{"id":2607,"date":"2023-03-02T13:40:33","date_gmt":"2023-03-02T17:40:33","guid":{"rendered":"https:\/\/riodacasca.com.br\/wd\/?p=2607"},"modified":"2023-03-03T07:41:30","modified_gmt":"2023-03-03T11:41:30","slug":"osvaldo-braun","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/riodacasca.com.br\/wd\/2023\/03\/02\/osvaldo-braun\/","title":{"rendered":"Osvaldo Braun"},"content":{"rendered":"\n<p>O \u201cM\u00c9DICO-CHEFE\u201d DE CHAPADA<\/p>\n\n\n\n<p>No m\u00eas de maio de 1941 dirigia-se pelo Pac\u00edfico para a Am\u00e9rica Central um grande navio de passageiros. Na popa tremulava em cores vivas a bandeira nacional do pa\u00eds do Sol Nascente, o ponto vermelho sobre o fundo branco brilhante. Era o Nana-Maru, o \u00faltimo navio japon\u00eas a cruzar as reclusas do canal do Panam\u00e1 antes do rompimento da guerra entre o Jap\u00e3o e os Estados Unidos, assim mesmo muito vigiado e vasculhado.<\/p>\n\n\n\n<p><a><\/a>Quando o navio chegou a Caribe, perto da ilha de Trinidad, e em \u00e1guas inglesas, repentinamente apagaram-se todas as luzes durante a noite e tamb\u00e9m emudeceu o transmissor do navio. O que teria acontecido? Por que de repente essa navega\u00e7\u00e3o no escuro? Mas o capit\u00e3o do navio sabia o que estava fazendo. Ele queria levar os passageiros at\u00e9 o destino deles. Tamb\u00e9m os quatro alem\u00e3es, cuja p\u00e1tria estava em guerra com os ingleses.<\/p>\n\n\n\n<p>Por meio desse estratagema, conseguiu o comandante do navio atingir \u00e1guas brasileiras sem ser molestado. Com isso estava franqueado o caminho at\u00e9 o Rio de Janeiro, antiga capital do Brasil. A\u00ed os quatro alem\u00e3es pisaram pela primeira vez em solo do maior pa\u00eds da Am\u00e9rica do Sul. Entre eles se achava tamb\u00e9m o irm\u00e3o franciscano, natural de Frankfurt-Hochst, Osvaldo Braun.<\/p>\n\n\n\n<p>Frei Osvaldo, como se tornou conhecido desde ent\u00e3o, e tamb\u00e9m seus tr\u00eas outros confrades n\u00e3o estavam fugindo de um trabalho mission\u00e1rio muito dif\u00edcil no Jap\u00e3o para uma mais f\u00e1cil. O caso era outro. Frei Osvaldo tinha sido at\u00e9 ent\u00e3o um mission\u00e1rio bem sucedido e m\u00faltiplas atividades em Hokkaido, na miss\u00e3o japonesa confiada \u00e0 Prov\u00edncia Franciscana da Tur\u00edngia (Alemanha). Por oito anos trabalhara na miss\u00e3o como cozinheiro do bispo Wenceslau Kinold. Como serralheiro diplomado e desenhista t\u00e9cnico tamb\u00e9m tinha dado sua colabora\u00e7\u00e3o profissional no ramo da constru\u00e7\u00e3o. Por fim foi at\u00e9 professor de alem\u00e3o em um gin\u00e1sio japon\u00eas. Sempre de novo surpreendia ele os mission\u00e1rios e os japoneses por tudo aquilo que conseguia realizar. Alguns at\u00e9 achavam que n\u00e3o havia nada que ele n\u00e3o soubesse fazer. Mas a legisla\u00e7\u00e3o referente aos estrangeiros ia restringindo cada vez mais o campo dessa m\u00faltipla atividade, at\u00e9 que n\u00e3o lhe restava outro recurso sen\u00e3o recome\u00e7ar tudo de novo em outra terra de miss\u00e3o. No Brasil devia ele encontrar o que foi propriamente o trabalho de sua vida, e isso em um campo com que ningu\u00e9m contava: o servi\u00e7o aos doentes.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cAo m\u00e9dico-chefe Dr. Osvaldo Braun, Chapada dos Guimar\u00e3es, Estado de Mato Grosso.\u201d N\u00e3o era raro encontrar-se tal endere\u00e7o nas cartas que Frei Osvaldo recebia. Em Chapada, bem no interior do Brasil, encontrou nosso \u201cm\u00e9dico-chefe\u201d, h\u00e1 mais de dois dec\u00eanios, seu lugar de trabalho aben\u00e7oado e proveitoso. E quem o visse a\u00ed trabalhando com o jaleco branco de enfermeiro, rosto regular e olhar inteligente, de porte baixo, com seus amplos movimentos e em sua apresenta\u00e7\u00e3o segura, de fato certamente poderia pensar que se encontrava diante de um m\u00e9dico-chefe, mesmo sabendo que ele n\u00e3o tinha nenhum diploma universit\u00e1rio em sua pasta.<\/p>\n\n\n\n<p>AQUILO SE ESPALHOU<\/p>\n\n\n\n<p>Foi assim que come\u00e7ou. Em um pequeno arm\u00e1rio de madeira guardava ele uns poucos rem\u00e9dios, como purgativos, verm\u00edfugos, comprimidos de sais de ferro e de aspirina. Esse arm\u00e1rio ficava na portaria da nova miss\u00e3o, em um dos c\u00f4modos laterais t\u00e3o caracter\u00edsticos das igrejas coloniais brasileiras. Frei Osvaldo gostava de contar com gestos e uma dose de humor como se tornara conhecido por seu primeiro tratamento: \u201cQuando se ficou sabendo que na portaria do convento se tinha p\u00edlula contra dor de cabe\u00e7a, e contra a barriga inchada das crian\u00e7as \u2013 repleta de vermes \u2013 se dava um verm\u00edfugo, foi a\u00ed que tudo come\u00e7ou. Era uma menina, que, depois de tomar cinco pilulazinhas de um verm\u00edfugo, expeliu 120 lombrigas. A m\u00e3e da menina contou os vermes inquietos e chamou toda a vizinhan\u00e7a para ver o efeito espetacular. Tive ainda de cuidar da menina por mais alguns dias, mas a coisa se espalhou, e come\u00e7aram a vir muitos pacientes\u201d. Em breve j\u00e1 era pequena a modesta sala da portaria para conter o n\u00famero das pessoas que procuravam ajuda. At\u00e9 nos lugares mais afastados do mato havia chegado a fama dele, e as pessoas vinham de longe a p\u00e9 ou a cavalo. Muitos desses doentes precisavam de um verdadeiro tratamento prolongado, mas n\u00e3o havia lugar dispon\u00edvel onde pudessem ser colocadas algumas camas. Frei Osvaldo decidiu-se ent\u00e3o a construir uma casa pr\u00f3pria para sua farm\u00e1cia e para seus doentes. Mas ele nem sequer suspeitava que seria apenas um come\u00e7o.<\/p>\n\n\n\n<p>A \u00daLTIMA ESPERAN\u00c7A PARA MUITOS<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje esta pequena primeira casa tem apar\u00eancia muito modesta ao lado das acomoda\u00e7\u00f5es cheias de luz e acolhedoras do novo hospital constru\u00eddo nesse intervalo de tempo. O n\u00famero dos tratamentos e das visitas domiciliares cresce de ano para ano. Sempre de novo o \u201cirm\u00e3o doutor\u201d \u00e9 chamado para doentes, at\u00e9 para os que moram tamb\u00e9m muito longe no sert\u00e3o. Ele mesmo procura tamb\u00e9m os povoados maiores, onde sua cabana fica dias e dias rodeada de gente, at\u00e9 que ele acabe de dar suas consultas. Essas consultas de modo algum se restringem a rem\u00e9dios contra anemia ou contra as verminoses devastadoras. O Irm\u00e3o Frei Osvaldo ultrapassa a si mesmo, e tornou-se um pioneiro da sa\u00fade popular. Ele ensina com seu senso pr\u00e1tico os princ\u00edpios fundamentais da higiene. Ele mostra ao povo como construir de modo melhor e mais saud\u00e1vel seus casebres. Ele ensina a criar uma pequena horta e um pomar. Mostra ao povo as ervas medicinais e ensina a curar-se a si mesmo. E o que \u00e9 muito importante, as pessoas aceitam a instru\u00e7\u00e3o e advert\u00eancias de \u201cseu doutor\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Desse modo Frei Osvaldo j\u00e1 fez muito bem nessa regi\u00e3o montanhosa, at\u00e9 h\u00e1 poucos anos completamente isolada e sem jamais ter visto um m\u00e9dico ou uma enfermeira. Desde que a estrada de rodagem estabeleceu a liga\u00e7\u00e3o com o grande mundo, tamb\u00e9m n\u00e3o faltam pacientes da baixada do pantanal. De lugares que distam at\u00e9 250 km v\u00eam, de autom\u00f3vel ou de caminh\u00e3o de carga, muitos doentes que n\u00e3o conseguiram cuidar-se com o aux\u00edlio dos m\u00e9dicos, e agora p\u00f5em sua \u00faltima grande esperan\u00e7a em Frei Osvaldo. Assim se amplia sempre mais o campo de trabalho de nosso \u201cm\u00e9dico chefe\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Donde tem ele todo esse conhecimento de medicina? Para os aux\u00edlios mais simples deve ele ter seu saber a um bom curso de enfermagem que ele havia feito na Alemanha. Depois pela experi\u00eancia de muitos anos conseguiu ele penetrar no saber que distingue a doen\u00e7a do modo sadio de viver. Mas desde a juventude teve ele grande interesse pelo corpo e pela alma do homem, e procurou aprofundar-se pelo estudo incans\u00e1vel de obras de medicina, d modo que adquiriu aos poucos grande conhecimento da medicina, o que at\u00e9 m\u00e9dicos especialistas reconhecem plenamente.<\/p>\n\n\n\n<p>FREI OSVALDO \u00c9 BOM<\/p>\n\n\n\n<p>No ano passado Frei Osvaldo teve uma grande alegria. Dos fundos da coleta quaresmal alem\u00e3 \u201cMisereor\u201d foi-lhe concedida a import\u00e2ncia de 30.000 DM para o prosseguimento das obras do hospital ainda inacabado. Teve grande satisfa\u00e7\u00e3o em saber que como mission\u00e1rio franciscano via agora o trabalho de sua vida reconhecido por sua p\u00e1tria por meio dessa vultosa doa\u00e7\u00e3o; e assim eram compensados todos os sacrif\u00edcios e lutas durante esses anos de sua vida no Mato grosso.<\/p>\n\n\n\n<p>Aconteceu em uma viagem pelo interior de nossa par\u00f3quia. Nas visitas \u00e0s casas encontrei em um casebre coberto de palha uma velhinha. Ela contou a hist\u00f3ria dos filhos e de suas doen\u00e7as. Muito naturalmente a conversa caiu em Frei Osvaldo e em tudo que ele j\u00e1 fez para ela e para a sua fam\u00edlia. Ap\u00f3s uma pequena pausa disse a velhinha de rosto rugoso e com olhar de respeito e venera\u00e7\u00e3o: \u201cFrei Osvaldo \u00e9 bom!\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Por meio destas palavras, ditas com plena convic\u00e7\u00e3o, pela primeira vez compreendi qual a import\u00e2ncia de nosso confrade entendido em medicina para o nosso munic\u00edpio. Para muitas pessoas ele n\u00e3o \u00e9 apenas quem socorre na doen\u00e7a e na necessidade, ele \u00e9 para elas um sustent\u00e1culo em que se apoiam para se reerguer de novo, com a convic\u00e7\u00e3o de que a vida, mesmo na pobreza e na pen\u00faria, tem um sentido. Constitui isto como que um capital inexaur\u00edvel de confian\u00e7a que Frei Osvaldo adquiriu nestes dois dec\u00eanios. Mas n\u00e3o se trata de uma confian\u00e7a sem fundamento e solidez que um charlat\u00e3o talvez tivesse despertado por esta ou aquela fa\u00e7anha bem realizada. As pessoas se sentem impressionadas pelos muitos encontros pessoais com Frei Osvaldo: percebem sempre a mesma amabilidade, quase sempre com um gracejo nos l\u00e1bios. Notam sempre a compreens\u00e3o s\u00e9ria e sol\u00edcita para as suas dores e cuidados. Ele faz sempre tudo o que est\u00e1 em suas for\u00e7as a cada um que vem a ele.<\/p>\n\n\n\n<p>Para muitas dessas pessoas simples, com sua f\u00e9 compacta e sem complica\u00e7\u00f5es, tem Frei Osvaldo uma import\u00e2ncia profunda. Para elas ele \u00e9 simplesmente como uma encarna\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria bondade de Deus, que atua entre elas dispensando benef\u00edcios e b\u00ean\u00e7\u00e3os.<\/p>\n\n\n\n<p>E A JUVENTUDE ACEITA A OBRA DELE?<\/p>\n\n\n\n<p>Deste modo a imagem de Frei Osvaldo ultrapassa a moldura comum de sua vida de religioso a servi\u00e7o da miss\u00e3o, e a atua\u00e7\u00e3o dele nos territ\u00f3rios mission\u00e1rios de dois continentes \u00e9 apenas um sinal da amplid\u00e3o e grandeza da alma com que ele \u2013 como que naturalmente \u2013 coloca toda a sua vida e todas as suas for\u00e7as diariamente a servi\u00e7o dos outros de maneira despretensiosa.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas nosso Frei Osvaldo j\u00e1 desgastou suas melhores for\u00e7as. Em poucos anos j\u00e1 n\u00e3o poder\u00e1 dar conta sozinho de sua grande tarefa. Ser\u00e1 que o exemplo dele n\u00e3o ser\u00e1 bastante luminoso para servir de ideal a uma juventude \u00e0 procura de algo para vida? Uma juventude em Dortmund ou Frankfurt, em Munchen ou em Hamburgo, em Col\u00f4nia ou em Hannover? Uma juventude que j\u00e1 mostra tanta compreens\u00e3o para seus irm\u00e3os pretos e morenos na imensid\u00e3o do mundo? E este \u00e9 tamb\u00e9m o grande interesse de Frei Osvaldo \u2013 que outros encontrem o caminho que ele trilhou com tanta seguran\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Frei Osvaldo Braun, O. F. M.<\/p>\n\n\n\n<p>Nasceu em 23-12-1906 em H\u00f6chst, perto de Frankfurt sobre o Meno (Alemanha). Em 1929 entrou na Ordem Franciscana, em Frauenberg (Monte de Nossa Senhora), Fulda; em 1941 veio para o Brasil, para a miss\u00e3o do Mato Grosso; desde 1942 atuou em Chapada; em 08-09-1969 foi ordenado di\u00e1cono por D. Vunibaldo Talleur; morreu em 08-01-1978 em Fulda (Alemanha).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O \u201cM\u00c9DICO-CHEFE\u201d DE CHAPADA No m\u00eas de maio de 1941 dirigia-se pelo Pac\u00edfico para a Am\u00e9rica Central um grande navio de passageiros. Na popa tremulava em cores vivas a bandeira nacional do pa\u00eds do Sol Nascente, o ponto vermelho sobre o fundo branco brilhante. 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