{"id":1305,"date":"2021-12-04T15:32:30","date_gmt":"2021-12-04T19:32:30","guid":{"rendered":"https:\/\/riodacasca.com.br\/wd\/?p=1305"},"modified":"2022-11-07T14:15:13","modified_gmt":"2022-11-07T18:15:13","slug":"langsdorff-chega-a-cuiaba","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/riodacasca.com.br\/wd\/2021\/12\/04\/langsdorff-chega-a-cuiaba\/","title":{"rendered":"Langsdorff chega a Cuiab\u00e1"},"content":{"rendered":"\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><a href=\"https:\/\/historiasdematogrosso.blogspot.com\/2020\/01\/30-de-janeiro-1827-langsdorff-chega.html\">Expedi\u00e7\u00e3o Langsdorff chega a Cuiab\u00e1<\/a><\/h3>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter\"><a href=\"https:\/\/2.bp.blogspot.com\/-3_mh9VHkuJs\/VoPUJYg9upI\/AAAAAAAAFck\/pJ_9T8VtF3E\/s1600\/Cuiaba.jpg\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/2.bp.blogspot.com\/-3_mh9VHkuJs\/VoPUJYg9upI\/AAAAAAAAFck\/pJ_9T8VtF3E\/s640\/Cuiaba.jpg\" alt=\"\"\/><\/a><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p>Aporta, finalmente na capital da prov\u00edncia em 30 de janeiro de 1827, a expedi\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, chefiada pelo bar\u00e3o Jorge Henrique de Langsdorff, c\u00f4nsul da R\u00fassia no Rio de Janeiro, incumbida de efetuar explora\u00e7\u00e3o em Mato Grosso e Amaz\u00f4nia, patrocinada pelo czar Alexandre I.<\/p>\n\n\n\n<p>A chegada da miss\u00e3o a Cuiab\u00e1 \u00e9 descrita pelo desenhista Hercules Florence em suas anota\u00e7\u00f5es de viagem:<\/p>\n\n\n\n<p><em>Enfim a 30 de janeiro de 1827, atingimos o porto t\u00e3o desejado&nbsp;de Cuiab\u00e1. Aproamos ao troar das salvas de mosquetaria&nbsp;que partiam de&nbsp;entre os nossos e eram correspondidas&nbsp;de terra. O guarda da alf\u00e2ndega&nbsp;levou-nos para o seu escrit\u00f3rio, enquanto esper\u00e1vamos os animais que deviam&nbsp;evar-nos at\u00e9 \u00e0 cidade, distante um quarto de l\u00e9gua.Os Srs. Riedel e Taunay tiveram a bondade de mand\u00e1-los&nbsp;com&nbsp;prontid\u00e3o, avisando que viriam receber-nos. Com efeito n\u00e3o tardaram a&nbsp;chegar em companhia de v\u00e1rias pessoas&nbsp;da localidade e de um negociante&nbsp;italiano chamado Angelini.<\/em><br><em>Fomos imediatamente ter com o presidente e dele tivemos&nbsp;o&nbsp;mais cort\u00eas e am\u00e1vel tratamento durante os oito ou dez dias que nos reteve&nbsp;em seu pal\u00e1cio como h\u00f3spedes.<\/em><br>Florence aproveita a estada na capital da prov\u00edncia para mostrar o que viu na cidade:<\/p>\n\n\n\n<p><em>A cidade de Cuiab\u00e1 \u00e9 cercada de colinas que com ex\u00adce\u00e7\u00e3o da&nbsp;parte ocidental limitam-lhe o horizonte. O plano em que assenta \u00e9 inclinado&nbsp;at\u00e9 \u00e0 base dos outeiros do lado meridional, onde corre um riacho&nbsp;chamado Prainha que em dire\u00e7\u00e3o quase reta vai para oeste e, separando a&nbsp;cidade de um de seus arrabaldes, atravessa uma plan\u00edcie de quarto de l\u00e9gua,&nbsp;com curso paralelo ao caminho do porto, at\u00e9 cair no rio Cuiab\u00e1. No tempo&nbsp;seco fica todo cortado e chega a desaparecer.<\/em><br><em><br><\/em><em>As ruas que de este v\u00e3o para oeste t\u00eam pequeno declive de subida&nbsp;e descida, mas as que lhe s\u00e3o perpendiculares, de sul a norte, o t\u00eam mais&nbsp;sens\u00edvel, bem que em geral suave. Ao sair da cidade para o lado norte, eleva-se o terreno ainda por espa\u00e7o de 300 a 400 passos, formando um campo&nbsp;chamado&nbsp;de Boa Morte, por a\u00ed existir uma igreja desse nome.A cidade pode ter meio quarto de l\u00e9gua de poente a nascente e&nbsp;dois ter\u00e7os dessa dist\u00e2ncia de norte a sul. N\u00e3o h\u00e1 sen\u00e3o 18 ou 20 casas de&nbsp;sobrado, esse mesmo pequeno: todas as mais s\u00e3o t\u00e9rreas. Cada casa tem nos&nbsp;fundos um jardim plantado de laranjeiras, limoeiros, goiabeiras, cajueiros&nbsp;e tamarindeiros, \u00e1rvore cuja folhagem densa e escura<\/em><br><em>forma no meio das&nbsp;outras agrad\u00e1vel contraste, concorrendo todas elas para darem \u00e0 povoa\u00e7\u00e3o&nbsp;aspecto risonho&nbsp;e pitoresco.<\/em><br><em>Rebocam-se por fora as habita\u00e7\u00f5es com tabatinga, que lhes d\u00e1&nbsp;extrema alvura: entretanto muitas h\u00e1, principalmente&nbsp;nos arredores, que&nbsp;conservam a cor sombria da taipa de que s\u00e3o feitas, bem como todos os&nbsp;muros e cercados.&nbsp;N\u00e3o h\u00e1 uma s\u00f3 casa que tenha chamin\u00e9: a cozinha faz-se no&nbsp;jardim debaixo de um telheiro.<\/em><br><em><br><\/em><em>O edif\u00edcio em que est\u00e3o o presidente e a intend\u00eancia chama-se&nbsp;pal\u00e1cio: \u00e9 t\u00e9rreo; as janelas, \u00fanicas na cidade, t\u00eam caixilhos com vidros.&nbsp;H\u00e1 uma cadeia, em cujo sobrado trabalha a c\u00e2mara municipal;&nbsp;um quartel para a tropa, uma casa da moeda e quatro igrejas: a de Bom&nbsp;Jesus que \u00e9 a catedral, sem nada exteriormente que a recomende, a de Nossa&nbsp;Senhora do Bom Despacho, a de Nosso Senhor dos Passos, e a da Boa&nbsp;Morte, al\u00e9m de uma capela consagrada a Nossa Senhora do Ros\u00e1rio.&nbsp;Outra capela fica no Hospital da Miseric\u00f3rdia, edif\u00edcio n\u00e3o conclu\u00eddo&nbsp;e onde mora o bispo. Para os morf\u00e9ticos h\u00e1 uma casa, situada a meia&nbsp;l\u00e9gua sul da cidade. A meio quarto este v\u00ea-se perto do porto uma grande<\/em><br><em>constru\u00e7\u00e3o que havia sido come\u00e7ada para quartel. Por enquanto n\u00e3o \u00e9 sen\u00e3o<\/em><br><em>um corpo de guarda.<\/em><br><em><br><\/em><em>Na casa da moeda bate-se somente o cobre que \u00e9 mandado&nbsp;do&nbsp;Rio de Janeiro e ao qual se d\u00e1 valor duplo do que tem no resto do Imp\u00e9rio.&nbsp;H\u00e1 tamb\u00e9m uma fundi\u00e7\u00e3o para p\u00f4r em barras o ouro.&nbsp;O \u00fanico passeio que tem a cidade \u00e9 o caminho de meio quarto&nbsp;de l\u00e9gua de extens\u00e3o que vai ter ao porto. A\u00ed s\u00f3 se v\u00eaem 15 ou 20 casas,&nbsp;algumas canoas, guan\u00e1s, cabur\u00e9s, negros e mulatos.<\/em><br><em>Quando chove, as crian\u00e7as entret\u00eam-se em procurar ouro no meio&nbsp;das ruas, porque nos regos d\u2019\u00e1gua que se formam descobrem sempre algumas&nbsp;palhetas. Por toda a parte&nbsp;anda-se aqui por cima dele; nas ruas, nas casas que&nbsp;n\u00e3o s\u00e3o ladrilhadas, nos jardins, n\u00e3o h\u00e1 polegada de terra que deixe de o conter.&nbsp;O pescador na sua choupana pisa o precioso metal; metade de um dia,&nbsp;por\u00e9m, de trabalho em buscar arranc\u00e1-lo do solo lhe traz menos vantagem&nbsp;que a pesca de um \u00fanico pacu. \u00c9 contudo o objeto de extra\u00e7\u00e3o que os habitantes&nbsp;conseguem.&nbsp;<\/em><br><em><br><\/em><em>Os diamantes se acham no Quilombo, distante 14 l\u00e9guas&nbsp;e da\u00ed a 30 no distrito Diamantino.&nbsp;Estes dois artigos, ouro e diamantes,&nbsp;constituem a riqueza da prov\u00edncia; nada mais se exporta a n\u00e3o ser diminuta&nbsp;por\u00e7\u00e3o de a\u00e7\u00facar e de tecidos de algod\u00e3o, com destino ao Par\u00e1.<\/em><br><em><br><\/em><em>N\u00e3o tratam da agricultura nem da cria\u00e7\u00e3o de animais sen\u00e3o para&nbsp;N\u00e3o tratam da agricultura nem da cria\u00e7\u00e3o de animais sen\u00e3o para&nbsp;acudir \u00e0s necessidades da alimenta\u00e7\u00e3o. Por toda a parte cercados de desertos,&nbsp;dos quais o menos vasto tem 100 l\u00e9guas de largo, n\u00e3o poderiam os&nbsp;cultivadores exportar&nbsp;o sobressalente de suas colheitas ou os resultados de&nbsp;sua ind\u00fastria sem gastos que elevariam o pre\u00e7o dos produtos&nbsp;de medo a&nbsp;n\u00e3o suportarem a mais ligeira concorr\u00eancia.&nbsp;As produ\u00e7\u00f5es do pa\u00eds s\u00e3o a cana, da qual se extrai o melhor a\u00e7\u00facar&nbsp;do Imp\u00e9rio; o fumo que \u00e9 excelente; o algod\u00e3o,&nbsp;o caf\u00e9, feij\u00e3o, milho,&nbsp;mandioca e tamarindo que a\u00ed se acha mais abundante que em qualquer&nbsp;outra parte e do qual se fazuma massa para exporta\u00e7\u00e3o.<\/em><br><em><br><\/em><em>Limita-se a ind\u00fastria \u00e0 explora\u00e7\u00e3o de minas e ao fabrico&nbsp;de pe\u00e7as&nbsp;de algod\u00e3o grosso de que se veste a gente pobre. Faz-se aguardente de&nbsp;cana de superior qualidade.&nbsp;\u00c9 a principal bebida do pa\u00eds, bem que esteja&nbsp;tamb\u00e9m&nbsp;em uso o vinho, cuja procura \u00e9 limitada em raz\u00e3o do alto pre\u00e7o.&nbsp;Cada garrafa custa com efeito de 1$200 a 1$800, o que faz com que sejam&nbsp;motivos de luxo e ostenta\u00e7\u00e3o franque\u00e1-las aos convivas por ocasi\u00e3o de festas&nbsp;de casamento<\/em><br><em>ou batizados.&nbsp;Assisti \u00e0s bodas de um homem apatacado, nas quais se beberam<\/em><br><em>200 garrafas de vinho, o que representa uma despesa de mais de 200$000<\/em><br><em>(1.250 francos). Quase igual quantidade consumiu-se num batizado. Os<\/em><br><em>casos de embriaguez&nbsp;n\u00e3o s\u00e3o raros.&nbsp;<\/em><br><em><br><\/em><em>Cria-se muito gado vacum que por toda a parte encontra&nbsp;excelentes&nbsp;pastos; tamb\u00e9m a carne de vaca em Cuiab\u00e1&nbsp;\u00e9 suculenta; h\u00e1 muitos&nbsp;porcos cuja banha serve para o preparo da comida; galinhas em abund\u00e2ncia&nbsp;e t\u00e3o baratas&nbsp;que por 400 r\u00e9is (50 soldos) pode-se as ter \u00e0 mesa do almo\u00e7o,&nbsp;jantar e ceia; carneiros e cabras, estes em menor quantidade, etc.&nbsp;N\u00e3o h\u00e1 falta de cavalos; a qualidade, por\u00e9m, \u00e9 inferior.&nbsp;Parte&nbsp;deles vem dos guaicurus. As bestas s\u00e3o mandadas<\/em><br><em>de S\u00e3o Paulo. Em viagem,&nbsp;\u00e9 de uso servirem os bois mansos de animal de carga.<\/em><br><em><br><\/em><em>N\u00e3o se acha ouro em por\u00e7\u00e3o que d\u00ea algum lucro, sen\u00e3o&nbsp;nos&nbsp;arredores da cidade ou a algumas l\u00e9guas de dist\u00e2ncia.&nbsp;Se, por\u00e9m, se empregassem&nbsp;os meios de que usa a companhia inglesa em Minas Gerais,&nbsp;cavar-se-ia melhor a terra, achando-se ainda tesouros imensos. Hoje o dia&nbsp;de trabalho de um preto n\u00e3o rende mais de 300 a 400 r\u00e9is, salvo o caso de&nbsp;algum achado feliz.<\/em><br><em>Cuiab\u00e1 deve sua funda\u00e7\u00e3o \u00e0 grande quantidade de ouro que&nbsp;deu o terreno em que assenta, cujas escava\u00e7\u00f5es e buracos atestam hoje&nbsp;quanto foi revolvido. Nos primeiros&nbsp;tempos dos descobrimentos dos&nbsp;paulistas encontraram-se folhetas que pesavam at\u00e9 uma arroba, \u00fanico incentivo&nbsp;que chamou uns sertanistas \u00e1vidos de riquezas e os impeliu&nbsp;em&nbsp;solid\u00f5es desconhecidas, levando t\u00e3o-somente espingardas,&nbsp;p\u00f3lvora, bala&nbsp;e sal. Embarcaram em Porto Feliz&nbsp;e seguiram a rede de rios que lhes&nbsp;p\u00f4de proporcionar dilatad\u00edssima viagem. Chegados ao ponto onde hoje&nbsp;\u00e9 Cuiab\u00e1,&nbsp;a um ca\u00e7ador depararam-se grandes peda\u00e7os de ouro no alto&nbsp;da colina em que se ergue presentemente a igreja de Nossa Senhora do&nbsp;Ros\u00e1rio. Parou ent\u00e3o a caravana. Meteram&nbsp;as canoas no ribeir\u00e3o Prainha,&nbsp;que nesse tempo era naveg\u00e1vel e hoje n\u00e3o por terem sido desviadas as&nbsp;\u00e1guas, levaram quanto puderam do encantado tesouro e voltaram<\/em><br><em>para&nbsp;S\u00e3o Paulo, contando maravilhas.<\/em><br><em><br><\/em><em>Reuniram-se logo multid\u00f5es de aventureiros que formaram&nbsp;novas&nbsp;expedi\u00e7\u00f5es, ficando muitos deles no pa\u00eds novamente descoberto em&nbsp;companhia das mulheres ind\u00edgenas&nbsp;que encontravam ou das que haviam&nbsp;levado consigo. O n\u00famero foi crescendo e com ele aparecendo dissens\u00f5es e&nbsp;lutas causadas pela avidez em tirar ouro. Ent\u00e3o cuidaram&nbsp;de constituir uma&nbsp;esp\u00e9cie de governo e para legaliz\u00e1-lo&nbsp;mandaram pedir chefe em S\u00e3o Paulo.&nbsp;A col\u00f4nia, debaixo do nome de Cuiab\u00e1, nome dos \u00edndios que a\u00ed habitavam,&nbsp;fez r\u00e1pidos progressos, aumentando continuadamente com a chegada de&nbsp;novas bandeiras, que, n\u00e3o se satisfazendo mais com o que encontravam,&nbsp;seguiram para diante e foram&nbsp;descobrir, a 100 l\u00e9guas para O., Mato Grosso,&nbsp;donde prov\u00e9m a denomina\u00e7\u00e3o de toda a prov\u00edncia. Aqueles intr\u00e9pidos&nbsp;sertanistas teriam sem d\u00favida ido at\u00e9 ao oceano Pac\u00edfico, se os espanh\u00f3is&nbsp;n\u00e3o ocupassem as costas. Suas ousadas explora\u00e7\u00f5es chegaram com efeito&nbsp;a dar cuidados \u00e0 corte de Madri que se queixou \u00e0 de Lisboa, mandando&nbsp;reclama\u00e7\u00f5es a tal respeito.<\/em><br><em><br><\/em><em>O modo de extrair ouro \u00e9 o seguinte: fazem-se grandes&nbsp;escava\u00e7\u00f5es&nbsp;e transporta-se a terra, \u00e0 medida que se a vai tirando, para uma \u00e1rea&nbsp;preparada \u00e0 beira de um rio, c\u00f3rrego ou lagoa em paralelogramo de terra&nbsp;batida e conseguintemente&nbsp;dura, cujos lados s\u00e3o fechados por t\u00e1buas, exceto&nbsp;o que encosta \u00e0 \u00e1gua. O plano \u00e9 inclinado e o todo se chama uma canoa.&nbsp;Deposita-se a terra que se quer lavar na parte superior e sobre ela lan\u00e7a&nbsp;o&nbsp;trabalhador de cont\u00ednuo \u00e1gua para que facilmente corra a por\u00e7\u00e3o que for&nbsp;mais destacada e leve. Em seguida, depois de repetida esta opera\u00e7\u00e3o, p\u00f5e&nbsp;ele certa quantidade na beira de uma esp\u00e9cie de alguidar de pau chamado&nbsp;bateia e com um pouco d\u2019\u00e1gua&nbsp;imprime ao todo um movimento circular,&nbsp;de modo que de cada vez o monte de terra seja lambido pela \u00e1gua. Se houver&nbsp;ouro, as menores part\u00edculas depositam-se logo no fundo.<\/em><br><em><br><\/em><em><strong>Costumes dos Habitantes de Cuiab\u00e1<\/strong><\/em><br><em><\/em><em>Descrever os costumes gerais da popula\u00e7\u00e3o de Cuiab\u00e1, \u00e9 decerto&nbsp;descrever os de todos os brasileiros; entretanto aqui v\u00e1rias circunst\u00e2ncias&nbsp;locais concorreram para dar h\u00e1bitos peculiares \u00e0 terra, imprimindo-lhes&nbsp;cunho caracter\u00edstico e, embora pernicioso, de certo modo original.<\/em><br><em><br><\/em><em>A popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o passa de 6.000 habitantes, a de toda a prov\u00edncia&nbsp;de 30.000, sem contar os \u00edndios mansos e muito&nbsp;menos os bravios.&nbsp;Entretanto pelo conhecimento mais ou menos exato dos aldeamentos de&nbsp;uns e hordas dos outros,&nbsp;creio que seu n\u00famero n\u00e3o chegar\u00e1 a 6 ou 7 mil&nbsp;almas, de modo que numa zona muito maior que toda a Fran\u00e7a n\u00e3o h\u00e1&nbsp;mais de 37.000 habitantes.<\/em><br><em>T\u00e3o pouca popula\u00e7\u00e3o prov\u00e9m de que n\u00e3o h\u00e1 125 anos que Cuiab\u00e1&nbsp;foi descoberta e todos quantos procuraram estas terras atra\u00eddos s\u00f3 pela&nbsp;posse do ouro, uma vez conseguido&nbsp;esse fim, trataram de se ir embora para&nbsp;gozarem das riquezas ganhas em pa\u00eds mais civilizado. Os que se deixavam&nbsp;ficar, ricos em pouco tempo e no meio de solid\u00f5es,&nbsp;s\u00f3 cuidaram em satisfazer&nbsp;os sentidos. Entregaram-se a grosseiros prazeres e viveram com am\u00e1sias,&nbsp;n\u00e3o se lhes dando de formar fam\u00edlias e educar os filhos, quando os tinham,&nbsp;nos s\u00e3os princ\u00edpios da religi\u00e3o e da moral.&nbsp;As mesmas causas ainda hoje persistem em Cuiab\u00e1, embora se&nbsp;manifeste salutar tend\u00eancia para a modifica\u00e7\u00e3o.&nbsp;Os casamentos ainda s\u00e3o<\/em><br><em>pouco freq\u00fcentes. Geralmente s\u00f3 se casam os homens j\u00e1 maduros que buscam<\/em><br><em>uma companheira&nbsp;para os tempos da velhice. Os mais vivem amancebados&nbsp;e nem se limitam a isso, entretendo intrigas amorosas&nbsp;com pessoas&nbsp;casadas e solteiras.<\/em><br><em><br><\/em><em>As mulheres de classe m\u00e9dia e sobretudo inferior, s\u00e3o muito livres&nbsp;nas suas conversas, modos e costumes. Al\u00e9m do cont\u00ednuo exemplo da licen\u00e7a&nbsp;geral e quase desculpada, recebem pernicioso influxo do contato dos escravos,&nbsp;negros<\/em><br><em>e negras, cujas paix\u00f5es violentas n\u00e3o v\u00eaem peias \u00e0 sua expans\u00e3o.&nbsp;A fidelidade conjugal \u00e9, muitas vezes, falseada. Apesar&nbsp;de temerem&nbsp;os maridos e consider\u00e1-los como amos e senhores, sabem perfeitamente&nbsp;engan\u00e1-los.&nbsp;N\u00e3o faz muito que elas come\u00e7am a aparecer \u00e0 mesa de jantar&nbsp;ao lado dos parentes e maridos. Entretanto em todas&nbsp;as casas do sert\u00e3o,&nbsp;onde recebi hospitalidade, nenhuma delas se apresentou, ficando sempre&nbsp;no fundo dos aposentos,&nbsp;a menos que n\u00e3o seja a pessoa j\u00e1 muito familiar.&nbsp;Conheci, contudo, uma senhora muito bem falante, civilizada e&nbsp;espirituosa. Tr\u00eas outras nas mesmas condi\u00e7\u00f5es tinham, por\u00e9m, j\u00e1 sua idade&nbsp;e, apesar do muito que haviam&nbsp;dado que falar em sua mocidade, passavam&nbsp;por tipos de virtude.<\/em><br><em><br><\/em><em>As mo\u00e7as filhas de pais pobres nem sequer pensam em casamento.&nbsp;N\u00e3o lhes passa pela cabe\u00e7a a possibilidade de arranjarem marido sem o&nbsp;engodo do dote e, como ignoram&nbsp;os meios de uma mulher poder viver de&nbsp;trabalho honesto<\/em><br><em>e perseverante, s\u00e3o facilmente arrastadas \u00e0 vida licenciosa,&nbsp;na qual, justi\u00e7a se lhes fa\u00e7a, apesar de pertencerem&nbsp;a todos, nunca mostram&nbsp;a gan\u00e2ncia e as baixezas das mulheres p\u00fablicas da Europa.<\/em><br><em><br><\/em><em>Quem exercita em Cuiab\u00e1 of\u00edcios e artes s\u00e3o quase todos&nbsp;mulatos.&nbsp;Conheci um padre de cor parda, muito eloquente&nbsp;no p\u00falpito e na&nbsp;conversa\u00e7\u00e3o; outro, quase negro, era um desses raros talentos modestos,&nbsp;cuja ambi\u00e7\u00e3o \u00fanica&nbsp;\u00e9 instruir-se.<\/em><br><em><br><\/em><em>O clima da cidade \u00e9 muito quente, sua latitude 15\u00b036\u2019S.&nbsp;O rio \u00e9 farto de pescado, sobretudo de junho at\u00e9 fins de dezembro.&nbsp;Ent\u00e3o \u00e9 o alimento principal do povo. Pescam-&nbsp;se muitos pacus,&nbsp;dourados, piracanjubas, piaus, piracachiaras,&nbsp;jiripocas, palmitos, cabe\u00e7udos,&nbsp;corimbat\u00e1s, peixe-rei, etc. \u00c9 tanto o peixe que os bois, cavalos e pretos ou&nbsp;guan\u00e1s v\u00e3o curvados ao seu peso vend\u00ea-los pela cidade.&nbsp;De todos \u00e9 o pacu o mais gordo e mais abundante, bem que n\u00e3o&nbsp;seja o mais delicado; sabe, contudo, bem ao paladar e a quantidade \u00e9 tal&nbsp;que fornece a combust\u00edvel com que se iluminam todas as casas. Acontece<\/em><br><em>at\u00e9 que os pescadores&nbsp;atiram fora grandes montes, quando n\u00e3o querem&nbsp;nem mesmo dar-se ao trabalho de extra\u00edrem o azeite.<\/em><br><em><br><\/em><strong>FONTE:<\/strong>&nbsp;Hercules Florence,&nbsp;<em>Viagem fluvial do Tiet\u00ea ao Amazonas, de 1825 a 1829<\/em>, Edi\u00e7\u00f5es Melhoramentos, S\u00e3o Paulo, 1941, p\u00e1gina&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>FOTO<\/strong>: Desenho de Hercules Florence, integrante da Expedi\u00e7\u00e3o Langsdorff.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Expedi\u00e7\u00e3o Langsdorff chega a Cuiab\u00e1 Aporta, finalmente na capital da prov\u00edncia em 30 de janeiro de 1827, a expedi\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, chefiada pelo bar\u00e3o Jorge Henrique de Langsdorff, c\u00f4nsul da R\u00fassia no Rio de Janeiro, incumbida de efetuar explora\u00e7\u00e3o em Mato Grosso e Amaz\u00f4nia, patrocinada pelo czar Alexandre I. 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