942)
Uma Década de Trabalho Cultural (Discurso, Revista AML, 1943)
Bibliografia da Academia Mato-grossense de Letras (Bibliografia, com a colaboração de Firmo Rodrigues, 1944)
Escada de Jacó (Sonetos, 1945)
Monólitos Eternos (Orações, Revista AML, 1945)
A Pátria e a Academia (Discurso, Revista AML, 1946)
Notas para futuros linhagistas (Ensaio genealógico, Revista Genealógica Brasileira, São Paulo, 1946)
Apelação Cível (Apelação, ao Tribunal de Justiça de Mato Grosso, 1946)
A Suspeição de natureza íntima – 1946 (Interpretação do CPC, Anais Forenses de Mato Grosso, 1951)
No Tempo da Cadeirinha (Contos, 1946)
Roteiro da Felicidade (Sonetos, 1946)
Recurso Extraordinário (Recurso, ao Supremo Tribunal Federal, 1946)
Trechos do “Poemas para Voce” (Poemas, Revista AML, 1947)
Poemas do Guaporé (Poemas, 1947)
As mulheres na obra de Eça de Queiroz (Ensaio literário, Revista das Academias de Letras, Rio de Janeiro, 1948)
Nos Jardins de São João Bosco (Discursos e Conferências acerca da Obra Salesiana em Mato Grosso, 1949)
Tratado de Madri (Discurso, Revista AML, 1950)
Ilha dos Amores (Poesias, Revista da AML, 1951)
Mato Grosso na Guerra do Paraguai (Crônica da serie “Gente e coisas de antanho”, Revista IHMT, 1952)
A Poesia de Dom Aquino (Ensaio biográfico, Revista AML, 1956)
Aspectos Literários de Cuiabá (Entrevista ao Jornal Gazeta de São Paulo, 1957)
Gente e Coisas de Antanho (Coletânea de crônicas de 1934-1937, Reedição AML, 1978)
Genealogia Matogrossense (Ensaio genealógico, Revista IHGMT, Reedição AML, 1992)
CONFISSÕES (1961)
IN EXTREMIS – O Último Soneto (Soneto, 1961)
José Barnabé de Mesquita (Senior) e a AML
Philogonio de Paula Corrêa (Alocução fúnebre, Revista IHGMT, 1952)
Carta ao Dr. Francisco Leal de Queiroz (Carta, 1959)
Relação de Obras Publicadas
Ex Libris de José de Mesquita (Desenho de Benilde Borba de Moura)
Acervo José de Mesquita
DOCUMENTOS DIVERSOS
Ata Instalação do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso – 1919
Ata Instalação da Academia Mato-grossense de Letras – 1921
Um discípulo de Machado de Assis (Critica literária, Modesto de Abreu, Boletim de Ariel, 1936)
Rubens de Mendonça (Artigo, 1985)
Estilística em José de Mesquita (Benedito Pedro Dorileo, Revista IHGMT, 1992)
Vila Maria dos Meus Maiores, Luiz-Philippe Pereira Leite – 1977
Academia Mato-grossense de Letras (Revista In Memoriam de José de Mesquita – 1961)
Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso (Revista em Homenagem ao Centenário de José de Mesquita, 1992)
Ronald Hilton, Who’s Who in Latin America, Part VI, Brazil, p.158, Stanford University Press, 1945, 3rd Edition
Homenagem Póstuma no Senado Federal – 05/07/1961
Academia Sul-Mato-grossense de Letras, Revista nº 2 – 2003
O Direito em Ação – José Jayme Ferreira de Vasconcellos (Prefácio de José de Mesquita, 1937)
Um poeta mato-grossense (Bibliografia, VEIGA MIRANDA, João Pedro da – 1936)
Rica/Bendita; Pobre/Mal-dita: as cores da mulher em José de Mesquita (Dissertação, Luiz Renato de Souza Pinto)
Ilegalismos e jogos de poder: um crime célebre em Cuiabá 1872 (Tese, Oswaldo Machado Filho, UNICAMP, 2003)
Crucina (Artigo, Yasmin Nadaf, Revista do IHGMT,Num. 71, 2012)
LINKS RELACIONADOS
Academia Sul-Mato-Grossense de Letras (Cadeiras, Site)
Tribunal de Justiça de Mato Grosso – Memorial do Poder Judiciário Des. José de Mesquita (Noticia, 03/05/2005)
Tribunal de Justiça de MT – Medalha José de Mesquita – Ministros Nelson Jobim e Gilmar Mendes (10/06/2005)
Tribunal de Justiça de Mato Grosso – Medalha José de Mesquita – Ministra Ellen Gracie (Noticia, 22/09/2006)
TJMT – Medalha José de Mesquita – Juízas Arline Pacht, Joan Winship e Leslie Alden (Noticia, 19/09/2008)
Antonio Miranda – Poesia dos Brasis – José de Mesquita
Varanda Cuiabana – Pedro Rocha Jucá
Instituto Histórico e Geografico de Mato Grosso – IHGMT

Comunidade Quilombolas

Comunidade Quilombolas

Comunidade Quilombola Lagoinha de Cima, Chapada estrada que vai para Campo Verde anda 10 Km vira a esquerda anda mais 20 km

Comunidade Quilombola Lagoinha de Baixo, Chapada estrada que vai para Campo Verde anda 10 Km vira a esquerda anda mais 20 km

Comunidade Quilombola da Mata Grande, Chapada estrada que vai para Campo Verde anda 30 Km vira a esquerda anda mais 25.

https://drive.google.com/file/d/0B-7M95z4BctXenl2YkN3NGZiTVE/view?usp=sharing

Quilombolas no Mato Grosso veja este documento.