{"id":473,"date":"2017-01-21T07:11:23","date_gmt":"2017-01-21T11:11:23","guid":{"rendered":"http:\/\/riodacasca.com.br\/wd\/?p=473"},"modified":"2023-01-31T15:41:15","modified_gmt":"2023-01-31T19:41:15","slug":"a-migracao-para-mato-grosso-chapada-dos-guimaraes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/riodacasca.com.br\/wd\/2017\/01\/21\/a-migracao-para-mato-grosso-chapada-dos-guimaraes\/","title":{"rendered":"A migra\u00e7\u00e3o para Mato Grosso &#8211; Chapada dos Guimar\u00e3es."},"content":{"rendered":"<table>\n<tbody>\n<tr>\n<td><\/td>\n<td>\n<p style=\"padding-left: 210px;\"><b>A migra\u00e7\u00e3o dos trabalhadores ga\u00fachos<\/b><b><br \/>\n<\/b><b>para a Amaz\u00f4nia Legal (1970-1985)<\/b><br \/>\n<i>III &#8211; Os projetos de coloniza\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia e suas oposi\u00e7\u00f5es<\/i><\/p>\n<p style=\"padding-left: 210px;\"><b>Larissa Kashina Rebello da Silva<\/b><br \/>\n<i>Bacharel e Licenciada em Hist\u00f3ria pela USP<\/i><br \/>\nlarissa@klepsidra.net<\/p>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p><b>APRESENTA\u00c7\u00c3O:<\/b><br \/>\nEste \u00e9 a terceira e \u00faltima parte de um texto que procura abarcar a coloniza\u00e7\u00e3o de ga\u00fachos no norte do Mato Grosso \u00e0 partir da d\u00e9cada de 1970.&nbsp; S\u00e3o abordadas, nesta parte, os projetos de coloniza\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia no per\u00edodo entre 1970 e 1985, suas vincula\u00e7\u00f5es com as popula\u00e7\u00f5es ga\u00fachas migrantes e com as pol\u00edticas governamentais,&nbsp; al\u00e9m das oposi\u00e7\u00f5es ao projeto executado.<\/p>\n<p><b>INTRODU\u00c7\u00c3O:<\/b><\/p>\n<p>O presente trabalho pretende discutir a migra\u00e7\u00e3o de trabalhadores ga\u00fachos do noroeste do Rio Grande do Sul para o sul da Amaz\u00f4nia Legal, principalmente norte do Mato Grosso, \u00e0 partir da d\u00e9cada de 1970, durante o Governo Militar. Para tanto \u00e9 importante que se fa\u00e7a uma contextualiza\u00e7\u00e3o da origem destes grupos migrantes no Rio Grande do Sul, no s\u00e9culo XIX, que eram na maioria, italianos e alem\u00e3es.<br \/>\nEm seguida, se far\u00e1 um panorama das pol\u00edticas governamentais para a coloniza\u00e7\u00e3o de terras, mais especificamente nas fronteiras agr\u00edcolas estrat\u00e9gicas da Amaz\u00f4nia Legal, e a passagem da concess\u00e3o de coloniza\u00e7\u00e3o para cooperativas.<\/p>\n<p>Atrav\u00e9s de depoimentos de migrantes, familiares e profissionais que trabalham nesta \u00e1rea, e da bibliografia especializada, se discutir\u00e3o as condi\u00e7\u00f5es de vida dos trabalhadores na regi\u00e3o de origem, o noroeste do Rio Grande do Sul, os motivos de seu deslocamento, bem como a descri\u00e7\u00e3o do caminho que percorreram, e em \u00faltimo momento, as condi\u00e7\u00f5es de vida na regi\u00e3o a que se destinaram. N\u00e3o se pode prescindir da discuss\u00e3o \u00e0 respeito da ocupa\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o, e o encontro com a popula\u00e7\u00e3o local preexistente.<\/p>\n<p>A pesquisa de campo na Amaz\u00f4nia Legal foi feita em cidades do estado do Mato Grosso. \u00c9 importante comparar a instala\u00e7\u00e3o dos ga\u00fachos em uma cidade que est\u00e1 ao sul da Amaz\u00f4nia Legal, que \u00e9 Primavera do Leste, com o caso das cidades ao norte: Sinop, Lucas do Rio Verde e Sorriso. H\u00e1 diferen\u00e7as pol\u00edticas e geogr\u00e1ficas nas ocupa\u00e7\u00f5es destas regi\u00f5es.&nbsp; O estudo da coloniza\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia Legal por sulistas foi dividido em tr\u00eas categorias, tais como esta ocorreu: a coloniza\u00e7\u00e3o oficial do INCRA, a coloniza\u00e7\u00e3o por parte de cooperativas e a coloniza\u00e7\u00e3o independente. Os tr\u00eas tipos apresentam realidades diferentes quando ao n\u00edvel de renda dos migrantes, e as condi\u00e7\u00f5es de instala\u00e7\u00e3o. Para avaliar as singularidades, foi necess\u00e1ria uma ampla coleta de depoimentos, e o estudo da bibliografia sobre cada munic\u00edpio visitado.<\/p>\n<p><b>Parte I: A quest\u00e3o agr\u00e1ria no Rio Grande do Sul<\/b><br \/>\n(publicado na edi\u00e7\u00e3o n\u00ba 23 de Klepsidra &#8211; <a href=\"http:\/\/www.klepsidra.net\/klepsidra23\/agro-rs.htm\">clique aqui para acess\u00e1-la<\/a>)<\/p>\n<h2>Parte II: A Pol\u00edtica de Ocupa\u00e7\u00e3o das Fronteiras Amaz\u00f4nicas<\/h2>\n<p>(publicado na edi\u00e7\u00e3o n\u00ba 24 de Klepsidra &#8211; <a href=\"http:\/\/www.klepsidra.net\/klepsidra24\/agro-rs2.htm\">clique aqui para acess\u00e1-la<\/a>)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ol start=\"5\">\n<li><b> Os Projetos de Coloniza\u00e7\u00e3o na Amaz\u00f4nia<\/b><\/li>\n<\/ol>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>5.1 O Plano de Integra\u00e7\u00e3o Nacional<\/b><\/p>\n<p>O principal foco do governo para o Plano de Integra\u00e7\u00e3o Nacional (PIN) era integrar a regi\u00e3o amaz\u00f4nica ao restante do pa\u00eds. A dist\u00e2ncia f\u00edsica entre os programas de coloniza\u00e7\u00e3o era grande, pois pretendia-se que o povoamento posteriormente desenvolvesse o espa\u00e7o, gradualmente, principalmente atrav\u00e9s da constru\u00e7\u00e3o de rodovias, que estava ligada ao capital especulativo.<\/p>\n<p>O PIN foi criado no dia 16 de junho de 1970, com recursos previstos de incentivos fiscais, doa\u00e7\u00f5es,&nbsp; e contribui\u00e7\u00f5es de empresas privadas ou p\u00fablicas, cujo imposto de renda era deduzido em 30%, destinados somente para o Projeto.<a href=\"http:\/\/www.klepsidra.net\/klepsidra25\/rs-mt.htm#_ftn18\" name=\"_ftnref18\">[18]<\/a><\/p>\n<p>O sul do Maranh\u00e3o, o centro de Goi\u00e1s e o centro-sul do Mato Grosso, \u00e1reas de transi\u00e7\u00e3o da caatinga para o cerrado, eram a regi\u00e3o que mais interessava economicamente ao Governo. O Governo anunciava que a Amaz\u00f4nia tinha o maior rebanho bovino do mundo, quando na verdade n\u00e3o passava de 5 milh\u00f5es de cabe\u00e7as.<a href=\"http:\/\/www.klepsidra.net\/klepsidra25\/rs-mt.htm#_ftn19\" name=\"_ftnref19\">[19]<\/a><br \/>\nOs pecuaristas uniam-se aos madeireiros, apoiando-os, pois estes faziam a limpeza do terreno para aqueles.At\u00e9 1950, n\u00e3o havia t\u00edtulos de propriedade de terra nem pre\u00e7os de mercado na Amaz\u00f4nia.<\/p>\n<p>\u201cDe 1970 a 1975, nas v\u00e1rias regi\u00f5es da Amaz\u00f4nia, empresas beneficiadas pelos incentivos fiscais da SUDAM, compraram mais de seis milh\u00f5es de hectares de terras, espalhando centenas de jagun\u00e7os pela \u00e1rea. A ocupa\u00e7\u00e3o se fazia de forma predat\u00f3ria, provocando profunda altera\u00e7\u00e3o no meio ambiente e na vida da popula\u00e7\u00e3o local.\u201d<a href=\"http:\/\/www.klepsidra.net\/klepsidra25\/rs-mt.htm#_ftn20\" name=\"_ftnref20\">[20]<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h1>Projeto Jar\u00ed<\/h1>\n<p>Daniel Keith Ludwig comprou na entrada da bacia amaz\u00f4nica um territ\u00f3rio de 1.200.000 hectares<a href=\"http:\/\/www.klepsidra.net\/klepsidra25\/rs-mt.htm#_ftn21\" name=\"_ftnref21\">*<\/a>. \u201cCom uma fortuna constitu\u00edda \u00e0 sombra de governos. Seu objetivo era reflorestar para extra\u00e7\u00e3o de madeira e metais. Ludwig promoveu um grande processo de devasta\u00e7\u00e3o ambiental na Amaz\u00f4nia.\u201d \u201cNenhum imposto estava sendo pago e o valor das isen\u00e7\u00f5es superava em quatro vezes o montante a ser pago.\u201d<a href=\"http:\/\/www.klepsidra.net\/klepsidra25\/rs-mt.htm#_ftn22\" name=\"_ftnref22\">[21]<\/a> A empresa obteve isen\u00e7\u00e3o de impostos e taxas sobre importa\u00e7\u00e3o de m\u00e1quinas.<\/p>\n<p>Os antigos propriet\u00e1rios foram obrigados, por contrato a deixarem as terras e n\u00e3o mais exercerem atividades nos estados do Amap\u00e1 e Par\u00e1.<\/p>\n<table>\n<tbody>\n<tr>\n<td>Em 1978 o projeto <i>Jar\u00ed<\/i> trouxe uma f\u00e1brica de celulose e uma usina termo- el\u00e9trica montadas, de balsa, do Jap\u00e3o at\u00e9 a Amaz\u00f4nia.<\/td>\n<td>Isto aumentou o uso dito ilegal da terra, ou grilagem, e a emigra\u00e7\u00e3o para outros estados. Os trabalhadores foram substitu\u00eddos: sa\u00edram os que ali viviam, e entraram nordestinos e sulistas.<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>O Jar\u00ed mantinha outras empresas de processamento: Caolim da Amaz\u00f4nia S.\u00aa, no munic\u00edpio de Mazag\u00e3o, para branqueamento de celulose; Projeto Rizicultura, em S. Raimundo, pr\u00f3ximo do rio Amazonas, em \u00e1rea de 15.000 hectares, al\u00e9m do cultivo de cana para \u00e1lcool.<a href=\"http:\/\/www.klepsidra.net\/klepsidra25\/rs-mt.htm#_ftn23\" name=\"_ftnref23\">[22]<\/a><\/p>\n<p>Houve muitas den\u00fancias de maus tratos no Jar\u00ed: n\u00e3o havia casas suficientes, os trabalhadores eram obrigados a assinar recibos de pagamentos n\u00e3o recebidos sob amea\u00e7a de morte, e chegavam at\u00e9 a ficar presos.<br \/>\nOutros grandes projetos foram: <em>Trombetas<\/em>, para extra\u00e7\u00e3o de bauxita no M\u00e9dio Amazonas de 1966 (a explora\u00e7\u00e3o come\u00e7a em 1971); o Projeto <em>Caraj\u00e1s<\/em>: o maior projeto da Amaz\u00f4nia, para explora\u00e7\u00e3o de quase todos os tipos de min\u00e9rio, descoberta em 1967 pela Companhia Meridional de Minera\u00e7\u00e3o, subsidiada da <em>United States Steel Co.<\/em>; houve muitos conflitos de terras pela instala\u00e7\u00e3o deste projeto, pois eram \u00e1reas ocupadas por grupos ind\u00edgenas, de extrativistas, e al\u00e9m do mais, a exploradora era estrangeira. O Projeto <em>Calha Norte<\/em> levou a in\u00fameros conflitos por terras ap\u00f3s a militariza\u00e7\u00e3o das fronteiras.<br \/>\nEsta modifica\u00e7\u00e3o r\u00e1pida do ambiente alterou o modo de vida dos que habitavam a floresta.<br \/>\n\u201c A chegada do estranho aproximou \u00edndios e seringueiros, que at\u00e9 aquele momento eram inimigos e rivais na floresta.Os seringueiros criaram a estrat\u00e9gia dos <em>empates de derrubadas<\/em>, organizando mulheres e crian\u00e7as para abra\u00e7ar a \u00e1rea de seringa que seria atingida pela moto-serra.\u201d<a href=\"http:\/\/www.klepsidra.net\/klepsidra25\/rs-mt.htm#_ftn24\" name=\"_ftnref24\">[23]<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u201cEntre 1973 e 1985, mais de 110.000 fam\u00edlias de migrantes eram candidatas a parceleiras nos projetos de coloniza\u00e7\u00e3o do INCRA; apenas 30.000 conseguiram chegar ao lote de terra atrav\u00e9s do INCRA.\u201d<a href=\"http:\/\/www.klepsidra.net\/klepsidra25\/rs-mt.htm#_ftn25\" name=\"_ftnref25\">[24]<\/a><br \/>\nO Governo lan\u00e7ou o Projeto Integrado de Coloniza\u00e7\u00e3o \u2013 PIC, uma subdivis\u00e3o do PIN na faixa de 10 Km ao longo da rodovia Transamaz\u00f4nica. Os projetos eram:<br \/>\nPIC Altamira, iniciado em 1970, \u00e0s margens da rodovia Transamaz\u00f4nica, com \u00e1rea de 2.795.250 hectares; foi o primeiro projeto do PIN; o INCRA quis estabelecer que 75% dos colonos fossem do Nordeste, e 25% do Sul, seguindo o estere\u00f3tipo de que os nordestinos eram iletrados, pregui\u00e7osos, e voltados \u00e0 ca\u00e7a em vez da agricultura, mas com grande capacidade de superar dificuldades; os sulistas teriam o papel de servir de exemplo aos outros colonos, e de introduzir tecnologia de produ\u00e7\u00e3o.<a href=\"http:\/\/www.klepsidra.net\/klepsidra25\/rs-mt.htm#_ftn26\" name=\"_ftnref26\">[25]<\/a><br \/>\nComo j\u00e1 foi dito, a m\u00eddia era bastante otimista com rela\u00e7\u00e3o a este projeto. O programa&nbsp; atingiu um pico de assentamentos em 1972 e foi abandonado. O PIC do Guam\u00e1, foi iniciado em 1957 e continuado nas d\u00e9cadas de 70 e 80. Com \u00e1rea de 33.105 hectares, ficava nos munic\u00edpios de S. Isabel do Par\u00e1 e Castanhal. Foram assentadas pouco mais de 500 fam\u00edlias entre 1970 e 1973. PIC Itaituba, iniciado em 1971, tinha \u00e1rea de 356.500 hectares, e ficava no munic\u00edpio de Marab\u00e1; recebeu 3.500 colonos, dos quais 19% eram do Sul. Estes eram os PIC\u2019s do Par\u00e1.<br \/>\nEm Rond\u00f4nia, tamb\u00e9m foram instalados diversos Projetos Integrados de Coloniza\u00e7\u00e3o: o PIC Guajar\u00e1-Mirim, ficava na fronteira com a Bol\u00edvia. N\u00e3o atingiu o objetivo esperado, por causa do pequeno tamanho das terras (25 ha), a baixa fertilidade do solo, a defici\u00eancia do cr\u00e9dito. O PIC Ouro Preto, estabeleceu-se em Ouro Preto d\u2019Oeste, em \u00e1rea de 512.585 hectares, e teve mais de 5000 fam\u00edlias assentadas, das quais menos de 10% vinham do Sul. O PIC Sidney Gir\u00e3o, iniciado em 1972 no munic\u00edpio de Guajar\u00e1 Mirim, tinha uma \u00e1rea de 60.000 hectares; teve pouco mais de 600 fam\u00edlias assentadas ao longo da Rodovia BR 425. O PIC Ji-Paran\u00e1, estendia-se por regi\u00f5es de v\u00e1rios munic\u00edpios, entre eles: Presidente M\u00e9dici, Cacoal, Rolim de Moura, Pimenta Bueno; tinha \u00e1rea de 486.137 hectares, e assentou mais de 5000 fam\u00edlias. O PIC Paulo Assis Ribeiro foi iniciado em 1974, no munic\u00edpio de Colorado D\u2019Oeste, em \u00e1rea de 293.580 hectares, entre Rond\u00f4nia, Mato Grosso e Bol\u00edvia; teve 3500 assentados. Os tr\u00eas \u00faltimos projetos estavam pr\u00f3ximos de reservas ind\u00edgenas.<br \/>\nNo <em>Projeto Agroindustrial Canavieiro <\/em>&#8211; PACAL, iniciado em 1973 no munic\u00edpio de Prainha (PA), com \u00e1rea de 15.300 hectares, plantava-se cana-de-a\u00e7\u00facar para abastecer outros PIC\u2019s.<br \/>\nNo Amazonas, a Col\u00f4nia Agr\u00edcola de Bela Vista, tamb\u00e9m parte do PIN, teve assentamentos entre 1974 e 1977.<br \/>\nNo Mato Grosso, executaram-se os \u201cProjetos de A\u00e7\u00e3o Conjunta-PAC\u201d:<br \/>\nO PAC Peixoto de Azevedo, em \u00e1rea de 120.000 hectares, no munic\u00edpio de Guarant\u00e3 do Norte, ao longo da Rodovia Cuiab\u00e1 Santar\u00e9m, com apoio da Cooperativa Trit\u00edcola de Erechim Ltda., assentou-se 700 fam\u00edlias. O Projeto de Assentamento Bra\u00e7o-Sul, tamb\u00e9m ao longo da Rodovia Cuiab\u00e1 Santar\u00e9m, com 115.000 hectares destinou-se ao assentamento de mais de 1000 fam\u00edlias de \u201cbrasiguaios\u201d retornados. Ambos projetos expropriaram \u00edndios Kr\u00e9en Akaror\u00e9 em 1972 para a constru\u00e7\u00e3o da rodovia. Estes foram reduzidos de 800, para 80, quando da transforma\u00e7\u00e3o de suas terras no Parque Nacional do Xingu.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>5.2. Os Projetos particulares do Rio Grande do Sul:<\/b><\/p>\n<p>As cooperativas sulistas respons\u00e1veis pelos projetos amaz\u00f4nicos particulares tinham como crit\u00e9rio de sele\u00e7\u00e3o dos colonos: ser pequeno propriet\u00e1rio, com renda para se sustentar por um ano. Os crit\u00e9rios de sele\u00e7\u00e3o para os projetos oficiais eram para homens&nbsp; entre 21 a 60 anos, casados, com filhos, com boa conduta; possuir tradi\u00e7\u00e3o agr\u00edcola, e n\u00e3o ter propriedade rural. Entre os escolhidos haviam: pequenos propriet\u00e1rios, ou seus filhos, pequenos arrendat\u00e1rios, meeiros, posseiros, assalariados rurais e urbanos; portanto, o crit\u00e9rio dos programas oficiais eram menos r\u00edgidos que os particulares. Conclui-se que n\u00e3o havia um modelo fixo de migrante, pois o crit\u00e9rio era bastante abrangente.<\/p>\n<p>As cooperativas controlavam as atividades dos colonos, como o garimpo (o que foi o caso extremo de Alta Floresta (MT), onde \u201ccolonos-garimpeiros\u201d foram espancados at\u00e9 a morte. Tamb\u00e9m eram dissolvidas, reuni\u00f5es de grupos que discutissem a situa\u00e7\u00e3o social dos colonos. Al\u00e9m disso, as cooperativas proibiam de vender a produ\u00e7\u00e3o sem o interm\u00e9dio das mesmas, o que mostra mais claramente o seu car\u00e1ter empreendedor, \u00e1vido por abrir novos projetos. H\u00e1 uma rela\u00e7\u00e3o de paternalismo por parte dos dirigentes dos Programas, com rela\u00e7\u00e3o aos colonos.<\/p>\n<p>As colonizadoras ignoraram a presen\u00e7a de outros ocupantes nas terras loteadas, e admitiram apenas o seu projeto como modelo de ocupa\u00e7\u00e3o da regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Nos programas privados, os parceleiros que chegaram entre 1970 e 1979, receberam cr\u00e9dito fundi\u00e1rio com prazo de 15 a 20 anos, com&nbsp; 2 a 4 anos de car\u00eancia a juros entre 6 e 12% ao ano. Com a falta de cr\u00e9ditos dados pelo Pr\u00f3-Terra, os colonos teriam que pagar 20% do valor da terra adiantados, e os juros seriam mais elevados.<br \/>\nN\u00e3o raro, as colonizadoras estavam ligadas a grupos econ\u00f4micos em diversas atividades, como extra\u00e7\u00e3o de madeira, e a agro-ind\u00fastria, garantindo v\u00e1rias fontes de lucro.<\/p>\n<p>Quase todos os programas tinham uma prote\u00e7\u00e3o do governo de pre\u00e7o m\u00ednimo: se a colheita n\u00e3o fosse comprada, o governo o fazia.<\/p>\n<p>Como na Amaz\u00f4nia o solo \u00e9 muito irregular e os lotes eram distribu\u00eddos aleatoriamente, um colono poderia receber uma terra mais f\u00e9rtil, ou com fonte de \u00e1gua, ou ouro, enquanto o seu vizinho, n\u00e3o.<br \/>\nOs colonos buscavam produzir e comprar fora do sistema da cooperativa, que em todos os casos queria lucrar sobre a venda dos e para os cooperados.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O Programa de Coloniza\u00e7\u00e3o Canarana, da Cooperativa 31 de Mar\u00e7o -COOPERCOL, de Tenente Portela, foi inaugurado em 1972, em Barra do Gar\u00e7as, no leste do Mato Grosso, \u201cno Km 335 da rodovia (n\u00e3o asfaltada) BR-158.\u201d<a href=\"http:\/\/www.klepsidra.net\/klepsidra25\/rs-mt.htm#_ftn27\" name=\"_ftnref27\">[26]<\/a> Estabeleceu-se em territ\u00f3rio dos \u00edndios Xavantes e Bororo. Barra do Gar\u00e7as \u00e9 sede do munic\u00edpio desde 1948, quando vieram os exploradores de ouro e se instalaram. At\u00e9 ent\u00e3o n\u00e3o havia brancos no local. J\u00e1 desde 1950, a regi\u00e3o foi ocupada por grandes fazendas de gado extensivo, que receberam concess\u00f5es de terras p\u00fablicas do Governo do Estado do Mato Grosso. Tamb\u00e9m chegaram muitos posseiros nordestinos e nortistas, no come\u00e7o da d\u00e9cada de 60. O conflito entre fazendeiros e \u00edndios se intensificou tanto que o Ex\u00e9rcito interveio, deslocando os Xavantes para a reserva ind\u00edgena Pimenta Bueno no Araguaia mato-grossense.<br \/>\nO Programa de Coloniza\u00e7\u00e3o Canarana ocupava uma \u00e1rea de 39.851 hectares, com 81 parcelas de 470 hectares, destinadas \u00e0 propriedade familiar.<a href=\"http:\/\/www.klepsidra.net\/klepsidra25\/rs-mt.htm#_ftn28\" name=\"_ftnref28\">[27]<\/a> Entre 1973 e 1979, outros 23 projetos de coloniza\u00e7\u00e3o instalaram 1206 fam\u00edlias no munic\u00edpio, sob organiza\u00e7\u00e3o da CONAGRO, empresa do grupo COOPERCOL.<br \/>\nPor falta de espa\u00e7o agricultur\u00e1vel em Tenente Portela (RS), os camponeses avan\u00e7aram progressivamente numa reserva ind\u00edgena Kaingang, por 10 anos sob aux\u00edlio do Servi\u00e7o de Prote\u00e7\u00e3o aos \u00cdndios, de onde foram expulsos ap\u00f3s 20 anos de perman\u00eancia. A expuls\u00e3o destes trabalhadores que n\u00e3o tinham nenhuma propriedade, levou a um movimento por reivindica\u00e7\u00e3o de terras, que foi fortemente reprimido pelo Governo Militar.<br \/>\nTamb\u00e9m em Tenente Portela, um grupo urbano, liderado por um pastor luterano, Norberto Schwantes, conseguiu verba europ\u00e9ia para montar uma r\u00e1dio que dava assist\u00eancia agr\u00edcola. Concluiu-se que o problema da falta de terras estava no minif\u00fandio de trabalho manual, e n\u00e3o pela crise de esgotamento do arroz, como a m\u00eddia sempre enunciava. Ent\u00e3o, prop\u00f4s-se que metade dos camponeses fosse transferida para a Amaz\u00f4nia, para aliviar a tens\u00e3o social causada pela impossibilidade de se adquirir mais terras no Rio Grande do Sul. O projeto foi muito bem aceito pelo INCRA, que sugeriu que Schwantes montasse uma colonizadora, e enviou dois funcion\u00e1rios para orientar o trabalho. O nome 31 de mar\u00e7o, era em homenagem ao dia e m\u00eas da Revolu\u00e7\u00e3o de 1964. Schwantes foi uma figura muito pol\u00eamica, pois estreitou la\u00e7os com a ditadura, ao mesmo tempo que dava abrigo a refugiados pol\u00edticos em Tenente Portela.<br \/>\nCom dificuldades em adquirir terras, a colonizadora tornou a pedir a ajuda do INCRA, que orientou para que recrutassem camponeses para os projetos ao longo da Transamaz\u00f4nica, Altamira e Marab\u00e1, que faziam parte do Projeto de Integra\u00e7\u00e3o Nacional. Os ga\u00fachos dariam o exemplo aos nordestinos. Dos primeiros 76 camponeses que foram, sem a fam\u00edlia, para passar 6 meses, a metade voltou<a href=\"http:\/\/www.klepsidra.net\/klepsidra25\/rs-mt.htm#_ftn29\" name=\"_ftnref29\">[28]<\/a>, horrorizada com as p\u00e9ssimas condi\u00e7\u00f5es dos projetos. Mas as fam\u00edlias continuavam a ser transferidas: estima-se que foram 200 fam\u00edlias atrav\u00e9s deste conv\u00eanio.<br \/>\nFormaram-se ent\u00e3o dois projetos: em Barra do Gar\u00e7as, para agricultores com mais capital (terrenos de 500 a 1000 hectares), e o projeto da Transamaz\u00f4nica para os camponeses sem recursos. Aderiram 360 pessoas. Apenas 60 permaneceram. Destes interessados, apenas 81 fam\u00edlias partiram para Barra do Gar\u00e7as. Havia inicialmente 118 camponeses interessados em ir para Barra do Gar\u00e7as, e apenas 22 para a Transamaz\u00f4nica.<a href=\"http:\/\/www.klepsidra.net\/klepsidra25\/rs-mt.htm#_ftn30\" name=\"_ftnref30\">[29]<\/a><br \/>\nUm forte trabalho de propaganda foi feito no Sul, o que efetivamente rendeu muitos deslocamentos de fam\u00edlias com pouca terra, a maioria delas arrendadas da reserva Kaingang. Era exigido um certo capital pelo pr\u00f3prio Projeto Canarana. Schwantes diz: \u201c(&#8230;) mesmo fam\u00edlias que estavam muito bem aqui, partiram.\u201d<a href=\"http:\/\/www.klepsidra.net\/klepsidra25\/rs-mt.htm#_ftn31\" name=\"_ftnref31\">[30]<\/a><br \/>\nNo Sul, houve uma concentra\u00e7\u00e3o de terras nas m\u00e3os de quem comprou dos camponeses que migraram.<\/p>\n<p>O Pr\u00f3-Terra financiava 80% do pre\u00e7o da terra. Portanto, pode-se dizer que este projeto teve muito incentivo dos governos, estadual e federal.<br \/>\nAs condi\u00e7\u00f5es eram p\u00e9ssimas: os colonos viveram por 1 ano em barracas, muitos foram atingidos pela mal\u00e1ria. Barra do Gar\u00e7as, a cidade mais pr\u00f3xima, ficava \u00e0 335 Km de Canarana, por estrada de terra, e o pre\u00e7o das mercadorias l\u00e1 era muito alto. Os colonos sobreviviam do que traziam do Sul, basicamente. Com dois tratores, fizeram a primeira lavoura coletiva, monocultora, de arroz (exig\u00eancia do INCRA) e instalaram uma serraria para fazer as casas.<br \/>\nFoi projetada uma agrovila, mas logo, os colonos foram viver no centro urbano, por causa da dist\u00e2ncia da escola, e a falta de encanamento de \u00e1gua e eletricidade, o que fez com que o centro se desenvolvesse rapidamente, \u00e0 ponto de j\u00e1 em 1982, haver \u201cbairros de ricos e de pobres\u201d, isolados.<br \/>\nEntre 1979 e 1981, o conflito com os \u00edndios Xavante se intensificou, sendo no m\u00ednimo 210 fam\u00edlias amea\u00e7adas de expuls\u00e3o.<br \/>\nEm 1\u00ba de maio de 1975, foi fundada a Vila de Canarana, mesmo ano da funda\u00e7\u00e3o da COOPERCANA, Cooperativa de Produtores, com 1500 associados em 1980. O principal motivo do sucesso, foram os cr\u00e9ditos p\u00fablicos abundantes, e a tradi\u00e7\u00e3o agr\u00edcola de pequenos produtores do Sul.<br \/>\nA vila tornou-se munic\u00edpio ao final de 1979, in\u00edcio do per\u00edodo da crise de esgotamento do solo pelo plantio de arroz. Aproximadamente metade dos colonos se endividou e o Banco do Brasil confiscou as suas m\u00e1quinas agr\u00edcolas. A maioria dos colonos passou a arrendar terras nos arredores, ou partiu para outros estados. Apenas 40% permaneceu em Canarana. Logono in\u00edcio do Projeto, 8 fam\u00edlias retornaram porque n\u00e3o conseguiram se sustentar. As levas de retornados, tiveram que passar pela humilha\u00e7\u00e3o de serem vistos como vadios por sulistas no Sul e em Canarana. Geralmente os que conheciam menos a agricultura mecanizada, foram menos bem sucedidos. Este grupo foi estimulado pelo INCRA a substituir colonos tamb\u00e9m retornados, desta vez em Rond\u00f4nia, Terranova e Lucas do Rio Verde.<br \/>\nOs principais motivos da migra\u00e7\u00e3o deste grupo, segundo Santos<a href=\"http:\/\/www.klepsidra.net\/klepsidra25\/rs-mt.htm#_ftn32\" name=\"_ftnref32\">[31]<\/a>, eram&nbsp; a busca de mais terras para os filhos, e o cansa\u00e7o relativo ao trabalho manual: queriam mecanizar sua lavoura.<br \/>\nO tamanho das terras em Canarana era muito maior que em Tenente Portela: de 14 ha no Sul, para 475 ha no Mato Grosso, aproximadamente, em 1972, e 570 ha em 1984.<a href=\"http:\/\/www.klepsidra.net\/klepsidra25\/rs-mt.htm#_ftn33\" name=\"_ftnref33\">[32]<\/a> Mas o tamanho das terras \u00e9 bastante desigual no projeto, como acontece com a divis\u00e3o agr\u00e1ria em todo o Brasil.<br \/>\nA produ\u00e7\u00e3o em Canarana era familiar, e nas \u00e9pocas de plantio e colheita, meeiros eram contratados, e ficavam com 5% da colheita.<br \/>\nEntre 1983 e 84, deslanchou a produ\u00e7\u00e3o de soja em Canarana, devido a explora\u00e7\u00e3o de uma mina de calc\u00e1rio que possibilitou a corre\u00e7\u00e3o do solo. No entanto, muitos produtores continuaram a plantar suas culturas de subsist\u00eancia, pois n\u00e3o queriam mais obter empr\u00e9stimos do Banco do Brasil. A pecu\u00e1ria tamb\u00e9m se fortaleceu neste momento.<br \/>\nOs colonos lamentavam a depend\u00eancia da cooperativa, e a falta de assist\u00eancia t\u00e9cnica da EMATER: empresa do \u00f3rg\u00e3o oficial de extens\u00e3o rural. A tecnologia do trabalho no cerrado foi desenvolvida pelos pr\u00f3prios agricultores.<br \/>\nOs posseiros que vivam na terra antes do Programa Canarana, nas d\u00e9cadas de 60 e 70 est\u00e3o em conflito com os fazendeiros at\u00e9 hoje, nos arredores do Programa: Canabrava, Milagrosa, Rio Tanguru e Cascalheira. Foram ressarcidos de suas produ\u00e7\u00f5es e casas, mas n\u00e3o pelas terras. Os sulistas j\u00e1 chegaram \u00e0 uma regi\u00e3o de conflito, portanto, n\u00e3o foram seus causadores, mas a cidade \u00e9 dividida entre os nordestinos e sulistas, que vivem ao norte, e os sulistas que vivem ao sul do munic\u00edpio.<br \/>\nSantos<a href=\"http:\/\/www.klepsidra.net\/klepsidra25\/rs-mt.htm#_ftn34\" name=\"_ftnref34\">[33]<\/a> observa que a rela\u00e7\u00e3o entre os colonos \u00e9 de individualismo, e que quase nada resta da cultura camponesa ga\u00facha em Canarana: 12 anos depois de suas chegada, n\u00e3o havia ainda nenhum sindicato.<\/p>\n<p>Um an\u00f4nimo de Tenente Portela (RS), conta que seus pr\u00f3prios irm\u00e3os mudaram-se para Canarana h\u00e1 16 anos. Ele nunca mais os viu. Diz que \u00e9 prov\u00e1vel que um deles esteja morto. Seu pai, Nemo ainda vive l\u00e1. Os filhos disseram ao pai que iam tentar a vida; foram com um pequeno cr\u00e9dito do governo, mas por iniciativa pr\u00f3pria. Com a parte da heran\u00e7a da terra que o pai vendera (eram mais de dez filhos), venderam 26 hectares e hoje eles t\u00eam mais de 1000 hectares, conta com ar de esperan\u00e7a o homem.<br \/>\nEm Tenente Portela, plantavam milho e feij\u00e3o; em Canarana plantam soja e t\u00eam centenas de cabe\u00e7as de gado. \u201cA foto \u00e9 um esc\u00e2ndalo\u201d, diz o homem, cujo sonho \u00e9 ir com a mulher e os cinco filhos para l\u00e1: \u201cj\u00e1 que eles est\u00e3o ricos e eu pobre&#8230;tenho 27 anos e cara de mais de 30 n\u00e3o \u00e9?\u2019\u2019<br \/>\nSr. \u00canio vive em Tenente Portela, onde \u00e9 propriet\u00e1rio de uma padaria e um bar. Conta que sempre foi padeiro. Em 1989, mudou-se para Canarana para trabalhar na Coopercana, como empregado. Diz que voltou com a fam\u00edlia porque a esposa n\u00e3o gostava da vida de l\u00e1.<br \/>\nForam sem dinheiro algum, e n\u00e3o tinham terras. Os aparelhos da sua padaria estavam penhorados.<br \/>\nRetornou com dinheiro suficiente para os readquirir e voltar a trabalhar no que sempre gostou de fazer, diz Sr. \u00canio.<br \/>\nOs colonos sabiam das fraudes na Coopercana. Um exemplo \u00e9 de caminh\u00f5es que vinham com mantimentos, pesavam, e depois passam de novo com a balan\u00e7a em tara, como se o caminh\u00e3o tivesse descarregado, quando na verdade o motorista levava a carga para si e dividia com os mancomunados. Estas fraudes foram o principal motivo pelo qual o projeto n\u00e3o se sustentou. A Coopercana passou a se chamar Caramuru.<\/p>\n<p>H\u00e1 tr\u00eas anos, o grupo Maggi, do qual o governador do estado \u00e9 propriet\u00e1rio, comprou uma \u00e1rea de 40.000 hectares em Canarana; era a antiga fazenda Para\u00edso. Um grupo de funcion\u00e1rios do supermercado Coopercana se apropriou do terreno; viraram donos e ningu\u00e9m os desapropriou.<br \/>\nExiste muito tr\u00e1fico l\u00e1, e conseq\u00fcentemente, muitos crimes. Teve uma \u00e9poca em que os pr\u00f3prios seguran\u00e7as da cooperativa estavam envolvidos.<br \/>\nSobre a instala\u00e7\u00e3o no Mato Grosso, Sr. \u00canio diz: \u201cQuem mora em favela \u00e9 nordestino. Ga\u00facho n\u00e3o. Ga\u00facho vai e aluga nem que seja um quarto, como eu, que fui sem nada.\u201d<br \/>\nSegundo sua esposa, eles voltaram porque sr. \u00canio perdeu o emprego da padaria onde trabalhava. A esposa era escritur\u00e1ria na prefeitura. No dia seguinte \u00e0s elei\u00e7\u00f5es municipais o candidato que perdeu mandou queimar a sede municipal. Todos os arquivos foram perdidos.<\/p>\n<p>O Programa de Coloniza\u00e7\u00e3o Terranova, atual munic\u00edpio de Col\u00edder, situa-se \u00e0s margens da BR 163, no Km 700, no norte do Mato Grosso, que fica em regi\u00e3o de floresta tropical. \u00c9 banhada pelos rios Teles Pires e Peixoto de Azevedo. A terra \u00e9 seca e dura, e o terreno \u00e9 plano. A regi\u00e3o era territ\u00f3rio dos \u00edndios Kreen-Aka-Rore. O primeiro encontro com os brancos em 1967 resultou num conflito violento. Com a constru\u00e7\u00e3o da rodovia Cuiab\u00e1-Santar\u00e9m, o governo, atrav\u00e9s dos irm\u00e3os Vilas-Boas, transferiu os \u00edndios para uma reserva \u00e0s margens da rodovia, criada justamente para este fim. Em um ano, a sua popula\u00e7\u00e3o passou de 300 para 150, por causa das doen\u00e7as dos brancos. Ent\u00e3o, em 1974, foram re-transferidos para o Parque Nacional do Xing\u00fa.<br \/>\nO Projeto come\u00e7ou a ser implantado em 1978, pela COOPERCANA, a mesma cooperativa respons\u00e1vel pelo Projeto Canarana; \u00e0 pedido do governo, para assentar ga\u00fachos expulsos das reservas: Nonoa\u00ed, Cacique Double e Guarita, territ\u00f3rios Kaingang,&nbsp; pr\u00f3ximos de Tenente Portela. Seriam 1000 colonos, no total. Mais 32 fam\u00edlias foram re-alocadas, porque viviam em Canarana, mas estavam em territ\u00f3rio Xavante.<br \/>\nOs ga\u00fachos expulsos dos territ\u00f3rios Kaingang no Sul, estavam alojados no Parque de Exposi\u00e7\u00f5es do Esteio, pr\u00f3ximo de Porto Alegre. A COOPERCANA lhes ofereceu propriedades de 200 hectares, com financiamento de 15 anos, cr\u00e9dito sazonal, casas de madeira, estradas vicinais, escolas e hospitais, onde diziam ser terras f\u00e9rteis e sem doen\u00e7as. Mas os camponeses hesitaram muito. Havia quatro op\u00e7\u00f5es: assalariamento em munic\u00edpios pr\u00f3ximos; assentamento na Col\u00f4nia Nova Esperan\u00e7a em Bag\u00e9, que assentou apenas 128 fam\u00edlias em lotes de 15 a20 hectares; coloniza\u00e7\u00e3o em Terranova; ou permanecer no Sul sem terra. A maioria, portanto escolheu migrar. Inicialmente, 550 fam\u00edlias e depois 80 fam\u00edlias mudaram-se para o Projeto Terranova. As 300 fam\u00edlias que ficaram no Alto Uruguai (RS), invadiram, um ano depois, a Fazenda Sarand\u00ed, que levaria a organiza\u00e7\u00e3o do primeiro acampamento do MST.<br \/>\nO Programa Terranova tinha superf\u00edcie total de 435.000 hectares, divididos em 1060 lotes rurais. At\u00e9 julho de 1979, 637 fam\u00edlias foram assentadas em parcelas de 200 hectares. \u00c0 partir de outubro, mais 423 terrenos (desta vez de 100 ha) foram distribu\u00eddos aos expulsos de Nonoa\u00ed, no norte do Rio Grande do Sul, e oeste de Santa Catarina. Os colonos recebiam cr\u00e9dito do Banco do Brasil, atrav\u00e9s do Pr\u00f3-Terra.<br \/>\nOs cr\u00e9ditos foram liberados com muito atraso. Entre 1979 e 80, a COOPERCANA passou por uma grande crise.<br \/>\nEm 1980, Col\u00edder foi decretada pelo INCRA, zona priorit\u00e1ria de assentamento, por causa de conflitos entre posseiros e fazendeiros com t\u00edtulos falsos de propriedade. A solu\u00e7\u00e3o encontrada pelo Governo, portanto, foi incluir mais um grupo no territ\u00f3rio.<br \/>\nOs colonos vieram, principalmente por causa da mecaniza\u00e7\u00e3o da lavoura na d\u00e9cada de 60, que os deixou pressionados pelos \u201cgrandes\u201d agro-pecuaristas no Sul, e por n\u00e3o terem capital para mecanizar-se. A consequ\u00eancia da mecaniza\u00e7\u00e3o foi o aumento do pre\u00e7o da terra, que os impediu de expandir sua produ\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m disso, o aumento da fam\u00edlia tornava o tamanho das suas parcelas insuficientes.<a href=\"http:\/\/www.klepsidra.net\/klepsidra25\/rs-mt.htm#_ftn35\" name=\"_ftnref35\">[34]<\/a><br \/>\nMuitos colonos s\u00e3o filhos de pequenos propriet\u00e1rios. Por tradi\u00e7\u00e3o a terra fica para o filho mais novo. Os mais velhos n\u00e3o podem permanecer porque n\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o.<br \/>\nOutro grupo que foi para Terranova, \u00e9 o dos \u201cafogados\u201d da barragem de Passo Real (RS), em 1970.<br \/>\nA COOPERCANA tamb\u00e9m fez uma propaganda forte sobre Terranova, com audiovisuais, e pelo r\u00e1dio. As promessas eram de que iriam \u00e0 uma \u201cterra prometida\u201d.<br \/>\nJos\u00e9 Vicente Tavares dos Santos avalia que \u201cos colonos chegavam em Terranova desprovidos de recursos financeiros importantes, exceto uma minoria que vendeu seus instrumentos agr\u00edcolas antes de partir.\u201d<a href=\"http:\/\/www.klepsidra.net\/klepsidra25\/rs-mt.htm#_ftn36\" name=\"_ftnref36\">[35]<\/a><\/p>\n<p>Tudo o que fora prometido n\u00e3o era como tal na realidade: as casas eram barracos de madeira, n\u00e3o havia \u00e1gua encanada nem instala\u00e7\u00e3o el\u00e9trica; as terras n\u00e3o haviam sido medidas, nem o terreno fora limpo. Para chegar da agrovila ao lote, tinham que caminhar de 5 a 9 Km, o que fez muitos optarem por vender o lote residencial e viver no terreno da lavoura. Tinham que pescar e ca\u00e7ar, pois seus recursos n\u00e3o eram suficientes para comprar comida. Realmente passavam fome nos primeiros tr\u00eas anos, quando n\u00e3o havia o supermercado da COBAL, pois na \u00e9poca das chuvas, a estrada fica intrafeg\u00e1vel.<br \/>\nN\u00e3o havia assist\u00eancia m\u00e9dica nas agrovilas. Muitos morreram de mal\u00e1ria. N\u00e3o se sabe quantos. S\u00f3 constru\u00edram uma escola muitos anos depois, e era apenas o ensino prim\u00e1rio (4 anos). Foram feitas muitas den\u00fancias, como a de que o alimento enviado pelo Governo Federal era desviado<a href=\"http:\/\/www.klepsidra.net\/klepsidra25\/rs-mt.htm#_ftn37\" name=\"_ftnref37\">[36]<\/a>, de que o contrato n\u00e3o foi honrado, e de que a Cooperativa vendeu concess\u00f5es em \u00e1reas de reserva florestal.<br \/>\nNo cemit\u00e9rio da cidade est\u00e1 escrito em muitas cruzes: \u201cDESCONHECIDO\u201d. Eram pioneiros que abriram a mata e morreram de mal\u00e1ria, ou em conflito. Muitos tornaram-se garimpeiros, madeireiros e ca\u00e7adores.<\/p>\n<p>A medida m\u00e9dia das propriedades era de 198 hectares.Na primeira fase da coloniza\u00e7\u00e3o, a atividade era a extra\u00e7\u00e3o de madeira. No come\u00e7o da d\u00e9cada de 80, come\u00e7ou-se a explorar mais ouro e a diversificar culturas, ap\u00f3s o esgotamento das lavouras de arroz.&nbsp; Os colonos ga\u00fachos partiram para o garimpo<a href=\"http:\/\/www.klepsidra.net\/klepsidra25\/rs-mt.htm#_ftn38\" name=\"_ftnref38\">[37]<\/a> para que pudessem continuar na agricultura sem depender de empr\u00e9stimos banc\u00e1rios. Foi uma atividade sazonal para este grupo.<br \/>\nUma nova leva de migrantes, chamados de \u201ccompradores\u201d, vindos principalmente de Santa Catarina e Paran\u00e1, adquiriram os terrenos dos colonos \u201cpioneiros\u201d que retornaram. A condi\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e social deste segundo grupo era um pouco melhor que a do primeiro, pois j\u00e1 havia mais estrutura em Terranova. Havia tamb\u00e9m um grande n\u00famero de posseiros vindos de todas as regi\u00f5es. Muitos eram garimpeiros. Ocupavam faixas de terra devolutas atr\u00e1s das parcelas dos colonos, \u00e0 5 Km da estrada. N\u00e3o tinham acesso \u00e0 nenhuma benfeitoria de Terranova. Produziram todo o seu espa\u00e7o independentemente.<br \/>\nHouve conflito entre os colonos e os posseiros. Tamb\u00e9m \u00e9 n\u00edtida em Terranova, como em qualquer outro munic\u00edpio originado por coloniza\u00e7\u00e3o uma diferencia\u00e7\u00e3o social entre os colonos pioneiros, os que chegaram posteriormente, os posseiros, os dirigentes da colonizadora, e os grandes fazendeiros que j\u00e1 eram propriet\u00e1rios das terras antes da coloniza\u00e7\u00e3o.<br \/>\nEm 1979 foi fundado um centro comunit\u00e1rio de lazer. A bocha, jogo muito apreciado por ga\u00fachos era uma forte atra\u00e7\u00e3o, o que mostra que o grupo manteve-se coeso, dentro do seu <em>status<\/em>:colonos parceleiros e colonos compradores n\u00e3o se misturavam. As diferentes religi\u00f5es, das quais a cat\u00f3lica era a mais forte, tamb\u00e9m cingiam os ga\u00fachos.<br \/>\nA justi\u00e7a sempre esteve ausente, o que fez com que a viol\u00eancia policial e dos matadores contratados por propriet\u00e1rios para eliminar os posseiros ficasse impune.<br \/>\nHouve muita desist\u00eancia por parte dos colonos, que retornaram: 80% da primeira leva, entre 1979 e 81, abandonou o Programa. Alguns trocaram uma parcela em Terranova por um lote no Sul, outros trocaram a parcela apenas pela passagem de volta. Estes foram vistos como \u201cpessoas que n\u00e3o querem trabalhar\u201d e \u201cespeculadores\u201d<a href=\"http:\/\/www.klepsidra.net\/klepsidra25\/rs-mt.htm#_ftn39\" name=\"_ftnref39\">[38]<\/a><br \/>\nO agricultor Carlos Mouro, migrou de Nonoa\u00ed para Terranova do Norte na d\u00e9cada de 1980, ao receber uma parcela de 250 hectares. Pegou mal\u00e1ria mais de 60 vezes. Todas as manh\u00e3s, ele e a mulher, ambos com mais de 40 anos, caminham cerca de 10 Km em mata fechada para chegar \u00e0 ro\u00e7a; Leva sempre um fac\u00e3o e um rifle, porque h\u00e1 muitos animais selvagens. Sem ter com quem negociar a produ\u00e7\u00e3o, ele alterna a agricultura com o garimpo. A Colonizadora Cotrel, do munic\u00edpio de Erexim (RS), lan\u00e7ou em acordo com o INCRA, em 1980, um programa de coloniza\u00e7\u00e3o no Km 750 da rodovia Cuiab\u00e1-Santar\u00e9m, para assentar os \u201cafogados\u201d das barragens do Rio Uruguai. As barragens estavam sob responsabilidade da empresa estatal Eletrosul, na divisa do Rio Grande do Sul com Santa Catarina. Na comiss\u00e3o de apoio \u00e0 constru\u00e7\u00e3o das barragens, estava o vice-presidente da cooperativa, o que indica o interesse na barragem para assentar os sem-terra no projeto amaz\u00f4nico.<\/p>\n<p>Porto dos Ga\u00fachos, nas d\u00e9cadas de 50 e 60, era uma col\u00f4nia da Conomali, em reserva ind\u00edgena Bei\u00e7o de Pau. L\u00e1 a principal atividade por muitos anos foi a extra\u00e7\u00e3o de borracha, que se iniciou com os \u201csoldados da borracha\u201d, nordestinos trazidos durante a Segunda Guerra Mundial, pelo governo federal para coletar l\u00e1tex. A borracha era usada em pneus para as tropas aliadas.<br \/>\nUltimamente, com a decad\u00eancia da borracha, est\u00e3o substituindo a economia pela pecu\u00e1ria e at\u00e9 o plantio de soja.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Sorriso, fundada pela colonizadora de mesmo nome, tamb\u00e9m foi constru\u00edda ao longo da rodovia Cuiab\u00e1-Santar\u00e9m, foi um desmembramento de Nobres.<br \/>\n\u201cPacificado\u201d em 1924 e 1942, um grupo de cerca de 40 \u00edndios Kayabi foi encontrado pelos irm\u00e3os Vilas-Boas \u00e0s margens do Rio Peixoto de Azevedo. Neste per\u00edodo, os Kayabi consideravam sua, a \u00e1rea compreendida entre o rio Teles-Pires e a margem direita do rio Arinos. A \u00e1rea onde hoje localiza-se o munic\u00edpio de Sorriso, fazia parte do seu territ\u00f3rio. Tiveram um contato violento com seringueiros, alguns at\u00e9 passando a exercer esta atividade. Em 1950, foram \u201cconvencidos\u201d a emigrar para o Parque do Xing\u00fa.<br \/>\n\u201cA primeira visita com interesse em comprar terra nesta regi\u00e3o foi a do Sr. Benjamin Raiser, juntamente com seu filho, Ivo Raiser e seu genro Nelson Fr\u00e2ncio, em 1972. (&#8230;) Em final de 1973, estiveram aqui novamente, quando fizeram neg\u00f3cio. Benjamin ofereceu a terra a seu filho e seu genro.\u201d<a href=\"http:\/\/www.klepsidra.net\/klepsidra25\/rs-mt.htm#_ftn40\" name=\"_ftnref40\">[39]<\/a> Depois de voltar v\u00e1rias vezes para o Sul, foram morar no munic\u00edpio de Sinop, que tinha uma estrutura melhor, como escolas, etc.<br \/>\nEm mar\u00e7o de 1975, tr\u00eas pessoas: Claudino Fr\u00e2ncio, de Videiras (SC), seu primo Dem\u00e9trio Fr\u00e2ncio, residente em Amp\u00e9re (PR), e Dorival Brand\u00e3o, residente em Marmeleiro (PR), \u00e0 convite de Claudino, vieram visitar Nelson e Ivo. O objetivo da compra era formar uma agropecu\u00e1ria.<br \/>\nComo a \u00e1rea que Claudino comprou era muito grande, e seus recursos n\u00e3o eram suficientes, ele voltou para o Sul oferecendo terras aos amigos e parentes. \u201cClaudino tinha uma propriedade de 4000 hectares, e vendeu 1000 para este grupo. Em seguida, vendeu toda a terra e comprou mais 4000 hectares. A not\u00edcia chegou r\u00e1pido pela regi\u00e3o Sul e come\u00e7ou-se a organizar caravanas quinzenais para virem conhecer o Mato Grosso.\u201d<a href=\"http:\/\/www.klepsidra.net\/klepsidra25\/rs-mt.htm#_ftn41\" name=\"_ftnref41\">[40]<\/a><br \/>\nO grupo resolveu montar uma imobili\u00e1ria, para comprar e vender terras. Ricieri ficou no Sul administrando os neg\u00f3cios da fam\u00edlia, caso a imobili\u00e1ria n\u00e3o desse certo no norte. Nelson administrava o escrit\u00f3rio <em>in loco<\/em>. Dna. Idali, esposa de Claudino, com uma fusca, ia e vinha para Videiras (PR) para fazer propaganda das terras que tinham \u00e0 venda.<br \/>\n\u201cPensaram em dar \u00e0 gleba, o nome de Curitiba, e algu\u00e9m sugeriu que pusessem o nome fantasia de Curitiba, que \u00e9 Sorriso.\u201d<br \/>\nA primeira \u00e1rea derrubada foi de 50x50m<a href=\"http:\/\/www.klepsidra.net\/klepsidra25\/rs-mt.htm#_ftn42\" name=\"_ftnref42\">[41]<\/a>, com machado e moto-serra, local onde constru\u00edram o primeiro abrigo, de 3x5m: uma esp\u00e9cie de acampamento. Em seguida, constru\u00edram uma casa maior que foi chamada de restaurante; de l\u00e1 come\u00e7aram a oferecer refei\u00e7\u00f5es aos funcion\u00e1rios do 9\u00ba BEC: batalh\u00e3o de engenharia civil, que era o respons\u00e1vel pela constru\u00e7\u00e3o das estradas na \u00e9poca.<br \/>\nOs pioneiros n\u00e3o conheciam o solo e as possibilidades do Cerrado; ent\u00e3o derrubaram com a mesma t\u00e9cnica do Sul. Depois descobriram a t\u00e9cnica local que era muito mais r\u00e1pida, pois a extens\u00e3o de terra era muito maior que no Sul: uma corrente puxada por dois tratores. Os sulistas se emocionavam com a queda de tantas \u00e1rvores ao mesmo tempo, segundo os relatos.<br \/>\nFizeram a primeira lavoura de arroz coletiva, em 50 hectares, pr\u00f3ximo ao rio Lira. Foi o cart\u00e3o de visita para os colonizadores do Sul.<br \/>\nAssim relata Nelson sobre a expuls\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o que vivia na \u00e1rea que ele comprou: \u201c(&#8230;) residiam ribeirinhos (&#8230;) quando n\u00f3s compramos esta \u00e1rea de Sorriso, eram 8000 alqueires. Tinham mais ou menos 200 pessoas aqui em cima, de grileiros. N\u00f3s compramos de uma firma do Rio de Janeiro, do Euclides Aranha, que era Ministro de Guerra do Governo Castelo Branco. E n\u00f3s compramos isso s\u00f3 que limpo, sem ningu\u00e9m em cima. Eles deram conta. Vieram al\u00ed com a justi\u00e7a e tiraram todo mundo pra fora. At\u00e9 fiquei arrepiado! Tinha tanta crian\u00e7a! (&#8230;) com dois \u00f4nibus de policiais levavam na beira de estrada e mandavam embora.\u201d<a href=\"http:\/\/www.klepsidra.net\/klepsidra25\/rs-mt.htm#_ftn43\" name=\"_ftnref43\">[42]<\/a><br \/>\n\u201cNaquela \u00e9poca tinha muito banditismo. Tinham umas fazendas que iam buscar funcion\u00e1rios, prometiam emprego e sal\u00e1rio e quando ficavam doentes, ou se exigia alguma coisa, eram mortos. Certa vez, chegou um caminh\u00e3o cheio de peonada (pau-de-arara), um deles queria comida de qualquer jeito. Estavam al\u00ed no posto Sorris\u00e3o, o motorista simplesmente puxou o rev\u00f3lver e matou o cara; foram embora e jogaram no rio Lira. Um vizinho do que foi morto, pulou do caminh\u00e3o e se escondeu no mato; sa\u00edram ca\u00e7ando-o, mas n\u00e3o encontraram. Depois ele apareceu e pediu socorro para Dna. Elfrida, para ir de volta para casa no Paran\u00e1. Isso acontecia nas fazendas que tinham capatazes e grileiros\u201d, conta Tereza Rubloski.<a href=\"http:\/\/www.klepsidra.net\/klepsidra25\/rs-mt.htm#_ftn44\" name=\"_ftnref44\">[43]<\/a><br \/>\nAuti de Bona, tamb\u00e9m conta que muitas vezes era obrigado a ceder seus quartos de hotel que serviam de cadeia.<br \/>\nCatarina e Nelson Fr\u00e2ncio mudaram-se de Sinop para Sorriso, em agosto de 1975, quando o restaurante estava quase pronto.<br \/>\n\u201cSe dependessem de comprar madeira em Sinop, tinham que ficar com o caminh\u00e3o na fila, pois tinha apenas duas fitas (pistas) e os caminh\u00f5es faziam fila como o INPS!\u201d<br \/>\nPara tanto, usavam a madeira da serraria que abriram.<br \/>\nOs mantimentos, tamb\u00e9m eram comprados em Sinop, Vera ou Cuiab\u00e1. Helmuth Seidel abriu um pequeno mercado que poupou os moradores de viajar para comprar comida.<br \/>\nNo in\u00edcio, cozinhavam com galhos de \u00e1rvore. Catarina pediu ao marido para cavar um cupinzeiro, e usaram-no como forno, o que \u00e9 muito inusitado.<br \/>\nEm 1976, trouxeram para o restaurante, um gerador, (que substituiu o lampi\u00e3o de g\u00e1s), geladeira, fog\u00e3o \u00e0 g\u00e1s, fog\u00e3o \u00e0 lenha, caixas d\u2019\u00e1gua e outros equipamentos. At\u00e9 1976, o abastecimento de \u00e1gua da regi\u00e3o era por roda d\u2019\u00e1gua, que bombeava-a do rio Lira. \u201cEm 27 de agosto de 1988, foi inaugurada pelo governador Carlos Gomes Bezerra, a Esta\u00e7\u00e3o de Capta\u00e7\u00e3o e Tratamento de \u00c1gua(&#8230;), com capacidade de abastecimento para 1350 fam\u00edlias(&#8230;)\u201d<a href=\"http:\/\/www.klepsidra.net\/klepsidra25\/rs-mt.htm#_ftn45\" name=\"_ftnref45\">[44]<\/a> Mesmo assim, o servi\u00e7o era insuficiente. Apenas em 14 de julho, a \u201c\u00c1guas de Sorriso\u201d iniciou a opera\u00e7\u00e3o do sistema de \u00e1gua.<br \/>\nO primeiro gerador foi instalado em 1978. At\u00e9 ent\u00e3o, a ilumina\u00e7\u00e3o era feita por velas e lampi\u00e3o.<br \/>\nEste grupo de sulistas da Cooperativa Sorriso, para oficializar a coloniza\u00e7\u00e3o, contratou a PLATEC, empresa prestadora de servi\u00e7os na \u00e1rea de Topografia, Planejamento e Assist\u00eancia T\u00e9cnica, para elaborar o projeto e protocolar junto aos \u00f3rg\u00e3os competentes, que aprovaram-no em setembro de 1979. Foi considerado um \u201cmega-projeto\u201d para a \u00e9poca, pois a \u00e1rea urbana foi projetada para ter 600 hectares, divididos em 4.500 terrenos.<a href=\"http:\/\/www.klepsidra.net\/klepsidra25\/rs-mt.htm#_ftn46\" name=\"_ftnref46\">[45]<\/a> Deixaram uma reserva de mata, mesmo que n\u00e3o houvesse legisla\u00e7\u00e3o para tal.<br \/>\nEm 1982, a colonizadora se dividiu: a Sorriso aumentou seu espectro de atua\u00e7\u00e3o e transferiu a sede para Cuiab\u00e1. Quem ficou, criou a colonizadora Feliz. Jo\u00e3o Baptista Fr\u00e2ncio e Anarolino Ceola, sa\u00edram para cuidar de atividades particulares. Permaneceram, Claudino e Ricieri. Eles contam que \u201cno in\u00edcio da d\u00e9cada de 70, a estrada era muito boa: faz\u00edamos de Sorriso \u00e0 Cuiab\u00e1 em 4,5 horas. J\u00e1 em 81, demorava em torno de 12 a 13 horas, pela intensifica\u00e7\u00e3o do tr\u00e1fico.\u201d<a href=\"http:\/\/www.klepsidra.net\/klepsidra25\/rs-mt.htm#_ftn47\" name=\"_ftnref47\">[46]<\/a> Maring\u00e1 tinha uma linha direta para Cuiab\u00e1; na maioria das vezes eram os pr\u00f3prios passageiros quem empurravam os \u00f4nibus.<br \/>\n\u201cO asfaltamento da BR 163, no trecho que compreende o Posto Gil, at\u00e9 Sinop, 330 Km de rodovia, foi conclu\u00eddo em dezembro de 1984. (&#8230;) Segundo um Resumo Hist\u00f3rico do 9\u00ba BEC, a implanta\u00e7\u00e3o de uma extens\u00e3o de 1.114 Km da BR 163, foi realizada por este \u00f3rg\u00e3o entre os anos de 1971 e 1976, ou seja, a sua abertura do trecho que compreende do Trevo do Lagarto at\u00e9 Santar\u00e9m (&#8230;) a pavimenta\u00e7\u00e3o ocorreu entre 1983 e 1986, sendo que cada trecho ficou \u00e0 cargo de uma empreiteira, que aproveitando os projetos amaz\u00f4nicos, tamb\u00e9m receberam incentivos fiscais para construir. A empreiteira Andrade e Gutierrez pavimentou os trechos de Cuiab\u00e1 at\u00e9 Jangada \u2013 9\u00ba BEC, de Jangada at\u00e9 Posto Gil e da\u00ed at\u00e9 Rio dos Patos , A Constram, de Olacir de Morais pavimentou, de Rio dos Patos at\u00e9 Rio Verde, Odebrecht pavimentou, de Rio Verde a Rio Celeste, e de Sinop \u00e0 Ita\u00faba, A Camargo Correa ficou com o trecho de Rio Celeste \u00e0 Sinop,. O trecho da rodovia que passa por Sorriso, foi asfaltado pela Odebrecht. A BR 163 foi constru\u00edda atrav\u00e9s de um conv\u00eanio celebrado entre o governo Frederico Campos<a href=\"http:\/\/www.klepsidra.net\/klepsidra25\/rs-mt.htm#_ftn48\" name=\"_ftnref48\">[47]<\/a>, do Mato Grosso, (1979-1982) e o Presidente da Rep\u00fablica, Ernesto Geisel, por\u00e9m, a libera\u00e7\u00e3o da verba ocorreu apenas no governo J\u00falio Campos (1982-1985).\u201d<a href=\"http:\/\/www.klepsidra.net\/klepsidra25\/rs-mt.htm#_ftn49\" name=\"_ftnref49\">[48]<\/a> A justificativa para o conv\u00eanio foi a necessidade de abrir estradas para escoar a produ\u00e7\u00e3o e colaborar com o desenvolvimento do Mato Grosso, ap\u00f3s a separa\u00e7\u00e3o do Mato Grosso do Sul, pois a parte norte, posterior estado do Mato Grosso era menos desenvolvida: tinha menos produ\u00e7\u00e3o, menos estradas e mais d\u00edvidas que a parte sul do estado. Por\u00e9m, os projetos de abertura da Amaz\u00f4nia j\u00e1 tinham sido implantados. O Mato Grosso recorreu ao BIRD: Banco Interamericano de Reconstru\u00e7\u00e3o e Desenvolvimento, buscando empr\u00e9stimo para a pavimenta\u00e7\u00e3o da BR 163 e outras \u201cBR\u2019s\u201d que passariam pelo territ\u00f3rio mato-grossense.<br \/>\nA BR 163 exerceu muita influ\u00eancia na funda\u00e7\u00e3o das cidades constru\u00eddas ao longo de suas margens. Os pioneiros de Sorriso contam que quando chegaram, j\u00e1 havia a promessa de conclus\u00e3o desta rodovia em tr\u00eas anos. Faz 28 anos e o projeto n\u00e3o foi conclu\u00eddo. A rodovia traria a possibilidade de boa distribui\u00e7\u00e3o, e de f\u00e1cil acesso. Todos os entrevistados consideram a sua renova\u00e7\u00e3o um sonho.<br \/>\nPara a Associa\u00e7\u00e3o Pr\u00f3-BR, formada pela Associa\u00e7\u00e3o Comercial e Industrial de Sorriso, que discutia d\u00edvidas agr\u00edcolas, o problema principal da rodovia n\u00e3o asfaltada, era a chegada dos insumos agr\u00edcolas. Ent\u00e3o, montaram um grupo, em 29 de agosto de 1995, para asfaltar a BR e utilizar o porto de Santar\u00e9m. Era uma entidade legalmente constitu\u00edda, com sede em Sorriso. Isto mostra que os produtores tinham verba para faz\u00ea-lo, a ponto de preferir investir na pavimenta\u00e7\u00e3o, em vez da produ\u00e7\u00e3o.&nbsp; Os objetivos da Associa\u00e7\u00e3o eram: \u201ca- a aglutina\u00e7\u00e3o da iniciativa privada dos munic\u00edpios norte mato-grossenses em prol do desenvolvimento regional e especificamente, para a conclus\u00e3o da BR 163; b- o est\u00edmulo ao desenvolvimento de atividades produtivas e defesa dos interesses econ\u00f4micos de car\u00e1ter comum; c- a defesa dos interesses, s\u00f3cio-pol\u00edtico e s\u00f3cio-econ\u00f4mico junto aos \u00f3rg\u00e3os de fomento, na esfera governamental e dentro da estrutura privada, visando o aprimoramento das condi\u00e7\u00f5es de vida da popula\u00e7\u00e3o norte mato-grossense. (&#8230;) o produtor passar\u00e1 a ganhar por saca de soja exportada, R$ 3,00 a mais se n\u00f3s compararmos com a sa\u00edda do porto de Paranagu\u00e1, considerando a estimativa de produtividade da safra de 2001\/2002 que \u00e9 de 25 milh\u00f5es de sacas (&#8230;)\u201d<a href=\"http:\/\/www.klepsidra.net\/klepsidra25\/rs-mt.htm#_ftn50\" name=\"_ftnref50\">[49]<\/a><br \/>\nEm Vera, havia irm\u00e3s religiosas alem\u00e3s que atendiam os doentes de toda a regi\u00e3o. A Irm\u00e3 Adelis foi lembrada como a enfermeira que salvou muita gente e aliviou muitos sofrimentos do povo da regi\u00e3o diagnosticando pela sua experi\u00eancia, e tratando a mal\u00e1ria, que era frequente. Dna. Catarina e seus tr\u00eas filhos, por exemplo, contra\u00edram mal\u00e1ria, e foram curados pelas freiras.<br \/>\nA Sra. Elfrida Acco, tamb\u00e9m salvou muitas vidas: trazia alguns rem\u00e9dios, e quando a pessoa estava em estado grave, estendia a rede e ligava no soro, na oficina mec\u00e2nica do marido. Em 4 de junho de 1980, foi aberto o primeiro hospital e maternidade. N\u00e3o se fazia cirurgia, apenas atendiam-se casos n\u00e3o muito graves.<\/p>\n<p>Num epis\u00f3dio em que um homem foi picado por uma cobra, seus acompanhantes foram pedir refor\u00e7o \u00e0 p\u00e9, \u00e0 30 Km de dist\u00e2ncia do local do acidente.<br \/>\nA Igreja Evang\u00e9lica de Confiss\u00e3o Luterana, foi inaugurada em 1978 por iniciativa de paranaenses e ga\u00fachos, filiada \u00e0 Sinop. Tornou-se par\u00f3quia em 1987.<br \/>\nIvo e Nelson, pioneiros fundadores da Cooperativa Sorriso, contam que em 1974, vieram abrir divisas na \u00e1rea adquirida. Ivo relata: \u201cEu fiquei acampado quase um ano, eu e o Nelson, na balsa do Teles-Pires, em baixo de um barraco de pl\u00e1stico. Para ver as divisas e para sobreviver, n\u00f3s colocamos uma borrachariazinha.\u201d A carne que ca\u00e7avam, dividiam com os funcion\u00e1rios do 9\u00ba BEC, que os ajudou muito.<br \/>\nEm pouco tempo, voltaram para o Sul. J\u00e1 em 10 de janeiro de 1975, retornaram, alugaram uma madeireira \u201cpica-pau\u201d desativada para serrar madeira para as casas. Voltaram mais uma vez para o sul, e depois novamente para o norte. Foram morar em Sinop que tinha uma estrutura melhor, como escolas, etc.<br \/>\nCatarina e Nelson Fr\u00e2ncio mudaram-se de Sinop para Sorriso, em agosto de 1975, quando o restaurante estava quase pronto. Mas continuava&nbsp; o problema da dist\u00e2ncia da escola. Na tentativa de resolver o problema, a Colonizadora alugou uma <em>van<\/em> para levar e buscar, mas as crian\u00e7as tinham que acordar \u00e0s 4:30 da manh\u00e3; ent\u00e3o mudaram de volta para Sinop.<br \/>\nDna. Catarina e seus tr\u00eas filhos, contra\u00edram mal\u00e1ria, e foram curados pelas freiras de Vera.<br \/>\nAnt\u00f4nio Capellari, chegou em Sorriso h\u00e1 quase trinta anos. Conta que o que hoje \u00e9 a cidade, era uma plan\u00edcie \u00e0 beira da rodovia Cuiab\u00e1-Santar\u00e9m, com algumas barracas de lona. Hoje h\u00e1 pr\u00e9dios, casas e pessoas para todos os lados. Hoje t\u00eam uma vida confort\u00e1vel, mas passaram por dificuldades: a ag\u00eancia banc\u00e1ria mais pr\u00f3xima ficava \u00e0 280 Km de dist\u00e2ncia, e s\u00f3 se chegava quando a estrada estava trafeg\u00e1vel. As m\u00e1quinas agr\u00edcolas eram compradas no Sul, \u00e0 mais de 2000 Km de dist\u00e2ncia de Sorriso. Para trazer a carga, tinham que convencer um caminhoneiro a faz\u00ea-lo; raramente aceitavam porque ficavam atolados na estrada.*<br \/>\nAtilano Albino da Silva, o T\u00e2nio, nos anos 70 foi para Sorriso com mais um pe\u00e3o buscar servi\u00e7o tempor\u00e1rio. Hoje \u00e9 s\u00f3cio de uma imobili\u00e1ria, tem um avi\u00e3o, v\u00e1rias fazendas, planta soja na Bol\u00edvia e possui 2,5 milh\u00f5es de hectares de terra para negociar. Seus pais, pequenos agricultores de Cruz Alta, mudaram-se para o sudoeste catarinense na d\u00e9cada de 40. Conta que o neg\u00f3cio da terra j\u00e1 foi muito perigoso: uma s\u00f3 fazenda chegava a ter 12 escrituras falsas e pistoleiros para defend\u00ea-las. Hoje os assuntos s\u00e3o resolvidos por advogados. Com a implanta\u00e7\u00e3o da lavoura da soja, o pre\u00e7o da terra s\u00f3 sobe, conta T\u00e2nio.<a href=\"http:\/\/www.klepsidra.net\/klepsidra25\/rs-mt.htm#_ftn51\" name=\"_ftnref51\">*<\/a><br \/>\nSorriso foi sede, no final de agosto de 2004, do FEMART, festival estadual dos CTG, que durou 3 dias. Sua estrutura \u00e9 a melhor do estado, e seus grupos (dan\u00e7as, declama\u00e7\u00e3o, la\u00e7o, bocha, etc.) s\u00e3o os mais \u201ctemidos\u201d do estado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Sinop: Sociedade Imobili\u00e1ria Norte do Paran\u00e1, \u00e9 um projeto de coloniza\u00e7\u00e3o que formou os munic\u00edpios de Vera, Cl\u00e1udia, Carmen e Sinop. Seus fundadores foram: \u00canio Pipino e Jo\u00e3o Pedro Moreira de Carvalho, entre outros. O grupo j\u00e1 existia desde 1970, quando adquiriu uma \u00e1rea na pr\u00e9-amaz\u00f4nia mato-grossense, no munic\u00edpio de Chapada dos Guimar\u00e3es, que na \u00e9poca era o maior munic\u00edpio em extens\u00e3o do estado. \u201cA empresa colonizadora deveria ser registrada no INCRA, possu\u00edr t\u00edtulo de dom\u00ednio da \u00e1rea a ser colonizada, apresentar plano de viabilidade econ\u00f4mica. Esta tamb\u00e9m se responsabilizava pela implanta\u00e7\u00e3o da infra-estrutura b\u00e1sica (demarca\u00e7\u00e3o do per\u00edmetro da \u00e1rea a ser colonizada, das parcelas individuais); construir escolas, postos de sa\u00fade, delimitar o per\u00edmetro urbano, dar assist\u00eancia t\u00e9cnica e credit\u00edcia. Caso a colonizadora n\u00e3o implantasse o m\u00ednimo de infra-estrutura b\u00e1sica exigida pelo INCRA, podia ter seu registro cassado\u201d<a href=\"http:\/\/www.klepsidra.net\/klepsidra25\/rs-mt.htm#_ftn52\" name=\"_ftnref52\">[50]<\/a> O primeiro loteamento, feito em 1972, chamava-se Gleba Celeste. Localizava-se \u00e0 margem direita do rio Teles Pires, formador do rio Tapaj\u00f3s, na Bacia Amaz\u00f4nica, e \u00e0 esquerda do rio Tartaruga, pertencente \u00e0 Bacia do Rio Xing\u00fa. Os \u00edndios Kaiabys que ocupavam a margem direita do rio Teles Pires, haviam sido levados pelos irm\u00e3os Vilas-Boas, em 1967, para o Parque Nacional do Xing\u00fa, sob orienta\u00e7\u00e3o da FUNAI, por press\u00e3o de fazendeiros. Portanto, quando a colonizadora se instalou, n\u00e3o houve conflito com este grupo que j\u00e1 n\u00e3o vivia mais na regi\u00e3o.<br \/>\nDepois de novas aquisi\u00e7\u00f5es, a Gleba Celeste chegou a 645.000 hectares.<a href=\"http:\/\/www.klepsidra.net\/klepsidra25\/rs-mt.htm#_ftn53\" name=\"_ftnref53\">[51]<\/a> A Gleba era formada por 4 n\u00facleos coloniais: Vera (27\/07\/72), Sinop (14\/09\/74), Carmen (15\/09\/74), Cl\u00e1udia (1978); Alta Floresta tamb\u00e9m foi fundada pela colonizadora Sinop, mas \u00e9 distante da Gleba Celeste; esta cidade tamb\u00e9m recebeu muitos ga\u00fachos.<br \/>\nInicialmente, Vera deveria ser o p\u00f3lo principal, mas a constru\u00e7\u00e3o da rodovia BR 163, a Cuiab\u00e1-Santar\u00e9m, desviou o projeto da colonizadora, que construiu Sinop como centro principal da Gleba Celeste, ao longo da rodovia.<br \/>\nA colonizadora Sinop foi fundada em 14 de setembro de 1974, durante o governo Geisel. Sinop tornou-se sede do munic\u00edpio em 1979. Hoje, Sinop \u00e9 a mais desenvolvida das cidades, e \u00fanica, da Gleba Celeste onde h\u00e1 bancos p\u00fablicos.<br \/>\nA Gleba Celeste foi loteada geometricamente (para aproveitar ao m\u00e1ximo o territ\u00f3rio) em v\u00e1rios tamanhos. Quando foi fundada a col\u00f4nia Sinop, cada ch\u00e1cara tinha em torno de 10 hectares, reunidos em n\u00facleo colonial. Havia tamb\u00e9m um projeto de pequenas propriedades com 60 hectares em m\u00e9dia. \u201cO total de terras do projeto de coloniza\u00e7\u00e3o, atingiu o montante de 600.000 hectares, divididos em lotes rurais cujas dimens\u00f5es variam entre 12 e 100 hectares.\u201d<a href=\"http:\/\/www.klepsidra.net\/klepsidra25\/rs-mt.htm#_ftn54\" name=\"_ftnref54\">[52]<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Os compradores eram financiados pelo Banco do Brasil \u00e0 vista, ou \u00e0 prazo de 6 meses \u00e0 dois anos; mas isto s\u00f3 ocorria dois anos ap\u00f3s a instala\u00e7\u00e3o, mediante apresenta\u00e7\u00e3o do t\u00edtulo de propriedade, e apenas se a produ\u00e7\u00e3o fosse para exporta\u00e7\u00e3o, ou da mat\u00e9ria prima para a ind\u00fastria. A SUDAM deu um est\u00edmulo de 75% sobre o capital aplicado porque a Gleba Celeste estava na zona de prioridade A do PND. Por este motivo, o governo fez muitas benfeitorias em Sinop, se comparadas \u00e0 outros munic\u00edpios: abriu e asfaltou a BR 163, implantou o Programa do Minist\u00e9rio da Agricultura para corrigir a acidez do solo com calc\u00e1rio; implantou a COBAL: Companhia Brasileira de Alimenta\u00e7\u00e3o, do Minist\u00e9rio da Agricultura; instalou ag\u00eancias banc\u00e1rias, telecomunica\u00e7\u00e3o e energia.<br \/>\nA propaganda no sul era muito entusiasmada. N\u00e3o mostravam os pontos negativos, como por exemplo: a chuva que dura 6 meses e torna a BR 163 intransit\u00e1vel, a seca forte que dura outros 6 meses, e a mal\u00e1ria. Assim, mesmo quem tinha terra no sul migrou, confiando na propaganda. Enfatizava-se que o lavrador da regi\u00e3o Sul era um forte, e que n\u00e3o se deixaria abater pelas condi\u00e7\u00f5es f\u00edsicas adversas do lugar.<br \/>\nPor j\u00e1 ter experi\u00eancia imobili\u00e1ria no Sul, o Grupo Sinop vendeu apenas alguns lotes, e deixou outros valorizando. Os lotes foram vendidos a sulistas atingidos pela crise de caf\u00e9, ou expropriados. Estes grupos tentavam reproduzir a vida do Sul, na Amaz\u00f4nia. Foram apoiados pelo governo militar, para levar adiante o projeto de coloniza\u00e7\u00e3o privada, \u201cirradiando progresso para a regi\u00e3o.\u201d<a href=\"http:\/\/www.klepsidra.net\/klepsidra25\/rs-mt.htm#_ftn55\" name=\"_ftnref55\">[53]<\/a> Mas, afirma Miranda<a href=\"http:\/\/www.klepsidra.net\/klepsidra25\/rs-mt.htm#_ftn56\" name=\"_ftnref56\">[54]<\/a>, cerca de 50% dos compradores passou adiante seus lotes, e mudou para outros lugares, como Rond\u00f4nia, onde a terra era mais barata, ou trocou de atividade, indo para os n\u00facleos urbanos. Os bem sucedidos compravam os lotes dos falidos, aumentando sempre suas propriedades. Al\u00e9m disso, os pioneiros, muitas vezes vendiam as \u00e1reas de floresta, que n\u00e3o podiam desmatar, para os pr\u00f3ximos migrantes, pois a lei federal determinava que 50% das \u00e1reas de floresta deveriam permanecer intocadas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A cidade de Sinop come\u00e7ou com um posto de gasolina, o <em>S\u00e3o Paulo<\/em>, em 1972. Naquele ano, a colonizadora Sinop, que j\u00e1 tinha um escrit\u00f3rio em Maring\u00e1, come\u00e7ou a fazer a abertura da \u00e1rea urbana. A colonizadora tamb\u00e9m possu\u00eda uma agro-industria e uma cooperativa de produtores, para produ\u00e7\u00e3o e circula\u00e7\u00e3o de produtos, e orienta\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica de plantio.<br \/>\nL\u00e1 se instalaram muitas madeireiras, a principal atividade da cidade, a ponto de ficar conhecida nacionalmente pelo excessivo n\u00famero destas, por mais de 30 anos, at\u00e9 mais ou menos dois anos atr\u00e1s, quando a atividade declinou muito. Atualmente, as madeireiras ficam \u00e0 300 Km de Sinop, quase na fronteira com o Parque do Xing\u00fa.<br \/>\nNa d\u00e9cada de 80, ampliou-se o cultivo da mandioca para a usina do \u00e1lcool.<br \/>\nComo a vegeta\u00e7\u00e3o da regi\u00e3o \u00e9 de floresta tropical, a borracha era explorada. A primeira borracharia foi instalada por sulistas era da fam\u00edlia Pissinati Guerra.<\/p>\n<p>A Irm\u00e3 Adelis foi lembrada como a enfermeira que salvou muita gente e aliviou muitos sofrimentos do povo de todo o norte do Mato Grosso, diagnosticando pela sua experi\u00eancia, e tratando a mal\u00e1ria. Dna. Catarina, que viva em Sorriso e seus tr\u00eas filhos, por exemplo, contra\u00edram mal\u00e1ria, e foram curados pelas freiras.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Sr. Divino Locatelli vive em Tenente Portela: planejou mudar-se para o norte, mas nunca realizou este projeto. Sua filha vive em Sinop h\u00e1 v\u00e1rios anos. Dava aula em tr\u00eas turnos; passou muitas noites em claro; \u00e9 assim a rotina dos habitantes das cidades constru\u00eddas por ga\u00fachos no norte. Ningu\u00e9m l\u00e1 se importa com a apar\u00eancia, como devem ir vestidos \u00e0 missa, pois h\u00e1 muito trabalho para ser realizado.<\/p>\n<p>Locatelli conta sobre a coloniza\u00e7\u00e3o: \u201cGarap\u00fa, que sediava a Copercana, foi uma col\u00f4nia feita por Norberto Schwantes, atrav\u00e9s de um projeto do INCRA. Compravam-se lotes de 200 hectares, e quem comprasse lotes no campo, ganharia um terreno na cidade. Quem mudou para as col\u00f4nias l\u00e1 se fixou.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>No entanto houve um grande esc\u00e2ndalo pelo desvio de dinheiro por parte dos chefes dos associados, que acabou falindo a cooperativa.\u201d<\/p>\n<p>Muitos foram para as col\u00f4nias do norte e centro-oeste apenas com a roupa do corpo.<br \/>\nO primeiro projeto, que chamava-se Are\u00f5es, n\u00e3o vingou. Locatelli j\u00e1 havia se inscrito para ir com a fam\u00edlia, mas desistiu em cima da hora, por receio das m\u00e1s condi\u00e7\u00f5es, e de que algu\u00e9m da fam\u00edlia morresse, e n\u00e3o pudesse ter nem um sepultamento digno.<br \/>\nSerra Dourada tamb\u00e9m n\u00e3o vingou. Os projetos sucedidos foram, Quer\u00eancia e \u00c1gua Boa.<br \/>\nAtualmente, pretende mudar-se com a esposa para Sinop, pois as condi\u00e7\u00f5es de vida l\u00e1 est\u00e3o melhor estabelecidas.<br \/>\nA maioria dos seus conhecidos que vivem l\u00e1 n\u00e3o querem voltar \u00e0 Tenente Portela nem \u00e0 passeio, conta com ar s\u00e9rio.<br \/>\nSr. Divino tinha um \u00f4nibus, e transportava os migrantes e familiares para as col\u00f4nias do Mato Grosso. At\u00e9 hoje ele organiza viagens, e vai junto, mas n\u00e3o dirige mais. Toda semana saem \u00f4nibus sob sua organiza\u00e7\u00e3o para o Mato Grosso.<br \/>\nMarcelino Marquem, de Frederico Westfalen, no final da d\u00e9cada de 60, vendeu 20 hectares no Sul, e comprou 300 hectares em Cl\u00e1udia, cidade madeireira da Gleba Celeste. Com a ajuda da mulher, Sirlei, derrubou 30 hectares de mata com o machado, e fez uma ro\u00e7a de mandioca. Ficaram isolados na mata por um ano. Sirlei morreu de t\u00e9tano, por falta de assist\u00eancia m\u00e9dica. Continuou e casou-se com Anilda, de Soledade (RS). Viveram isolados na selva por seis anos; s\u00f3 plantavam para comer, porque n\u00e3o havia compradores. Anilda morreu de hepatite. Merquem se deu conta de que era imposs\u00edvel plantar na selva. Vendeu tudo e foi trabalhar como pe\u00e3o nas fazendas da regi\u00e3o; tamb\u00e9m foi garimpeiro, e conseguiu juntar um pouco de dinheiro. Tornou-se madeireiro e hoje \u00e9 um pequeno empres\u00e1rio. Comprou v\u00e1rios apartamentos em Sorriso, \u00e0 80 Km de Cla\u00fadia, o que sustenta seus 14 filhos.<a href=\"http:\/\/www.klepsidra.net\/klepsidra25\/rs-mt.htm#_ftn57\" name=\"_ftnref57\">*<\/a><br \/>\nSr. Dirceu, nascido em Erechim (RS) e sua esposa, de Santa Rosa (RS), vieram para Sinop em 12 de julho de 1973. No Sul, trabalhava na ro\u00e7a. Naquela \u00e9poca, Sinop tinha sete casas. Antes de mudar-se, morava no Paran\u00e1, onde era marceneiro, havia 13 anos, ap\u00f3s ter passado tamb\u00e9m dois anos em Santa Catarina, para onde foi com 16 anos. Ficou sabendo de Sinop pela propaganda no r\u00e1dio. Os corretores da colonizadora iam de cidade em cidade para vender lotes, conta. Sr. Dirceu veio atrav\u00e9s do Grupo Sinop. Os primeiros que chegavam ganhavam terreno, porque precisavam de gente para cortar madeira e limpar o terreno. Mas quando o Sr. Dirceu chegou, j\u00e1 teve que pagar. O governo dava incentivo \u00e0 colonizadora, n\u00e3o aos migrantes.<br \/>\nMorava no centro, com a fam\u00edlia, \u201cmas era s\u00f3 mato: morava em baixo de um barraco com lona pl\u00e1stica\u201d. O chuveiro era um balde d\u2019\u00e1gua na \u00e1rvore. A \u00e1gua era de po\u00e7o. A enregia el\u00e9trica s\u00f3 veio h\u00e1 aproximadamente 10 anos atr\u00e1s: era o \u201cLinh\u00e3o\u201d de Cuiab\u00e1.<br \/>\nEm 1974, trabalhou na constru\u00e7\u00e3o de hot\u00e9is, que foi sua atividade por 10 anos. Ao todo, construiu 59 casas. Posteriormente, abriu uma loja para serraria e uma oficina, mas o neg\u00f3cio faliu, e o Sr. Dirceu passou a ser funcion\u00e1rio p\u00fablico, h\u00e1 10 anos.<br \/>\nA BR 163, em 1973, de Cuiab\u00e1 a Sinop estava em boas condi\u00e7\u00f5es, conta Sr. Dirceu, mas \u00e0 partir de 1976, piorou muito porque chovia muito, o cascalho sa\u00eda, e n\u00e3o havia reposi\u00e7\u00e3o.<br \/>\nSua fam\u00edlia levou 8 dias para chegar do Paran\u00e1 \u00e0 Sinop. Quando vieram, diz, eram 2 fam\u00edlias. No mesmo \u00f4nibus, voltaram 8 de Sinop para o Sul. Em outra leva de transporte, voltaram mais 7 fam\u00edlias para o Sul, pois n\u00e3o crescia nada na terra.<br \/>\nSua fam\u00edlia voltava para o Paran\u00e1 quase todo ano, mas para o Rio Grande do Sul, n\u00e3o voltavam havia 23 anos. Sr. Dirceu conta que no Herval Grande (RS), tinha de tudo, quando sa\u00edram, \u201ce agora n\u00e3o tem nada\u201d. Explica que grandes fazendeiros est\u00e3o comprando as pequenas propriedades para plantar pasto. Seu irm\u00e3o ainda tem um avi\u00e1rio, mas o resto de sua terra est\u00e1 arrendado.<br \/>\nSr. Dirceu tem orgulho de seu filho fazer faculdade. \u201cDe noite no barrac\u00e3o via a on\u00e7a passar, morria de medo, mas n\u00e3o podia voltar. Hoje de jeito nenhum a gente anda pra tr\u00e1s\u201d.<br \/>\nA irm\u00e3 mais velha de Sr. Dirceu vive no Par\u00e1: comprou um lote de floresta em Progresso, h\u00e1 menos de um ano.<br \/>\nO Sr. Machado, que chegou em 1975, trazia frutas e verduras do estado de S\u00e3o Paulo, e o faz at\u00e9 hoje. Vendia, de in\u00edcio em mercearias, depois abriu um pequeno supermercado, e hoje tem 4 supermercados em Sinop e um em Col\u00edder, um munic\u00edpio pr\u00f3ximo, tamb\u00e9m loteado pela colonizadora de mesmo nome.<br \/>\nDna. Clara, saiu de Cerro Alto no Rio Grande do Sul com 11 anos e foi para Medianeira, no Paran\u00e1. Quando casou-se, foi para Sinop. Chegou em 1976 de \u201cmala e cuia\u201d. Ela e o marido trabalharam num \u201cpica-pauzinho\u201d, pequena madeireira. Viviam no meio de um mato, que hoje \u00e9 o centro, conta. Depois tiveram a\u00e7ougue, fazenda, e por fim, investiram em f\u00e1brica de ra\u00e7\u00e3o, at\u00e9 hoje, al\u00e9m de uma loja de produtos agro-pecu\u00e1rios, a Campo e Lavoura.<br \/>\nDna Clara e o marido, nunca tiveram terras, vieram sem nada. No s\u00edtio da fam\u00edlia, criavam porco e plantavam um pouco.<br \/>\nNo caminho para o Mato Grosso, fizeram v\u00e1rias travessias de barco, porque os rios alagavam os caminhos. As viagens costumavam durar 5 dias em \u00e9poca de chuva.<br \/>\nO casal fundou o Centro de Tradi\u00e7\u00e3o Ga\u00facha-Quer\u00eancia da Amizade, de Sinop, junto com outros dois casais. Conta que no Sul n\u00e3o eram muito participativos no Movimento Tradicionalista Ga\u00facho, mas em Sinop, sentiam falta de um espa\u00e7o que unisse os ga\u00fachos.<br \/>\nO Sr. Nilson e e a Sra. Ilma Kempf, chegaram de Tenente Portela em 1985, com toda a fam\u00edlia. No Sul, plantava soja, trigo e milho em 58 hectares de propriedade. Em Sinop, come\u00e7ou a plantar soja, arroz e milho, em 968 hectares, que comprou com a venda do terreno no Sul. Contam que a cidade era s\u00f3 barro e poeira: \u201cde dia faltava \u00e1gua, de noite faltava luz\u201d. Em 1986, j\u00e1 tinha asfalto de Cuiab\u00e1 at\u00e9 Ita\u00faba, ao norte de Sinop. Quando os Kempf chegaram, j\u00e1 havia 800 madeireiras em Sinop.&nbsp; Havia tamb\u00e9m 2 ou 3 escolas at\u00e9 o gin\u00e1sio, e dois hospitais. A eletricidade era gerada a motor. O esgoto, at\u00e9 hoje \u00e9 fossa, mesmo em um dos melhores bairros da cidade, onde vivem.<br \/>\nContam que em Tenente Portela, a vida era boa, mas que a terra era pouca, e a fam\u00edlia n\u00e3o tinha espa\u00e7o para expandir.<br \/>\nNo come\u00e7o, os Kempf n\u00e3o receberam financiamento, porque os \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos n\u00e3o acreditavam na agricultura em Sinop. As principais atividades eram madeira e pecu\u00e1ria. Pensaram em mudar para Canarana, mas tiveram receio, pois l\u00e1 vivia gente que n\u00e3o tinha terra e vivia numa \u00e1rea ind\u00edgena, o Toldo do Guarita.<\/p>\n<p>As primeiras not\u00edcias sobre Sinop que tiveram, foram atrav\u00e9s de jovens que foram fazer um retiro em Santa Catarina. Um jovem disse ao seu sobrinho e seu filho, que a terra era barata e boa. A fam\u00edlia foi \u00e0 Sinop, que lhe agradou. A propriedade do sobrinho foi posta \u00e0 venda, e o filho tamb\u00e9m foi. Sr. Nilson pensou: \u201cse \u00e9 bom para voc\u00eas, \u00e9 bom para n\u00f3s tamb\u00e9m\u201d.<br \/>\nEntre 1988 e 89, houve uma forte crise; o filho quis vender a terra em Sinop e voltar para o Sul; seu pai disse: \u201calem\u00e3o \u00e9 teimoso, vamos ver no que vai dar!\u201d<br \/>\nEntre 1986 e 89, o pre\u00e7o da terra no Mato Grosso caiu pela metade, e no sul continuava aumentando. Atualmente, os terrenos do norte valem mais que os do sul.<br \/>\nOs Kempf consideram que o relacionamento com os n\u00e3o sulistas \u00e9 bom, que n\u00e3o existe bairrismo. De fato, como Sinop cresceu muito, e \u00e9 uma cidade mais antiga que as outras de coloniza\u00e7\u00e3o sulista, portanto, as tradi\u00e7\u00f5es est\u00e3o mais dilu\u00eddas, pelo grande aporte de migrantes de todas as regi\u00f5es.<br \/>\nA sa\u00edda do Rio Grande do Sul n\u00e3o afetou a economia do estado, at\u00e9 melhorou, segundo Sr. Kempf, pois aliviou a tens\u00e3o no campo, j\u00e1 que muitos migraram. Muitos n\u00e3o aguentaram e voltaram. Havia a mal\u00e1ria, que matou muitos ga\u00fachos, mesmo que houvesse uma central do meio ambiente que tratava com medicamento.<br \/>\nO sonho do Mato Grosso \u00e9 terminar de asfaltar a Cuiab\u00e1-Santar\u00e9m. Entre 1983 e 84, o governo asfaltou 600 Km, e at\u00e9 hoje a obra n\u00e3o foi terminada. Kempf observa: \u201cA dist\u00e2ncia at\u00e9 o porto de Paranagu\u00e1, no Paran\u00e1 (atual escoadouro de safra) \u00e9 de aproximadamente 1800 Km, at\u00e9 Santar\u00e9m, s\u00e3o aproximadamente 1000 Km. A Cargil est\u00e1 construindo e presta servi\u00e7o l\u00e1.\u201d A estrada at\u00e9 Santar\u00e9m n\u00e3o est\u00e1 asfaltada, e os moradores que vivem de agricultura no centro-oeste e norte, reivindicam o asfaltamento, para que o escoamento seja feito em Santar\u00e9m, de forma mais r\u00e1pida e barata.<br \/>\nOs Kempf n\u00e3o pensam em voltar para o Sul, mas dizem que os jovens portelenses est\u00e3o todos sa\u00edndo, ou para Porto Alegre, ou para o Paran\u00e1, Santa Catarina; ou para colher fruta fora da cidade, onde est\u00e3o permanecendo s\u00f3 os idosos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Lucas do Rio Verde era um projeto de coloniza\u00e7\u00e3o do INCRA.<br \/>\nO Rio Verde \u00e9 o divisor de \u00e1guas entre a Bacia Amaz\u00f4nica e o sul; \u00e9 a divisa da Amaz\u00f4nia Legal. A ocupa\u00e7\u00e3o \u00e0s margens do Rio Verde come\u00e7ou na d\u00e9cada de 1970 por 2 ou 3 fam\u00edlias de posseiros que exploravam seringueiras nativas, e mais tarde comercializavam as terras locais. A cidade foi nomeada segundo o primeiro seringalista (Francisco Lucas), de que se tem registro, que vivia \u00e0s margens do Rio Verde. No entanto, este fato n\u00e3o \u00e9 comprovado por ningu\u00e9m: \u00e9 voz corrente. O Sr. Klaus Huber, diz que membros de sua fam\u00edlia vivem ainda em Lucas do Rio Verde e Cuiab\u00e1.<br \/>\nO munic\u00edpio foi o primeiro a colher soja no Brasil. A \u00e1rea territorial do munic\u00edpio \u00e9 de 3.654.237 Km\u00b2 (0,43% da \u00e1rea estadual). 80% dos terrenos \u00e9 plano, 20% \u00e9 suavemente ondulada. O munic\u00edpio fica a 2281 Km do porto de Paranagu\u00e1, e \u00e0 1398 Km de Santar\u00e9m pela rodovia BR 163 ou 695 Km, at\u00e9 Cachoeira Rasteira em Alta Floresta, e 1043 Km pela rodovia Teles-Pires \u2013 Tapaj\u00f3s.<br \/>\nOs primeiros desbravadores que vieram do Sul, come\u00e7aram a plantar arroz, com a chegada do 9\u00ba BEC, em 1976. O INCRA-MT, no mesmo ano, come\u00e7ou a discrimina\u00e7\u00e3o judicial da Gleba Lucas do Rio Verde, com \u00e1rea de 270.000 hectares. Houve conflitos entre posseiros e o INCRA, no governo Figueiredo, porque o \u00f3rg\u00e3o queria reaver todas as terras da Uni\u00e3o. Os posseiros, al\u00e9m de passarem dificuldades pela falta de infra-estrutura (estradas, comunica\u00e7\u00e3o, educa\u00e7\u00e3o e sa\u00fade), sofreram todo tipo de amea\u00e7as e humilha\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>A maior parte das fam\u00edlias negociou com o INCRA e teve suas \u00e1reas reduzidas, outras perderam a \u00e1rea total, como a fam\u00edlia Dall\u2019Alba. De 1976 a 1981, s\u00f3 existiam 85 fam\u00edlias de posseiros. Pouco menos de 10 ainda vivem em suas propriedades; outras venderam para colonos sulistas.<br \/>\nA ocupa\u00e7\u00e3o das terras pelos posseiros, foi reconhecida em 1982, quando o presidente Figueiredo assinou o Decreto-Lei n\u00ba 86.307, declarando parte da \u00e1rea como prioridade para fins de reforma agr\u00e1ria. Atrav\u00e9s do PAC: Projeto de A\u00e7\u00e3o Integrada, o INCRA assentou 203 fam\u00edlias de Ronda Alta (RS), 12 colonos da pr\u00f3pria regi\u00e3o e mais 50 fam\u00edlias cooperativas do interior de S\u00e3o Paulo.\u201d<a href=\"http:\/\/www.klepsidra.net\/klepsidra25\/rs-mt.htm#_ftn58\" name=\"_ftnref58\">[55]<\/a><br \/>\nO governo n\u00e3o se identificava com a reforma agr\u00e1ria e n\u00e3o incentivava a organiza\u00e7\u00e3o de produtores.<br \/>\nDas fam\u00edlias de posseiros que n\u00e3o venderam suas posses para os colonos assentados pelo INCRA, ou outros agricultores independentes, a maioria atualmente \u00e9 bem sucedida, com produ\u00e7\u00f5es agr\u00edcolas grandes.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Os primeiros colonos foram: Antonio Fraga Lira, David Jos\u00e9 Mignoni, Antonio Ori Toqueto, Antonio Gemeli, Domingos Munaretto, Ev\u00e2nio Valcanaia, Norivaldo Alves Peixoto, Valter Boscolli, Dall\u2019Alba.<a href=\"http:\/\/www.klepsidra.net\/klepsidra25\/rs-mt.htm#_ftn59\" name=\"_ftnref59\">[56]<\/a><br \/>\nEm 1982, o INCRA atrav\u00e9s do PAC: Projeto de A\u00e7\u00e3o Concentrada, assentou os primeiros agricultores da regi\u00e3o sul, dividindo a gleba de 197.991 hectares, em lotes de 200 hectares.<br \/>\nEm 1986, outro projeto de coloniza\u00e7\u00e3o foi implantado no munic\u00edpio, atrav\u00e9s do Programa de Desenvolvimento do Cerrado (PRODECER II), resultado de um conv\u00eanio entre Brasil e Jap\u00e3o, que tem projetos de desenvolvimento em todo o mundo, (no Brasil: Mato Grosso, Bahia, Goi\u00e1s e Tocantins, na Am\u00e9rica Latina, tamb\u00e9m no Chile, Per\u00fa e Bol\u00edvia) para garantir sua seguran\u00e7a alimentar, por ser um pa\u00eds muito pequeno, com pouca capacidade de armazenamento. No Mato Grosso havia dois projetos: em Tapur\u00e1, onde se estabeleceu o PRODECER I,&nbsp; e Lucas do Rio Verde, local escolhido para a implanta\u00e7\u00e3o do PRODECER II. Atrav\u00e9s deste programa, chegaram 400 produtores do sul do pa\u00eds, distribu\u00eddos em 180.000 hectares. O PRODECER dotou a Cooperlucas de estrutura de armazenagem, impulsionando definitivamente a implanta\u00e7\u00e3o das lavouras de soja. A cooperativa obteve apoio e financiamentos do Banco do Brasil, conseguindo montar uma boa infra-estrutura. Pouco tempo depois da funda\u00e7\u00e3o da Cooperlucas,&nbsp; esta j\u00e1 passou a dar cr\u00e9dito ao produtor em \u00e9poca. Montaram-se n\u00facleos cooperativos.<br \/>\nA funda\u00e7\u00e3o da Agrovila ocorreu em 5 de agosto de 1982. Em 17 de mar\u00e7o de 1986, tornou-se distrito, e em 4 de julho de 1988, emancipou-se politicamente de Diamantino.<br \/>\nQuanto \u00e0s igrejas, a Assembl\u00e9ia de Deus come\u00e7ou suas atividades em 1980. A igrejas de Confiss\u00e3o Luterana, Batista e Presbiteriana s\u00e3o mais recentes.<br \/>\nO Sr. Antonio Fraga Lira, de Lagoa Vermelha (RS),&nbsp; foi um dos grandes defensores da cria\u00e7\u00e3o do distrito de Lucas do Rio Verde.<br \/>\nFoi para a regi\u00e3o de Lucas do Rio Verde em 1976, quando era munic\u00edpio de Diamantino. Quando chegou, com seus dois irm\u00e3os, tinha 18 anos e era solteiro. Seus pais ficaram no Sul. Queriam comprar terras no Mato Grosso, inicialmente em Jaciara, mas o corretor trouxe seu pai para Lucas, e ele se entusiasmou.<\/p>\n<p>No Sul, eram pequenos agricultores, tinham uma lavoura de subsist\u00eancia, de milho e soja, em 120 hectares a serem divididos entre 6 irm\u00e3os; a tra\u00e7\u00e3o n\u00e3o era mec\u00e2nica. Plantaram arroz (monocultura mecanizada) no in\u00edcio, at\u00e9 1981, quando iniciaram com a soja. Fraga Lira conta que n\u00e3o havia ningu\u00e9m morando al\u00ed: eram os primeiros.<br \/>\nA vida era dif\u00edcil, porque Diamantino ficava \u00e0 220 Km de distancia de Lucas do Rio Verde. O posto de gasolina mais pr\u00f3ximo ficava em Mutum, que na \u00e9poca era a fazenda Mutum.<br \/>\nEm 1981, quando come\u00e7ou o assentamento do INCRA, sua terra foi desapropriada, e Lira e sua fam\u00edlia receberam o <em>status<\/em> de posseiros; mesmo que reconhecidos pelo INCRA como propriet\u00e1rios, perderam uma parte da fazenda. Isto s\u00f3 ocorreu porque j\u00e1 haviam aberto a mata, o que lhes dava direito \u00e0 uma parte da terra, que perderiam caso contr\u00e1rio: inicialmente tinha 3600 hectares, depois ficou com 2200. \u201cAfetou um bocado\u201d avalia Fraga Lira.<br \/>\nSua terra&nbsp; n\u00e3o era uma posse, diz. Foi paga ao propriet\u00e1rio, Cl\u00e1udio Leonardi, de Cuiab\u00e1, que nunca havia entrado na terra. Mesmo com escritura, o INCRA desapropriou e n\u00e3o ressarciu, conta.&nbsp; Sua fazenda estava pr\u00f3xima de uma grande \u00e1rea devoluta da Uni\u00e3o, ent\u00e3o, outras fazendas foram \u201cengolidas\u201d pelo projeto de assentamento.<br \/>\nA primeira missa cat\u00f3lica de Lucas do Rio Verde foi celebrada na fazenda dos Fraga Lira, a 35 Km de Lucas, em 1983.<br \/>\nFoi o primeiro vereador do munic\u00edpio, emancipado em 4 de julho de 1988.<br \/>\nO Sr. Fraga Lira n\u00e3o se queixa de nenhum conflito por terra. Hoje continua plantando soja, comprou outras propriedades, como no Par\u00e1, em Castelo de Sonho, cidade muito colonizada por ga\u00fachos, onde cria gado bovino.<br \/>\nSua fam\u00edlia manteve a tradi\u00e7\u00e3o ga\u00facha, mas n\u00e3o com muita assiduidade. Eles n\u00e3o pensam em voltar para o Sul.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O Sr. Ildo Romancini, criado na ro\u00e7a, morando com os pais, plantava trigo, cevada, milho e feij\u00e3o. Eram 9 irm\u00e3os para dividir 40 hectares. Fez parte do primeiro acampamento do Movimento Sem-Terra do Brasil, em 1981, na Encruzilhada Natalino, em Ronda Alta, onde viviam 650 fam\u00edlias de desapropriados de Passo Fundo, Sarand\u00ed e Ronda Alta, e tamb\u00e9m os \u201cafogados\u201d da hidrel\u00e9trica de Passo Real.<br \/>\nO Major Curi\u00f3 montou barracas do ex\u00e9rcito na Encruzilhada e abriu o projeto em Lucas do Rio Verde.<br \/>\nVieram em fam\u00edlia entre 1981 e 82, juntamente com outras 21 fam\u00edlias, assentadas em lotes de 200 hectares.<br \/>\nA viagem durou 2 dias e foi integralmente paga pelo INCRA. Inclusive seus pertences foram trazidos em caminh\u00f5es, tamb\u00e9m pagos, que no entanto demoraram 6 dias para chegar.<br \/>\nOs assentamentos iniciaram-se em 1980, e os \u00faltimos parceleiros foram para Lucas do Rio Verde em 31 de maio de 1982. A maioria dos sem-terra da Encruzilhada Natalino ficou no Rio Grande do Sul, onde nasceu Nova Ronda Alta, que recebeu 34 fam\u00edlias.<br \/>\nDas 213 fam\u00edlias de sem-terra que foram, hoje s\u00f3 restam 12. Muitas voltaram pelo abandono: n\u00e3o houve assist\u00eancia, conta Sr. Ildo. Seis de seus irm\u00e3os vieram; ele foi o primeiro, considerado louco.<br \/>\nO desenvolvimento de Lucas do Rio Verde se deu em grande parte por causa de onde estava instalado o 9\u00ba BEC, segundo diversos entrevistados.<br \/>\nO Banco do Brasil deu cr\u00e9dito para plantar arroz em 25 hectares, em 1982, mas aquela safra foi muito ruim e muitos n\u00e3o puderam pagar. Assim, o Banco abandonou os financiamentos. Hoje, o pre\u00e7o da saca de soja \u00e9 em m\u00e9dia US$ 9,00. O que em 1985 valia US$ 2000 em sacos de soja, hoje vale US$ 2.400.000.<br \/>\nO INCRA tinha um escrit\u00f3rio em Lucas do Rio Verde. \u00c9 voz corrente que o executor, o comandante Ferreira, mandou matar muitos caboclos posseiros. Uma parte dos terrenos, que estava em \u00e1rea do Estado, foi dada aos posseiros. Romancini afirma que n\u00e3o houve confronto com os \u00edndios.<br \/>\nCada fam\u00edlia recebia uma casa de 4 por 5 metros, no s\u00edtio. \u201cLote rural, ningu\u00e9m ganhou.\u201d Assist\u00eancia para produ\u00e7\u00e3o, n\u00e3o tinha. N\u00e3o dava para trabalhar manualmente, s\u00f3 catar ra\u00edz. Catei ra\u00edz, fiz po\u00e7o\u201d, conta Romancini. No primeiro ano de assentamento, n\u00e3o se falava em soja. Colheram a primeira safra de soja da regi\u00e3o em 1985.<br \/>\nO pr\u00f3prio Sr. Ildo comprou dois lotes dos parceleiros, porque estavam baratos, na \u00e9poca do arroz. Diz que havia gente que vendia lotes pelo pre\u00e7o da passagem de volta para o Rio Grande do Sul, e mais um pouco. Ele considera que a venda dos lotes deu mais estrutura. Que \u201cse freia em torno de uma classe de pouco poder aquisitivo, freia o progresso.\u201d<br \/>\nVendia-se a terra \u00e0 2000 ou 3000 reais. Mas o pr\u00f3prio Romancini, nunca vendeu, sempre agregou propriedades.<br \/>\nA Cooperlucas, uma cooperativa, formada por um grupo de paulistas, loteou Itambiquara, regi\u00e3o muito pr\u00f3xima \u00e0 que viria a se chamar Lucas do Rio Verde, em 1982. Para este programa, vinham colonizadores com mais recursos. Os parceleiros recebiam 50 hectares de financiamento, enquanto os do INCRA recebiam 25 hectares. Mesmo assim, das 50 fam\u00edlias que foram para l\u00e1, apenas 4 permaneceram. Em \u00e9poca de crise, no fim dos anos 80, muitos voltaram: a terra ficou 5 anos parada, observa Romancini.<br \/>\nSr. Ildo conta que o INCRA, nos primeiros quatro meses, dava cesta b\u00e1sica, at\u00e9 o come\u00e7o do financiamento. Participou por um ano e meio da estrutura\u00e7\u00e3o do munic\u00edpio. Segundo Romancini: \u201cfez o trabalho dele\u201d.<br \/>\n\u201cNo primeiro ano, n\u00e3o havia nada. Depois, o munic\u00edpio de Diamantino fez escola. Telefone, s\u00f3 havia em Diamantino, e levava-se um dia apenas para voltar\u201d, lembra Sr. Ildo.<br \/>\nA BR 163 foi asfaltada em 1985. Os buracos que se abriram pela carga pesada e excesso de chuvas eram chamados de \u201cCabe\u00e7a do Figueiredo\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Dna. Jessi e Sr. Bromildo Lawisch, de Santo \u00c2ngelo (RS), vieram pela primeira vez \u00e0 Lucas do Rio Verde em junho de 1984. Tomaram conhecimento da cidade atrav\u00e9s do filho, que estudava agronomia e os convidou a conhecer o Centro-Oeste. Ele se mudaria de qualquer jeito, ent\u00e3o os pais resolveram acompanhar.<br \/>\nEm 1984, compraram a terra e contrataram algu\u00e9m para ficar o ano todo. Sr. Bromildo vinha apenas na \u00e9poca do plantio e da colheita. Quando o filho se formou, se mudaram definitivamente para Lucas em 1988. \u201cPartimos da estaca zero\u201d, diz Dna. Jessi; a mudan\u00e7a foi aos poucos, n\u00e3o trouxeram tudo. Tamb\u00e9m ficaram com muitas coisas dos parceleiros de quem compraram a terra, como m\u00f3veis, animais e a casinha. Ampliaram a casa. Trouxeram maquin\u00e1rio. Conta que era muito sofrido porque n\u00e3o tinha nada.<br \/>\nOs Lawisch viram a cidade crescer do nada. Apenas havia a estrutura do INCRA: casas, posto de sa\u00fade, telefone \u2013\u201cs\u00f3 havia um, e tinha que se inscrever para falar; \u00e0s vezes se inscrevia de manh\u00e3, e s\u00f3 era atendido \u00e0 noite. Mas a estrutura do INCRA funcionava, era preciso, pois era a <u>\u00fanica<\/u> estrutura que havia. Tinham que trazer alimento e pessoal de l\u00e1 \u201cporque o pessoal daqui n\u00e3o queria trabalhar\u201d. Dna. Jessi considera o sulista muito distinto do nativo.<br \/>\nA cidade partiu de um assentamento feito pelo INCRA para parceleiros. Hoje, ainda h\u00e1 entre 9 e 11 fam\u00edlias deste grupo. Eles n\u00e3o queriam ficar porque a cidade nem existia. Quem vendeu seus lotes, entrou na fila para receber outros lotes, e alguns foram para Terranova, conta Dna. Jessi. Todos os lotes tinham 200 hectares, e custavam 20.000 cruzeiros. Cada lote rural comprado dava direito a um lote urbano. Sua fam\u00edlia comprou 6 lotes. Quando chegaram, exerceram a mesma atividade que no Sul, a agricultura de pequeno porte: plantavam trigo, soja, criavam gado leiteiro, e su\u00ednos, em duas propriedades de 113 e 61 hectares, das quais a maior ainda possuem. Tiveram que vender apenas algumas \u00e1reas para vir para o norte. No sul, sua situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica era regular; a lavoura era mecanizada. Vieram com o interesse de aumentar o patrim\u00f4nio.<br \/>\nO acesso era muito dif\u00edcil, conta: Apenas de Cuiab\u00e1 at\u00e9 Lucas, eram dois dias de viagem, porque n\u00e3o tinha asfalto. Tinham que pernoitar em Nobres. No total, de Santo Angelo at\u00e9 Lucas, levavam&nbsp; uma semana para chegar, em meados da d\u00e9cada de 80.<br \/>\nEm Lucas, cultivaram soja e arroz, dos quais o \u00faltimo n\u00e3o plantam mais. O governo orientava a plantar arroz em seguida da derrubada do cerrado.<br \/>\nNo primeiro ano, \u201cquebraram\u201d porque plantaram soja diretamente ap\u00f3s a derrubada, e a colheita foi muito fraca. Tiveram que vender quase metade da propriedade para saldar d\u00edvidas e continuar plantando.<br \/>\nIntroduziram, juntamente com o atual prefeito, a suinocultura e o gado leiteiro.<br \/>\nAtualmente, vivem na fazenda, cuja lavoura arrendaram, e que fica \u00e0 2,5 Km da cidade. Possuem um escrit\u00f3rio da fazenda grande, que fica \u00e0 70 Km da cidade, onde plantam soja, milho e algod\u00e3o.<br \/>\nUma ex-aluna de Dna. Jessi (professora e diretora na rede p\u00fablica), trabalhava no INCRA, e lhe contou que os parceleiros que haviam recebido terras, estavam vendendo-as, al\u00e9m de falar muito bem da cidade. Dna. Jessi afirma que a maioria dos que compraram parcelas em Lucas do Rio Verde era do Sul. As terras, no in\u00edcio, eram vendidas muitas vezes, em troca de um carro. J\u00e1 quando Dna. Jessi chegou, diz que pagou caro, e parcelado.<br \/>\nEm 1979, os terrenos n\u00e3o estavam loteados ainda.<br \/>\nSegundo Dna. Jessi, o INCRA ajudava os parceleiros: dava financiamento, calc\u00e1rio, instala\u00e7\u00e3o sanit\u00e1ria (casinha) com po\u00e7o, banheiro pr\u00e9-moldado, posto de sa\u00fade, mercado da COBAL, e talvez at\u00e9 uma quantia em dinheiro, porque o objetivo do governo era povoar a regi\u00e3o. J\u00e1 para os que compraram dos parceleiros, o governo n\u00e3o deu ajuda.<br \/>\nInicialmente, participaram do Centro de Tradi\u00e7\u00e3o Ga\u00facha: foram at\u00e9 padrinhos da pista de dan\u00e7a. (quando a participa\u00e7\u00e3o \u00e9 frequente, e fazem-se doa\u00e7\u00f5es, elegem-se os padrinhos das estruturas e das comemora\u00e7\u00f5es at\u00e9 com direito a inscri\u00e7\u00e3o do nome).<br \/>\nN\u00e3o pensam em viver no Sul, mas ainda mant\u00eam as propriedades, para passar f\u00e9rias.<br \/>\nAtualmente, em Lucas do Rio Verde, h\u00e1 dois projetos de habita\u00e7\u00e3o: da Caixa Econ\u00f4mica Federal e da Prefeitura, para o qual, alguns compradores pagam R$50,00. As casas s\u00e3o padronizadas, e os lotes t\u00eam espa\u00e7o para expandir a casa. Casas de madeira s\u00e3o proibidas. A prefeitura sugere um kit casa, um molde padr\u00e3o, constru\u00eddo pelos pr\u00f3prios moradores.<br \/>\nO PRODECER: Projeto de Desenvolvimento do Cerrado, \u00e9 um projeto de loteamento em parceria com o Jap\u00e3o, que tem 49% das a\u00e7\u00f5es. O projeto existe desde 1984. O primeiro, foi instalado em Minas Gerais, o segundo no Mato Grosso, quando a regi\u00e3o ainda era munic\u00edpio de Diamantino. Muitos parceleiros que venderam suas terras indevidamente, entraram no programa do PRODECER II. Os lotes eram de 400 hectares, \u201ctudo dado com muita estrutura\u201d, afirma Ildo Romancini. Para os japoneses e produtores \u00e9 interessante pois aqueles compram a soja diretamente do produtor, e estes n\u00e3o se preocupam com a log\u00edstica.<br \/>\nFrancisco Daghatti \u201centrou rezando baixinho no \u00f4nibus\u201d, em 1981. Ele era um dos acampados da Encruzilhada Natalino, estava acampado em barraca de lona havia 3 anos. Depois de viajar uma semana no \u00f4nibus, foi deixado em um acampamento do Ex\u00e9rcito, \u00e0 beira da Cuiab\u00e1-Santar\u00e9m, onde havia recebido 250 hectares. A maioria dos colonos deixados ali, desistiram, ou morreram de mal\u00e1ria. Ele permaneceu, e hoje \u00e9 propriet\u00e1rio de 1000 hectares de terra. Trabalhou como pe\u00e3o nas fazendas. Tamb\u00e9m trabalhou no garimpo de Troca-Tiro, na divisa do Mato Grosso com o Par\u00e1. Juntou dinheiro e contratou pe\u00f5es para garimpar em seu lugar. Com o lucro do garimpo, modernizou sua propriedade agr\u00edcola.*<br \/>\nDna. Neiva e Sr. Luis Carlos Tessele s\u00e3o de Santo Angelo (RS). Foram para Lucas em setembro de 1981, porque tinham pouca terra, e por curiosidade. A primeira leva dos parceleiros chegou no final de novembro, e a segunda em janeiro. Vieram 203 fam\u00edlias. Conheceram Lucas do Rio Verde atrav\u00e9s de um tio que mora em Cuiab\u00e1 h\u00e1 30 anos. Quando foram visit\u00e1-lo, em 1978, foram apresentados \u00e0 muita gente. Luis Carlos foi conhecer e gostou.<br \/>\nOs propriet\u00e1rios das terras de Lucas viviam em Cuiab\u00e1. A fam\u00edlia comprou terras de um posseiro.<br \/>\nEm 19 de agosto de 1981, foi aprovado o projeto oficial do INCRA para o assentamento. \u201cMontaram escrit\u00f3rio, topografia, e tr\u00eas casas de madeira em tr\u00eas meses, antes que chegassem os parceleiros.\u201d<br \/>\nA COBAL era, no in\u00edcio, um caminh\u00e3o. Em 1982, foi constru\u00eddo um pr\u00e9dio para instal\u00e1-la.<br \/>\nTamb\u00e9m foi constru\u00edda uma vila de funcion\u00e1rios do INCRA, com 11 casas. Instalaram o correio e pol\u00edcia militar.<\/p>\n<p>Dna. Neiva come\u00e7ou a trabalhar no INCRA em 1982. O executor decidia quem seria contratado com base em escolaridade e um teste em Cuiab\u00e1. Seu trabalho era direto: inscri\u00e7\u00e3o, distribui\u00e7\u00e3o de vales, encaminhamento (para agr\u00f4nomos, top\u00f3grafos, etc.); ela apresentava o mapa com os lotes, que cada um podia escolher. Uma parte deles, j\u00e1 era plantada com soja, por posseiros do Paran\u00e1, e a fam\u00edlia Dall\u2019Alba.<br \/>\nPlantava-se primeiro arroz, ap\u00f3s a limpeza do terreno, e depois soja, tudo com maquin\u00e1rio, por causa do tamanho da terra. Foram introduzidas as culturas do Rio Grande do Sul.<br \/>\nO INCRA fornecia <em>eternit<\/em>, madeira, prego, enxada, foice, semente de hortali\u00e7a, adubo, que muitos parceleiros vendiam. Limpava 25 hectares de cada lote (200 hectares). O INCRA&nbsp;tamb\u00e9m dava uma quantia em dinheiro para se manterem. Dna. Neiva n\u00e3o sabe se os parceleiros ressarciram o INCRA, mas sabe que em 1983, j\u00e1 come\u00e7aram a vender as parcelas, para voltar para o Rio Grande do Sul, porque tinham que pagar para obter o t\u00edtulo de posse, que posteriormente seria a escritura. Muitos venderam mesmo sem ter o t\u00edtulo, afirma Dna. Neiva, o que trouxe muitos desentendimentos. Havia muitos posseiros antes dos parceleiros, mas que praticamente n\u00e3o se encontravam por causa das longas dist\u00e2ncias entre os terrenos. Mas encontravam-se toda semana em festas. Houve muito conflito na distribui\u00e7\u00e3o das ch\u00e1caras da Cidade Nova, porque os posseiros diziam-se donos dos terrenos, e o INCRA tinha que assentar os parceleiros.<br \/>\nOs lotes eram divididos em setores, e o s\u00e3o at\u00e9 hoje. \u201cO INCRA trazia o pessoal de cada lote&#8230;matavam-se entre si, tomavam pinga (&#8230;) trocavam em bares o a\u00e7\u00facar e o caf\u00e9 que o INCRA deixava comprar com o dinheiro que dava.\u201d Duas fam\u00edlias, uma de Cuiab\u00e1 e outra do Esp\u00edrito Santo, queriam a mesma terra. Os Tessele conheceram seus pistoleiros.<br \/>\nDizem que o INCRA respeitava os posseiros e que dava uma porcentagem de terra a mais para quem desmatasse. Os terrenos dos fundos invadiam uma reserva ambiental; realmente os ga\u00fachos n\u00e3o respeitavam a delimita\u00e7\u00e3o da reserva. Mesmo que o SNI (Servi\u00e7o Nacional de Informa\u00e7\u00e3o) viesse vistoriar.<br \/>\nEra estabelecido um prazo de tr\u00eas meses para come\u00e7arem a constru\u00edr, e o m\u00ednimo de \u00e1rea constru\u00edda deveria ser de 48 m\u00b2.<br \/>\n\u201cQuando o INCRA entrou, veio escola, veio tudo\u201d, diz Dna. Neiva. Cada setor tinha sua escola seu posto de sa\u00fade, m\u00e9dico. \u201cFoi tudo muito bem estruturado\u201d. Servi\u00e7os m\u00e9dicos e educacionais eram por conta da Uni\u00e3o. No entanto n\u00e3o havia banco, apenas em Sorriso, o Banco Nacional. Operava-se com luz de vela. Os partos eram feitos numa casinha, onde s\u00f3 podia-se internar uma pessoa. Todos estes servi\u00e7os ficaram ativos at\u00e9 1989, \u00e0 partir de quando ficaram parados por dois anos, inclusive o escrit\u00f3rio. Todo o material tombado foi recolhido<br \/>\nA maioria dos funcion\u00e1rios do INCRA daquela \u00e9poca, hoje vive em Cuiab\u00e1. Quando o projeto acabou em Lucas, os funcion\u00e1rios foram mandados para outros munic\u00edpios. Dna. Neiva n\u00e3o dependia deste emprego porque tinham uma lavoura. Ela pediu dois anos de afastamento, e conseguiu. O governo Collor deixou 22 funcion\u00e1rios do INCRA de Lucas do Rio Verde em regime de \u201cdisponibilidade\u201d, ou seja, ociosos. Ela ent\u00e3o pediu o cargo de volta depois, pois n\u00e3o queria mudar-se para Diamantino.<br \/>\nHoje, os Tessele n\u00e3o querem voltar de maneira nenhuma para o Rio Grande do Sul. N\u00e3o se arrependem do sofrimento. Dizem: \u201choje, l\u00e1 uma pessoa da nossa idade tem no m\u00e1ximo uma bicicleta\u201d. E conta que moraram por tr\u00eas meses em um barrac\u00e3o de lona. Lavava roupa no Rio Verde. Depois compraram um motorzinho que gerava luz. Iam muito mais para Cuiab\u00e1 para comprar mantimentos do que atualmente. Durante a mudan\u00e7a, tamb\u00e9m compraram muito na capital. Dna. Neiva considera que a mudan\u00e7a foi tranquila, porque tinham muita esperan\u00e7a no novo lugar. Antes do INCRA chegar, tinham que ficar na beira da estrada para parar os caminh\u00f5es que levavam alimento e outros artigos para Sinop. Os caminhoneiros j\u00e1 sabiam que os moradores faziam sinal na estrada para comprar.<br \/>\nHavia carne uma vez por semana. Os parceleiros ca\u00e7avam muito.<br \/>\nOs mato-grossenses tratavam os ga\u00fachos muito bem. A tradi\u00e7\u00e3o ga\u00facha foi mantida, na opini\u00e3o de Dna. Neiva, orgulhosa de sua filha, nascida em Lucas, que foi \u201cprenda nacional\u201d (h\u00e1 um concurso em diversas inst\u00e2ncias, para eleger a menina que mais participa e mais sabe da tradi\u00e7\u00e3o ga\u00facha, no Brasil inteiro.)<br \/>\nSr. Werner Kothrade \u00e9 de Santa Catarina, de Ca\u00e7ador. Foi para o Mato Grosso \u00e0 passeio em 1975, porque seus tios viviam em Sinop desde 1972. Seu pai tinha uma terra, onde hoje localiza-se Sorriso; seu tio foi ajudar a abrir o terreno. Esta era uma das \u00fanicas propriedades com documento legal, conta Sr. Werner. Em 1977, seu tio convidou-o a plantar na terra dele em Sorriso. Assim, em 1978, Kothrade comprou uma terra em Sorriso, tamb\u00e9m, do outro lado do Rio Verde, em sociedade com o irm\u00e3o, que foi abrir a mata.<br \/>\nEm 1982, Sr. Werner foi com a fam\u00edlia \u00e0 Sorriso. No final de 1983, mudaram-se para a fazenda. Em 1984, foram para Lucas do Rio Verde, porque a estrada n\u00e3o era asfaltada, e a propriedade ficava \u00e0 96 Km de Sorriso. Lucas tinha apenas dois mercados, e mais ou menos 20 casas, conta.<br \/>\nSr. Werner foi ao INCRA e pediu um lote para constru\u00edr casa. Ele queria perto da igreja, e queria dois lotes, porque iria construir uma casa grande. Diz: \u201cEles eram muito est\u00fapidos\u201d: falavam: \u201cse quiser, \u00e9 l\u00e1\u201d, no meio do mato\u201d. Ent\u00e3o Sr. Werner aceitou. Era para ser com\u00e9rcio. Ele considera um erro do governo, dar terras mas n\u00e3o dar assist\u00eancia. \u201cEra s\u00f3 um campo aberto e t\u00ednhamos que corrigir a terra, mas n\u00e3o t\u00ednhamos dinheiro. N\u00e3o davam escritura, e sem ela, o banco n\u00e3o financia\u201d. Al\u00e9m disso, Sr. Werner conta que h\u00e1 pessoas que ganharam 5 lotes mas ainda continuam acampadas.<br \/>\nKothrade acompanhou e ajudou no desenvolvimento da cidade.<br \/>\nSr. Werner foi ao Mato Grosso, por receio de ser expulso do Paraguai, para onde se mudaria sob influ\u00eancia de um amigo que incentivou muito; e realmente a expuls\u00e3o aconteceu, com os \u201cbrasiguaios\u201d.<br \/>\nA propaganda feita pelos militares era intensa, conta, para n\u00e3o perderem a fronteira para os Estados Unidos; era \u201cintegrar para n\u00e3o entregar\u201d.<br \/>\nSua fam\u00edlia era de agricultores. Sr. Werner plantava desde crian\u00e7a. A terra era plana, mas pequena. Eram 260 hectares, a serem divididos por tr\u00eas irm\u00e3os. Vieram por causa da terra plana, e porque n\u00e3o conseguiam vender a terra em Santa Catarina, pois de um lado era uma terra herdada, que n\u00e3o seria vendida, do outro, uma empresa inglesa.Em Santa Catarina, plantavam cevada para vender \u00e0 cervejaria <em>Antarctica<\/em>, trigo, milho, soja e feij\u00e3o. No Mato Grosso, plantaram arroz. Kothrade queixa-se que n\u00e3o havia variedades de soja naquela regi\u00e3o, que n\u00e3o crescia mais que 10 cent\u00edmetros. Possu\u00edam maquin\u00e1rio que j\u00e1 haviam trazido do Sul.<br \/>\nA viagem durava 4 dias durante a seca. Durante a \u00e9poca de chuva, era imprevis\u00edvel o tempo.<br \/>\nA vida era muito dif\u00edcil: n\u00e3o havia energia. Tinham que usar um motor. A \u00e1gua era de po\u00e7o, e qualquer movimento brusco sujava o balde. Tinham que lavar roupa no rio, onde as crian\u00e7as tomavam banho.<br \/>\nN\u00e3o havia incentivo, mas havia financiamento. Sr. Werner comprou uma posse. O INCRA obrigava a derrubar 80% da terra, caso contr\u00e1rio, n\u00e3o recebia-se a escritura. N\u00e3o havia pol\u00edtica de preserva\u00e7\u00e3o. Na \u00e9poca em que Sr. Werner comprou a terra, poucos parceleiros sa\u00edram; antes eles voltavam muito para o Rio Grande do Sul, em troca da passagem de \u00f4nibus. Outros foram para Terranova, ou para trabalhar com garimpo.<br \/>\nKothrade conta que n\u00e3o houve conflito com os locais. Os posseiros eram bem de vida, pois podiam vender as posses para os ga\u00fachos, comenta.<br \/>\nSr. Werner comprou uma terra em parceria com o irm\u00e3o, de 3000 hectares. Pagaram o equivalente a uma garrafa de cerveja por hectare. Um conhecido seu, Matsubara, pagou uma carteira de cigarro por hectare.<\/p>\n<p>Entre 1985 e 86, Sr. Werner participou das atividades da igreja cat\u00f3lica. Foi presidente, e construiu um sal\u00e3o paroquial muito grande, conta.<br \/>\nLucas do Rio Verde fica \u00e0 240 Km de Diamantino, munic\u00edpio antigo, que n\u00e3o ajudou a desmembrar, porque n\u00e3o interessava. Em 1989, 5 munic\u00edpios foram emancipados; ele foi convidado para ser prefeito, mas n\u00e3o queria, porque n\u00e3o entendia de pol\u00edtica. Aceitou, para apaziguar os desentendimentos que estavam ocorrendo entre amigos por causa da pol\u00edtica. Foi avalista de muitas propriedades, pela confian\u00e7a.<br \/>\nConstruiu 18 escolas no interior: havia mais comunidades no interior do que atualmente, quando muitas se desmancharam nos munic\u00edpios.<br \/>\nFizeram a primeira exposi\u00e7\u00e3o de produtos agropecu\u00e1rios sob um barraco de lona.<br \/>\nEntre 1991 e 1992, a situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica melhorou, e puderam asfaltar e sanear, depois de haverem passado por todos os planos inflacion\u00e1rios com muita dificuldade. Seu mandato durou de 1989 a 1992. Durante este per\u00edodo, o estado passou por 5 governadores.<br \/>\nHouve grandes crises na lavoura nesta \u00e9poca, tiveram que fazer muitos testes com adubo por conta pr\u00f3pria. Tudo era muito longe para a pesquisa, conta Sr. Werner, os pr\u00f3prios plantadores criavam tecnologia. Se na \u00e9poca, colhiam-se 22 sacas por hectare, hoje, s\u00e3o 60 sacas. Na \u00e9poca da colheita, o padre rezava a missa mais cedo e mais r\u00e1pido.<br \/>\nO banco mais pr\u00f3ximo ficava em Ros\u00e1rio d\u2019Oeste, comarca de Sorriso, \u00e0 260 Km de Lucas do Rio Verde. No caminho de Lucas para Diamantino, tinham que parar no Posto Gil, \u00fanico estabelecimento por muitos anos, e refer\u00eancia local, e pegar um \u00f4nibus para Cuiab\u00e1. Muitas vezes os passageiros tinham que empurrar o \u00f4nibus.<\/p>\n<p>Sr. Werner acha que a tradi\u00e7\u00e3o ga\u00facha \u00e9 mais forte no norte do que no pr\u00f3prio Rio Grande.<br \/>\nO Sr. Klaus Huber \u00e9 presidente do Instituto Padre Jo\u00e3o Peter, fundado em maio de 1988, que d\u00e1 apoio ao desenvolvimento da regi\u00e3o. Su\u00ed\u00e7o de origem, e paulista por ado\u00e7\u00e3o, era diretor da escola da Holambra em Paranapanema: implantou o Ensino M\u00e9dio propedeutico e o curso de Economia Dom\u00e9stica, com uma proposta similar a que se seguiu no Mato Grosso, para desenvolvimento da regi\u00e3o. Mais tarde, querendo mudar de \u00e1rea, formou um grupo cooperativo, junto com sua fam\u00edlia para trabalhar com agropecu\u00e1ria. Cada fam\u00edlia, individualmente n\u00e3o tinha condi\u00e7\u00e3o de comprar terras. O grupo, ent\u00e3o, se juntou com uma s\u00e9rie de trabalhadores rurais e propriet\u00e1rios que venderam suas propriedades para sanar d\u00edvidas. Formaram a Cooperlucas, para come\u00e7arem as atividades em Lucas do Rio Verde. Seu irm\u00e3o foi o primeiro presidente da cooperativa, que assumiu muitas atividades sociais da cidade.<br \/>\nSr. Klaus chegou em maio de 1982, ap\u00f3s ter recebido um lote, como os outros; seus irm\u00e3os administraram, e posteriormente, ele arrendou, pois n\u00e3o sabia lidar com agricultura. Ele fundou, com a esposa, todas as escolas do munic\u00edpio, e fez acompanhamento pedag\u00f3gico. Sr. Klaus alivia-se disto, por n\u00e3o ter \u201cca\u00eddo na tenta\u00e7\u00e3o de desmatar\u201d, e do fato de sua terra ser uma das poucas reservas que restam. Conta que quando chegaram, n\u00e3o havia mais \u00edndios, porque foram expulsos muito antes por mineradores e posseiros. A reserva do Xing\u00fa fica \u00e0 aproximadamente 200 Km de Lucas do Rio Verde.<br \/>\nO Governo Federal teria desapropriado pretensos propriet\u00e1rios anteriores aos assentamentos, mas n\u00e3o h\u00e1 comprova\u00e7\u00e3o.<br \/>\nDois de seus irm\u00e3os eram agricultores, e conseguiram empr\u00e9stimos e vendas vinculados ao d\u00f3lar. Os implementos e m\u00e1quinas n\u00e3o eram vinculados.<br \/>\nA idealiza\u00e7\u00e3o do projeto do grupo dos \u201cInteressados\u201d, como se auto-denominam os fundadores da Cooperlucas, \u00e9 anterior ao projeto do INCRA, diz Sr. Klaus. Este grupo de 200 pessoas, pagava uma mensalidade para que a diretoria procurasse locais para assentar o grupo. Foram para todas as regi\u00f5es, e Lucas do Rio Verde era onde havia menos problemas com grileiros. Ao final, dos 200 \u201cInteressados\u201d, apenas 60 foram assentados; 40 em um primeiro momento, e 20 em segundo.<br \/>\nO governo dava autoriza\u00e7\u00e3o apalavrada, mas n\u00e3o havia documento escrito. O processo durou 3 anos. Os cooperados pediam ao INCRA que impedisse a chegada de grileiros: o \u00f3rg\u00e3o n\u00e3o tinha funcion\u00e1rios suficientes, mas contratou.<br \/>\nA vantagem, realmente foi o afastamento de intrusos, mas por outro lado, o governo percebeu que aquela \u00e1rea estava protegida, e garantida para projetos p\u00fablicos, assentando os sem-terra da Encruzilhada Natalino em primeiro plano, e os cooperados em segundo, argumenta Huber. Os parceleiros vieram dois meses antes, e no local havia 15 fam\u00edlias de posseiros anteriormente \u00e0 chegada dos novos grupos.<br \/>\nO PRODECER II foi solicitado pela Cooperlucas, que foi escolhida para ser beneficiada pelo acordo nipo-brasileiro. O contato se deu atrav\u00e9s de um vizinho de Sr. Klaus, Matsubara, co-fundador do Instituto Padre Jo\u00e3o Peter, hoje, e que foi \u00e0 fal\u00eancia, por fazer testes t\u00e9cnicos mal-remunerados, para o poder p\u00fablico. Atualmente Matsubara vive em Sinop.<br \/>\nO PRODECER II pesquisou a cooperativa antes dos associados saberem deste projeto. \u00c0 partir da\u00ed, a Cooperlucas cresceu muito. Um dos motivos do desmanche da cooperativa foram novas diretorias que entraram durante a associa\u00e7\u00e3o com o PRODECER II: pessoas gananciosas, que achavam a administra\u00e7\u00e3o muito lenta. Os novos diretores tinham mais dinheiro, e vinham de regi\u00f5es diversificadas, com forma\u00e7\u00f5es melhores. Entravam na cooperativa, na verdade para aumentar a produ\u00e7\u00e3o. Logo o idealismo do grupo original se dissolveu, despontou uma corrup\u00e7\u00e3o muito sutil, sobre a qual correm processos at\u00e9 hoje: foi colocada na cabe\u00e7a da chapa, algu\u00e9m que todos confiavam, de fam\u00edlia de posseiros; o vice, n\u00e3o era de nenhum dos grupos associados, n\u00e3o o conheciam bem. Sr. Klaus achava que o presidente n\u00e3o aguentaria, e realmente aconteceu. O vice-presidente, que havia tido conflitos com a cooperativa ainda no Sul, assumiu, e formou uma bolha de poder, que custou a ser percebida, ao avaliar o potencial da Cooperlucas. O novo presidente aproveitou para se desenvolver pessoalmente. Deu terras em troca da constru\u00e7\u00e3o de grandes obras, sem que os cooperados assinassem. O Banco do Brasil foi respons\u00e1vel, porque n\u00e3o controlou estas movimenta\u00e7\u00f5es, e tamb\u00e9m est\u00e1 sendo processado, aponta Sr. Klaus. Al\u00e9m disso, o novo presidente, que Huber n\u00e3o nomeia, por j\u00e1 haver recebido amea\u00e7as de morte, comprou uma parte de uma usina de mandioca em Sinop, enquanto os outros cooperados estavam endividados.<br \/>\n\u00c0 respeito das amea\u00e7as, \u201ca Pol\u00edcia Federal veio tr\u00eas vezes desarmar quem achava que devia.\u201d Comenta Sr. Klaus, que era visto como um empecilho para o assentamento dos chegantes da Encruzilhada, ao querer mostrar a quem recebeu terras e n\u00e3o era agricultor, que o Banco do Brasil lhes tiraria o direito.<br \/>\nPara os sem-terra, a Cooperalucas dava apoio t\u00e9cnico. O 9\u00ba BEC cedeu barracas, enquanto aguardavam o processo sempre \u00e0 beira da rodovia, durante 3 ou 4 semanas.<br \/>\nNos primeiros meses, o bairro de Itambiquara, nome que os \u00edndios davam ao Rio Verde, que fica \u00e0 35 Km do centro do munic\u00edpio, tinha mais estrutura que Lucas.<br \/>\nDos antigos posseiros, alguns se filiaram \u00e0 cooperativa, que teve que se abrir para todos, e teve sua sede deslocada posteriormente para a beira da rodovia BR 163 para facilitar o acesso, diz o Sr. Antonio Carlos, mineiro, atual presidente da cooperativa, fundada em 22 de dezembro de 1982.<br \/>\nO presidente da cooperativa acredita que alguns parceleiros associaram-se \u00e0 Cooperlucas para buscar poder de barganha e parceria de planta (para construir).<br \/>\nCom o PRODECER II, em 1986, vieram 39 pessoas, algumas da regi\u00e3o, entre mineiros, catarinenses, ga\u00fachos e sul-mato-grossenses, para produzir nos lotes de 400 hectares. Iniciaram logo a plantar em 200 hectares, ou seja, fizeram abertura de \u00e1rea de 50% durante a safra de 1986\/87. A cooperativa adquiriu os lotes e repassou para esses colonos. No primeiro ano, plantaram arroz; a cultura principal era a soja, mas o arroz crescia muito rapidamente ap\u00f3s a derrubada da mata, o que n\u00e3o ocorria com a soja. Tamb\u00e9m reservavam 20% do espa\u00e7o para cultura perene (seringueiras). O financiamento era direcionado \u00e0 soja. Nas \u00e1reas de pastagem, j\u00e1 se poderia plant\u00e1-la, mesmo com a necessidade de se trabalhar mais o solo.<br \/>\nO Sr. Antonio Carlos conta que o PRODECER II foi para Lucas do Rio Verde gra\u00e7as a Anton Huber, irm\u00e3o do Sr. Klaus, caso contr\u00e1rio seria em Mutum, e a Cooperlucas faria parte da Coopervale. O Jap\u00e3o mandou incentivo para constru\u00edrem barrac\u00e3o e armaz\u00e9m. Diz que lutaram muito para existir como cooperativa. O PRODECER, no Mato Grosso, nasceu como loteamento da Cooperlucas, financiado pelo Banco do Estado do Mato Grosso. As fun\u00e7\u00f5es principais da Cooperlucas, conta o presidente, eram fornecer insumos e padronizar para venda, al\u00e9m de auxiliar na comercializa\u00e7\u00e3o. N\u00e3o era uma colonizadora; deu suporte \u00e0 reforma agr\u00e1ria.<\/p>\n<p>Em 1994, a cooperativa teve problemas financeiros e ainda est\u00e1 se recuperando: n\u00e3o h\u00e1 mais capital para fornecer insumos.<br \/>\nO Sr. Luiz Carlos Nava \u00e9 ga\u00facho de Espumoso, no planalto m\u00e9dio. Foi diretamente para Lucas do Rio Verde em 1984. Tinha uma franquia de um escrit\u00f3rio de planejamento agr\u00edcola com sede em Passo Fundo. Seu pai tinha uma pequena lavoura arrendada para os cunhados. De 42 hectares, plantavam-se 35 ou 36. Um colega trabalhava para um grupo familiar de curtume, chamado Basso, de Santo \u00c2ngelo, que era associado ao estaleiro Verolme, do Rio de Janeiro. O grupo passou a ver no centro-oeste uma boa oportunidade de produ\u00e7\u00e3o. Abriu uma sede em Ponta-Por\u00e3, entre 1977 e 78. Um colega de Nava que trabalhava nesta empresa, foi transferido para este munic\u00edpio, e no ano seguinte, trabalhou em Rondon\u00f3polis. A Bassoabriu uma divis\u00e3o em Lucas do Rio Verde, e precisava de um engenheiro agr\u00f4nomo. Nava foi contratado, e foi viver diretamente na fazenda, onde achava mais confort\u00e1vel que no centro. Conta que aproximadamente 150 pessoas moravam na fazenda. L\u00e1 havia, por exemplo, energia para a oficina mec\u00e2nica, e \u00e1gua de po\u00e7o, conta Lira, o que era inexistente na cidade. Um caminh\u00e3o ia para Cuiab\u00e1 toda semana, e podia trazer o que os empregados, que tinham uma conta aberta, pedissem.<br \/>\nA fazenda plantava soja e arroz e criava gado. Quando chegaram, diz Nava, s\u00f3 havia pecu\u00e1ria. Eram 28.980 hectares no munic\u00edpio pr\u00f3ximo de Tapur\u00e1.<br \/>\nEm 1987, o grupo se dissolveu, e Nava foi para Cuiab\u00e1, assumir a fun\u00e7\u00e3o do amigo, de gerente de produ\u00e7\u00e3o, onde ficou at\u00e9 1992, quando voltou para morar na cidade, devido \u00e0 crise do governo Collor, para administrar mais de perto a produ\u00e7\u00e3o. Neste momento, conta Nava, j\u00e1 havia energia na cidade.<br \/>\nDe 1992 em diante, deu suporte gerencial a uma fazenda vizinha. Come\u00e7ou uma lavoura pequena, pr\u00f3xima da cidade, junto com o vizinho, com incentivo da Cooperlucas do BNDES e do Banco do Brasil.<br \/>\nEm 1995, abriu uma loja de insumos agr\u00edcolas, a <em>Plantar<\/em>.<br \/>\nA principal atividade da cidade \u00e9 realmente a agricultura, diz Nava. \u201cN\u00e3o h\u00e1 ind\u00fastria, apenas soja e milho.\u201d Apenas beneficia-se o algod\u00e3o. Tece-se muito na Bahia e em Santa Catarina.<br \/>\nNava diz que n\u00e3o participa muito do Movimento Tradicionalista Ga\u00facho, mas diz que ficou mais participativo quando mudou para o Centro-Oeste.<br \/>\nO Sr. Eg\u00eddio Raul Vuaden \u00e9 o atual presidente da Expolucas, feira de exposi\u00e7\u00f5es agropecu\u00e1ria. Foi de Sobradinho (RS) para Lucas do Rio Verde, em junho de 1986. Tinha um minif\u00fandio e plantava fumo no sul. Conta que tinha uma condi\u00e7\u00e3o de trabalho muito sofrida, pois a terra tinha 15 hectares. Ap\u00f3s ter conclu\u00eddo a faculdade de agronomia, com uma poupan\u00e7a e a venda do im\u00f3vel, pagaram, com o pai e a m\u00e3e, 20% de entrada no PRODECER II em Pi\u00fava. Com eles foram outros 38 produtores selecionados do Brasil todo, com cadastro na Campo, a empresa colonizadora, que existe at\u00e9 hoje. O crit\u00e9rio de sele\u00e7\u00e3o era a tradi\u00e7\u00e3o em produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola, ser arrendat\u00e1rio ou ter uma pequena posse de terra, sem condi\u00e7\u00e3o de ampliar na origem.<br \/>\nCompraram 409 hectares aqui. Moravam na propriedade, em um galp\u00e3o que constru\u00edram que servia de garagem para m\u00e1quinas: n\u00e3o havia servi\u00e7o de sa\u00fade, \u00e1gua, nem energia e a estrada era ruim, n\u00e3o havia servi\u00e7o p\u00fablico; para fazer chamadas telef\u00f4nicas, tinham que esperar em fila por 24 horas; s\u00f3 havia bancos em Diamantino, que fica \u00e0 200 Km de Lucas, conta Sr. Eg\u00eddio. O \u201cLinh\u00e3o\u201d, fornecimento de energia, de Furnas, s\u00f3 existe h\u00e1 6 anos.<br \/>\nPlantaram arroz e soja, pagando financiamento que inclu\u00eda: a terra, a escritura p\u00fablica; os 20% de entrada do financiamento que cobriam a casa, o barrac\u00e3o, a corre\u00e7\u00e3o do solo, maquin\u00e1rio, abertura de \u00e1rea, juro normal de cr\u00e9dito rural.<br \/>\nOs Vuaden faliram duas vezes, em 1989, e de 1994 para 95, por causa dos planos econ\u00f4micos: mesmo que tivessem capital, n\u00e3o havia m\u00e1quinas \u00e0 venda. Ficaram inadimplentes, porque n\u00e3o foram enquadrados no plano de securiza\u00e7\u00e3o de cr\u00e9dito rural. Apenas em 2001 conseguiram repactuar a d\u00edvida que terminar\u00e3o de pagar em 2019.<br \/>\nPensaram em voltar, mas n\u00e3o tinham para quem vender a terra.<br \/>\nSr. Eg\u00eddio \u00e9 presidente do PPS- Partido Popular Socialista, o partido do atual prefeito. Atualmente, produz soja, milho, arroz, algod\u00e3o e su\u00ednos, em 1400 hectares de \u00e1rea pr\u00f3pria.<br \/>\nAirton Callai \u00e9 de Giru\u00e1 (RS). L\u00e1, trabalhava com faturamanto de uma cerealista que atendia toda a regi\u00e3o do Alto Uruguai. Vivia na cidade, e toda a sua fam\u00edlia tamb\u00e9m trabalhava no terceiro setor. Morava na cidade. Callai chegou em Lucas do Rio Verde em 1986. Antes, um irm\u00e3o seu havia ido em busca de oportunidades, porque n\u00e3o tinham posses, e voltou desiludido. Callai tinha apenas 15 anos, ficou 4 anos, n\u00e3o se adaptou e voltou, para servir na aeron\u00e1utica. Jo\u00e3o Callai, outro irm\u00e3o, que vivia no Mato Grosso desde 1982 foi quem o incentivou a vir de volta, em 1990.<br \/>\nAirton Callai foi contratado para fazer assist\u00eancia t\u00e9cnica para a Cooperlucas, e recebeu uma proposta de emprego. Ficou amigo dos presidentes.<br \/>\nEm 21 de agosto de 1991, mudou-se para Lucas definitivamente. A caixa da televis\u00e3o era a mesa, o colch\u00e3o ficava no ch\u00e3o. A mudan\u00e7a durou 4 dias.<br \/>\nDepois de um ano, os pais de T\u00e2nia, sua esposa, mudaram-se tamb\u00e9m para Lucas.<br \/>\nPassou \u00e0 ger\u00eancia de CPD e Tania trabalhava no faturamento, ambos na Cooperlucas.<\/p>\n<p>Sua fam\u00edlia n\u00e3o pretende voltar para o Sul, pois considera o Mato Grosso uma terra de oportunidades, que ele soube aproveitar, mesmo o pa\u00eds tendo passado por grandes crises, justamente naquele momento. Exemplifica: \u201ca Cooperlucas, que era a terceira cooperativa em faturamento no Brasil, em 1995 quebrou.\u201d Neste momento, Callai saiu da cooperativa e montou um neg\u00f3cio pr\u00f3prio de inform\u00e1tica.<br \/>\nEm 1997, tornou-se patr\u00e3o do CTG: Centro de Tradi\u00e7\u00e3o Ga\u00facha de Lucas, renovou, e um ano depois foi escolhido como presidente do MTG do Estado. Ficou por dois anos, per\u00edodo em que fez um levantamento de onde estavam os ga\u00fachos do Estado. Havia 43 CTG\u2019s, em quase 30% das cidades do Mato Grosso, que t\u00eam identifica\u00e7\u00e3o forte com o tradicionalismo ga\u00facho;&nbsp; assim pesquisou Callai. As regi\u00f5es do estado, de acordo com o crit\u00e9rio dos grupos tradicionalistas, foram divididas pelo presidente anterior. Callai fez um cadastro dos ga\u00fachos para manter contato, e assim conseguiram organizar encontros regionais maiores atrav\u00e9s dos contatos. Fizeram regulamentos. Callai foi eleito por dois anos consecutivos, faz parte da confedera\u00e7\u00e3o dos CTG\u2019s como um todo. Organiza rodeios com 400 pessoas.<br \/>\n\u00c9 interessante notar que Callai n\u00e3o participava do CTG no Sul. Conta que ia, mas n\u00e3o se sentia \u00e0 vontade para competir nas provas; porque na sua fam\u00edlia n\u00e3o havia est\u00edmulo. Diz que o envolvimento s\u00f3 come\u00e7ou no norte, por identifica\u00e7\u00e3o com os sulistas. Este relato, assim como muitos outros, nos mostram que o MTG: Movimento Tradicionalista Ga\u00facho, foi a forma que os migrantes encontraram de se relacionar, de se encontrar, e de ter lazer.<br \/>\nO Sr. Jaime Ferrari, dono de um hotel de mesmo nome que comprou em 2001, chegou muito recentemente, em 19 de agosto 1999, o que \u00e9 interessante para estabelecerem-se par\u00e2metros comparativos das experi\u00eancias dos ga\u00fachos que chegaram na Amaz\u00f4nia Legal&nbsp; em diversas \u00e9pocas.<br \/>\nEm Get\u00falio Vargas, regi\u00e3o norte do Alto Uruguai, era agricultor (tinha um lote de 80 hectares) e comerciante: era propriet\u00e1rio de um posto de gasolina e um mercado geral. Foi para o Mato Grosso, sem precisar vender nada, porque queria achar mais espa\u00e7o, tentar melhorar de vida. Foi \u201ctocar\u201d um posto de gasolina, mas \u201cn\u00e3o deu certo\u201d, conta Ferrari. Um amigo tamb\u00e9m era dono de um posto de gasolina em Sorriso, o qual administraram por aproximadamente 3 anos.<br \/>\nSr. Ferrari conta que s\u00f3 n\u00e3o veio antes porque a m\u00e3e n\u00e3o podia ficar sozinha, j\u00e1 que o pai morrera quando ele era uma crian\u00e7a. A m\u00e3e ainda vive no Sul. Seus filhos est\u00e3o na faculdade, tamb\u00e9m em Lucas do Rio Verde. Um deles j\u00e1 est\u00e1 no Par\u00e1, e tem uma propriedade de terra. Ele vendeu uma terra no Sul e depois de dois anos comprou uma terra no Mato Grosso, de600 hectares, que est\u00e1 sendo preparada para a pecu\u00e1ria. A propriedade no Par\u00e1, em Guarant\u00e3, \u00e9 de 1000 hectares. Sr. Ferrari conta que muitos ga\u00fachos \u201cse deram bem l\u00e1\u201d, sendo que h\u00e1 quem seja propriet\u00e1rio de 9000 hectares.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A COTRIJU\u00cd, Cooperativa Trit\u00edcola Serrana, de Iju\u00ed (RS), foi fundada em julho de 1957, por plantadores de trigo.<\/p>\n<p><em>&nbsp;<\/em>Walmir Beck da Rosa, \u00e9 rela\u00e7\u00f5es p\u00fablicas da Cooperativa, e conta sobre a&nbsp; sua atua\u00e7\u00e3o&nbsp; no estado, e no norte:<\/p>\n<h1><\/h1>\n<h1>Em novembro de 1973, sua \u00e1rea de atua\u00e7\u00e3o j\u00e1 abrangia 16 munic\u00edpios, 8443 Km\u00b2, e uma popula\u00e7\u00e3o de 292.022 habitantes. Havia 8.112 associados.<\/h1>\n<p>A cooperativa construiu um Terminal Mar\u00edtimo Graneleiro, na quarta se\u00e7\u00e3o da Barra (RS), (era maior terminal graneleiro da Am\u00e9rica Latina), considerado a solu\u00e7\u00e3o para o problema de escoamento de safras. J\u00e1 naquele ano, havia obrigatoriedade de plantio de 3 a 3,5% de milho na lavoura de soja pelo Banco do Brasil, para tentar conter o avan\u00e7o desenfreado da monocultura da soja. A COTRIJU\u00cd defendia a necessidade do corporativismo para que a produ\u00e7\u00e3o familiar pudesse sobreviver \u00e0s novas formas de capitalismo, em um momento em que o governo cada vez mais, deixava de participar das cooperativas trit\u00edcolas ap\u00f3s a crise do pre\u00e7o deste com\u00f3diti.<a href=\"http:\/\/www.klepsidra.net\/klepsidra25\/rs-mt.htm#_ftn60\" name=\"_ftnref60\">[57]<\/a><br \/>\nO projeto de coloniza\u00e7\u00e3o da COTRIJU\u00cd visou a ocupa\u00e7\u00e3o de 400 mil hectares de terras \u00e0s margens do rio Irir\u00ed, em Altamira, no Par\u00e1. A id\u00e9ia era transferir fam\u00edlias &#8211; jovens de prefer\u00eancia &#8211; que n\u00e3o tinham perspectivas de produzir no Sul, por falta de \u00e1rea. Antes mesmo de receber a aprova\u00e7\u00e3o do INCRA e Minist\u00e9rios competentes, houve den\u00fancias da presen\u00e7a de \u00edndios nas glebas. Isto levou a COTRIJU\u00cd a mudar o foco e, em parte, muitos se transferiram para o Mato Grosso do Sul e Mato Grosso, por iniciativa pr\u00f3pria. Com essa leva de ga\u00fachos para a regi\u00e3o, a COTRIJUI e a COTRISA (cooperativa com sede em Santo \u00c2ngelo) se estabeleceram no Mato Grosso do Sul. No caso da COTRIJU\u00cd, houve a incorpora\u00e7\u00e3o de duas cooperativas, em Maracaj\u00fa e Dourados. O crescimento horizontal foi r\u00e1pido, e a a\u00e7\u00e3o se estendeu em toda a parte sul do estado, com 16 unidades de recebimento. Essa a\u00e7\u00e3o durou de 1977 a 1989, quando se deu o chamado desmembramento. As Unidades da COTRIJU\u00cd- MS passaram a constituir uma nova cooperativa. Isso, no entanto n\u00e3o interrompeu a migra\u00e7\u00e3o de fam\u00edlias, atra\u00eddas pelo custo da terra e a boa adapta\u00e7\u00e3o de culturas tradicionais do Rio Grande, como trigo, soja e mesmo arroz.<br \/>\nHoje, aos 46 anos, conta com mais de 13 mil cooperados, em sua maioria mini e pequenos produtores, atua nas regi\u00f5es noroeste, fronteira oeste&nbsp;e Campanha. A Cooperativa tem capacidade de armazenagem de 700 mil toneladas. Recebe toda a produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola dos cooperados,&nbsp;com destaque para soja, milho, trigo, arroz, aveia; na pecu\u00e1ria, granjas pr\u00f3prias distribuem leit\u00f5es para associados que os terminam e entregam no frigor\u00edfico da cooperativa. A COTRIJU\u00cd fomenta a pecu\u00e1ria leiteira, recebendo 65 milh\u00f5es de litros de leite\/ano, que s\u00e3o repassados para a ind\u00fastria.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Outros projetos particulares que n\u00e3o se deve deixar de mencionar s\u00e3o:<\/p>\n<p>\u00c1gua Boa e Nova Xavantina, colonizadas pela CONAGRO, em meados da d\u00e9cada de 1970,&nbsp; em reserva ind\u00edgena Xavante, os quais foram deslocados para Are\u00f5es.<\/p>\n<p>Vila Rica, no Vale do Araguaia, no nordeste do Mato Grosso.<\/p>\n<p>Nova Mutum, pela Mutum agropecu\u00e1ria S.A., nos munic\u00edpios de Diamantino e Nobres, tamb\u00e9m ao longo da Rodovia Cuiab\u00e1-Santar\u00e9m. Segundo Carlos Wagner, o INCRA registrou 283 projetos de coloniza\u00e7\u00e3o nas \u00faltimas duas d\u00e9cadas, no norte do pa\u00eds, dos quais 60% t\u00eam presen\u00e7a de ga\u00fachos. Al\u00e9m disso, ainda hoje, transitam&nbsp; semanalmente cerca de 5000 pessoas em 17 companhias de \u00f4nibus entre o Rio Grande do Sul e as col\u00f4nias.<a href=\"http:\/\/www.klepsidra.net\/klepsidra25\/rs-mt.htm#_ftn61\" name=\"_ftnref61\">[58]<\/a><br \/>\nA cultura ga\u00facha, foi mantida pela coes\u00e3o do grupo que vivia em espa\u00e7os muito pr\u00f3ximos, pela arquitetura das casas em estilo europeu, muitas vezes de madeira e com varanda, pela alimenta\u00e7\u00e3o (o churrasco) e a bebida (o mate), pela m\u00eddia, e pelos Centros de Tradi\u00e7\u00e3o Ga\u00facha, espa\u00e7os de conviv\u00eancia onde se praticam: dan\u00e7a, bocha e la\u00e7o \u00e0 cavalo . Pode-se dizer que a tradi\u00e7\u00e3o, nas cidades visitadas, foi t\u00e3o fortemente mantida, por alguns ga\u00fachos, que os elementos dessa cultura s\u00e3o mais presentes em suas vidas no norte, que no pr\u00f3prio Rio Grande do Sul, porque com a aus\u00eancia do lugar de origem, cria-se a necessidade de manter um elo identit\u00e1rio.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>5.3. Coloniza\u00e7\u00e3o Independente<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Primavera do Leste, \u00e0 230 km de Cuiab\u00e1, \u00e9 um munic\u00edpio habitado predominantemente por ga\u00fachos, que migraram por iniciativa pr\u00f3pria: n\u00e3o eram nem assentados pelo INCRA, nem associados \u00e0 uma cooperativa. Este \u00e9 o caso de uma corrente de comunica\u00e7\u00e3o em que um ga\u00facho convenceu o outro a vir, dando origem a um munic\u00edpio com alta produtividade agr\u00edcola, como veremos \u00e0 seguir. Primavera do Leste estava fora do Plano de Integra\u00e7\u00e3o Nacional, mas seus produtores receberam incentivos fiscais do Banco do Brasil na d\u00e9cada de 1970, porque havia projetos ligados ao Governo Militar para o desenvolvimento do Cerrado.<\/p>\n<p>A regi\u00e3o era col\u00f4nia de Poxor\u00e9u, um munic\u00edpio que fora muito rico at\u00e9 a d\u00e9cada de 1980, pela explora\u00e7\u00e3o de diamantes. O Rio das Mortes era passagem obrigat\u00f3ria para Minas dos Mart\u00edrios, \u00e0 margem do Rio Araguaia, para onde foram v\u00e1rias bandeiras em busca de ouro no s\u00e9culo XVIII. Desde esta \u00e9poca, a regi\u00e3o j\u00e1 era bem conhecida, e aberta por alguns caminhos.<\/p>\n<p>\u201cA cidade nasceu do entroncamento da rodovia federal BR 070 e a estadual MT130\u201d<a href=\"http:\/\/www.klepsidra.net\/klepsidra25\/rs-mt.htm#_ftn62\" name=\"_ftnref62\">[59]<\/a>, que eram picadas intransit\u00e1veis, lamacentas. A rodovia BR 070, liga Cuiab\u00e1 \u00e0 Rond\u00f4nia, Acre e Amazonas. A MT 130 liga o centro ao sul do estado. O entroncamento cresceu com o posto <em>Barril<\/em>, de Darnes Cerutti que tamb\u00e9m foi o primeiro prefeito quando da emancipa\u00e7\u00e3o da cidade, e Divino Castelli; ambos s\u00e3o ga\u00fachos, propriet\u00e1rios de diversos empreendimentos at\u00e9 hoje, que vieram do sucesso da distribui\u00e7\u00e3o de combust\u00edvel, inclusive nas fazendas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Cerutti veio com apoio do governo para aproveitamento do cerrado, e com financiamento do Banco do Brasil, que contava com um estudo de japoneses, que conclu\u00eda que o Centro-Oeste seria o \u201cceleiro do mundo\u201d. Os juros do Pr\u00f3-Terra eram de 7% ao ano, e a car\u00eancia era de 2 a 3 anos. Na opini\u00e3o de Cerutti, isto incentivou muito, os ga\u00fachos a migrarem. A SUDAM n\u00e3o tinha projeto para Primavera do Leste, at\u00e9 porque, estava fora da demarca\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia Legal. O Pr\u00f3-Terra ajudou muito na d\u00e9cada de 70, \u201cdeu pra desbravar bastante\u201d, diz Cerutti, que v\u00ea muita diferen\u00e7a no desenvolvimento de produtores que vieram com aux\u00edlio do programa, e os que vieram independentes na d\u00e9cada de 80, com bastante dificuldade. Em Primavera, n\u00e3o deixaram de encontrar os mato-grossesenses bastante desmotivados com a inviabilidade de produ\u00e7\u00e3o no cerrado. Realmente, diz Sr. Darnes, lutaram muito para conseguir plantar, ga\u00fachos, catarinenses, paranaenses, e baianos que inicialmente estavam atr\u00e1s do garimpo. Foi muito dif\u00edcil conseguirem financiamento, pois nem membros do governo, inclusive do Banco do Brasil, acreditavam na viabilidade de plantio no cerrado.<\/p>\n<p>O Prodecer, Banco Nacional de Cr\u00e9dito Cooperativo, incentivava um programa de desenvolvimento do Cerrado na d\u00e9cada de 80. Tamb\u00e9m, atrav\u00e9s do Polonoroeste, o governo federal pretendia concentrar pessoas ao longo das BR\u2019s.<br \/>\nOs colonos eram ga\u00fachos (50% da popula\u00e7\u00e3o em 1994), catarinenses, paranaenses, goianos e paulistas, na maioria, filhos de imigrantes, e os catarinenses, filhos de ga\u00fachos, chamados de \u201cga\u00fachos-cansados\u201d. Os mato-grossenses, at\u00e9 meados da d\u00e9cada de 80, tinham o garimpo como principal atividade; com a escassez dos diamantes, foram trabalhar como bra\u00e7ais na lavoura e constru\u00e7\u00e3o civil, aqueles que um dia haviam possu\u00eddo muito dinheiro.<br \/>\nCome\u00e7aram plantando arroz em 1973. Fiorindo Gasparotto, catarinense, j\u00e1 o plantava um ano antes. O grupo de Cerutti veio de Frederico Westphalen; segundo ele, \u201cum puxou o outro\u201d. N\u00e3o eram uma cooperativa: cada fam\u00edlia veio independente. Tamb\u00e9m vinham muitos ga\u00fachos de Cruz Alta e paranaenses, que chegam at\u00e9 hoje. Os propriet\u00e1rios trouxeram parentes para trabalhar nas lavouras, pois achavam o ritmo dos mato-grossenses muito lento.<br \/>\nSr. Cerutti diz que os primeiros migrantes foram muito bem recebidos em Poxor\u00e9u, que era a 5\u00aa regi\u00e3o eleitoral do estado, o que significa que \u00e9 um munic\u00edpio bastante antigo. A sua popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o se sentiu amea\u00e7ada pelos chegantes. Ao contr\u00e1rio, perceberam que os sulistas vinham para investir. Cerutti n\u00e3o concorda que os que vieram do sul n\u00e3o tinham estrutura. Diz que alguns arriscavam, e a maioria destes foi embora, porque n\u00e3o veio para \u201cencarar o Mato Grosso de fato\u201d; mas a maioria j\u00e1 tinha fazendas grandes no Sul. Os que n\u00e3o foram bem sucedidos foram para o Piau\u00ed e Tocantins. Cerutti encontrou ga\u00fachos em todas as regi\u00f5es do Amazonas, Par\u00e1 e Rond\u00f4nia. Diz que quem tem uma vida bem estabelecida no norte, n\u00e3o tem planos de voltar. No in\u00edcio, no per\u00edodo das festas, debandavam para o Sul. Atualmente, os parentes que ainda vivem no Sul v\u00eam passar as festas no norte, pois a maior parte da fam\u00edlia j\u00e1 se mudou para l\u00e1.<br \/>\nCerutti tamb\u00e9m afirma que a maioria dos migrantes n\u00e3o mexia com agricultura no sul (o que \u00e9 contestado pelos outros entrevistados), o que significa que a sa\u00edda do sul n\u00e3o trouxe danos para a economia sulista. Segundo ele, a principal causa da migra\u00e7\u00e3o, era o tamanho das fam\u00edlias, que se dividiam.<br \/>\nPor medo, que seus familiares incutiam, Sr. Darnes conta que na primeira vez que foi ao norte, levou carabina, dois estepes, um gal\u00e3o de gasolina; mas a regi\u00e3o revelou-se lhe uma maravilha: diz que nunca passou por aperto.<br \/>\nQuando chegou, Cerutti comprou uma fazenda de 2000 hectares na divisa de Primavera com Paranatinga. Em 1973, ocorreu uma enchente muito grande, e n\u00e3o se podia passar pelo Rio das Mortes. Ent\u00e3o, Sr. Darnes mandou trazer muitas coisas para come\u00e7ar a construir uma sede. Fez um reconhecimento de dez dias, e gostou particularmente do lugar onde hoje vive, munic\u00edpio de Primavera do Leste, e resolveu investir. Abandonou a fazenda. Encontrou parte dos propriet\u00e1rios desta regi\u00e3o em Poxor\u00e9u; o outro, Abino Pandolfo, era do Sul; havia comprado a terra na planta, sem nunca a ter conhecido. Esta pr\u00e1tica era corriqueira: o pr\u00f3prio governo federal vendia \u00e0 partir de imagens a\u00e9reas. Sr. Darnes encontrou amigos de Frederico Westphalen em Cuiab\u00e1, e sugeriu que fossem conhecer aquele local, ent\u00e3o chamado de \u201cEsquina Boa Vista das Placas\u201d. Estes amigos tamb\u00e9m gostaram e compraram terras. Um dos compradores era Antonio Russi, ent\u00e3o deputado estadual do Paran\u00e1.<br \/>\nAs primeiras casas eram de pau-a-pique, adobe e madeira. O primeiro loteamento: <em>Cidade Primavera<\/em>, foi feito por Edgar Cosentino, paulista de Piracicaba. Os sulistas cobravam as mesmas benfeitorias que tinham em suas terras natais, e ajudavam a construir, por esse motivo, os padr\u00f5es das habita\u00e7\u00f5es ficaram muito pr\u00f3ximos do sul: no in\u00edcio, casas de madeira, sempre com varanda para a hora do chimarr\u00e3o.<br \/>\nSr. Cerutti foi o primeiro prefeito do munic\u00edpio de Primavera do Leste. No sul nunca havia exercido cargo pol\u00edtico, s\u00f3 havia ajudado um candidato: tinha uma empresa grande de cargas, com filial em S\u00e3o Paulo. Ele lembra que naquela \u00e9poca ningu\u00e9m queria ser funcion\u00e1rio p\u00fablico. Exemplifica: \u201co atual secret\u00e1rio executivo do prefeito tinha tr\u00eas fun\u00e7\u00f5es na prefeitura\u201d. A primeira a\u00e7\u00e3o do prefeito foi comprar uma ind\u00fastria de manilhas para bueiros e um trator de esteira, uma carregadeira e caminh\u00f5es de ca\u00e7amba, para trabalhos no interior, pois at\u00e9 ent\u00e3o o governo n\u00e3o tinha conseguido nem consertar uma ponte, apesar da agricultura andar muito bem. Cerutti comprou um caminh\u00e3o de lixo, mas n\u00e3o havia lixeiro dispon\u00edvel: todos estavam pensando mais alto. Ningu\u00e9m se mudara com tanto esfor\u00e7o para o norte para ser lixeiro, em vez de propriet\u00e1rio, conta.<br \/>\nAntes da emancipa\u00e7\u00e3o da cidade, s\u00f3 havia uma escola em Poxor\u00e9u, e uma estadual em Primavera, que por\u00e9m eram muito prec\u00e1rias. A primeira prefeitura construiu 12 escolas no interior e formou professoras. O munic\u00edpio passou a ter biblioteca, pol\u00edcia militar, telefone e po\u00e7os artesianos funcionando.<br \/>\nOs loteamentos j\u00e1 estavam demarcados antes da emancipa\u00e7\u00e3o. N\u00e3o havia coleta de lixo, jogava-se na rua.<br \/>\nSr. Cerutti considera que conseguiu muita ajuda do governo estadual porque apresentava projetos para o munic\u00edpio, em vez de pedir destitui\u00e7\u00e3o de cargos, como era de praxe nos outros muinc\u00edpios.<br \/>\nPrimavera do Leste foi emancipada em 13 de maio de 1986. O processo foi presidido por Darnes Cerutti, por aclama\u00e7\u00e3o de 200 pessoas; passaram por forte inspe\u00e7\u00e3o do IBGE (fiscaliza\u00e7\u00e3o de divisas, n\u00famero de leitos em hospitais, popula\u00e7\u00e3o, produ\u00e7\u00e3o), que em seguida emancipou v\u00e1rias cidades formadas s\u00f3 por uma rua, que n\u00e3o atendiam \u00e0s exig\u00eancias deste \u00f3rg\u00e3o. Isto ocorreu porque no dia seguinte \u00e0 emancipa\u00e7\u00e3o de Primavera, foi promulgada a lei de que as emancipa\u00e7\u00f5es seriam feitas pela Assembl\u00e9ia Legislativa, ent\u00e3o as pequenas vilas tamb\u00e9m foram emancipadas. Esse fato nos deixa claro, que a emancipa\u00e7\u00e3o das cidades era feita em levas regionais.<br \/>\nSr. Darnes diz que o governo n\u00e3o tinha inten\u00e7\u00e3o de emancipar estas cidades; Eram 22 vilas pedindo emancipa\u00e7\u00e3o. Primavera do Leste e Sorriso \u201catropelaram o processo\u201d diz o prefeito. Era requisito que houvesse pelo menos 7.600 habitantes; nenhuma das vilas tinha, e mesmo assim conseguiram.<br \/>\nSr. Cerutti diz que o INCRA nunca teve atua\u00e7\u00e3o em Primavera, pois a cidade n\u00e3o fazia parte de projeto do governo de abertura de fronteiras agr\u00edcolas e reforma agr\u00e1ria.<br \/>\nEm 1996, era a 5\u00aa economia, e a maior produtora de gr\u00e3os do estado. Em 1997, a popula\u00e7\u00e3o era de 20.996 habitantes, em 2002, j\u00e1 havia saltado para 50.000 habitantes.<a href=\"http:\/\/www.klepsidra.net\/klepsidra25\/rs-mt.htm#_ftn63\" name=\"_ftnref63\">[60]<\/a>&nbsp; A cidade cresce economicamente, 17% ao ano, e 100% em popula\u00e7\u00e3o. Hoje, 50% das ruas s\u00e3o asfaltadas. H\u00e1 abastecimento de \u00e1gua em 43% das casas. Este dado \u00e9 bem visto por uns e mal visto por outros, que n\u00e3o admitem que em uma cidade de qualidade de vida t\u00e3o boa, n\u00e3o haja abastecimento \u00e0 todos. Diz-se que s\u00f3 n\u00e3o se abastece a quem n\u00e3o interessa, o que indica que h\u00e1 um grupo proporcionalmente grande de exclu\u00eddos do interesse dos agro-industriais e do governo.<br \/>\nAtualmente, o munic\u00edpio tem uma cooperativa de cr\u00e9dito, 3 hospitais particulares, 5 postos de sa\u00fade na cidade, e dois no campo e um pronto socorro. H\u00e1 19 escolas e v\u00e1rias quadras esportivas. H\u00e1 uma emissora de televis\u00e3o.<br \/>\nSua posi\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica possibilita que seja um entreposto comercial e de abastecimento.<br \/>\nA terra do cerrado n\u00e3o era f\u00e9rtil. As comunica\u00e7\u00f5es oficiais sobre a cidade dizem que \u00e9 f\u00e9rtil, at\u00e9 hoje, para continuar atraindo produtores e investidores. O secret\u00e1rio da agricultura de Primavera, Luiz Nery, no entanto \u00e9 veemente ao dizer que a terra n\u00e3o \u00e9 ideal para plantar, porque \u00e9 plana e arenosa, mas que conseguiram-se muito bons resultados \u00e0 partir de pesquisas, principalmente dos pr\u00f3prios agricultores, pois a Embrapa e a Empaer: Empresa Estadual de Pesquisa de Expans\u00e3o Rural, n\u00e3o tinham recursos suficientes, o que levou \u00e0 abertura de funda\u00e7\u00f5es especializadas em pesquisa. Justamente pelo fato da terra ser arenosa, era vendida a pre\u00e7os baix\u00edssimos, muitas vezes em troca de um carro velho, diz Nery.<br \/>\nOs ga\u00fachos introduziram a soja no norte do pa\u00eds porque as \u00e1reas no sul eram muito pequenas, em torno de 100 hectares. Nery diz que a maioria dos migrantes tinham tradi\u00e7\u00e3o agro-pecuarista.<br \/>\nAtrav\u00e9s das pesquisas das funda\u00e7\u00f5es privadas, foi introduzido, em 1994, o algod\u00e3o, que \u00e9 forte agregador de m\u00e3o-de-obra, mesmo que a colheita seja mecanizada. O algod\u00e3o veio preencher o per\u00edodo de ociosidade da terra, de abril a setembro. Assim alternam-se as culturas da soja, que cresce no per\u00edodo da chuva, e do algod\u00e3o, que cresce na seca. Dessa forma, os plantadores que voltavam para o sul e continuavam atividades de pouca lucratividade, ou mesmo sem lucratividade, mudaram com suas fam\u00edlias para o norte.<br \/>\nAs principais atividades agr\u00edcolas ali s\u00e3o: a soja, com colheita de 811.200 toneladas de gr\u00e3o em 2004; o milho, o arroz, e gado extensivo, com abate de 1 milh\u00e3o e 700 mil cabe\u00e7as no mesmo ano. Os novos projetos s\u00e3o de vinicultura e suinocultura. O primeiro objetivo da atual prefeitura \u00e9 a industrializa\u00e7\u00e3o total da agropecu\u00e1ria. A C\u00e2mara Municipal aprova incentivos fiscais a empresas agro-industriais e servi\u00e7os que queiram se instalar.<br \/>\n\u00c9 renitente a queixa com rela\u00e7\u00e3o ao escoamento das safras, que concentra-se na m\u00e3o de quatro empresas, das quais tr\u00eas s\u00e3o norte-americanas. Estas multi-nacionais tamb\u00e9m controlam a venda de insumos agr\u00edcolas, diz Luiz Nery. A frustra\u00e7\u00e3o \u00e9 ainda maior porque a \u00e1rea plantada no Mato Grosso \u00e9 proporcionalmente maior que de qualquer estado norte-americano.<br \/>\nAtualmente, as principais atividades da cidade s\u00e3o: servi\u00e7os automobil\u00edsticos, cal\u00e7ados e confec\u00e7\u00f5es, e venda de insumos agr\u00edcolas. A cidade \u00e9 planejada, com ruas bastante largas. As constru\u00e7\u00f5es, na maioria dos casos s\u00e3o feitas em lotes previamente demarcados.<br \/>\nA pra\u00e7a maior tem um grande espa\u00e7o de lazer, e nela fica a primeira igreja constru\u00edda, que \u00e9 cat\u00f3lica.<br \/>\nO Sr. Castelli, s\u00f3cio de Cerutti do posto <em>Barril<\/em>, chegou em Primavera em 1975, tamb\u00e9m vindo de frederico Westphalen, onde era motorista de caminh\u00e3o, quatro meses depois de Cerutti. Encontrou apenas o cerrado e uma pens\u00e3o velha, onde morava um senhor de horizontina. Quem tinha fazenda vivia l\u00e1.<br \/>\nAssim como Cerutti, Castelli tamb\u00e9m recebeu financiamento do Banco do Brasil, com 7 anos para pagar, com juros de 7% e 2 anos de car\u00eancia. Ele tamb\u00e9m afirma que foi dif\u00edcil, pois nem o banco acreditava no projeto. N\u00e3o havia nem crit\u00e9rio de financiamento, pois s\u00f3 havia 4 ou 5 lavoureiros. Sua primeira atividade foi o plantio de arroz. Em 1977 passou a plantar soja.<br \/>\nCom o tempo, comprou \u201co lado direito da BR 070\u201d: um terreno de 340 hectares.<br \/>\nO posto de gasolina foi aberto em 1976. No come\u00e7o da d\u00e9cada de 80, Sr. Castelli come\u00e7ou a investir em servi\u00e7os: abriu dois hot\u00e9is, e um restaurante. Castelli diz que a vida era boa no sul, mas que o seu amigo (Cerutti), o incentivou muito a vir. De fato tiveram muito trabalho, pois estavam come\u00e7ando do zero.<br \/>\nNa d\u00e9cada de 70, a rodovia era razo\u00e1vel, diz Castelli, mas com o transito pesado e as chuvas, o asfalto gastou e ondulou, deixando praticamente intrafeg\u00e1vel em v\u00e1rios trechos, principalmente na \u00e9poca da chuva, na d\u00e9cada de 80 e at\u00e9 hoje.<br \/>\nO Sr. Castelli acha que os ga\u00fachos eram mais unidos no in\u00edcio, provavelmente para juntarem for\u00e7as em caso de necessidade, e para manter a cultura, mas diz que hoje, permanecem mais em fam\u00edlia, pois os moradores j\u00e1 v\u00eam de todas as regi\u00f5es, o que dificulta um pouco a manuten\u00e7\u00e3o da identidade ga\u00facha. Considera que o relacionamento dos ga\u00fachos com os outros habitantes \u00e9 bom.<\/p>\n<p>Nem Cerutti, nem Castelli participam do Centro de Tradi\u00e7\u00f5es Ga\u00fachas, mas lhe s\u00e3o simp\u00e1ticos.<br \/>\nO Sr. Carlos Szadkoski, tamb\u00e9m de Frederico Westphalen, veio para Primavera do Leste em 16 de junho de 1980, com toda a fam\u00edlia. No Sul, tinha uma pequena propriedade onde plantava feij\u00e3o, fumo e milho. \u00c9 cunhado de Divino Castelli, e veio \u00e0 seu convite para trabalhar em sua fazenda. Diz que Castelli acolheu muitas outras pessoas. Sr. Carlos acha que o trabalho aqui era melhor porque j\u00e1 havia maquin\u00e1rio, enquanto no sul, s\u00f3 havia tra\u00e7\u00e3o animal ou manual. Ele considera que n\u00e3o teve problemas na instala\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o pensa em voltar a morar no Sul, principalmente por causa do clima no Rio Grande do Sul, que \u00e9 dif\u00edcil.<br \/>\nDe 1982 a 1984, foi ao centro de Primavera para trabalhar com constru\u00e7\u00e3o civil. Construiu a pr\u00f3pria casa, o Hotel Barril, de Castelli e \u00e0 partir de 1983, as instala\u00e7\u00f5es da igreja: casa paroquial, creche, sala de catequese, o que durou 6 anos. Nestes anos, s\u00f3 havia a igreja cat\u00f3lica. A luterana foi trazida pelos ga\u00fachos posteriormente.<\/p>\n<p>Sr. Carlos comprou, em 1980, uma franquia da empresa de \u00f4nibus Fredtur, que vinha do Sul ao Mato Grosso uma vez por m\u00eas, e depois quinzenalmente. Naquela \u00e9poca, lotavam-se \u00f4nibus para trazer sulistas que vinham diretamente comprar terras no Mato Grosso. Dentro do \u00f4nibus, \u201cera como uma fam\u00edlia, todos se conheciam, diz Sr. Carlos. Hoje a empresa chama-se Merlo Bus, com sede em Cruz Alta. V\u00eam \u00f4nibus 3 vezes por semana para Primavera. No fim do ano, tradicionalmente, chegam 3 \u00f4nibus por dia, em Primavera, para as festas. S\u00e3o 32 horas de viagem.<br \/>\nSr. Carlos tamb\u00e9m comprou uma ch\u00e1cara, e tem um loteamento, que comprou sem incentivo do governo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O Sr. Aracy Damo \u00e9 dono do restaurante da rodovi\u00e1ria. Descendente de italianos, era frentista em Frederico Westphalen, depois de ser agricultor. Em 1948, comprava a\u00e7\u00facar e laranja. Seus tios eram ricos, ent\u00e3o faziam neg\u00f3cios com S\u00e3o Paulo e Rio de Janeiro. Como n\u00e3o tinha t\u00e9cnica de plantio de frutas, foi trabalhar em um frigor\u00edfico. Foi para o norte pela primeira vez em 1971. Em 1975, Sr. Damo comprou uma fazenda em Gurupi, no atual Tocantis, ex-Goi\u00e1s. Ele permaneceu por dois anos na fazenda, e sua fam\u00edlia ficou no Sul. Foi expulso da terra porque sua escritura era falsa.<br \/>\nJ\u00e1 em 1980, comprou uma fazenda de 5000 hectares em Barreiras, na Bahia. Novamente, permaneceu por dois anos, e perdeu tudo, pois uma usina de a\u00e7\u00facar da regi\u00e3o se dizia dona da terra. Para comprar as fazendas, tinha vendido os caminh\u00f5es, ent\u00e3o quando voltou, teve que trabalhar como empregado.<br \/>\nEm 1984, foi para Primavera do Leste com a fam\u00edlia. Tinham cem cruzeiros. Construiu um barrac\u00e3o com lixo de serraria, onde morou por quatro anos. Usava emprestado o banheiro onde os saqueiros (transportadores) tomavam banho. N\u00e3o havia nada, nem lavoura, apenas o posto e a igreja.<br \/>\nEm abril de 1985, foi trabalhar no bar da rodovi\u00e1ria, constru\u00edda nesta \u00e9poca. Come\u00e7ou a juntar dinheiro e arrendar um espa\u00e7o. Com o fruto desse investimento, conseguiu abrir tr\u00eas churrascarias, e com a venda delas, comprou uma fazenda de soja, milho e pasto, com colheitadeira e oito tratores. Atualmente ele planeja construir uma hidrel\u00e9trica na fazenda, que render\u00e1&nbsp; R$500.000,00 por m\u00eas.<br \/>\nHoje ele acha que restaurante n\u00e3o vale a pena, pois exige muito trabalho, e gasta-se muito. Esta atividade foi freada no governo Collor, que afetou muito a economia. As empresas faliam e os caminh\u00f5es n\u00e3o vinham mais.<br \/>\nO governo nunca deu dinheiro, diz Sr. Damo. Acha que o MST \u00e9 uma fantasia, que o povo precisa de outra instru\u00e7\u00e3o; que o governo n\u00e3o pode dar tudo, mas pode auxiliar.<br \/>\nSr. Damo acredita que seu sucesso se deu pela vontade de ganhar, e pela cren\u00e7a em Deus. N\u00e3o considera caracter\u00edstica dos ga\u00fachos querer vencer, mas que conseguem porque \u201cnasceram trabalhando\u201d. Ele n\u00e3o frequenta a institui\u00e7\u00e3o da Igreja, mas acredita fielmente em Deus, principalmente depois de ter sobrevivido \u00e0 quatro enfartes.<br \/>\nSr. Damo est\u00e1 convencido de que nordestinos n\u00e3o t\u00eam instru\u00e7\u00e3o por natureza, e que s\u00e3o bem diferentes dos sulistas. Que mesmo tendo chegado como propriet\u00e1rios, 30 ou 40 anos antes dos sulistas, permaneceram no ritmo dos goianos (mato-grossenses tamb\u00e9m s\u00e3o chamados de goianos, como generaliza\u00e7\u00e3o, apenas para distinguir dos sulistas) o que n\u00e3o os levou a construir nada.<br \/>\nDe 40 a 60 km de Primavera, h\u00e1 duas aldeias Xavante e uma Bororo, considerada por Cerutti bastante grandes, de 800 a 1000 hectares respectivamente. A frequ\u00eancia de \u00edndios na cidade \u00e9 muita. V\u00eam em 2 ou 3 caminh\u00f5es e fazem compras com o dinheiro que ganham do governo, segundo Cerutti. Passam o dia todo e depois voltam para as aldeias. O relacionamento com os sulistas e goianos \u00e9 amig\u00e1vel, mas cada grupo permanece em seus limites, de uma certa maneira. Sr. Damo diz que se n\u00e3o se impuser limites, os \u00edndios invadem. Houve um conflito de terras entre xavantes e o vice-prefeito, Ernesto Ruaro, em sua fazenda. Sr. Cerutti diz que, atualmente, os Xavantes est\u00e3o pedindo uma demarca\u00e7\u00e3o de terras muito grande, terras estas que s\u00e3o produtivas, mas espera que o governo seja sens\u00edvel e n\u00e3o d\u00ea, porque se o \u00edndio vive de ca\u00e7a, n\u00e3o encontrar\u00e1 mais nada, j\u00e1 que a terra est\u00e1 toda plantada.<br \/>\nMarcos Antonio Teixeira de Vargas, de Tup\u00e3ciret\u00e3 (RS), onde era&nbsp; funcion\u00e1rio do Banrisul, veio em maio de 1982 procurando melhores&nbsp; op\u00e7\u00f5es. Seu sogro era agricultor,&nbsp; e convidou-o a ir. No inicio foi muito dif\u00edcil, conta Marcos. Foram 3 dias de viagem, n\u00e3o tinha \u00e1gua, luz, nem telefone; havia 16 casas. Tudo o que precisavam, deviam procurar fora.<br \/>\nMarcos veio com toda a fam\u00edlia. Os cunhados, o sogro e a sogra j\u00e1 haviam migrado. Um puxou o outro, diz. Todos acreditavam que ia dar certo, porque \u201cga\u00facho tem esp\u00edrito aventureiro.\u201d Mas n\u00e3o achavam que ia ficar como ficou hoje. Na sua regi\u00e3o no Sul, a principal atividade era a pecu\u00e1ria. Sua fam\u00edlia n\u00e3o tinha muitas perspectivas. S\u00e3o 8 irm\u00e3os; esta \u00e9 outra raz\u00e3o pela qual optou tentar a vida em Primavera do Leste. Seu sogro, que tamb\u00e9m tem 6 irm\u00e3os, e dos quais, atualmente s\u00f3 um vive no Rio Grande do Sul, veio em 1982. Em meados da d\u00e9cada de 1970, j\u00e1 tinha uma propriedade no Mato Grosso do Sul. Em 1979 comprou uma propriedade na regi\u00e3o. Viu uma placa anunciando a futura cidade de Primavera, em 1980, e comprou a propriedade onde vive e trabalha a fam\u00edlia toda no momento, que hoje est\u00e1 na cidade. Um irm\u00e3o voltou por motivo particular. Marcos conta que algumas fam\u00edlias vieram e voltaram porque n\u00e3o se adaptaram; ele conhece uma fam\u00edlia que veio em 1985, e voltou para o Sul, e agora ele os reencontrou em Primavera.<br \/>\nMarcos acredita em duas causas de migra\u00e7\u00e3o: \u201chavia quem tinha dinheiro e n\u00e3o tinha onde investir, porque os espa\u00e7os estavam ocupados e acharam que se sa\u00edssem, teriam condi\u00e7\u00f5es. Outros fugiram de d\u00edvidas, de problemas, por n\u00e3o ter op\u00e7\u00e3o.\u201d<br \/>\nN\u00e3o tiveram apoio do governo. No mandato do governador ga\u00facho Blairo Maggi, est\u00e1 havendo uma pol\u00edtica credit\u00edcia.<br \/>\nH\u00e1 muita discrimina\u00e7\u00e3o contra o ga\u00facho na opini\u00e3o de Marcos. O modo de lidar \u00e9 pejorativo, \u201cporque n\u00f3s tomamos o espa\u00e7o deles. Teria o cerrado h\u00e1 20 anos atr\u00e1s, n\u00e3o teria pecu\u00e1ria, como regi\u00f5es do Mato Grosso que est\u00e3o engatinhando.\u201d H\u00e1 uma tens\u00e3o entre matogrossenses e ga\u00fachos, mas nada muito s\u00e9rio. A sua agricultura era de subsist\u00eancia: \u201cmandioca, arrozinho manual, gado, s\u00f3 o quanto o animal tinha resist\u00eancia. O Mato Grosso come\u00e7ou mesmo h\u00e1 20 anos.\u201d<br \/>\nExistem problemas com os \u00edndios, que n\u00e3o aceitam a coloniza\u00e7\u00e3o, \u201cmas n\u00e3o trabalham, n\u00e3o fazem nada.\u201d Marcos diz que o Governo Federal d\u00e1 muito apoio: semente, adubo, maquin\u00e1rio, que n\u00e3o usam, e vendem. \u00c9 uma quantidade de terra inaproveit\u00e1vel, segundo Marcos. Usam tudo o que o homem branco usa, bebida alcoolica, etc. N\u00e3o reivindicam terras, mas invadem propriedade, p\u00f5em fogo, matam vaca.<br \/>\nCom rela\u00e7\u00e3o ao MST n\u00e3o h\u00e1 esse problema, apenas pr\u00f3ximo de Rondon\u00f3polis, porque a regi\u00e3o \u00e9 de pecu\u00e1ria, ent\u00e3o aparentemente n\u00e3o se explora muito a terra. Marcos acredita que o MST seja um problema para o pa\u00eds, porque 99% n\u00e3o \u00e9 de agricultores. \u201cO Governo, d\u00e1 cesta b\u00e1sica, e v\u00e3o de acampamento em acampamento.\u201d<br \/>\n\u201cO tradicionalismo est\u00e1 no sangue. O Rio Grande do Sul tem uma historia, mais marcante, que \u00e9 a Revolu\u00e7\u00e3o Farroupilha, que todo mundo conhece, uns mais, outros menos: ga\u00facho \u00e9 desbravador, sempre lutou pela terra, por melhores condi\u00e7\u00f5es de trabalho no campo. Hoje continuamos cultuando as tradi\u00e7\u00f5es, com fandangos e rodeios.\u201d Como sua regi\u00e3o era mais de pecu\u00e1ria, sentem necessidade de difundir esta cultura. Em 1983, fundou um CTG com outras pessoas.&nbsp; Toda cidade come\u00e7ou a construir e fazer rodeio na mesma \u00e9poca. Ent\u00e3o foi criado o MTG: Movimento Tradicionalista Ga\u00facho,&nbsp; no Mato Grosso, que \u00e9 o \u00f3rg\u00e3o que administra os CTG\u2019s. Ningu\u00e9m migrou em fun\u00e7\u00e3o disso, mas hoje chegam a trazer instrutores de dan\u00e7a. O MTG \u00e9 dividido em 6 regi\u00f5es. Primavera do Leste, Paranatira, Campo Verde, Jaciara, Rondon\u00f3polis, Itiquira, Alto Gar\u00e7as Tianguiratinga fazem parte da segunda regi\u00e3o. Existem regulamentos, e cada estado tem um MTG. S\u00e3o filiados \u00e0 CBTG: Confedera\u00e7\u00e3o Brasileira de Tradi\u00e7\u00e3o Ga\u00facha, que atualmente fica em Porto Alegre, porque o presidente hoje \u00e9 de l\u00e1.O crit\u00e9rio de escolha para a presid\u00eancia \u00e9 a elei\u00e7\u00e3o. Todo ano h\u00e1 conven\u00e7\u00f5es e congressos para eleger o presidente. Na parte de rodeio todos os anos h\u00e1 eventos de n\u00edvel nacional.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>N\u00e3o se pode deixar de mencionar uma comunidade de paranaenses de origem russa, que fica \u00e0 30 km de Primavera. Eles trabalham na lavoura e s\u00e3o auto-suficientes. Mant\u00e9m a tradi\u00e7\u00e3o, inclusive no modo de vestir.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Alto Gar\u00e7as tamb\u00e9m \u00e9 um munic\u00edpio onde a presen\u00e7a ga\u00facha \u00e9 muito forte, e que teve coloniza\u00e7\u00e3o independente.<br \/>\nO Sr. Eug\u00eanio e a Sra. Cleonice Maria Bertotti, chegaram em Alto Gar\u00e7as em 1974, de Frederico Westphalen. Seu pai era comerciante, dono de churrascaria. Chegaram a ter terra no Rio Grande do Sul, mas n\u00e3o nos \u00faltimos anos. Como sua situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica estava ruim, foram para o norte em busca de condi\u00e7\u00f5es melhores de vida. Segundo eles, o futuro estava no Mato Grosso. Bertotti conseguiu um servi\u00e7o em uma fazenda, e voltou em 1975 para levar a fam\u00edlia. Esta \u00e9poca foi justamente quando come\u00e7ou o desenvolvimento da agricultura, com o arroz, logo ap\u00f3s a abertura do Cerrado. A soja come\u00e7ou a ser plantada, em rota\u00e7\u00e3o de culturas, em 1981.&nbsp; A fam\u00edlia morava na cidade e o pai na lavoura. Ele n\u00e3o comprou terra.<br \/>\nQuando chegaram, j\u00e1 havia a estrutura da cidade, que era muito pobre. Havia pr\u00e9dios p\u00fablicos, dois mercados, dois postos de gasolina. A popula\u00e7\u00e3o girava em torno de 4.000 habitantes. Na d\u00e9cada de 80, colhia-se entre 30 e 35 sacas de arroz e soja por hectare. Hoje, com o aperfei\u00e7oamento, chegam a colher de 55 at\u00e9 65 sacas por hectare, conta Sr. Eug\u00eanio.<br \/>\nO algod\u00e3o foi introduzido em 1988; hoje, h\u00e1 80.000 hectares plantados.<br \/>\nA cidade, \u00e0 beira do rio Gar\u00e7as, \u00e9 mais antiga que as anteriores: foi emancipada em 1956, mas apenas em 1975, junto com a abertura de fronteiras estimulada pelo governo, come\u00e7ou-se a abrir a mata. At\u00e9 ent\u00e3o, a principal atividade era o garimpo de diamantes, que ainda existe em propor\u00e7\u00e3o muito menor atualmente.<br \/>\nO governo deu incentivo atrav\u00e9s do Banco do Brasil, e o faz at\u00e9 hoje.<br \/>\nN\u00e3o houve atua\u00e7\u00e3o de nenhuma colonizadora em Alto Gar\u00e7as.<br \/>\nSr. Eug\u00eanio foi eleito vereador pelo PFL com 158 votos, em 1992. reelegeu-se em 1996 com 236 votos. Quando chegou, j\u00e1 havia estrutura pol\u00edtica, conta.<br \/>\nEm 1981, foi fundado o CTG, que \u00e9 bastante grande. Mais da metade dos moradores da cidade \u00e9 ga\u00facha. H\u00e1 poucos catarinenses e paranaenses. Sr. Eug\u00eanio conta que pouca gente voltou, mas que muitos foram adiante, ou com sucesso, ou por n\u00e3o terem conseguido desenvolver-se no Mato Grosso.<\/p>\n<p>Atentemos para alguns dados estat\u00edsticos<a href=\"http:\/\/www.klepsidra.net\/klepsidra25\/rs-mt.htm#_ftn64\" name=\"_ftnref64\">[61]<\/a>, para compreendermos a rela\u00e7\u00e3o da quantidade de migrantes do Rio Grande do Sul para a Amaz\u00f4nia Legal na d\u00e9cada de 1970, comparada com a d\u00e9cada de 1980, e a mudan\u00e7a dos perfis (de idade e grupo):<br \/>\nEm 1970, para os estados do Amazonas, Par\u00e1 e Goi\u00e1s, predominavam habitantes ga\u00fachos na faixa de 25 a 29 anos. Em Rond\u00f4nia, e Amap\u00e1 predominavam pessoas na faixa de 30 a 34 anos. Em Roraima e Acre, os ga\u00fachos eram mais jovens, de 20 a 24 anos. No Mato Grosso, a maioria dos ga\u00fachos tinha de 35 a 39 anos. Por fim, no Maranh\u00e3o, a maioria tinha de 40 a44 anos; para o Maranh\u00e3o, o principal fluxo de&nbsp;migra\u00e7\u00e3o ga\u00facha ocorreu nas d\u00e9cadas de 1950 e 60.<br \/>\nEm 1980, no Amazonas, Roraima e Goi\u00e1s, os ga\u00fachos tinham uma m\u00e9dia de idade de 30 a 34 anos,; no Par\u00e1, Rond\u00f4nia e Maranh\u00e3o, de 25 a 29, no Amap\u00e1, de 15 a 19. No Mato Grosso, de 20 a 24 e no Acre, de 35 a 39 anos. Estes n\u00fameros significam que n\u00e3o s\u00e3o os mesmos grupos que haviam chegado dez anos antes, que permaneceram em maioria na d\u00e9cada de 1980, pois as idades nas duas d\u00e9cadas n\u00e3o correspondem.<br \/>\nA m\u00e9dia do aumento da popula\u00e7\u00e3o ga\u00facha, foi de 7 vezes, da d\u00e9cada de 1970 para 1980. Roraima, Amap\u00e1 e Acre, aumentaram em aproximadamente 3 vezes. Amazonas, Mato Grosso, Goi\u00e1s e Maranh\u00e3o,<\/p>\n<p>tiveram aumento de aproximadamente 5 vezes. O Par\u00e1 ficou com 11 vezes mais ga\u00fachos e Rond\u00f4nia com 20 vezes mais, na d\u00e9cada de 1980.<br \/>\nEm geral, h\u00e1 mais mulheres que homens nas primeiras idades, de 0 a 9 anos, e na terceira idade, de 65 ou mais anos. Isto n\u00e3o se aplica ao Mato Grosso, onde os homens ga\u00fachos sempre estiveram em maior quantidade. O que significa que houve maior migra\u00e7\u00e3o tempor\u00e1ria: na maioria dos casos, o chefe da fam\u00edlia permanecia no norte por um ou dois anos, sem a fam\u00edlia, para preparar o terreno e plantar a primeira safra.<br \/>\nNa d\u00e9cada de 1980 as propor\u00e7\u00f5es de homens para mulheres eram: aproximadamente 1,1 vezes em Rond\u00f4nia e Maranh\u00e3o, 1,4 vezes no Amap\u00e1 e Mato Grosso, 1,7 vezes no Par\u00e1 e Goi\u00e2nia, 2,5 vezes no Acre e no Amazonas, e 4 vezes em Roraima. Donde se conclui que para o Acre, Amazonas e principalmente Roraima, iam homens sozinhos, provavelmente contratados para servi\u00e7os tempor\u00e1rios. Nos outros estados, mesmo que haja diferen\u00e7a, sup\u00f5e-se que na maioria dos casos os ga\u00fachos tenham ido com suas fam\u00edlias.<br \/>\nEm quase todos os estados, a maioria permaneceu apenas por um ano na d\u00e9cada de 1970.<br \/>\nEm Rond\u00f4nia e no Amap\u00e1, na mesma d\u00e9cada, nenhum ga\u00facho permaneceu por mais de 5 anos, e no primeiro, 50 % dos ga\u00fachos ficou por menos de um ano na d\u00e9cada de 1970. Amesma quantidade de ga\u00fachos permaneceu tamb\u00e9m por menos de um ano na d\u00e9cada de 1980 em Roraima e Maranh\u00e3o; o que indica que as&nbsp;condi\u00e7\u00f5es de vida ali eram muito dif\u00edceis, obrigando-os ou a voltar, ou a migrar para outros estados. Na d\u00e9cada de 1980 houve grande aumento de ga\u00fachos nestes estados, pois foi quando os projetos particulares se instalaram.<br \/>\nNo entanto, em geral, mais ga\u00fachos permaneceram nos estados do norte na d\u00e9cada de 70, do que na de 80. Par\u00e1, Mato Grosso, Goi\u00e1s, Amazonas foram os estados em que mais ga\u00fachos permaneceram por mais de 5 anos. Em Roraima na d\u00e9cada de 80, apenas 5% ficou por mais de 5 anos.<br \/>\nO fluxo populacional no Par\u00e1, Mato Grosso e Maranh\u00e3o manteve-se est\u00e1vel quanto \u00e0 perman\u00eancia por menos de um ano nas duas d\u00e9cadas.<br \/>\nRoraima e Acre tiveram o fluxo mais inst\u00e1vel quanto \u00e0 perman\u00eancia por menos de um ano, comparando-se as duas d\u00e9cadas: em ambas, permaneceram por menos de um ano.<br \/>\nNo Mato Grosso, as micro-regi\u00f5es mais habitadas eram, a Baixada Cuiabana, Campos de Vacaria e a regi\u00e3o pastoril de Campo Grande na d\u00e9cada de 70. Os munic\u00edpios Campo Grande, Dourados, Ponta-Por\u00e3 e Amamba\u00ed, que atualmente fazem parte do Mato Grosso do Sul, destacavam-se pelas grandes quantidades de ga\u00fachos. J\u00e1 na d\u00e9cada de 1980, milhares de ga\u00fachos destinaram-se para munic\u00edpios do atual estado do Mato Grosso, fundados neste per\u00edodo pelos projetos de coloniza\u00e7\u00e3o. Estes dados mostram que a migra\u00e7\u00e3o em massa dos ga\u00fachos para o Mato Grosso, deu-se na d\u00e9cada de 1980.<br \/>\nA migra\u00e7\u00e3o foi muito pouco significativa na d\u00e9cada de 1970 para o Par\u00e1, Amap\u00e1, Rond\u00f4nia e Acre. Roraima recebeu pouco mais de 100 ga\u00fachos, na capital. Goi\u00e1s tamb\u00e9m teve presen\u00e7a pouco significativa, tendo sido Taguatinga, a cidade que mais recebeu ga\u00fachos. Para o Maranh\u00e3o foram algumas centenas de ga\u00fachos, sobretudo para S\u00e3o Luis e Pindar\u00e9. O M\u00e9dio Amazonas e Manaus, exclusivamente, receberam mais de 200 ga\u00fachos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ol start=\"6\">\n<li><b> A<\/b><b> Oposi\u00e7\u00e3o \u00e0s Consequ\u00eancias Sociais do Projeto de Desenvolvimento da Amaz\u00f4nia<\/b><\/li>\n<\/ol>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>6.1.A Import\u00e2ncia da Igreja Na Luta Pela Terra<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A Igreja foi a \u00fanica oposi\u00e7\u00e3o institucional ao Regime Militar, pela sua liga\u00e7\u00e3o com grupos de esquerda a partir dos anos 50 e 60. Foi muito radical com a quest\u00e3o do aprofundamento da desigualdade econ\u00f4mica principalmente na regi\u00e3o amaz\u00f4nica, onde se dava a constru\u00e7\u00e3o da Rodovia Transamaz\u00f4nica, a cria\u00e7\u00e3o de gado em larga escala, promovida pelo Governo, e as promessas oficiais de distribui\u00e7\u00e3o de terras. \u201cO Clero, em geral mission\u00e1rios e em boa parte estrangeiros, quase sempre tomava o partido dos posseiros e dos pequenos agricultores que vinham sendo pressionados, muitas vezes com viol\u00eancia.\u201d<a href=\"http:\/\/www.klepsidra.net\/klepsidra25\/rs-mt.htm#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>. O Clero brasileiro estava dividido em tr\u00eas partes, quanto \u00e0s suas posi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas: os progressistas, de esquerda, que aconselhavam os perseguidos e torturados, os de direita que apoiavam a ditadura, e os moderados que apoiavam os de esquerda quando membros da Igreja eram atacados. Entre 1969 e 70, os choques militares contra a Igreja aumentaram, o que a transformou na mais forte opositora ao estado autorit\u00e1rio. Consequentemente, sua pol\u00edtica foi de estreitar a c\u00fapula, a Congrega\u00e7\u00e3o Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), e ampliar a base, com a cria\u00e7\u00e3o das Comunidades Eclesiais de Base (CEB\u2019s), que tinha participa\u00e7\u00e3o de leigos, inicialmente apenas para estudar a B\u00edblia, e mais adiante, para apoiar os movimentos sociais, para uma igreja prolet\u00e1ria, o que desagradou muito ao Governo Militar, e que resultou em persegui\u00e7\u00f5es. Paraesta pol\u00edtica, a Igreja contou com o apoio internacional do Papa.<\/p>\n<p>Em 1964, j\u00e1 se publicava no Jornal Zero Hora (que n\u00e3o sofria censura), uma manifesta\u00e7\u00e3o dos bispos do Rio Grande do Sul pela reforma agr\u00e1ria com a percep\u00e7\u00e3o dos problemas que a concentra\u00e7\u00e3o da monocultura, e a falta de recursos dos pequenos propriet\u00e1rios poderiam trazer.<a href=\"http:\/\/www.klepsidra.net\/klepsidra25\/rs-mt.htm#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a><br \/>\nFoi o conflito de posseiros contra a empresa de coloniza\u00e7\u00e3o CODEARA, em Santa Teresinha, no Araguaia, um dos processos que originou a Igreja da Liberta\u00e7\u00e3o: o Padre Francisco Jentel ajudou os trabalhadores que estavam reivindicando a posse de seus terrenos pela empresa a se organizarem formalmente frente ao INCRA, e estruturarem uma comunidade forte na cidade. \u201cD. Pedro Casald\u00e1liga foi at\u00e9 o acampamento levar a solidariedade dos posseiros da prelazia de S\u00e3o F\u00e9lix do Araguaia do qual era representante, e que sofrera a Guerrilha do Araguaia.\u201d<a href=\"http:\/\/www.klepsidra.net\/klepsidra25\/rs-mt.htm#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>&nbsp; Casald\u00e1liga conta que os colonos vindos do Sul, de outras igrejas, n\u00e3o entendiam a sua pastoral, e sua op\u00e7\u00e3o pelos pobres no norte e nordeste: \u201cestremecia como uma expols\u00e3o para eles, em cima deles\u201d<a href=\"http:\/\/www.klepsidra.net\/klepsidra25\/rs-mt.htm#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a><br \/>\nA CPT -Comiss\u00e3o Pastoral da Terra foi criada em 1975, ligada \u00e0 CNBB -Congrega\u00e7\u00e3o Nacional dos Bispos do Brasil, com sede em Goi\u00e2nia; era formada por funcion\u00e1rios&nbsp; religiosos ou leigos, e mantida por religiosos, por \u00f3rg\u00e3os nacionais e internacionais. Esta comiss\u00e3o se articulou durante a Guerrilha do Araguaia e o conflito com a empresa Codeara no Par\u00e1 em defesa de uma igreja de posseiros, pe\u00f5es e \u00edndios.<\/p>\n<p>\u201c(&#8230;) a trajet\u00f3ria da a\u00e7\u00e3o pastoral no sul do pa\u00eds permitiu o fortalecimento das lutas locais, articulando-as ao movimento migrat\u00f3rio do Sul para o Centro-Oeste e para o Norte; este movimento j\u00e1 foi imposto \u00e0quela popula\u00e7\u00e3o, quando nos anos 70 o <em>boom <\/em>da soja alterou a estrutura de ocupa\u00e7\u00e3o daquele espa\u00e7o. Da mesma forma que o modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista constitui-se por uma geopol\u00edtica de concentra\u00e7\u00e3o, as lutas sociais no per\u00edodo cresceram pelo desvendamento dessa geopol\u00edtica que espalhou a popula\u00e7\u00e3o ga\u00facha (&#8230;) pelas regi\u00f5es de Mato Grosso, Goi\u00e1s e Acre.\u201d<a href=\"http:\/\/www.klepsidra.net\/klepsidra25\/rs-mt.htm#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a><br \/>\nA Igreja foi importante ao dar aconselhamento jur\u00eddico, subs\u00eddios, e por indicar aos camponeses, que exigissem os t\u00edtulos de propriedade de quem os tentasse expulsar da terra.<\/p>\n<p>A CPT e o CEM: Centro de Estudos Migrat\u00f3rios, organizavam encontros sobre coloniza\u00e7\u00e3o. O II Encontro Sobre Coloniza\u00e7\u00e3o, organizado em janeiro de 1978, visava aprofundar os estudos de migra\u00e7\u00e3o orientada por empresas particulares e pelo INCRA, do Rio Grande do Sul para a Amaz\u00f4nia.<a href=\"http:\/\/www.klepsidra.net\/klepsidra25\/rs-mt.htm#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a><\/p>\n<p>A diverg\u00eancia entre alguns membros da Igreja e do Estado se fortaleceu no Rio Grande do Sul, quando camponeses expropriados, trabalhadores rurais e grupos ind\u00edgenas foram incentivados pela diocese de Ronda Alta e Passo Fundo, a ocupar terras.<br \/>\nFoi a quest\u00e3o da reforma agr\u00e1ria que cindiu a Igreja em favor do Governo, ou dos trabalhadores.<br \/>\n\u201cO presidente do INCRA (&#8230;) insistia na inexist\u00eancia de terras no Rio Grande do Sul e os camponeses(&#8230;)apresentavam a lista das terras existentes na regi\u00e3o resultando de um levantamento realizado pela Igreja Evang\u00e9lica de Confiss\u00e3o Luterana do Brasil.(&#8230;)Foram apontados: Cachoeira do Sul, Palmeira das Miss\u00f5es, Ronda Alta, Nonoa\u00ed e Passo Fundo, como regi\u00f5es com terras dispon\u00edveis, por meio de an\u00fancios em imobili\u00e1rias\u201d. <a href=\"http:\/\/www.klepsidra.net\/klepsidra25\/rs-mt.htm#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a><br \/>\nMuitos cultos ecum\u00eanicos no Rio Grande do Sul foram feitos para ajudar os posseiros.<br \/>\nEm 25 de julho, os acampados fizeram uma concentra\u00e7\u00e3o para pressionar o Estado: \u201cO governo enviou no dia 30 de julho o Tenente-Coronel Sebasti\u00e3o Rodrigues Moura conhecido como Major Curi\u00f3, com sua tropa, e transformou o acampamento num \u201ccampo de concentra\u00e7\u00e3o\u201d.<a href=\"http:\/\/www.klepsidra.net\/klepsidra25\/rs-mt.htm#_ftn8\" name=\"_ftnref8\">[8]<\/a> Os grupos que os estavam apoiando foram expulsos.<br \/>\n\u201cComo nada foi resolvido, a CNBB assumiu o pagamento de uma \u00e1rea de aproximadamente cem hectares para onde rumaram 207 fam\u00edlias remanescentes do Natalino. A \u00e1rea foi nomeada pelos colonos como Nova Ronda Alta, mas era claramente insuficiente para o sustento dessas fam\u00edlias. (&#8230;) fez uma estrutura de gest\u00e3o estruturada muito bem organizada com a ajuda&nbsp; do CNBB, CPT e Caritas\u201d.<a href=\"http:\/\/www.klepsidra.net\/klepsidra25\/rs-mt.htm#_ftn9\" name=\"_ftnref9\">[9]<\/a><br \/>\nO caso dos \u201cafogados\u201d tamb\u00e9m teve grande ajuda de religiosos: em 1970, centenas de fam\u00edlias foram desalojadas para a constru\u00e7\u00e3o da Barragem de Passo Real, em Cruz Alta (RS). Depois de dois anos, o INCRA os assentou na fazenda Annoni. Seus propriet\u00e1rios entraram com processo e os desapropriados ficaram dez anos sem moradia e tornaram-se mendigos. Os militares responsabilizavam os religiosos pelos conflitos de terra. \u201cAfirmava que a recusa dos sem-terra em a aceitar a transfer\u00eancia para o Mato Grosso devia-se \u00e0 Igreja. De certa forma estava correto(&#8230;).\u201d<a href=\"http:\/\/www.klepsidra.net\/klepsidra25\/rs-mt.htm#_ftn10\" name=\"_ftnref10\">[10]<\/a> Alguns assentados na fazenda, Annoni come\u00e7aram a plantar, e muitos venderam seus lotes; em comum acordo, proibiram a venda dos lotes por tr\u00eas anos.<br \/>\nEm 1940, nas regi\u00f5es de Trombas e Formoso, havia uma comunidade aut\u00f4noma de camponeses que ocupavam terras devolutas; depois de alguns acordos, as \u00e1reas tornaram-se munic\u00edpios. Quando, no in\u00edcio da d\u00e9cada de 1970, com o asfaltamento da rodovia Bel\u00e9m-Brasilia, chegaram do Sul v\u00e1rios grupos econ\u00f4micos que, com o apoio oficial garantido pelos subs\u00eddios da SUDAM, tinham interesses na explora\u00e7\u00e3o da \u00e1rea. A ocupa\u00e7\u00e3o da \u00e1rea foi concomitante \u00e0 militar, pois o governo queria proteger as empresas dos comunistas. Desde 1953, os camponeses de Trombas e Formoso, auxiliados pelos ga\u00fachos do PTB, viram-se amea\u00e7ados por outros grupos de ga\u00fachos que agora queriam suas terras.<br \/>\nNo Par\u00e1, a ocupa\u00e7\u00e3o foi muito dif\u00edcil, pois na regi\u00e3o do Araguaia por exemplo, havia muito min\u00e9rio, e as empresas exploradoras for\u00e7avam os posseiros a deslocarem-se para mais longe, em regi\u00f5es in\u00f3spitas.<\/p>\n<p>\u201cDe 1970 a 1975, nas v\u00e1rias regi\u00f5es da Amaz\u00f4nia, empresas beneficiadas pelos incentivos fiscais da SUDAM, compraram mais de seis milh\u00f5es de hectares de terras, espalhando centenas de jagun\u00e7os pela \u00e1rea. A ocupa\u00e7\u00e3o se fazia de forma predat\u00f3ria, provocando profunda altera\u00e7\u00e3o no meio ambiente e na vida da popula\u00e7\u00e3o local.\u201d<a href=\"http:\/\/www.klepsidra.net\/klepsidra25\/rs-mt.htm#_ftn11\" name=\"_ftnref11\">[11]<\/a><br \/>\nTodas estas lutas levaram \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o dos trabalhadores sem-terra do Movimento Sem-Terra-MST, em 1984.<br \/>\nForam membros de igrejas os principais atores de atra\u00e7\u00e3o de alguns projetos de coloniza\u00e7\u00e3o, como Canarana (Igreja de Confiss\u00e3o Luterana, pastor Norberto Schwantes), Guarant\u00e3 (MT) (Igreja Cat\u00f3lica, p\u00e1roco de Nonoa\u00ed e as irm\u00e3s de Mundo Novo (MS); entre outros.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2><\/h2>\n<h2>6.2. Vis\u00f5es da Coloniza\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia Legal na M\u00eddia Ga\u00facha:<\/h2>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O Jornal Zero Hora, \u00e0 partir de 1964 j\u00e1 mostra o in\u00edcio da percep\u00e7\u00e3o dos problemas que&nbsp; a concentra\u00e7\u00e3o da monocultura, e a falta de recursos dos pequenos propriet\u00e1rios poderiam fazer surgir. O jornal trata da parca atua\u00e7\u00e3o do Instituto Ga\u00facho de Reforma Agr\u00e1ria (IGRA); da manifesta\u00e7\u00e3o dos bispos do Rio Grande do Sul pela reforma agr\u00e1ria; da emigra\u00e7\u00e3o dos ga\u00fachos aos outros estados por causa do incipiente parque industrial do Estado, do minif\u00fandio, e da terra desassistida e exaurida, que expulsam, na maioria, jovens qualificados; do apelo do Deputado Alexandre Machado pela reforma agr\u00e1ria, contra as condi\u00e7\u00f5es degradantes do minif\u00fandio. Ali\u00e1s, o discurso acerca do minif\u00fandio, foi o que legitimou a distribui\u00e7\u00e3o desigual de grandes por\u00e7\u00f5es de terra a grupos privados. O mesmo discurso se aplicou a dois grupos diferentes: pequenos agricultores, e agro-industriais.<br \/>\nAo mesmo tempo, h\u00e1 not\u00edcias que mostram que o pa\u00eds estava muito ligado e submetido ao sistema capitalista monocultor. Estas tratavam, do interesse do Governo Federal em exportar soja e l\u00e3; da perda de produtividade da soja porque 35% das lavouras s\u00e3o marginalizadas.<br \/>\n\u201cO incipiente parque industrial ga\u00facho n\u00e3o oferece condi\u00e7\u00f5es nem para absorver a oferta de m\u00e3o de obra urbana, menos ainda a que demanda dos campos.(&#8230;) emigram aos milhares para os outros estados(&#8230;) especialmente Santa Catarina, Paran\u00e1 e Mato Grosso. Bra\u00e7os riograndenses t\u00eam impulsionado o progresso de vastas regi\u00f5es destes estados. Agricultores qualificados, a maioria jovens, premidos pelo minif\u00fandio, pela exaust\u00e3o da terra desassistida, e pela situa\u00e7\u00e3o insatisfat\u00f3ria em que vivem, vendem tudo ou levam o que podem e abandonam o Estado. A situa\u00e7\u00e3o \u00e9 antiga e perdura. Estima-se que em 1960, 324.000 pessoas deixavam o Estado anualmente.\u201d<a href=\"http:\/\/www.klepsidra.net\/klepsidra25\/rs-mt.htm#_ftn12\" name=\"_ftnref12\"><strong>[12]<\/strong><\/a><br \/>\nCom a percep\u00e7\u00e3o da crise, os bancos come\u00e7am a dar financiamento aos pequenos produtores.<a href=\"http:\/\/www.klepsidra.net\/klepsidra25\/rs-mt.htm#_ftn13\" name=\"_ftnref13\">[13]<\/a><br \/>\nAo longo da d\u00e9cada de 70, a cr\u00edtica nos jornais se acirra: trata da intensa concentra\u00e7\u00e3o de terras no Estado; da diferen\u00e7a no pre\u00e7o das terras do sul (monocultor e latifundi\u00e1rio) e do norte do Estado, que atingiu o dobro do daquelas; dos motivos da emigra\u00e7\u00e3o, que eram, a falta de terras para os filhos dos pequenos agricultores, e a ocupa\u00e7\u00e3o desordenada da terra; da concentra\u00e7\u00e3o de renda que o modelo exportador trouxe, tornando-se ent\u00e3o superado pelo Governo.<br \/>\nNo entanto h\u00e1 um otimismo, e a tentativa de solucionar o problema do \u00eaxodo, atrav\u00e9s da campanha de aumento de safras com financiamento do Governo Federal. H\u00e1 boas perspectivas com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 constru\u00e7\u00e3o da rodovia Transamaz\u00f4nica, com 800 fam\u00edlias levadas do Rio Grande do Sul at\u00e9 o fim de 1972; ao projeto de assist\u00eancia t\u00e9cnica para pequenos agricultores, previsto para janeiro de 1974; \u00e0 abertura do primeiro n\u00facleo de reforma agr\u00e1ria do Rio Grande do Sul.<br \/>\nAo mesmo tempo, o ruralismo ga\u00facho (Far-Sul e UDR), tamb\u00e9m atrav\u00e9s do jornal, exige do governo mais flexibilidade com rela\u00e7\u00e3o \u00e0s medidas de favorecimento ao pequeno propriet\u00e1rio.<a href=\"http:\/\/www.klepsidra.net\/klepsidra25\/rs-mt.htm#_ftn14\" name=\"_ftnref14\">[14]<\/a><br \/>\nEm agosto de 1971<a href=\"http:\/\/www.klepsidra.net\/klepsidra25\/rs-mt.htm#_ftn15\" name=\"_ftnref15\">[15]<\/a>, o jornal Zero Hora anuncia a ida de oitocentas fam\u00edlias de ga\u00fachos para Altamira, no Par\u00e1, regi\u00e3o escolhida pelo INCRA para a coloniza\u00e7\u00e3o.<br \/>\nDescreve-se a sele\u00e7\u00e3o dos agricultores que v\u00e3o para o Projeto Transamaz\u00f4nica, em Planos de Integra\u00e7\u00e3o Nacional em Altamira; as obriga\u00e7\u00f5es do INCRA, eram: fazer contrato, e dar financiamento por seis meses, e as obriga\u00e7\u00f5es dos parceleiros eram: viver na gleba que recebeu, e pagar todas as parcelas no prazo estipulado.<br \/>\nEspecificam-se os locais de origem dos migrantes: principalmente o Alto Uruguai, e constata-se que as fam\u00edlias que migraram est\u00e3o vivendo bem, j\u00e1 que mais fam\u00edlias querem se mudar. Este \u00e9 um exemplo, de como os ga\u00fachos no Sul ficaram alienados do processo migrat\u00f3rio, pois em muitos casos, os pareceleiros eram proibidos pelo INCRA de mandar m\u00e1s not\u00edcias, e chegavam at\u00e9 a ser presos, casos amea\u00e7assem denunciar as m\u00e1s condi\u00e7\u00f5es ou ir embora.<br \/>\nO Jornal Sem-Terra<a href=\"http:\/\/www.klepsidra.net\/klepsidra25\/rs-mt.htm#_ftn16\" name=\"_ftnref16\">[16]<\/a> publicou o depoimento de um grupo de ga\u00fachos que formou o \u201cSindicato dos Trabalhadores Rurais de Santar\u00e9m, em 1979 em resist\u00eancia \u00e0s m\u00e1s condi\u00e7\u00f5es de vida que os ga\u00fachos estavam enfrentando na Amaz\u00f4nia: \u201cSa\u00edmos acreditando nisso e quatro anos depois descobrimos que s\u00f3 servimos de bucha de canh\u00e3o\u201d, conta Ganzer. \u201cN\u00f3s fomos obrigados a lutar porque n\u00e3o tinha mais jeito. Ou ficava aqui trabalhando a terra ou virava pe\u00e3o barato de multinacional.\u201d<br \/>\nPosteriormente, faz-se a critica \u00e0 oposi\u00e7\u00e3o, que atrav\u00e9s do delegado regional do trabalho do Par\u00e1, Antonio Medeiros, decretou interven\u00e7\u00e3o no Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Santar\u00e9m alegando \u201cposs\u00edveis irregularidades na elei\u00e7\u00f5es da entidade realizadas em maio\u201d.<br \/>\nO Pastor Hans Trein deu um depoimento sobre as t\u00e1ticas e resultados da coloniza\u00e7\u00e3o na Amaz\u00f4nia: \u201cA coloniza\u00e7\u00e3o, assim como est\u00e1 sendo feita, \u00e9 apenas um com\u00e9rcio de terras e n\u00e3o objetiva fixar o homem a essa terra (&#8230;) Os colonos s\u00e3o jogados em regi\u00f5es desconhecidas, em plena selva, sem apoio t\u00e9cnico, e infraestrutura. A\u00ed eles preparam a terra como podem e depois s\u00e3o obrigados a abandon\u00e1-la. Ent\u00e3o as grandes empresas e fazendeiros v\u00eam e ocupam com o gado\u201d.<br \/>\nO padre Dion\u00edsio Kuduavicz&nbsp; da Prelazia de Itacoatiara \u2013segundo maior munic\u00edpio do Amazonas observou: \u201cEle (o ga\u00facho de modo geral) n\u00e3o consegue conviver e dominar a natureza como o nativo da regi\u00e3o, tornando o reassentamento no Norte simplesmente catastr\u00f3fico (&#8230;) \u2013 e sobre o objetivo do governo, apontava:&nbsp; \u201c esvaziar as lutas do Sul, como foram os casos de Itaipu, Lucas do Rio Verde e outras.\u201d<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O peri\u00f3dico do CEMCREI,<a href=\"http:\/\/www.klepsidra.net\/klepsidra25\/rs-mt.htm#_ftn17\" name=\"_ftnref17\">[17]<\/a>Realidade das Migra\u00e7\u00f5es na Regi\u00e3o Sul do Brasil, de 1989<\/p>\n<p>aponta como causas do \u00eaxodo rural: a falta de apoio ao pequeno produtor, a desesperan\u00e7a do jovem com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 terra do pai; a aplica\u00e7\u00e3o de juros iguais para pequenos e grandes produtores, os pre\u00e7os proibitivos de insumos e adubos, a corrup\u00e7\u00e3o ( os lucros destes produtos v\u00e3o para atravessadores); falta de assist\u00eancia t\u00e9cnica.<br \/>\nFaz-se uma an\u00e1lise estat\u00edstica e conclui-se de que os pequenos produtores ga\u00fachos s\u00e3o bastante ativos na economia, e que seu \u00eaxodo acarreta a falta de g\u00eaneros de subsist\u00eancia.<br \/>\nA atra\u00e7\u00e3o que o meio urbano causa nos pequenos agricultores se d\u00e1 pela id\u00e9ia de comodidade, onde \u00e9 poss\u00edvel educar os filhos e ter melhor acesso a bens de primeira necessidade.<br \/>\nAs causas contingenciais, ou naturais, como enchentes, desmoronamento, eros\u00e3o, s\u00e3o um forte fator de expuls\u00e3o, j\u00e1 que o governo n\u00e3o d\u00e1 assist\u00eancia aos atingidos por acidentes naturais.<br \/>\nConclui-se com um apelo \u00e0 Reforma Agr\u00e1ria que fixe o homem no campo. Com rela\u00e7\u00e3o ao \u00eaxodo dos jovens, n\u00e3o se aponta solu\u00e7\u00e3o, pois estes s\u00e3o guiados pelas \u201cluzes da civiliza\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<ol start=\"7\">\n<li><b><br \/>\nOs Retornados:<\/b><\/li>\n<\/ol>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Os colonos que voltaram dos projetos de coloniza\u00e7\u00e3o amaz\u00f4nicos para o Sul, assumiram novos pap\u00e9is sociais no local de origem. Haviam aderido a projetos muito diferentes, mas todos eram pequenos produtores recrutados no Sul. Posteriormente, nas d\u00e9cadas de 80 e 90, outros ga\u00fachos migraram para os mesmos munic\u00edpios por iniciativa pr\u00f3pria, n\u00e3o mais como colonos.<\/p>\n<p>Os principais projetos abandonados foram: Altamira, \u00e0s margens da rodovia Transamaz\u00f4nica, para onde haviam migrado 300 fam\u00edlias do Alto Uruguai, foi deixado por 50% dos colonos, Canarana, do qual voltaram quase 40%; de Terranova, 70% dos ga\u00fachos desistiu; Lucas do Rio Verde, \u00e0s margens da rodovia Cuiab\u00e1-Santar\u00e9m, que acolheu 170 fam\u00edlias do Rio Grande do Sul, perdeu 90% delas; Peixoto de Azevedo\/COTREL, tamb\u00e9m na BR 163, que assentou 300 sulistas, teve 30% de desist\u00eancia, aproximadamente.<br \/>\nAs informa\u00e7\u00f5es que se tem dos retornados \u00e9 muito vaga: n\u00e3o h\u00e1 n\u00fameros, e n\u00e3o se os encontra em grupo: est\u00e3o dispersos por todo o pa\u00eds.<br \/>\nOs retornados haviam partido para a Amaz\u00f4nia nas mesmas condi\u00e7\u00f5es dos que al\u00ed ficaram: com poucas terras para deixar aos filhos, e incapacidade de crescer pela concentra\u00e7\u00e3o fundi\u00e1ria, e levados pela propaganda promissora.<br \/>\nAs principais raz\u00f5es do abandono foram: a queda de produtividade da terra, o endividamento, mal\u00e1ria, acidentes de trabalho, falta de servi\u00e7o m\u00e9dico e alimenta\u00e7\u00e3o, alto pre\u00e7o dos bens de consumo, as estradas intrafeg\u00e1veis no per\u00edodo da chuva, o abandono das cooperativas.<br \/>\nAs solu\u00e7\u00f5es encontradas foram: trabalho de diarista para a cooperativa, venda dos t\u00edtulos, arrendamento de terras dos grandes propriet\u00e1rios, garimpo (em Terranova e Cotrel). As den\u00fancias n\u00e3o levavam a resultado algum.<br \/>\nOs que voltaram, seguramente tinham fam\u00edlias no Sul que os acolheram, caso contr\u00e1rio, seguiriam adiante pelo Brasil.<br \/>\nTamb\u00e9m h\u00e1 um outro grupo de retornados, segundo Carlos Wagner: os aposentados. Depois de haverem derrubado as matas do norte, voltam para passar o fim da vida no Sul, com muito orgulho, contando suas \u201caventuras\u201d. Os relatos s\u00e3o guardados pelas fam\u00edlias como documentos, para ati\u00e7ar nos jovens o desejo de desbravar a mata.<a href=\"http:\/\/www.klepsidra.net\/klepsidra25\/rs-mt.htm#_ftn65\" name=\"_ftnref65\">*<\/a><br \/>\nPoucos conseguiram trocar suas parcelas dos programas por lotes no Sul. A maioria passou a viver de servi\u00e7os e biscates, pois n\u00e3o tinham mais terras.<br \/>\nMuitos colonos, ap\u00f3s retornados, tentaram novamente ir para os programas de coloniza\u00e7\u00e3o no norte, geralmente como migrantes sazonais. Sempre para garantir a propriedade rural, para evitar a migra\u00e7\u00e3o para as cidades, que sabiam estar superpovoadas.<br \/>\nOs retornados sofreram o desd\u00e9m dos vizinhos e das autoridades locais.<br \/>\nSabendo de hist\u00f3rias de vizinhos retornados, os colonos sem terra do Sul passaram a lutar mais para que o assentamento fosse feito no pr\u00f3prio estado, pois j\u00e1 sabiam das p\u00e9ssimas condi\u00e7\u00f5es de vida nos programas amaz\u00f4nicos, al\u00e9m de j\u00e1 terem informa\u00e7\u00f5es sobre as condi\u00e7\u00f5es de plantio no norte, que exigiam investimento em maquin\u00e1rio e corre\u00e7\u00e3o do solo.<br \/>\nVeja \u00e0 seguir os mapas de migra\u00e7\u00e3o, nas d\u00e9cadas de 1950-1970, de 1970-1990, e na d\u00e9cada de 1990. O ciclo da borracha levou \u00e0s primeiras migra\u00e7\u00f5es de sulistas para Rond\u00f4nia, al\u00e9m de nordestinos para o Maranh\u00e3o, Par\u00e1 e Amazonas, nas d\u00e9cadas de 1950 a 1970. No per\u00edodo de 1970 a 1990, o fluxo foi maior do Sul para norte e nordeste do Mato Grosso, Rond\u00f4nia e Acre. J\u00e1 na d\u00e9cada de 1990, os fluxos se dispersam, dentro do Mato Grosso; na maioria dos casos as setas t\u00eam dois sentidos: de e para o Amazonas, e de e para S\u00e3o Paulo. H\u00e1 uma grande sa\u00edda do Mato Grosso para Rond\u00f4nia e Acre.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ol start=\"8\">\n<li><b> Relatos da Ocupa\u00e7\u00e3o Ga\u00facha na Amaz\u00f4nia Legal e hist\u00f3ria dos munic\u00edpios colonizados<\/b><\/li>\n<\/ol>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Eliane Chiarelli, advogada (OAB-SP 51997). Durante sua gradua\u00e7\u00e3o em direito pela Faculdade S\u00e3o Francisco, da Universidade de S\u00e3o Paulo, de 1973 a 1976, estagiou em assentamento de migrantes na Amaz\u00f4nia Legal em maio e junho de 1974. Participou de um projeto no <em>Campus Avan\u00e7adus<\/em> da cidade de Marab\u00e1 (PA).<br \/>\nOs alunos da Faculdade de Direito eram coordenados neste projeto pelo Prof. Fernando Sodero. Trabalharam no Projeto Fundi\u00e1rio, para assentamento de fam\u00edlias em glebas de terra \u00e0s margens da rodovia Transamaz\u00f4nica. Tamb\u00e9m trabalharam com verifica\u00e7\u00e3o de escrituras para sua regulariza\u00e7\u00e3o, junto ao INCRA-Marab\u00e1.<br \/>\nO projeto era de ordem p\u00fablica, e n\u00e3o inclu\u00eda assentamentos nos projetos Caraj\u00e1s, Trombetas e Jar\u00ed.<br \/>\nOs migrantes vinham de v\u00e1rias regi\u00f5es. Os que ocupavam as margens da rodovia Transamaz\u00f4nica vinham do Nordeste. J\u00e1 as fazendas de ocupa\u00e7\u00e3o recente \u00e0 \u00e9poca, com estrutura b\u00e1sica, pertenciam aos migrantes do Sul. Chiarelli recorda-se de duas fazendas com fam\u00edlias de Santa Catarina e Rio Grande do Sul.<br \/>\nOs nordestinos migravam com expectativa de uma vida minimamente mais digna. J\u00e1 os sulistas pretendiam acumular mais riqueza, conta.<br \/>\nTodos os migrantes vinham com a fam\u00edlia completa. A maioria tinha idade na faixa dos 30 anos.<br \/>\nOs oriundos do Norte\/Nordeste exerciam cultura de subsist\u00eancia. Embora a terra fosse mais f\u00e9rtil do que aquela de onde eles eram oriundos, restava o intranspon\u00edvel problema de evacua\u00e7\u00e3o de qualquer produ\u00e7\u00e3o animal, ou agr\u00edcola para os centros onde pudessem negoci\u00e1-la.<br \/>\nJ\u00e1 os migrantes vindos do Sul, com terras compradas, pelo menos nas tr\u00eas fazendas&nbsp; visitadas, exploravam a madeira. Viam-se grandes serralherias.<br \/>\nSobre as condi\u00e7\u00f5es oferecidas pelo INCRA: n\u00e3o havia n\u00facleos sociais em dist\u00e2ncia ating\u00edvel, onde seus filhos pudessem frequentar escola, a fam\u00edlia ir \u00e0s igrejas, e entrepostos para compras. Era extremamente inadequado desalojar fam\u00edlias de seus <em>habitat<\/em>, mesmo que fossem muito prec\u00e1rios, com a falsa promessa de que eles teriam uma condi\u00e7\u00e3o melhor de vida, considera Chiarelli. Davam-lhes as terras delimitadas, sem, entretanto, dar-lhes condi\u00e7\u00f5es m\u00ednimas para se estabelecerem. Uma fam\u00edlia chegou a lhe oferecer um sal\u00e1rio para que desse aula para seus filhos por \u201cum tempo\u201d. Eles queriam estudar, aprender, participar de vida social. O projeto foi muito mal planejado.<br \/>\nCom rela\u00e7\u00e3o ao encontro de culturas que ali se estabeleceram, Chiarelli divide os migrantes em dois grupos distintos: os assentados pelo INCRA, e os vindos do Sul para adquirir propriedades. Os do Sul promoviam churrascos e convidavam os estudantes da USP e influentes fam\u00edlias locais, que eram muito bem vindos, sem aparente conflito, mesmo para os castanheiros, que eram fazendeiros locais, autorit\u00e1rios, exploradores da m\u00e3o de obra local e muitos deles bastante sofisticados. Acredita que os ga\u00fachos inflacionaram um pouco a m\u00e3o de obra local, sem, entretanto chegar a incomodar, j\u00e1 que a pobreza existia em abund\u00e2ncia, eles n\u00e3o tinham que disputar empregados. Por outro lado eles traziam um novo dinamismo social que agradava aos castanheiros. J\u00e1 os oriundos do Norte\/Nordeste vinham a competir com os locais na mesma situa\u00e7\u00e3o que eles, buscando independ\u00eancia do sistema quase escravista vigente na regi\u00e3o.<br \/>\nChiarelli desconhe\u00e7e a exist\u00eancia de conflitos. Considera a \u00e1rea do projeto fundi\u00e1rio muito vasta e longe de centros populosos, para haver confronto. Ela tamb\u00e9m n\u00e3o acompanhou nenhum processo de retorno dos migrantes \u00e0s suas terras de origem.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Cleomar de Witt \u00e9 funcion\u00e1rio do COCEARG-MST\\RS, que responde pelas rela\u00e7\u00f5es p\u00fablicas. Viveu no Mato Grosso por alguns anos, onde trabalhou com rebanho su\u00edno. Seu irm\u00e3o vive atualmente em Primavera do Leste, e tem uma condi\u00e7\u00e3o de vida bastante pr\u00f3spera.<br \/>\nDe Witt conta que nas d\u00e9cadas de 50 e 60 do s\u00e9culo XX, ocorreu a chamada Revolu\u00e7\u00e3o Verde, que pretendia acabar com a fome no mundo, com muito uso de insumos, sementes h\u00edbridas e mecaniza\u00e7\u00e3o. Este foi um processo internacional que rapidamente atingiu o Brasil. Introduziu-se a monocultura da soja.<br \/>\nOcorreu que se excluiu a pequena propriedade de terra e os pequenos agricultores venderam suas terras para grandes propriet\u00e1rios.<br \/>\nCom o \u00eaxodo rural o governo militar abriu novas fronteiras agr\u00edcolas, principalmente no Centro-Oeste. Os grandes produtores do Rio Grande do Sul receberam terras l\u00e1, para produzir soja, enquanto os pequenos n\u00e3o receberam condi\u00e7\u00f5es, muitos deles voltando para o Sul ou Sudeste, como m\u00e3o de obra urbana.<br \/>\nForam criadas por ga\u00fachos, as cidades: Canarana, Sinop, Primavera do Leste, Lucas do Rio Verde, Sorriso; todas no Mato Grosso. Boa parte de Palmas, capital do Tocantins foi feita por ga\u00fachos, conta De Witt.<br \/>\nA coloniza\u00e7\u00e3o trouxe um forte impacto ambiental \u00e0 regi\u00e3o Centro-Oeste porque desertificou o cerrado e a mata. Muitas \u00e1reas ind\u00edgenas foram engolidas.<br \/>\nOs produtores que sa\u00edram do norte do Rio Grande do Sul ( Santa Rosa, Santo \u00c2ngelo, Cruz Alta, Iju\u00ed, Carazinho, Passo Fundo, Frederico Westfalen, Nonoai), foram plantar soja em Goi\u00e1s, Mato Grosso e Maranh\u00e3o. Os que sa\u00edram do sul do estado (Pelotas, Uruguaiana, D. Pedrito, Canacu\u00e3) foram predominantemente para a Ilha do Bananal, Pantanal e Tocantins, para plantar arroz irrigado, pois j\u00e1 o plantavam anteriormente.<br \/>\nAt\u00e9 a d\u00e9cada de 1950, muitos ga\u00fachos foram para o Paran\u00e1, portanto a subida para o norte foi autom\u00e1tica; no entanto, a maioria dos migrantes foi diretamente do Rio Grande do Sul para a Amaz\u00f4nia Legal.<br \/>\nOs trabalhadores que retornaram foram assentados pelo Governo Militar em J\u00f3ia e Tup\u00e3, na regi\u00e3o de Iju\u00ed.<\/p>\n<p>At\u00e9 hoje, continuam indo ga\u00fachos para plantar soja no Centro-Oeste e Norte, sem incentivo do Governo.<br \/>\nMuitos ga\u00fachos abriram madeireiras, que estavam ligadas ao latif\u00fandio e ao Governo Militar. Em Sinop, por exemplo, havia aproximadamente 2000 madeireiras na d\u00e9cada de 70.<br \/>\nA madeira nobre processada nas cidades \u201cga\u00fachas\u201d da Amaz\u00f4nia Legal era (e \u00e9 ainda) toda mandada para o Rio Grande do Sul.<br \/>\nExistia muita terra improdutiva no Rio Grande do Sul na d\u00e9cada de 70; n\u00e3o havia necessidade de migrarem, mas os latifundi\u00e1rios pressionavam o governo para que n\u00e3o fizesse assentamentos no Estado. A Farsul (Federa\u00e7\u00e3o dos Agricultores do Rio Grande do Sul), organiza\u00e7\u00e3o de latifundi\u00e1rios, existe h\u00e1 mais de 60 anos.<\/p>\n<p>Os grupos sociais no Norte, se dividem. Existe preconceito contra os ga\u00fachos porque estes v\u00eam com a preocupa\u00e7\u00e3o de trabalhar muito e fazer capital. Cria-se uma certa antipatia por atitudes do povo ga\u00facho. Os ga\u00fachos por sua vez, acham os locais vadios, e t\u00eam preconceito de c\u00f4r, diz De Witt.<\/p>\n<p><em>&nbsp;<\/em><\/p>\n<p>Carlos Wagner \u00e9 colunista do jornal Zero Hora-Porto Alegre\\RS. Fez uma viagem de dois meses (abril e maio de 1995) pelo Rio Grande do Sul e Mato Grosso, vindo a publicar uma reportagem de 28 p\u00e1ginas, intitulada \u201cO Brasil de Bombachas\u201d, editada em livro no mesmo ano.<br \/>\nWagner conta que muitos sem-terra ga\u00fachos, sa\u00edram da Encruzilhada Natalino (onde nasceu o MST), depois de um embate contra o governo, que os levou para o norte do pa\u00eds. Muitos foram para Lucas do Rio Verde, principalmente na d\u00e9cada de 1980. Eles viviam na reserva ind\u00edgena de Nonoai (RS), at\u00e9 que os \u00edndios os expulsaram em 1978 para a fronteira do parque e para a Encruzilhada Natalino.<br \/>\nO Major Curi\u00f3 foi uma pe\u00e7a chave na migra\u00e7\u00e3o destes sem-terra, que foram levados para os estados da Amaz\u00f4nia Legal por ele.<br \/>\nPequenos produtores vendiam 20 hectares no Rio Grande do Sul e compravam 300 hectares no Norte.<br \/>\nSuas principais atividades eram madeira e garimpo, que estavam fadadas ao fracasso, pois n\u00e3o eram produ\u00e7\u00f5es que valessem, segundo Wagner.<br \/>\nCom o \u201cboom\u201d da bolsa de Chicago, de 1973 para 1974, o valor da soja passou de US$ 110,00 para US$ 600,00. Este <em>com\u00f3diti<\/em> tornou-se moeda, e transformou-se na possibilidade deexpans\u00e3o do oeste.<br \/>\nA Embrapa (Bras\u00edlia) desenvolve uma semente apropriada para o cerrado.<br \/>\nO sul do Rio Grande do Sul era formado principalmente por latif\u00fandios pertencentes originalmente por ex-militares que ganharam terras para lutar contra os uruguaios e argentinos. O norte do estado era formado por pequenas propriedades de imigrantes que tinham grandes fam\u00edlias.<br \/>\nOs ga\u00fachos foram para Santa Catarina e Paran\u00e1 e devastaram as matas. Eles foram os principais respons\u00e1veis pela coloniza\u00e7\u00e3o da regi\u00e3o Sul, e conseq\u00fcentemente, de sua terr\u00edvel devasta\u00e7\u00e3o ambiental, enfatiza Wagner.<br \/>\nEm Canarana, o projeto de coloniza\u00e7\u00e3o foi t\u00e3o grandioso que tinha at\u00e9 uma companhia a\u00e9rea, chamada \u201cVACA\u201d, Via\u00e7\u00e3o A\u00e9rea Canarana.<br \/>\nA maioria das terras ocupadas no Norte era devoluta. Quando foi poss\u00edvel, mataram para ocupar.<br \/>\nOs agricultores tinham uma administra\u00e7\u00e3o familiar, portanto com tecnologia passada de pai para filho. Os primeiros sem-terra eram filhos de pequenos propriet\u00e1rios cujos pais n\u00e3o conseguiram comprar propriedades e tornaram-se ilegais, mas conheciam a tecnologia de plantio e tornaram-se mais sucedidos que os filhos de b\u00f3ias-frias.<br \/>\nVoltar para o Rio Grande do Sul significava morar na periferia de centros urbanos.<br \/>\nAproximadamente 30% dos migrantes morreram ou se deram mal.<br \/>\nO movimento migrat\u00f3rio come\u00e7ou quando a terra foi exaurida pela quantidade de filhos.<br \/>\nPara o governo, isto significava o al\u00edvio das tens\u00f5es de terras no Sul: em vez de fazer reforma agr\u00e1ria nas terras dos latifundi\u00e1rios, preferiram \u201cqueimar mato no oeste\u201d, diz Carlos Wagner.<br \/>\nInicialmente, o ga\u00facho plantava soja e o paulista criava gado.<br \/>\nUma empresa de \u00f4nibus chamada Cascavel fazia os transportes para a coloniza\u00e7\u00e3o de Rond\u00f4nia. Em Frederico Westfalen, o hotel Canteli tinha uma linha de \u00f4nibus especial para levar os migrantes e familiares que fossem visitar os parentes no norte.<br \/>\nUma colonizadora importante foi a Cotrel, de Erexim. Guapor\u00e9 tamb\u00e9m tinha uma colonizadora.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O Sr. Claro Freitas foi funcion\u00e1rio do INCRA-RS por mais de trinta anos. Ao se aposentar, foi trabalhar com consultoria na GTV, empresa alem\u00e3 de coopera\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica. Depois trabalhou no Instituto de Coopera\u00e7\u00e3o com a Agricultura. Atualmente, trabalha para um convenio do INCRA com a Embrapa.<br \/>\nO Sr. Freitas diz que houve apoio para ocupa\u00e7\u00e3o de terras pelos ga\u00fachos na Amaz\u00f4nia Legal, principalmente de \u00e1reas maiores, de aproximadamente 2000, ou 3000 hectares. As terras que estavam \u00e0 venda n\u00e3o envolviam a participa\u00e7\u00e3o do INCRA. Freitas n\u00e3o se envolveu pois era contra: pensava que devia ser feita a reforma agr\u00e1ria no Rio Grande do Sul. A sua opini\u00e3o foi tida pela dire\u00e7\u00e3o do INCRA como infundada.<br \/>\nO INCRA fazia o trabalho de medi\u00e7\u00e3o das terras publicas que estavam sendo conquistadas \u00e0 partir da abertura da Transamaz\u00f4nica e do espa\u00e7o de Rond\u00f4nia e Mato Grosso, onde havia interesse em assentar colonos; ajudava no processo de desmatamento, dava alguns financiamentos para que pessoas se instalassem l\u00e1. O INCRA investiu muito dinheiro na Amaz\u00f4nia, naquele per\u00edodo, para fixar gente. O discurso era o seguinte: H\u00e1 lugares com muita gente e falta de terras, e h\u00e1 lugares com muita terra e falta de gente, ent\u00e3o que as necessidades fossem resolvidas mutuamente, comenta.<br \/>\nPor este motivo, inicialmente o Governo incentivou a vinda de nordestinos \u00e0 Amaz\u00f4nia Legal, mas depois achou que seria conveniente \u201cmisturar\u201d. Levar pessoas com outro tipo de inser\u00e7\u00e3o na economia, como os paulistas que estavam inteiramente integrados na economia de mercado, Era interessante este tipo de gente.<\/p>\n<p>As cooperativas recebiam grandes \u00e1reas para fazer um processo de coloniza\u00e7\u00e3o, algo entorno de 200.000 hectares, ou 1 milh\u00e3o para ocupar. Levavam pessoas, ajudavam e come\u00e7avam um processo, para fazer com que eles produzissem. A cooperativa se ressarciria em um segundo momento, n\u00e3o no inicio, pois poderia posteriormente aumentar em 1 milh\u00e3o ou 2 milh\u00f5es a sua \u00e1rea de atua\u00e7\u00e3o;&nbsp; se tivesse produ\u00e7\u00e3o, poderia ser interessante.<br \/>\nQuando houve o crescimento vertiginoso da soja no Rio Grande do Sul, \u00e0 partir de 1968,&nbsp; houve um processo de capitaliza\u00e7\u00e3o muito intenso na agricultura no Estado; pequenos agricultores, e n\u00e3o t\u00e3o pequenos que tinham alguma estrutura, algum capital,&nbsp; financiavam insumo a juro zero, as maquinas tamb\u00e9m eram extremamente baratas, o que fez muita gente comprar. Quem tinha 20 hectares e um trator, comprava a terra do vizinho, que tinha 5 hectares. O processo de exclus\u00e3o foi muito forte naquele per\u00edodo. Alguns n\u00e3o tiveram condi\u00e7\u00f5es de assumir este novo modelo e deixaram a terra, e quem cresceu nesse novo modelo foram os pequenos e m\u00e9dios produtores. Muitas pessoas de Iju\u00ed e Santa Rosa com 20, ou 30 hectaresde terra, naquele per\u00edodo estimulados por juro baix\u00edssimo e pre\u00e7o bom da soja, expandiram; houve crescimento econ\u00f4mico brutal&nbsp;naquela regi\u00e3o; mas n\u00e3o havia terra para os pequenos agricultores. A possibilidade que o governo adotou foi lev\u00e1-los para a Amaz\u00f4nia.<br \/>\nA barragem de Passo Real tamb\u00e9m desalojou muita gente. Os primeiros atingidos foram colocados no Rio Grande do Sul, mas as \u00faltimas barragens feitas s\u00e3o do per\u00edodo em que a op\u00e7\u00e3o n\u00e3o era mais pela reforma agr\u00e1ria, e sim pela coloniza\u00e7\u00e3o. Os atingidos pela barragem, foram deslocados para a Amaz\u00f4nia tamb\u00e9m. O espa\u00e7o que o INCRA abriu tinha que ser aceito pelos colonos; e mesmo em m\u00e1s condi\u00e7\u00f5es, muitos foram. Aparentemente, em v\u00e1rios casos, as agrovilas n\u00e3o estavam montadas, o que era desesperador; chegava-se l\u00e1 e n\u00e3o se encontrava nada. Em alguns casos houve \u00eaxito: a Cooperativa Canarana no Mato Grosso foi organizada por um pastor evang\u00e9lico que conseguiu arrebanhar um grupo de pessoas. Ele tinha o lado econ\u00f4mico, e tamb\u00e9m tinha o lado de rela\u00e7\u00e3o com a popula\u00e7\u00e3o. \u201cParece que de um modo geral funcionou bem\u201d, comenta Sr. Freitas.<br \/>\n\u201cCoisas boas tamb\u00e9m aconteceram\u201d, ele conclui. Muita gente ficou no norte; por exemplo, em Rond\u00f4nia, h\u00e1 uma quantidade imensa de ga\u00fachos.<br \/>\nH\u00e1 quem considere que foi um fracasso completo, que as pessoas abandonaram tudo, morreram. Outros j\u00e1 mostram que houve muita gente que teve sucesso, que conseguiu se estabelecer. As pessoas n\u00e3o ficaram completamente abandonadas, principalmente as que tinham uma cooperativa por tr\u00e1s.<br \/>\nPor\u00e9m houve muitos problemas para as pr\u00f3prias cooperativas. Uma das cooperativas que foi pra Bahia acabou falindo, em parte,&nbsp; porque investiu, se comprometeu e&nbsp; na primeira crise n\u00e3o resistiu no pr\u00f3prio Rio Grande do Sul, e com as d\u00edvidas,&nbsp; desapareceu.<br \/>\nA Cotriju\u00ed tamb\u00e9m abandonou seu projeto na Amaz\u00f4nia. Essas cooperativas de um modo geral n\u00e3o tiveram muito sucesso, a n\u00e3o ser a Canarana do Schwantes, que passou a viver l\u00e1. As outras cooperativas mandavam um t\u00e9cnico; quando n\u00e3o interessava mais, traziam o t\u00e9cnico de volta, ou demitiam.Quem estivesse assentado e quisesse ficar, poderia, ou voltaria por conta pr\u00f3pria.<br \/>\nMuita gente voltou, porque o ga\u00facho \u00e9 muito enraizado, porque a paisagem \u00e9 diferente, costumes diferentes, tudo diferente, ent\u00e3o as pessoas ficam.<br \/>\nHouve uma experi\u00eancia no Rio Grande do Sul que ilustra o problema da coloniza\u00e7\u00e3o: o INCRA recebeu uma \u00e1rea que era uma antiga esta\u00e7\u00e3o experimental, uma \u00e1rea abandonada. Sr. Claro e um colega foram levar os agricultores \u00e0 uma barragem; o aspecto era horr\u00edvel, um capoeir\u00e3o, as casas meio demolidas, realmente feio. Foram em ve\u00edculos diferentes, pois os t\u00e9cnicos deviam trazer a comida para os trabalhadores. Chegaram uma hora depois dos assentados; alguns j\u00e1 queriam voltar porque acharam que as condi\u00e7\u00f5es eram p\u00e9ssimas, mas as terras eram maravilhosas. Os t\u00e9cnicos conversaram, e estimularam-nos a conhecer. Eles foram vendo que havia potencialidade, e todos ficaram. Na Amaz\u00f4nia, onde nem havia casas constru\u00eddas, eles estavam s\u00f3s; podia haver \u00edndios, on\u00e7as, cobras; muitos pegaram mal\u00e1ria, a situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o foi f\u00e1cil. As pessoas s\u00f3 foram, sob perspectiva do progresso porque no Sul estava dif\u00edcil.<br \/>\nO governo foi aos poucos deixando de apoiar os projetos na medida em que deixaram de ser priorit\u00e1rios.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O Prof. Dinarte Belato, respons\u00e1vel pela cadeira de Hist\u00f3ria Contempor\u00e2nea no Departamento de Ci\u00eancias Sociais da Universidade Uniju\u00ed, de Iju\u00ed (RS), contou sobre as origens da migra\u00e7\u00e3o dentro do Estado do Rio Grande do Sul e, atrav\u00e9s de mapas de popula\u00e7\u00e3o e vegeta\u00e7\u00e3o, provou como faz sentido o avan\u00e7o em \u00e1reas de mata e sua devasta\u00e7\u00e3o. Procurou-se a regi\u00e3o noroeste do estado que n\u00e3o atra\u00eda o interesse do Estado at\u00e9 o in\u00edcio do s\u00e9culo XX. At\u00e9 ent\u00e3o o interesse colonizador estava na regi\u00e3o sul do estado, que foi colonizado por ex-militares que lutaram contra Paraguaios, Argentinos e Uruguaios. O resultado foi a forma\u00e7\u00e3o de uma cultura latifundi\u00e1ria de direita e pouco produtiva no sul, e minifundi\u00e1ria e familiar (de imigrantes) no norte.<br \/>\nS\u00f3 saiu do estado quem n\u00e3o tinha nada. As fam\u00edlias eram muito grandes para o tamanho das col\u00f4nias, que tinham por lei 25 hectares.<br \/>\nOs estados de Santa Catarina e Paran\u00e1 foram colonizados por ga\u00fachos e foram brutalmente desmatados.<br \/>\nBelato apontou para a vis\u00e3o positivista da constru\u00e7\u00e3o das duas igrejas (d\u00e9cada de 1890), que s\u00e3o muito semelhantes, e foram postas uma em frente \u00e0 outra na Pra\u00e7a da Rep\u00fablica.<br \/>\nFizemos uma visita ao Museu Antropol\u00f3gico da Uniju\u00ed, onde h\u00e1 artefatos dos \u00edndios Kaingang e dos imigrantes alem\u00e3es e italianos para Iju\u00ed. Existe a\u00ed, o maior acervo de fotos em negativos de vidro de imigrantes para o noroeste do Rio Grande do Sul, em todo o Estado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Tiago \u00e9 instrutor de dan\u00e7a folcl\u00f3rica no CTG (Centro de Tradi\u00e7\u00e3o Ga\u00facha) Farroupilha\/Iju\u00ed (RS), e conta a sua hist\u00f3ria e as atividades.<br \/>\nO CTG Farroupilha foi fundado em 19 de outubro de 1943. Em 1948, foi fundado o 35 CTG, por um grupo de oito rapazes que queriam marcar o centen\u00e1rio do final da Revolu\u00e7\u00e3o Farroupilha. Para homenagear esta \u00e9poca, e a chegada dos restos mortais do Capit\u00e3o Davi Canabarro, maragato, acenderam uma tocha, a &nbsp;\u201cChama Crioula\u201d.<br \/>\nEste grupo dos oito, foi o que come\u00e7ou a hist\u00f3ria dos CTG\u2019s no Rio Grande do Sul; eram jovens universit\u00e1rios, dentre os quais: Barbosa Lessa, Paix\u00e3o Cortes e Ciro Dutra Ferreira.<br \/>\nExiste uma discuss\u00e3o, pois o CTG Farroupilha \u00e9 mais antigo que o 35 de Porto Alegre, no entanto, quando foi fundado, era chamado de clube, e n\u00e3o propriamente o Centro de Tradi\u00e7\u00e3o Ga\u00facha.<br \/>\nOs grupos de dan\u00e7a est\u00e3o divididos em modalidades: mirim, juvenil, adulto e xir\u00fa (mais de 30 anos). No Mato Grosso, n\u00e3o h\u00e1 participantes da modalidade xir\u00fa, e poucos adultos, porque geralmente est\u00e3o trabalhando, ou afastaram-se um pouco da tradi\u00e7\u00e3o, relegando-a aos seus filhos.<br \/>\nO maior festival amador da Am\u00e9rica Latina, chama-se Enart-Encontro de Arte e Tradi\u00e7\u00e3o. No festival apresentam-se 19 tipos de dan\u00e7as tradicionais, al\u00e9m das modalidades art\u00edsticas gerais que s\u00e3o: Declama\u00e7\u00e3o, Chula, Solista Vocal, Gaitas, Bajadas, Trovas, Violino (ou rabeca), Viol\u00f5es, Contos, Conjunto Instrumental e Conjunto Vocal.<br \/>\nO estado \u00e9 dividido em 30 regi\u00f5es tradicionalistas. O MTG rege as regi\u00f5es e tem um presidente. Cada CTG tem um Patr\u00e3o.<br \/>\nOs instrutores de dan\u00e7a ganham um bom dinheiro para ensaiar em todo o estado. Pode-se pagar at\u00e9 R$ 500,00 por um fim de semana de ensaio.<br \/>\nAs dan\u00e7as t\u00eam origens espanholas, francesas, italianas e tamb\u00e9m argentinas e uruguaias. Muitas delas s\u00e3o dan\u00e7as de corte, em que o pe\u00e3o (homem) faz par com a prenda (mulher).<br \/>\nO CTG Farroupilha tem dezenas de trof\u00e9us de festivais, e algumas de suas prendas j\u00e1 ganharam concursos nacionais. A prenda premiada \u00e9 a aquela que estuda, participa, cozinha ou faz bordados.\u201d<br \/>\nNo Mato Grosso, a estrutura do movimento \u00e9 a mesma. Nos festivais, apresentam-se as mesmas categorias, os concursos para prendas seguem os mesmos crit\u00e9rios. Em muitos casos n\u00e3o h\u00e1 como conseguir objetos originais do Sul, mas a tradi\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s dos CTG\u2019s se mant\u00e9m muito arraigada em v\u00e1rios munic\u00edpios que t\u00eam maioria sulista.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Walmir Beck da Rosa, \u00e9 rela\u00e7\u00f5es p\u00fablicas da Cooperativa Trit\u00edcola Serrana-COTRIJU\u00cd, Iju\u00ed (RS), e conta sobre a atua\u00e7\u00e3o da cooperativa no estado, e no norte.<br \/>\nA COTRIJU\u00cd, foi fundada no dia 20 de julho de&nbsp;1957, por plantadores de trigo. Cresceu, e hoje, aos 46 anos, conta com mais de 13 mil cooperados, em sua maioria mini e pequenos produtores. Atua nas regi\u00f5es noroeste, fronteira oeste&nbsp;e Campanha. Tem capacidade de armazenagem de 700 mil toneladas. Recebe toda a produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola dos cooperados,&nbsp;com destaque para soja, milho, trigo, arroz, aveia; na pecu\u00e1ria, granjas pr\u00f3prias distribuem leit\u00f5es para associados que os terminam e entregam no frigor\u00edfico da cooperativa. A COTRIJU\u00cd fomenta a pecu\u00e1ria leiteira, recebendo 65 milh\u00f5es de litros de leite\/ano, que s\u00e3o repassados para a ind\u00fastria.<br \/>\nO projeto de coloniza\u00e7\u00e3o da COTRIJU\u00cd visou a ocupa\u00e7\u00e3o de 400 mil hectares de terras \u00e0s margens do rio Irir\u00ed, em Altamira, no Par\u00e1. A id\u00e9ia era transferir fam\u00edlias &#8211; jovens de prefer\u00eancia &#8211; que n\u00e3o tinham perspectivas de produzir no Sul, por falta de \u00e1rea. Antes mesmo de receber a aprova\u00e7\u00e3o do INCRA e Minist\u00e9rios competentes, houve den\u00fancias da presen\u00e7a de \u00edndios nas glebas. Isto levou a COTRIJU\u00cd a mudar o foco e, em parte, muitos se transferiram para o Mato Grosso do Sul e Mato Grosso, por iniciativa pr\u00f3pria. Com essa leva de ga\u00fachos para a regi\u00e3o, a COTRIJUI e a COTRISA (cooperativa com sede em Santo \u00c2ngelo)&nbsp; se estabeleceram no Mato Grosso do Sul. No caso da COTRIJU\u00cd, houve a incorpora\u00e7\u00e3o de duas cooperativas, em Maracaj\u00fa e Dourados. O crescimento horizontal foi r\u00e1pido, e a a\u00e7\u00e3o se estendeu em toda a parte sul do Estado, com 16 unidades de recebimento. Essa a\u00e7\u00e3o durou de1977 a 1989, quando se deu o chamado desmembramento. As Unidades da COTRIJU\u00cd- MS passaram a constituir uma nova cooperativa. Isso, no entanto n\u00e3o interrompeu a migra\u00e7\u00e3o defam\u00edlias, atra\u00eddas pelo custo da terra e a boa adapta\u00e7\u00e3o de culturas tradicionais do Rio Grande, como trigo, soja e mesmo arroz. Primavera do Leste, \u00e0 230 km de Cuiab\u00e1, era col\u00f4nia de Poxor\u00e9u, um munic\u00edpio que fora muito rico at\u00e9 a d\u00e9cada de 80, pela explora\u00e7\u00e3o de diamantes. O Rio das Mortes era passagem obrigat\u00f3ria para Minas dos Mart\u00edrios, \u00e0 margem do Rio Araguaia, para onde foram v\u00e1rias bandeiras em busca de ouro no s\u00e9culo XVIII. Desde esta \u00e9poca, esta regi\u00e3o j\u00e1 era bem conhecida, e aberta por alguns caminhos.<\/p>\n<p>\u201cA cidade nasceu do entroncamento da rodovia federal BR 070 e a estadual MT130\u201d<a href=\"http:\/\/www.klepsidra.net\/klepsidra25\/rs-mt.htm#_ftn66\" name=\"_ftnref66\">[62]<\/a>, que eram picadas intransit\u00e1veis, lamacentas. A rodovia BR 070, liga Cuiab\u00e1 \u00e0 Rond\u00f4nia, Acre e Amazonas. A MT 130 liga o centro ao sul do estado. O entroncamento cresceu com o posto <em>Barril<\/em>, de Darnes Cerutti que tamb\u00e9m foi o primeiro prefeito quando da emancipa\u00e7\u00e3o da cidade, e Divino Castelli; ambos s\u00e3o ga\u00fachos, propriet\u00e1rios de diversos empreendimentos at\u00e9 hoje, que vieram do sucesso da distribui\u00e7\u00e3o de combust\u00edvel, inclusive nas fazendas.<br \/>\nCerutti veio com apoio do governo para aproveitamento do cerrado, e com financiamento do Banco do Brasil, que contava com um estudo de japoneses, que conclu\u00eda que o Centro-Oeste seria o \u201cceleiro do mundo\u201d. Os juros do Pr\u00f3-Terra eram de 7% ao ano, e a car\u00eancia era de 2 a 3 anos. Na opini\u00e3o de Cerutti, isto incentivou muito, os ga\u00fachos a migrarem. A SUDAM n\u00e3o tinha projeto para Primavera do Leste, at\u00e9 porque, estava fora da demarca\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia Legal. O Pr\u00f3-Terra ajudou muito na d\u00e9cada de 70, \u201cdeu pra desbravar bastante\u201d, diz Cerutti, que v\u00ea muita diferen\u00e7a no desenvolvimento de produtores que vieram com aux\u00edlio do programa, e os que vieram independentes na d\u00e9cada de 80, com bastante dificuldade. Em Primavera, n\u00e3o deixaram de encontrar os mato-grossesenses bastante desmotivados com a inviabilidade de produ\u00e7\u00e3o no cerrado. Realmente, diz Sr. Darnes, lutaram muito para conseguir plantar, ga\u00fachos, catarinenses, paranaenses, e baianos que inicialmente estavam atr\u00e1s do garimpo. Foi muito dif\u00edcil conseguirem financiamento, pois nem membros do governo, inclusive do Banco do Brasil, acreditavam na viabilidade de plantio no cerrado.<\/p>\n<p>O Prodecer, Banco Nacional de Cr\u00e9dito Cooperativo, incentivava um programa de desenvolvimento do Cerrado na d\u00e9cada de 80. Tamb\u00e9m, atrav\u00e9s do Polonoroeste, o governo federal pretendia concentrar pessoas ao longo das BR\u2019s.<br \/>\nOs colonos eram ga\u00fachos (50% da popula\u00e7\u00e3o em 1994), catarinenses, paranaenses, goianos e paulistas, na maioria, filhos de imigrantes, e os catarinenses, filhos de ga\u00fachos, chamados de \u201cga\u00fachos-cansados\u201d. Os mato-grossenses, at\u00e9 meados da d\u00e9cada de 80, tinham o garimpo como principal atividade; com a escassez dos diamantes, foram trabalhar como bra\u00e7ais na lavoura e constru\u00e7\u00e3o civil, aqueles que um dia haviam possu\u00eddo muito dinheiro.<br \/>\nCome\u00e7aram plantando arroz em 1973. Fiorindo Gasparotto, catarinense, j\u00e1 o plantava um ano antes. O grupo de Cerutti veio de Frederico Westphalen; segundo ele, \u201cum puxou o outro\u201d. N\u00e3o eram uma cooperativa: cada fam\u00edlia veio independente. Tamb\u00e9m vinham muitos ga\u00fachos de Cruz Alta e paranaenses, que chegam at\u00e9 hoje. Os propriet\u00e1rios trouxeram parentes para trabalhar nas lavouras, pois achavam o ritmo dos mato-grossenses muito lento.<br \/>\nSr. Cerutti diz que os primeiros migrantes foram muito bem recebidos em Poxor\u00e9u, que era a 5\u00aa regi\u00e3o eleitoral do estado, o que significa que \u00e9 um munic\u00edpio bastante antigo. A sua popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o se sentiu amea\u00e7ada pelos chegantes. Ao contr\u00e1rio, perceberam que os sulistas vinham para investir. Cerutti n\u00e3o concorda que os que vieram do sul n\u00e3o tinham estrutura. Diz que alguns arriscavam, e a maioria destes foi embora, porque n\u00e3o veio para \u201cencarar o Mato Grosso de fato\u201d; mas a maioria j\u00e1 tinha fazendas grandes no Sul. Os que n\u00e3o foram bem sucedidos foram para o Piau\u00ed e Tocantins. Cerutti encontrou ga\u00fachos em todas as regi\u00f5es do Amazonas, Par\u00e1 e Rond\u00f4nia. Diz que quem tem uma vida bem estabelecida no norte, n\u00e3o tem planos de voltar. No in\u00edcio, no per\u00edodo das festas, debandavam para o Sul. Atualmente, os parentes que ainda vivem no Sul v\u00eam passar as festas no norte, pois a maior parte da fam\u00edlia j\u00e1 se mudou para l\u00e1.<br \/>\nCerutti tamb\u00e9m afirma que a maioria dos migrantes n\u00e3o mexia com agricultura no sul (o que \u00e9 contestado pelos outros entrevistados), o que significa que a sa\u00edda do sul n\u00e3o trouxe danos para a economia sulista. Segundo ele, a principal causa da migra\u00e7\u00e3o, era o tamanho das fam\u00edlias, que se dividiam.<br \/>\nPor medo, que seus familiares incutiam, Sr. Darnes conta que na primeira vez que foi ao norte, levou carabina, dois estepes, um gal\u00e3o de gasolina; mas a regi\u00e3o revelou-se lhe uma maravilha: diz que nunca passou por aperto.<br \/>\nQuando chegou, Cerutti comprou uma fazenda de 2000 hectares na divisa de Primavera com Paranatinga. Em 1973, ocorreu uma enchente muito grande, e n\u00e3o se podia passar pelo Rio das Mortes. Ent\u00e3o, Sr. Darnes mandou trazer muitas coisas para come\u00e7ar a construir uma sede. Fez um reconhecimento de dez dias, e gostou particularmente do lugar onde hoje vive, munic\u00edpio de Primavera do Leste, e resolveu investir. Abandonou a fazenda. Encontrou parte dos propriet\u00e1rios desta regi\u00e3o em Poxor\u00e9u; o outro, Abino Pandolfo, era do Sul; havia comprado a terra na planta, sem nunca a ter conhecido. Esta pr\u00e1tica era corriqueira: o pr\u00f3prio governo federal vendia \u00e0 partir de imagens a\u00e9reas. Sr. Darnes encontrou amigos de Frederico Westphalen em Cuiab\u00e1, e sugeriu que fossem conhecer aquele local, ent\u00e3o chamado de \u201cEsquina Boa Vista das Placas\u201d. Estes amigos tamb\u00e9m gostaram e compraram terras. Um dos compradores era Antonio Russi, ent\u00e3o deputado estadual do Paran\u00e1.<br \/>\nAs primeiras casas eram de pau-a-pique, adobe e madeira. O primeiro loteamento: <em>Cidade Primavera<\/em>, foi feito por Edgar Cosentino, paulista de Piracicaba. Os sulistas cobravam as mesmas benfeitorias que tinham em suas terras natais, e ajudavam a construir, por esse motivo, os padr\u00f5es das habita\u00e7\u00f5es ficaram muito pr\u00f3ximos do sul: no in\u00edcio, casas de madeira, sempre com varanda para a hora do chimarr\u00e3o.<br \/>\nSr. Cerutti foi o primeiro prefeito do munic\u00edpio de Primavera do Leste. No sul nunca havia exercido cargo pol\u00edtico, s\u00f3 havia ajudado um candidato: tinha uma empresa grande de cargas, com filial em S\u00e3o Paulo. Ele lembra que naquela \u00e9poca ningu\u00e9m queria ser funcion\u00e1rio p\u00fablico. Exemplifica: \u201co atual secret\u00e1rio executivo do prefeito tinha tr\u00eas fun\u00e7\u00f5es na prefeitura\u201d. A primeira a\u00e7\u00e3o do prefeito foi comprar uma ind\u00fastria de manilhas para bueiros e um trator de esteira, uma carregadeira e caminh\u00f5es de ca\u00e7amba, para trabalhos no interior, pois at\u00e9 ent\u00e3o o governo n\u00e3o tinha conseguido nem consertar uma ponte, apesar da agricultura andar muito bem. Cerutti comprou um caminh\u00e3o de lixo, mas n\u00e3o havia lixeiro dispon\u00edvel: todos estavam pensando mais alto. Ningu\u00e9m se mudara com tanto esfor\u00e7o para o norte para ser lixeiro, em vez de propriet\u00e1rio, conta.<br \/>\nAntes da emancipa\u00e7\u00e3o da cidade, s\u00f3 havia uma escola em Poxor\u00e9u, e uma estadual em Primavera, que por\u00e9m eram muito prec\u00e1rias. A primeira prefeitura construiu 12 escolas no interior e formou professoras. O munic\u00edpio passou a ter biblioteca, pol\u00edcia militar, telefone e po\u00e7os artesianos funcionando.<br \/>\nOs loteamentos j\u00e1 estavam demarcados antes da emancipa\u00e7\u00e3o. N\u00e3o havia coleta de lixo, jogava-se na rua.<\/p>\n<p>Sr. Cerutti considera que conseguiu muita ajuda do governo estadual porque apresentava projetos para o munic\u00edpio, em vez de pedir destitui\u00e7\u00e3o de cargos, como era de praxe nos outros muinc\u00edpios.<br \/>\nPrimavera do Leste foi emancipada em 13 de maio de 1986. O processo foi presidido por Darnes Cerutti, por aclama\u00e7\u00e3o de 200 pessoas; passaram por forte inspe\u00e7\u00e3o do IBGE (fiscaliza\u00e7\u00e3o de divisas, n\u00famero de leitos em hospitais, popula\u00e7\u00e3o, produ\u00e7\u00e3o), que em seguida emancipou v\u00e1rias cidades formadas s\u00f3 por uma rua, que n\u00e3o atendiam \u00e0s exig\u00eancias deste \u00f3rg\u00e3o. Isto ocorreu porque no dia seguinte \u00e0 emancipa\u00e7\u00e3o de Primavera, foi promulgada a lei de que as emancipa\u00e7\u00f5es seriam feitas pela Assembl\u00e9ia Legislativa, ent\u00e3o as pequenas vilas tamb\u00e9m foram emancipadas. Esse fato nos deixa claro, que a emancipa\u00e7\u00e3o das cidades era feita em levas regionais.<br \/>\nSr. Darnes diz que o governo n\u00e3o tinha inten\u00e7\u00e3o de emancipar estas cidades; Eram 22 vilas pedindo emancipa\u00e7\u00e3o. Primavera do Leste e Sorriso \u201catropelaram o processo\u201d diz o prefeito. Era requisito que houvesse pelo menos 7.600 habitantes; nenhuma das vilas tinha, e mesmo assim conseguiram.<br \/>\nSr. Cerutti diz que o INCRA nunca teve atua\u00e7\u00e3o em Primavera, pois a cidade n\u00e3o fazia parte de projeto do governo de abertura de fronteiras agr\u00edcolas e reforma agr\u00e1ria.<br \/>\nEm 1996, era a 5\u00aa economia, e a maior produtora de gr\u00e3os do estado. Em 1997, a popula\u00e7\u00e3o era de 20.996 habitantes, em 2002, j\u00e1 havia saltado para 50.000 habitantes.<a href=\"http:\/\/www.klepsidra.net\/klepsidra25\/rs-mt.htm#_ftn67\" name=\"_ftnref67\">[63]<\/a>&nbsp; A cidade cresce economicamente, 17% ao ano, e 100% em popula\u00e7\u00e3o. Hoje, 50% das ruas s\u00e3o asfaltadas. H\u00e1 abastecimento de \u00e1gua em 43% das casas. Este dado \u00e9 bem visto por uns e mal visto por outros, que n\u00e3o admitem que em uma cidade de qualidade de vida t\u00e3o boa, n\u00e3o haja abastecimento \u00e0 todos. Diz-se que s\u00f3 n\u00e3o se abastece a quem n\u00e3o interessa, o que indica que h\u00e1 um grupo proporcionalmente grande de exclu\u00eddos do interesse dos agro-industriais e do governo.<br \/>\nAtualmente, o munic\u00edpio tem uma cooperativa de cr\u00e9dito, 3 hospitais particulares, 5 postos de sa\u00fade na cidade, e dois no campo e um pronto socorro. H\u00e1 19 escolas e v\u00e1rias quadras esportivas. H\u00e1 uma emissora de televis\u00e3o.<br \/>\nSua posi\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica possibilita que seja um entreposto comercial e de abastecimento.<br \/>\nA terra do cerrado n\u00e3o era f\u00e9rtil. As comunica\u00e7\u00f5es oficiais sobre a cidade dizem que \u00e9 f\u00e9rtil, at\u00e9 hoje, para continuar atraindo produtores e investidores. O secret\u00e1rio da agricultura de Primavera, Luiz Nery, no entanto \u00e9 veemente ao dizer que a terra n\u00e3o \u00e9 ideal para plantar, porque \u00e9 plana e arenosa, mas que conseguiram-se muito bons resultados \u00e0 partir de pesquisas, principalmente dos pr\u00f3prios agricultores, pois a Embrapa e a Empaer: Empresa Estadual de Pesquisa de Expans\u00e3o Rural, n\u00e3o tinham recursos suficientes, o que levou \u00e0 abertura de funda\u00e7\u00f5es especializadas em pesquisa. Justamente pelo fato da terra ser arenosa, era vendida a pre\u00e7os baix\u00edssimos, muitas vezes em troca de um carro velho, diz Nery.<br \/>\nOs ga\u00fachos introduziram a soja no norte do pa\u00eds porque as \u00e1reas no sul eram muito pequenas, em torno de 100 hectares. Nery diz que a maioria dos migrantes tinham tradi\u00e7\u00e3o agro-pecuarista.<br \/>\nAtrav\u00e9s das pesquisas das funda\u00e7\u00f5es privadas, foi introduzido, em 1994, o algod\u00e3o, que \u00e9 forte agregador de m\u00e3o-de-obra, mesmo que a colheita seja mecanizada. O algod\u00e3o veio preencher o per\u00edodo de ociosidade da terra, de abril a setembro. Assim alternam-se as culturas da soja, que cresce no per\u00edodo da chuva, e do algod\u00e3o, que cresce na seca. Dessa forma, os plantadores que voltavam para o sul e continuavam atividades de pouca lucratividade, ou mesmo sem lucratividade, mudaram com suas fam\u00edlias para o norte.<br \/>\nAs principais atividades agr\u00edcolas ali s\u00e3o: a soja, com colheita de 811.200 toneladas de gr\u00e3o em 2004; o milho, o arroz, e gado extensivo, com abate de 1 milh\u00e3o e 700 mil cabe\u00e7as no mesmo ano. Os novos projetos s\u00e3o de vinicultura e suinocultura. O primeiro objetivo da atual prefeitura \u00e9 a industrializa\u00e7\u00e3o total da agropecu\u00e1ria. A C\u00e2mara Municipal aprova incentivos fiscais a empresas agro-industriais e servi\u00e7os que queiram se instalar.<br \/>\n\u00c9 renitente a queixa com rela\u00e7\u00e3o ao escoamento das safras, que concentra-se na m\u00e3o de quatro empresas, das quais tr\u00eas s\u00e3o norte-americanas. Estas multi-nacionais tamb\u00e9m controlam a venda de insumos agr\u00edcolas, diz Luiz Nery. A frustra\u00e7\u00e3o \u00e9 ainda maior porque a \u00e1rea plantada no Mato Grosso \u00e9 proporcionalmente maior que de qualquer estado norte-americano.<br \/>\nAtualmente, as principais atividades da cidade s\u00e3o: servi\u00e7os automobil\u00edsticos, cal\u00e7ados e confec\u00e7\u00f5es, e venda de insumos agr\u00edcolas. A cidade \u00e9 planejada, com ruas bastante largas. As constru\u00e7\u00f5es, na maioria dos casos s\u00e3o feitas em lotes previamente demarcados.<br \/>\nA pra\u00e7a maior tem um grande espa\u00e7o de lazer, e nela fica a primeira igreja constru\u00edda, que \u00e9 cat\u00f3lica.<br \/>\nO Sr. Castelli, s\u00f3cio de Cerutti do posto <em>Barril<\/em>, chegou em Primavera em 1975, tamb\u00e9m vindo de frederico Westphalen, onde era motorista de caminh\u00e3o, quatro meses depois de Cerutti. Encontrou apenas o cerrado e uma pens\u00e3o velha, onde morava um senhor de horizontina. Quem tinha fazenda vivia l\u00e1.<br \/>\nAssim como Cerutti, Castelli tamb\u00e9m recebeu financiamento do Banco do Brasil, com 7 anos para pagar, com juros de 7% e 2 anos de car\u00eancia. Ele tamb\u00e9m afirma que foi dif\u00edcil, pois nem o banco acreditava no projeto. N\u00e3o havia nem crit\u00e9rio de financiamento, pois s\u00f3 havia 4 ou 5 lavoureiros. Sua primeira atividade foi o plantio de arroz. Em 1977 passou a plantar soja.<br \/>\nCom o tempo, comprou \u201co lado direito da BR 070\u201d: um terreno de 340 hectares.<br \/>\nO posto de gasolina foi aberto em 1976. No come\u00e7o da d\u00e9cada de 80, Sr. Castelli come\u00e7ou a investir em servi\u00e7os: abriu dois hot\u00e9is, e um restaurante. Castelli diz que a vida era boa no sul, mas que o seu amigo (Cerutti), o incentivou muito a vir. De fato tiveram muito trabalho, pois estavam come\u00e7ando do zero.<br \/>\nNa d\u00e9cada de 70, a rodovia era razo\u00e1vel, diz Castelli, mas com o transito pesado e as chuvas, o asfalto gastou e ondulou, deixando praticamente intrafeg\u00e1vel em v\u00e1rios trechos, principalmente na \u00e9poca da chuva, na d\u00e9cada de 80 e at\u00e9 hoje.<br \/>\nO Sr. Castelli acha que os ga\u00fachos eram mais unidos no in\u00edcio, provavelmente para juntarem for\u00e7as em caso de necessidade, e para manter a cultura, mas diz que hoje, permanecem mais em fam\u00edlia, pois os moradores j\u00e1 v\u00eam de todas as regi\u00f5es, o que dificulta um pouco a manuten\u00e7\u00e3o da identidade ga\u00facha. Considera que o relacionamento dos ga\u00fachos com os outros habitantes \u00e9 bom.<br \/>\nNem Cerutti, nem Castelli participam do Centro de Tradi\u00e7\u00f5es Ga\u00fachas, mas lhe s\u00e3o simp\u00e1ticos.<br \/>\nO Sr. Carlos Szadkoski, tamb\u00e9m de Frederico Westphalen, veio para Primavera do Leste em 16 de junho de 1980, com toda a fam\u00edlia. No Sul, tinha uma pequena propriedade onde plantava feij\u00e3o, fumo e milho. \u00c9 cunhado de Divino Castelli, e veio \u00e0 seu convite para trabalhar em sua fazenda. Diz que Castelli acolheu muitas outras pessoas. Sr. Carlos acha que o trabalho aqui era melhor porque j\u00e1 havia maquin\u00e1rio, enquanto no sul, s\u00f3 havia tra\u00e7\u00e3o animal ou manual. Ele considera que n\u00e3o teve problemas na instala\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o pensa em voltar a morar no Sul, principalmente por causa do clima no Rio Grande do Sul, que \u00e9 dif\u00edcil.<br \/>\nDe 1982 a 1984, foi ao centro de Primavera para trabalhar com constru\u00e7\u00e3o civil. Construiu a pr\u00f3pria casa, o Hotel Barril, de Castelli e \u00e0 partir de 1983, as instala\u00e7\u00f5es da igreja: casa paroquial, creche, sala de catequese, o que durou 6 anos. Nestes anos, s\u00f3 havia a igreja cat\u00f3lica. A luterana foi trazida pelos ga\u00fachos posteriormente.<br \/>\nSr. Carlos comprou, em 1980, uma franquia da empresa de \u00f4nibus Fredtur, que vinha do Sul ao Mato Grosso uma vez por m\u00eas, e depois quinzenalmente. Naquela \u00e9poca, lotavam-se \u00f4nibus para trazer sulistas que vinham diretamente comprar terras no Mato Grosso. Dentro do \u00f4nibus, \u201cera como uma fam\u00edlia, todos se conheciam, diz Sr. Carlos. Hoje a empresa chama-se Merlo Bus, com sede em Cruz Alta. V\u00eam \u00f4nibus 3 vezes por semana para Primavera. No fim do ano, tradicionalmente, chegam 3 \u00f4nibus por dia, em Primavera, para as festas. S\u00e3o 32 horas de viagem.<br \/>\nSr. Carlos tamb\u00e9m comprou uma ch\u00e1cara, e tem um loteamento, que comprou sem incentivo do governo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O Sr. Aracy Damo \u00e9 dono do restaurante da rodovi\u00e1ria. Descendente de italianos, era frentista em Frederico Westphalen, depois de ser agricultor. Em 1948, comprava a\u00e7\u00facar e laranja. Seus tios eram ricos, ent\u00e3o faziam neg\u00f3cios com S\u00e3o Paulo e Rio de Janeiro. Como n\u00e3o tinha t\u00e9cnica de plantio de frutas, foi trabalhar em um frigor\u00edfico. Foi para o norte pela primeira vez em 1971. Em 1975, Sr. Damo comprou uma fazenda em Gurupi, no atual Tocantis, ex-Goi\u00e1s. Ele permaneceu por dois anos na fazenda, e sua fam\u00edlia ficou no Sul. Foi expulso da terra porque sua escritura era falsa.<br \/>\nJ\u00e1 em 1980, comprou uma fazenda de 5000 hectares em Barreiras, na Bahia. Novamente, permaneceu por dois anos, e perdeu tudo, pois uma usina de a\u00e7\u00facar da regi\u00e3o se dizia dona da terra. Para comprar as fazendas, tinha vendido os caminh\u00f5es, ent\u00e3o quando voltou, teve que trabalhar como empregado.<br \/>\nEm 1984, foi para Primavera do Leste com a fam\u00edlia. Tinham cem cruzeiros. Construiu um barrac\u00e3o com lixo de serraria, onde morou por quatro anos. Usava emprestado o banheiro onde os saqueiros (transportadores) tomavam banho. N\u00e3o havia nada, nem lavoura, apenas o posto e a igreja.<br \/>\nEm abril de 1985, foi trabalhar no bar da rodovi\u00e1ria, constru\u00edda nesta \u00e9poca. Come\u00e7ou a juntar dinheiro e arrendar um espa\u00e7o. Com o fruto desse investimento, conseguiu abrir tr\u00eas churrascarias, e com a venda delas, comprou uma fazenda de soja, milho e pasto, com colheitadeira e oito tratores. Atualmente ele planeja construir uma hidrel\u00e9trica na fazenda, que render\u00e1&nbsp; R$500.000,00 por m\u00eas.<br \/>\nHoje ele acha que restaurante n\u00e3o vale a pena, pois exige muito trabalho, e gasta-se muito. Esta atividade foi freada no governo Collor, que afetou muito a economia. As empresas faliam e os caminh\u00f5es n\u00e3o vinham mais.<\/p>\n<p>O governo nunca deu dinheiro, diz Sr. Damo. Acha que o MST \u00e9 uma fantasia, que o povo precisa de outra instru\u00e7\u00e3o; que o governo n\u00e3o pode dar tudo, mas pode auxiliar.<br \/>\nSr. Damo acredita que seu sucesso se deu pela vontade de ganhar, e pela cren\u00e7a em Deus. N\u00e3o considera caracter\u00edstica dos ga\u00fachos querer vencer, mas que conseguem porque \u201cnasceram trabalhando\u201d. Ele n\u00e3o frequenta a institui\u00e7\u00e3o da Igreja, mas acredita fielmente em Deus, principalmente depois de ter sobrevivido \u00e0 quatro enfartes.<br \/>\nSr. Damo est\u00e1 convencido de que nordestinos n\u00e3o t\u00eam instru\u00e7\u00e3o por natureza, e que s\u00e3o bem diferentes dos sulistas. Que mesmo tendo chegado como propriet\u00e1rios, 30 ou 40 anos antes dos sulistas, permaneceram no ritmo dos goianos (mato-grossenses tamb\u00e9m s\u00e3o chamados de goianos, como generaliza\u00e7\u00e3o, apenas para distinguir dos sulistas) o que n\u00e3o os levou a construir nada.<br \/>\nDe 40 a 60 km de Primavera, h\u00e1 duas aldeias Xavante e uma Bororo, considerada por Cerutti bastante grandes, de 800 a 1000 hectares respectivamente. A frequ\u00eancia de \u00edndios na cidade \u00e9 muita. V\u00eam em 2 ou 3 caminh\u00f5es e fazem compras com o dinheiro que ganham do governo, segundo Cerutti. Passam o dia todo e depois voltam para as aldeias. O relacionamento com os sulistas e goianos \u00e9 amig\u00e1vel, mas cada grupo permanece em seus limites, de uma certa maneira. Sr. Damo diz que se n\u00e3o se impuser limites, os \u00edndios invadem. Houve um conflito de terras entre xavantes e o vice-prefeito, Ernesto Ruaro, em sua fazenda. Sr. Cerutti diz que, atualmente, os Xavantes est\u00e3o pedindo uma demarca\u00e7\u00e3o de terras muito grande, terras estas que s\u00e3o produtivas, mas espera que o governo seja sens\u00edvel e n\u00e3o d\u00ea, porque se o \u00edndio vive de ca\u00e7a, n\u00e3o encontrar\u00e1 mais nada, j\u00e1 que a terra est\u00e1 toda plantada.<br \/>\nMarcos Antonio Teixeira de Vargas, de Tup\u00e3ciret\u00e3 (RS), onde era&nbsp; funcion\u00e1rio do Banrisul, veio em maio de 1982 procurando melhores&nbsp; op\u00e7\u00f5es. Seu sogro era agricultor,&nbsp; e convidou-o a ir. No inicio foi muito dif\u00edcil, conta Marcos. Foram 3 dias de viagem, n\u00e3o tinha \u00e1gua, luz, nem telefone; havia 16 casas. Tudo o que precisavam, deviam procurar fora.<br \/>\nMarcos veio com toda a fam\u00edlia. Os cunhados, o sogro e a sogra j\u00e1 haviam migrado. Um puxou o outro, diz. Todos acreditavam que ia dar certo, porque \u201cga\u00facho tem esp\u00edrito aventureiro.\u201d Mas n\u00e3o achavam que ia ficar como ficou hoje. Na sua regi\u00e3o no Sul, a principal atividade era a pecu\u00e1ria. Sua fam\u00edlia n\u00e3o tinha muitas perspectivas. S\u00e3o 8 irm\u00e3os; esta \u00e9 outra raz\u00e3o pela qual optou tentar a vida em Primavera do Leste. Seu sogro, que tamb\u00e9m tem 6 irm\u00e3os, e dos quais, atualmente s\u00f3 um vive no Rio Grande do Sul, veio em 1982. Em meados da d\u00e9cada de 1970, j\u00e1 tinha uma propriedade no Mato Grosso do Sul. Em 1979 comprou uma propriedade na regi\u00e3o. Viu uma placa anunciando a futura cidade de Primavera, em 1980, e comprou a propriedade onde vive e trabalha a fam\u00edlia toda no momento, que hoje est\u00e1 na cidade. Um irm\u00e3o voltou por motivo particular. Marcos conta que algumas fam\u00edlias vieram e voltaram porque n\u00e3o se adaptaram; ele conhece uma fam\u00edlia que veio em 1985, e voltou para o Sul, e agora ele os reencontrou em Primavera.<br \/>\nMarcos acredita em duas causas de migra\u00e7\u00e3o: \u201chavia quem tinha dinheiro e n\u00e3o tinha onde investir, porque os espa\u00e7os estavam ocupados e acharam que se sa\u00edssem, teriam condi\u00e7\u00f5es. Outros fugiram de d\u00edvidas, de problemas, por n\u00e3o ter op\u00e7\u00e3o.\u201d<br \/>\nN\u00e3o tiveram apoio do governo. No mandato do governador ga\u00facho Blairo Maggi, est\u00e1 havendo uma pol\u00edtica credit\u00edcia.<br \/>\nH\u00e1 muita discrimina\u00e7\u00e3o contra o ga\u00facho na opini\u00e3o de Marcos. O modo de lidar \u00e9 pejorativo, \u201cporque n\u00f3s tomamos o espa\u00e7o deles. Teria o cerrado h\u00e1 20 anos atr\u00e1s, n\u00e3o teria pecu\u00e1ria, como regi\u00f5es do Mato Grosso que est\u00e3o engatinhando.\u201d H\u00e1 uma tens\u00e3o entre matogrossenses e ga\u00fachos, mas nada muito s\u00e9rio. A sua agricultura era de subsist\u00eancia: \u201cmandioca, arrozinho manual, gado, s\u00f3 o quanto o animal tinha resist\u00eancia. O Mato Grosso come\u00e7ou mesmo h\u00e1 20 anos.\u201d<br \/>\nExistem problemas com os \u00edndios, que n\u00e3o aceitam a coloniza\u00e7\u00e3o, \u201cmas n\u00e3o trabalham, n\u00e3o fazem nada.\u201d Marcos diz que o Governo Federal d\u00e1 muito apoio: semente, adubo, maquin\u00e1rio, que n\u00e3o usam, e vendem. \u00c9 uma quantidade de terra inaproveit\u00e1vel, segundo Marcos. Usam tudo o que o homem branco usa, bebida alcoolica, etc. N\u00e3o reivindicam terras, mas invadem propriedade, p\u00f5em fogo, matam vaca.<br \/>\nCom rela\u00e7\u00e3o ao MST n\u00e3o h\u00e1 esse problema, apenas pr\u00f3ximo de Rondon\u00f3polis, porque a regi\u00e3o \u00e9 de pecu\u00e1ria, ent\u00e3o aparentemente n\u00e3o se explora muito a terra. Marcos acredita que o MST seja um problema para o pa\u00eds, porque 99% n\u00e3o \u00e9 de agricultores. \u201cO Governo, d\u00e1 cesta b\u00e1sica, e v\u00e3o de acampamento em acampamento.\u201d<br \/>\n\u201cO tradicionalismo est\u00e1 no sangue. O Rio Grande do Sul tem uma historia, mais marcante, que \u00e9 a Revolu\u00e7\u00e3o Farroupilha, que todo mundo conhece, uns mais, outros menos: ga\u00facho \u00e9 desbravador, sempre lutou pela terra, por melhores condi\u00e7\u00f5es de trabalho no campo. Hoje continuamos cultuando as tradi\u00e7\u00f5es, com fandangos e rodeios.\u201d Como sua regi\u00e3o era mais de pecu\u00e1ria, sentem necessidade de difundir esta cultura. Em 1983, fundou um CTG com outras pessoas.&nbsp; Toda cidade come\u00e7ou a construir e fazer rodeio na mesma \u00e9poca. Ent\u00e3o foi criado o MTG: Movimento Tradicionalista Ga\u00facho,&nbsp; no Mato Grosso, que \u00e9 o \u00f3rg\u00e3o que administra os CTG\u2019s. Ningu\u00e9m migrou em fun\u00e7\u00e3o disso, mas hoje chegam a trazer instrutores de dan\u00e7a. O MTG \u00e9 dividido em 6 regi\u00f5es. Primavera do Leste, Paranatira, Campo Verde, Jaciara, Rondon\u00f3polis, Itiquira, Alto Gar\u00e7as Tianguiratinga fazem parte da segunda regi\u00e3o. Existem regulamentos, e cada estado tem um MTG. S\u00e3o filiados \u00e0 CBTG: Confedera\u00e7\u00e3o Brasileira de Tradi\u00e7\u00e3o Ga\u00facha, que atualmente fica em Porto Alegre, porque o presidente hoje \u00e9 de l\u00e1.O crit\u00e9rio de escolha para a presid\u00eancia \u00e9 a elei\u00e7\u00e3o. Todo ano h\u00e1 conven\u00e7\u00f5es e congressos para eleger o presidente. Na parte de rodeio todos os anos h\u00e1 eventos de n\u00edvel nacional.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>N\u00e3o se pode deixar de mencionar uma comunidade de paranaenses de origem russa, que fica \u00e0 30 km de Primavera. Eles trabalham na lavoura e s\u00e3o auto-suficientes. Mant\u00e9m a tradi\u00e7\u00e3o, inclusive no modo de vestir.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>SINOP<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Marcelino Marquem, de Frederico Westfalen, no final da d\u00e9cada de 60, vendeu 20 hectares no Sul, e comprou 300 hectares em Cl\u00e1udia, cidade madeireira da Gleba Celeste. Com a ajuda da mulher, Sirlei, derrubou 30 hectares de mata com o machado, e fez uma ro\u00e7a de mandioca. Ficaram isolados na mata por um ano. Sirlei morreu de t\u00e9tano, por falta de assist\u00eancia m\u00e9dica. Continuou e casou-se com Anilda, de Soledade (RS). Viveram isolados na selva por seis anos; s\u00f3 plantavam para comer, porque n\u00e3o havia compradores. Anilda morreu de hepatite. Merquem se deu conta de que era imposs\u00edvel plantar na selva. Vendeu tudo e foi trabalhar como pe\u00e3o nas fazendas da regi\u00e3o; tamb\u00e9m foi garimpeiro, e conseguiu juntar um pouco de dinheiro. Tornou-se madeireiro e hoje \u00e9 um pequeno empres\u00e1rio. Comprou v\u00e1rios apartamentos em Sorriso, \u00e0 80 Km de Cla\u00fadia, o que sustenta seus 14 filhos.<a href=\"http:\/\/www.klepsidra.net\/klepsidra25\/rs-mt.htm#_ftn68\" name=\"_ftnref68\">*<\/a><br \/>\nSr. Dirceu, nascido em Erechim (RS) e sua esposa, de Santa Rosa (RS), vieram para Sinop em 12 de julho de 1973. No Sul, trabalhava na ro\u00e7a. Naquela \u00e9poca, Sinop tinha sete casas. Antes de mudar-se, morava no Paran\u00e1, onde era marceneiro, havia 13 anos, ap\u00f3s ter passado tamb\u00e9m dois anos em Santa Catarina, para onde foi com 16 anos. Ficou sabendo de Sinop pela propaganda no r\u00e1dio. Os corretores da colonizadora iam de cidade em cidade para vender lotes, conta. Sr. Dirceu veio atrav\u00e9s do Grupo Sinop. Os primeiros que chegavam ganhavam terreno, porque precisavam de gente para cortar madeira e limpar o terreno. Mas quando o Sr. Dirceu chegou, j\u00e1 teve que pagar. O governo dava incentivo \u00e0 colonizadora, n\u00e3o aos migrantes.<\/p>\n<p>Morava no centro, com a fam\u00edlia, \u201cmas era s\u00f3 mato: morava em baixo de um barraco com lona pl\u00e1stica\u201d. O chuveiro era um balde d\u2019\u00e1gua na \u00e1rvore. A \u00e1gua era de po\u00e7o. A enregia el\u00e9trica s\u00f3 veio h\u00e1 aproximadamente 10 anos atr\u00e1s: era o \u201cLinh\u00e3o\u201d de Cuiab\u00e1.<br \/>\nEm 1974, trabalhou na constru\u00e7\u00e3o de hot\u00e9is, que foi sua atividade por 10 anos. Ao todo, construiu 59 casas. Posteriormente, abriu uma loja para serraria e uma oficina, mas o neg\u00f3cio faliu, e o Sr. Dirceu passou a ser funcion\u00e1rio p\u00fablico, h\u00e1 10 anos.<br \/>\nA BR 163, em 1973, de Cuiab\u00e1 a Sinop estava em boas condi\u00e7\u00f5es, conta Sr. Dirceu, mas \u00e0 partir de 1976, piorou muito porque chovia muito, o cascalho sa\u00eda, e n\u00e3o havia reposi\u00e7\u00e3o.<br \/>\nSua fam\u00edlia levou 8 dias para chegar do Paran\u00e1 \u00e0 Sinop. Quando vieram, diz, eram 2 fam\u00edlias. No mesmo \u00f4nibus, voltaram 8 de Sinop para o Sul. Em outra leva de transporte, voltaram mais 7 fam\u00edlias para o Sul, pois n\u00e3o crescia nada na terra.<br \/>\nSua fam\u00edlia voltava para o Paran\u00e1 quase todo ano, mas para o Rio Grande do Sul, n\u00e3o voltavam havia 23 anos. Sr. Dirceu conta que no Herval Grande (RS), tinha de tudo, quando sa\u00edram, \u201ce agora n\u00e3o tem nada\u201d. Explica que grandes fazendeiros est\u00e3o comprando as pequenas propriedades para plantar pasto. Seu irm\u00e3o ainda tem um avi\u00e1rio, mas o resto de sua terra est\u00e1 arrendado.<br \/>\nSr. Dirceu tem orgulho de seu filho fazer faculdade. \u201cDe noite no barrac\u00e3o via a on\u00e7a passar, morria de medo, mas n\u00e3o podia voltar. Hoje de jeito nenhum a gente anda pra tr\u00e1s\u201d.<br \/>\nA irm\u00e3 mais velha de Sr. Dirceu vive no Par\u00e1: comprou um lote de floresta em Progresso, h\u00e1 menos de um ano.<br \/>\nO Sr. Machado, que chegou em 1975, trazia frutas e verduras do estado de S\u00e3o Paulo, e o faz at\u00e9 hoje. Vendia, de in\u00edcio em mercearias, depois abriu um pequeno supermercado, e hoje tem 4 supermercados em Sinop e um em Col\u00edder, um munic\u00edpio pr\u00f3ximo, tamb\u00e9m loteado pela colonizadora de mesmo nome.<br \/>\nDna. Clara, saiu de Cerro Alto no Rio Grande do Sul com 11 anos e foi para Medianeira, no Paran\u00e1. Quando casou-se, foi para Sinop. Chegou em 1976 de \u201cmala e cuia\u201d. Ela e o marido trabalharam num \u201cpica-pauzinho\u201d, pequena madeireira. Viviam no meio de um mato, que hoje \u00e9 o centro, conta. Depois tiveram a\u00e7ougue, fazenda, e por fim, investiram em f\u00e1brica de ra\u00e7\u00e3o, at\u00e9 hoje, al\u00e9m de uma loja de produtos agro-pecu\u00e1rios, a Campo e Lavoura.<br \/>\nDna Clara e o marido, nunca tiveram terras, vieram sem nada. No s\u00edtio da fam\u00edlia, criavam porco e plantavam um pouco.<br \/>\nNo caminho para o Mato Grosso, fizeram v\u00e1rias travessias de barco, porque os rios alagavam os caminhos. As viagens costumavam durar 5 dias em \u00e9poca de chuva.<br \/>\nO casal fundou o Centro de Tradi\u00e7\u00e3o Ga\u00facha-Quer\u00eancia da Amizade, de Sinop, junto com outros dois casais. Conta que no Sul n\u00e3o eram muito participativos no Movimento Tradicionalista Ga\u00facho, mas em Sinop, sentiam falta de um espa\u00e7o que unisse os ga\u00fachos.<br \/>\nO Sr. Nilson e e a Sra. Ilma Kempf, chegaram de Tenente Portela em 1985, com toda a fam\u00edlia. No Sul, plantava soja, trigo e milho em 58 hectares de propriedade. Em Sinop, come\u00e7ou a plantar soja, arroz e milho, em 968 hectares, que comprou com a venda do terreno no Sul. Contam que a cidade era s\u00f3 barro e poeira: \u201cde dia faltava \u00e1gua, de noite faltava luz\u201d. Em 1986, j\u00e1 tinha asfalto de Cuiab\u00e1 at\u00e9 Ita\u00faba, ao norte de Sinop. Quando os Kempf chegaram, j\u00e1 havia 800 madeireiras em Sinop.&nbsp; Havia tamb\u00e9m 2 ou 3 escolas at\u00e9 o gin\u00e1sio, e dois hospitais. A eletricidade era gerada a motor. O esgoto, at\u00e9 hoje \u00e9 fossa, mesmo em um dos melhores bairros da cidade, onde vivem.<br \/>\nContam que em Tenente Portela, a vida era boa, mas que a terra era pouca, e a fam\u00edlia n\u00e3o tinha espa\u00e7o para expandir.<br \/>\nNo come\u00e7o, os Kempf n\u00e3o receberam financiamento, porque os \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos n\u00e3o acreditavam na agricultura em Sinop. As principais atividades eram madeira e pecu\u00e1ria. Pensaram em mudar para Canarana, mas tiveram receio, pois l\u00e1 vivia gente que n\u00e3o tinha terra e vivia numa \u00e1rea ind\u00edgena, o Toldo do Guarita.<br \/>\nAs primeiras not\u00edcias sobre Sinop que tiveram, foram atrav\u00e9s de jovens que foram fazer um retiro em Santa Catarina. Um jovem disse ao seu sobrinho e seu filho, que a terra era barata e boa. A fam\u00edlia foi \u00e0 Sinop, que lhe agradou. A propriedade do sobrinho foi posta \u00e0 venda, e o filho tamb\u00e9m foi. Sr. Nilson pensou: \u201cse \u00e9 bom para voc\u00eas, \u00e9 bom para n\u00f3s tamb\u00e9m\u201d.<br \/>\nEntre 1988 e 89, houve uma forte crise; o filho quis vender a terra em Sinop e voltar para o Sul; seu pai disse: \u201calem\u00e3o \u00e9 teimoso, vamos ver no que vai dar!\u201d<br \/>\nEntre 1986 e 89, o pre\u00e7o da terra no Mato Grosso caiu pela metade, e no sul continuava aumentando. Atualmente, os terrenos do norte valem mais que os do sul.<br \/>\nOs Kempf consideram que o relacionamento com os n\u00e3o sulistas \u00e9 bom, que n\u00e3o existe bairrismo. De fato, como Sinop cresceu muito, e \u00e9 uma cidade mais antiga que as outras de coloniza\u00e7\u00e3o sulista, portanto, as tradi\u00e7\u00f5es est\u00e3o mais dilu\u00eddas, pelo grande aporte de migrantes de todas as regi\u00f5es.<br \/>\nA sa\u00edda do Rio Grande do Sul n\u00e3o afetou a economia do estado, at\u00e9 melhorou, segundo Sr. Kempf, pois aliviou a tens\u00e3o no campo, j\u00e1 que muitos migraram. Muitos n\u00e3o aguentaram e voltaram. Havia a mal\u00e1ria, que matou muitos ga\u00fachos, mesmo que houvesse uma central do meio ambiente que tratava com medicamento.<\/p>\n<p>O sonho do Mato Grosso \u00e9 terminar de asfaltar a Cuiab\u00e1-Santar\u00e9m. Entre 1983 e 84, o governo asfaltou 600 Km, e at\u00e9 hoje a obra n\u00e3o foi terminada. Kempf observa: \u201cA dist\u00e2ncia at\u00e9 o porto de Paranagu\u00e1, no Paran\u00e1 (atual escoadouro de safra) \u00e9 de aproximadamente 1800 Km, at\u00e9 Santar\u00e9m, s\u00e3o aproximadamente 1000 Km. A Cargil est\u00e1 construindo e presta servi\u00e7o l\u00e1.\u201d A estrada at\u00e9 Santar\u00e9m n\u00e3o est\u00e1 asfaltada, e os moradores que vivem de agricultura no centro-oeste e norte, reivindicam o asfaltamento, para que o escoamento seja feito em Santar\u00e9m, de forma mais r\u00e1pida e barata.<br \/>\nOs Kempf n\u00e3o pensam em voltar para o Sul, mas dizem que os jovens portelenses est\u00e3o todos sa\u00edndo, ou para Porto Alegre, ou para o Paran\u00e1, Santa Catarina; ou para colher fruta fora da cidade, onde est\u00e3o permanecendo s\u00f3 os idosos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>LUCAS DO RIO VERDE<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O Sr. Antonio Fraga Lira, de Lagoa Vermelha (RS),&nbsp; foi um dos grandes defensores da cria\u00e7\u00e3o do distrito de Lucas do Rio Verde.<br \/>\nFoi para a regi\u00e3o de Lucas do Rio Verde em 1976, quando era munic\u00edpio de Diamantino. Quando chegou, com seus dois irm\u00e3os, tinha 18 anos e era solteiro. Seus pais ficaram no Sul. Queriam comprar terras no Mato Grosso, inicialmente em Jaciara, mas o corretor trouxe seu pai para Lucas, e ele se entusiasmou.<br \/>\nNo Sul, eram pequenos agricultores, tinham uma lavoura de subsist\u00eancia, de milho e soja, em 120 hectares a serem divididos entre 6 irm\u00e3os; a tra\u00e7\u00e3o n\u00e3o era mec\u00e2nica. Plantaram arroz (monocultura mecanizada) no in\u00edcio, at\u00e9 1981, quando iniciaram com a soja. Fraga Lira conta que n\u00e3o havia ningu\u00e9m morando al\u00ed: eram os primeiros.<br \/>\nA vida era dif\u00edcil, porque Diamantino ficava \u00e0 220 Km de distancia de Lucas do Rio Verde. O posto de gasolina mais pr\u00f3ximo ficava em Mutum, que na \u00e9poca era a fazenda Mutum.<br \/>\nEm 1981, quando come\u00e7ou o assentamento do INCRA, sua terra foi desapropriada, e Lira e sua fam\u00edlia receberam o <em>status<\/em> de posseiros; mesmo que reconhecidos pelo INCRA como propriet\u00e1rios, perderam uma parte da fazenda. Isto s\u00f3 ocorreu porque j\u00e1 haviam aberto a mata, o que lhes dava direito \u00e0 uma parte da terra, que perderiam caso contr\u00e1rio: inicialmente tinha 3600 hectares, depois ficou com 2200. \u201cAfetou um bocado\u201d avalia Fraga Lira.<br \/>\nSua terra&nbsp; n\u00e3o era uma posse, diz. Foi paga ao propriet\u00e1rio, Cl\u00e1udio Leonardi, de Cuiab\u00e1, que nunca havia entrado na terra. Mesmo com escritura, o INCRA desapropriou e n\u00e3o ressarciu, conta.&nbsp; Sua fazenda estava pr\u00f3xima de uma grande \u00e1rea devoluta da Uni\u00e3o, ent\u00e3o, outras fazendas foram \u201cengolidas\u201d pelo projeto de assentamento.<br \/>\nA primeira missa cat\u00f3lica de Lucas do Rio Verde foi celebrada na fazenda dos Fraga Lira, a 35 Km de Lucas, em 1983.<br \/>\nFoi o primeiro vereador do munic\u00edpio, emancipado em 4 de julho de 1988.<br \/>\nO Sr. Fraga Lira n\u00e3o se queixa de nenhum conflito por terra. Hoje continua plantando soja, comprou outras propriedades, como no Par\u00e1, em Castelo de Sonho, cidade muito colonizada por ga\u00fachos, onde cria gado bovino.<br \/>\nSua fam\u00edlia manteve a tradi\u00e7\u00e3o ga\u00facha, mas n\u00e3o com muita assiduidade. Eles n\u00e3o pensam em voltar para o Sul.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O Sr. Ildo Romancini, criado na ro\u00e7a, morando com os pais, plantava trigo, cevada, milho e feij\u00e3o. Eram 9 irm\u00e3os para dividir 40 hectares. Fez parte do primeiro acampamento do Movimento Sem-Terra do Brasil, em 1981, na Encruzilhada Natalino, em Ronda Alta, onde viviam 650 fam\u00edlias de desapropriados de Passo Fundo, Sarand\u00ed e Ronda Alta, e tamb\u00e9m os \u201cafogados\u201d da hidrel\u00e9trica de Passo Real.<br \/>\nO Major Curi\u00f3 montou barracas do ex\u00e9rcito na Encruzilhada e abriu o projeto em Lucas do Rio Verde.<br \/>\nVieram em fam\u00edlia entre 1981 e 82, juntamente com outras 21 fam\u00edlias, assentadas em lotes de 200 hectares.<br \/>\nA viagem durou 2 dias e foi integralmente paga pelo INCRA. Inclusive seus pertences foram trazidos em caminh\u00f5es, tamb\u00e9m pagos, que no entanto demoraram 6 dias para chegar.<br \/>\nOs assentamentos iniciaram-se em 1980, e os \u00faltimos parceleiros foram para Lucas do Rio Verde em 31 de maio de 1982. A maioria dos sem-terra da Encruzilhada Natalino ficou no Rio Grande do Sul, onde nasceu Nova Ronda Alta, que recebeu 34 fam\u00edlias.<br \/>\nDas 213 fam\u00edlias de sem-terra que foram, hoje s\u00f3 restam 12. Muitas voltaram pelo abandono: n\u00e3o houve assist\u00eancia, conta Sr. Ildo. Seis de seus irm\u00e3os vieram; ele foi o primeiro, considerado louco.<br \/>\nO desenvolvimento de Lucas do Rio Verde se deu em grande parte por causa de onde estava instalado o 9\u00ba BEC, segundo diversos entrevistados.<br \/>\nO Banco do Brasil deu cr\u00e9dito para plantar arroz em 25 hectares, em 1982, mas aquela safra foi muito ruim e muitos n\u00e3o puderam pagar. Assim, o Banco abandonou os financiamentos. Hoje, o pre\u00e7o da saca de soja \u00e9 em m\u00e9dia US$ 9,00. O que em 1985 valia US$ 2000 em sacos de soja, hoje vale US$ 2.400.000.<br \/>\nO INCRA tinha um escrit\u00f3rio em Lucas do Rio Verde. \u00c9 voz corrente que o executor, o comandante Ferreira, mandou matar muitos caboclos posseiros. Uma parte dos terrenos, que estava em \u00e1rea do Estado, foi dada aos posseiros. Romancini afirma que n\u00e3o houve confronto com os \u00edndios.<br \/>\nCada fam\u00edlia recebia uma casa de 4 por 5 metros, no s\u00edtio. \u201cLote rural, ningu\u00e9m ganhou.\u201d Assist\u00eancia para produ\u00e7\u00e3o, n\u00e3o tinha. N\u00e3o dava para trabalhar manualmente, s\u00f3 catar ra\u00edz. Catei ra\u00edz, fiz po\u00e7o\u201d, conta Romancini. No primeiro ano de assentamento, n\u00e3o se falava em soja. Colheram a primeira safra de soja da regi\u00e3o em 1985.<br \/>\nO pr\u00f3prio Sr. Ildo comprou dois lotes dos parceleiros, porque estavam baratos, na \u00e9poca do arroz. Diz que havia gente que vendia lotes pelo pre\u00e7o da passagem de volta para o Rio Grande do Sul, e mais um pouco. Ele considera que a venda dos lotes deu mais estrutura. Que \u201cse freia em torno de uma classe de pouco poder aquisitivo, freia o progresso.\u201d<br \/>\nVendia-se a terra \u00e0 2000 ou 3000 reais. Mas o pr\u00f3prio Romancini, nunca vendeu, sempre agregou propriedades.<br \/>\nA Cooperlucas, uma cooperativa, formada por um grupo de paulistas, loteou Itambiquara, regi\u00e3o muito pr\u00f3xima \u00e0 que viria a se chamar Lucas do Rio Verde, em 1982. Para este programa, vinham colonizadores com mais recursos. Os parceleiros recebiam 50 hectares de financiamento, enquanto os do INCRA recebiam 25 hectares. Mesmo assim, das 50 fam\u00edlias que foram para l\u00e1, apenas 4 permaneceram. Em \u00e9poca de crise, no fim dos anos 80, muitos voltaram: a terra ficou 5 anos parada, observa Romancini.<br \/>\nSr. Ildo conta que o INCRA, nos primeiros quatro meses, dava cesta b\u00e1sica, at\u00e9 o come\u00e7o do financiamento. Participou por um ano e meio da estrutura\u00e7\u00e3o do munic\u00edpio. Segundo Romancini: \u201cfez o trabalho dele\u201d.<br \/>\n\u201cNo primeiro ano, n\u00e3o havia nada. Depois, o munic\u00edpio de Diamantino fez escola. Telefone, s\u00f3 havia em Diamantino, e levava-se um dia apenas para voltar\u201d, lembra Sr. Ildo.<br \/>\nA BR 163 foi asfaltada em 1985. Os buracos que se abriram pela carga pesada e excesso de chuvas eram chamados de \u201cCabe\u00e7a do Figueiredo\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Dna. Jessi e Sr. Bromildo Lawisch, de Santo \u00c2ngelo (RS), vieram pela primeira vez \u00e0 Lucas do Rio Verde em junho de 1984. Tomaram conhecimento da cidade atrav\u00e9s do filho, que estudava agronomia e os convidou a conhecer o Centro-Oeste. Ele se mudaria de qualquer jeito, ent\u00e3o os pais resolveram acompanhar.<br \/>\nEm 1984, compraram a terra e contrataram algu\u00e9m para ficar o ano todo. Sr. Bromildo vinha apenas na \u00e9poca do plantio e da colheita. Quando o filho se formou, se mudaram definitivamente para Lucas em 1988. \u201cPartimos da estaca zero\u201d, diz Dna. Jessi; a mudan\u00e7a foi aos poucos, n\u00e3o trouxeram tudo. Tamb\u00e9m ficaram com muitas coisas dos parceleiros de quem compraram a terra, como m\u00f3veis, animais e a casinha. Ampliaram a casa. Trouxeram maquin\u00e1rio. Conta que era muito sofrido porque n\u00e3o tinha nada.<br \/>\nOs Lawisch viram a cidade crescer do nada. Apenas havia a estrutura do INCRA: casas, posto de sa\u00fade, telefone \u2013\u201cs\u00f3 havia um, e tinha que se inscrever para falar; \u00e0s vezes se inscrevia de manh\u00e3, e s\u00f3 era atendido \u00e0 noite. Mas a estrutura do INCRA funcionava, era preciso, pois era a <u>\u00fanica<\/u> estrutura que havia. Tinham que trazer alimento e pessoal de l\u00e1 \u201cporque o pessoal daqui n\u00e3o queria trabalhar\u201d. Dna. Jessi considera o sulista muito distinto do nativo.<br \/>\nA cidade partiu de um assentamento feito pelo INCRA para parceleiros. Hoje, ainda h\u00e1 entre 9 e 11 fam\u00edlias deste grupo. Eles n\u00e3o queriam ficar porque a cidade nem existia. Quem vendeu seus lotes, entrou na fila para receber outros lotes, e alguns foram para Terranova, conta Dna. Jessi. Todos os lotes tinham 200 hectares, e custavam 20.000 cruzeiros. Cada lote rural comprado dava direito a um lote urbano. Sua fam\u00edlia comprou 6 lotes. Quando chegaram, exerceram a mesma atividade que no Sul, a agricultura de pequeno porte: plantavam trigo, soja, criavam gado leiteiro, e su\u00ednos, em duas propriedades de 113 e 61 hectares, das quais a maior ainda possuem. Tiveram que vender apenas algumas \u00e1reas para vir para o norte. No sul, sua situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica era regular; a lavoura era mecanizada. Vieram com o interesse de aumentar o patrim\u00f4nio.<br \/>\nO acesso era muito dif\u00edcil, conta: Apenas de Cuiab\u00e1 at\u00e9 Lucas, eram dois dias de viagem, porque n\u00e3o tinha asfalto. Tinham que pernoitar em Nobres. No total, de Santo Angelo at\u00e9 Lucas, levavam&nbsp; uma semana para chegar, em meados da d\u00e9cada de 80.<br \/>\nEm Lucas, cultivaram soja e arroz, dos quais o \u00faltimo n\u00e3o plantam mais. O governo orientava a plantar arroz em seguida da derrubada do cerrado.<br \/>\nNo primeiro ano, \u201cquebraram\u201d porque plantaram soja diretamente ap\u00f3s a derrubada, e a colheita foi muito fraca. Tiveram que vender quase metade da propriedade para saldar d\u00edvidas e continuar plantando.<br \/>\nIntroduziram, juntamente com o atual prefeito, a suinocultura e o gado leiteiro.<br \/>\nAtualmente, vivem na fazenda, cuja lavoura arrendaram, e que fica \u00e0 2,5 Km da cidade. Possuem um escrit\u00f3rio da fazenda grande, que fica \u00e0 70 Km da cidade, onde plantam soja, milho e algod\u00e3o.<br \/>\nUma ex-aluna de Dna. Jessi (professora e diretora na rede p\u00fablica), trabalhava no INCRA, e lhe contou que os parceleiros que haviam recebido terras, estavam vendendo-as, al\u00e9m de falar muito bem da cidade. Dna. Jessi afirma que a maioria dos que compraram parcelas em Lucas do Rio Verde era do Sul. As terras, no in\u00edcio, eram vendidas muitas vezes, em troca de um carro. J\u00e1 quando Dna. Jessi chegou, diz que pagou caro, e parcelado.<br \/>\nEm 1979, os terrenos n\u00e3o estavam loteados ainda.<br \/>\nSegundo Dna. Jessi, o INCRA ajudava os parceleiros: dava financiamento, calc\u00e1rio, instala\u00e7\u00e3o sanit\u00e1ria (casinha) com po\u00e7o, banheiro pr\u00e9-moldado, posto de sa\u00fade, mercado da COBAL, e talvez at\u00e9 uma quantia em dinheiro, porque o objetivo do governo era povoar a regi\u00e3o. J\u00e1 para os que compraram dos parceleiros, o governo n\u00e3o deu ajuda.<br \/>\nInicialmente, participaram do Centro de Tradi\u00e7\u00e3o Ga\u00facha: foram at\u00e9 padrinhos da pista de dan\u00e7a. (quando a participa\u00e7\u00e3o \u00e9 frequente, e fazem-se doa\u00e7\u00f5es, elegem-se os padrinhos das estruturas e das comemora\u00e7\u00f5es at\u00e9 com direito a inscri\u00e7\u00e3o do nome).<br \/>\nN\u00e3o pensam em viver no Sul, mas ainda mant\u00eam as propriedades, para passar f\u00e9rias.<br \/>\nAtualmente, em Lucas do Rio Verde, h\u00e1 dois projetos de habita\u00e7\u00e3o: da Caixa Econ\u00f4mica Federal e da Prefeitura, para o qual, alguns compradores pagam R$50,00. As casas s\u00e3o padronizadas, e os lotes t\u00eam espa\u00e7o para expandir a casa. Casas de madeira s\u00e3o proibidas. A prefeitura sugere um kit casa, um molde padr\u00e3o, constru\u00eddo pelos pr\u00f3prios moradores.<br \/>\nO PRODECER: Projeto de Desenvolvimento do Cerrado, \u00e9 um projeto de loteamento em parceria com o Jap\u00e3o, que tem 49% das a\u00e7\u00f5es. O projeto existe desde 1984. O primeiro, foi instalado em Minas Gerais, o segundo no Mato Grosso, quando a regi\u00e3o ainda era munic\u00edpio de Diamantino. Muitos parceleiros que venderam suas terras indevidamente, entraram no programa do PRODECER II. Os lotes eram de 400 hectares, \u201ctudo dado com muita estrutura\u201d, afirma Ildo Romancini. Para os japoneses e produtores \u00e9 interessante pois aqueles compram a soja diretamente do produtor, e estes n\u00e3o se preocupam com a log\u00edstica.<br \/>\nFrancisco Daghatti \u201centrou rezando baixinho no \u00f4nibus\u201d, em 1981. Ele era um dos acampados da Encruzilhada Natalino, estava acampado em barraca de lona havia 3 anos. Depois de viajar uma semana no \u00f4nibus, foi deixado em um acampamento do Ex\u00e9rcito, \u00e0 beira da Cuiab\u00e1-Santar\u00e9m, onde havia recebido 250 hectares. A maioria dos colonos deixados ali, desistiram, ou morreram de mal\u00e1ria. Ele permaneceu, e hoje \u00e9 propriet\u00e1rio de 1000 hectares de terra. Trabalhou como pe\u00e3o nas fazendas. Tamb\u00e9m trabalhou no garimpo de Troca-Tiro, na divisa do Mato Grosso com o Par\u00e1. Juntou dinheiro e contratou pe\u00f5es para garimpar em seu lugar. Com o lucro do garimpo, modernizou sua propriedade agr\u00edcola.*<br \/>\nDna. Neiva e Sr. Luis Carlos Tessele s\u00e3o de Santo Angelo (RS). Foram para Lucas em setembro de 1981, porque tinham pouca terra, e por curiosidade. A primeira leva dos parceleiros chegou no final de novembro, e a segunda em janeiro. Vieram 203 fam\u00edlias. Conheceram Lucas do Rio Verde atrav\u00e9s de um tio que mora em Cuiab\u00e1 h\u00e1 30 anos. Quando foram visit\u00e1-lo, em 1978, foram apresentados \u00e0 muita gente. Luis Carlos foi conhecer e gostou.<br \/>\nOs propriet\u00e1rios das terras de Lucas viviam em Cuiab\u00e1. A fam\u00edlia comprou terras de um posseiro.<br \/>\nEm 19 de agosto de 1981, foi aprovado o projeto oficial do INCRA para o assentamento. \u201cMontaram escrit\u00f3rio, topografia, e tr\u00eas casas de madeira em tr\u00eas meses, antes que chegassem os parceleiros.\u201d<br \/>\nA COBAL era, no in\u00edcio, um caminh\u00e3o. Em 1982, foi constru\u00eddo um pr\u00e9dio para instal\u00e1-la.<br \/>\nTamb\u00e9m foi constru\u00edda uma vila de funcion\u00e1rios do INCRA, com 11 casas. Instalaram o correio e pol\u00edcia militar.<br \/>\nDna. Neiva come\u00e7ou a trabalhar no INCRA em 1982. O executor decidia quem seria contratado com base em escolaridade e um teste em Cuiab\u00e1. Seu trabalho era direto: inscri\u00e7\u00e3o, distribui\u00e7\u00e3o de vales, encaminhamento (para agr\u00f4nomos, top\u00f3grafos, etc.); ela apresentava o mapa com os lotes, que cada um podia escolher. Uma parte deles, j\u00e1 era plantada com soja, por posseiros do Paran\u00e1, e a fam\u00edlia Dall\u2019Alba.<br \/>\nPlantava-se primeiro arroz, ap\u00f3s a limpeza do terreno, e depois soja, tudo com maquin\u00e1rio, por causa do tamanho da terra. Foram introduzidas as culturas do Rio Grande do Sul.<br \/>\nO INCRA fornecia <em>eternit<\/em>, madeira, prego, enxada, foice, semente de hortali\u00e7a, adubo, que muitos parceleiros vendiam. Limpava 25 hectares de cada lote (200 hectares). O INCRA&nbsp; tamb\u00e9m dava uma quantia em dinheiro para se manterem. Dna. Neiva n\u00e3o sabe se os parceleiros ressarciram o INCRA, mas sabe que em 1983, j\u00e1 come\u00e7aram a vender as parcelas, para voltar para o Rio Grande do Sul, porque tinham que pagar para obter o t\u00edtulo de posse, que posteriormente seria a escritura. Muitos venderam mesmo sem ter o t\u00edtulo, afirma Dna. Neiva, o que trouxe muitos desentendimentos. Havia muitos posseiros antes dos parceleiros, mas que praticamente n\u00e3o se encontravam por causa das longas dist\u00e2ncias entre os terrenos. Mas encontravam-se toda semana em festas. Houve muito conflito na distribui\u00e7\u00e3o das ch\u00e1caras da Cidade Nova, porque os posseiros diziam-se donos dos terrenos, e o INCRA tinha que assentar os parceleiros.<br \/>\nOs lotes eram divididos em setores, e o s\u00e3o at\u00e9 hoje. \u201cO INCRA trazia o pessoal de cada lote&#8230;matavam-se entre si, tomavam pinga (&#8230;) trocavam em bares o a\u00e7\u00facar e o caf\u00e9 que o INCRA deixava comprar com o dinheiro que dava.\u201d Duas fam\u00edlias, uma de Cuiab\u00e1 e outra do Esp\u00edrito Santo, queriam a mesma terra. Os Tessele conheceram seus pistoleiros.<br \/>\nDizem que o INCRA respeitava os posseiros e que dava uma porcentagem de terra a mais para quem desmatasse. Os terrenos dos fundos invadiam uma reserva ambiental; realmente os ga\u00fachos n\u00e3o respeitavam a delimita\u00e7\u00e3o da reserva. Mesmo que o SNI (Servi\u00e7o Nacional de Informa\u00e7\u00e3o) viesse vistoriar.<br \/>\nEra estabelecido um prazo de tr\u00eas meses para come\u00e7arem a constru\u00edr, e o m\u00ednimo de \u00e1rea constru\u00edda deveria ser de 48 m\u00b2.<br \/>\n\u201cQuando o INCRA entrou, veio escola, veio tudo\u201d, diz Dna. Neiva. Cada setor tinha sua escola seu posto de sa\u00fade, m\u00e9dico. \u201cFoi tudo muito bem estruturado\u201d. Servi\u00e7os m\u00e9dicos e educacionais eram por conta da Uni\u00e3o. No entanto n\u00e3o havia banco, apenas em Sorriso, o Banco Nacional. Operava-se com luz de vela. Os partos eram feitos numa casinha, onde s\u00f3 podia-se internar uma pessoa. Todos estes servi\u00e7os ficaram ativos at\u00e9 1989, \u00e0 partir de quando ficaram parados por dois anos, inclusive o escrit\u00f3rio. Todo o material tombado foi recolhido<br \/>\nA maioria dos funcion\u00e1rios do INCRA daquela \u00e9poca, hoje vive em Cuiab\u00e1. Quando o projeto acabou em Lucas, os funcion\u00e1rios foram mandados para outros munic\u00edpios. Dna. Neiva n\u00e3o dependia deste emprego porque tinham uma lavoura. Ela pediu dois anos de afastamento, e conseguiu. O governo Collor deixou 22 funcion\u00e1rios do INCRA de Lucas do Rio Verde em regime de \u201cdisponibilidade\u201d, ou seja, ociosos. Ela ent\u00e3o pediu o cargo de volta depois, pois n\u00e3o queria mudar-se para Diamantino.<br \/>\nHoje, os Tessele n\u00e3o querem voltar de maneira nenhuma para o Rio Grande do Sul. N\u00e3o se arrependem do sofrimento. Dizem: \u201choje, l\u00e1 uma pessoa da nossa idade tem no m\u00e1ximo uma bicicleta\u201d. E conta que moraram por tr\u00eas meses em um barrac\u00e3o de lona. Lavava roupa no Rio Verde. Depois compraram um motorzinho que gerava luz. Iam muito mais para Cuiab\u00e1 para comprar mantimentos do que atualmente. Durante a mudan\u00e7a, tamb\u00e9m compraram muito na capital. Dna. Neiva considera que a mudan\u00e7a foi tranquila, porque tinham muita esperan\u00e7a no novo lugar. Antes do INCRA chegar, tinham que ficar na beira da estrada para parar os caminh\u00f5es que levavam alimento e outros artigos para Sinop. Os caminhoneiros j\u00e1 sabiam que os moradores faziam sinal na estrada para comprar.<br \/>\nHavia carne uma vez por semana. Os parceleiros ca\u00e7avam muito.<br \/>\nOs mato-grossenses tratavam os ga\u00fachos muito bem. A tradi\u00e7\u00e3o ga\u00facha foi mantida, na opini\u00e3o de Dna. Neiva, orgulhosa de sua filha, nascida em Lucas, que foi \u201cprenda nacional\u201d (h\u00e1 um concurso em diversas inst\u00e2ncias, para eleger a menina que mais participa e mais sabe da tradi\u00e7\u00e3o ga\u00facha, no Brasil inteiro.)<br \/>\nSr. Werner Kothrade \u00e9 de Santa Catarina, de Ca\u00e7ador. Foi para o Mato Grosso \u00e0 passeio em 1975, porque seus tios viviam em Sinop desde 1972. Seu pai tinha uma terra, onde hoje localiza-se Sorriso; seu tio foi ajudar a abrir o terreno. Esta era uma das \u00fanicas propriedades com documento legal, conta Sr. Werner. Em 1977, seu tio convidou-o a plantar na terra dele em Sorriso. Assim, em 1978, Kothrade comprou uma terra em Sorriso, tamb\u00e9m, do outro lado do Rio Verde, em sociedade com o irm\u00e3o, que foi abrir a mata.<br \/>\nEm 1982, Sr. Werner foi com a fam\u00edlia \u00e0 Sorriso. No final de 1983, mudaram-se para a fazenda. Em 1984, foram para Lucas do Rio Verde, porque a estrada n\u00e3o era asfaltada, e a propriedade ficava \u00e0 96 Km de Sorriso. Lucas tinha apenas dois mercados, e mais ou menos 20 casas, conta.<br \/>\nSr. Werner foi ao INCRA e pediu um lote para constru\u00edr casa. Ele queria perto da igreja, e queria dois lotes, porque iria construir uma casa grande. Diz: \u201cEles eram muito est\u00fapidos\u201d: falavam: \u201cse quiser, \u00e9 l\u00e1\u201d, no meio do mato\u201d. Ent\u00e3o Sr. Werner aceitou. Era para ser com\u00e9rcio. Ele considera um erro do governo, dar terras mas n\u00e3o dar assist\u00eancia. \u201cEra s\u00f3 um campo aberto e t\u00ednhamos que corrigir a terra, mas n\u00e3o t\u00ednhamos dinheiro. N\u00e3o davam escritura, e sem ela, o banco n\u00e3o financia\u201d. Al\u00e9m disso, Sr. Werner conta que h\u00e1 pessoas que ganharam 5 lotes mas ainda continuam acampadas.<br \/>\nKothrade acompanhou e ajudou no desenvolvimento da cidade.<br \/>\nSr. Werner foi ao Mato Grosso, por receio de ser expulso do Paraguai, para onde se mudaria sob influ\u00eancia de um amigo que incentivou muito; e realmente a expuls\u00e3o aconteceu, com os \u201cbrasiguaios\u201d.<br \/>\nA propaganda feita pelos militares era intensa, conta, para n\u00e3o perderem a fronteira para os Estados Unidos; era \u201cintegrar para n\u00e3o entregar\u201d.<br \/>\nSua fam\u00edlia era de agricultores. Sr. Werner plantava desde crian\u00e7a. A terra era plana, mas pequena. Eram 260 hectares, a serem divididos por tr\u00eas irm\u00e3os. Vieram por causa da terra plana, e porque n\u00e3o conseguiam vender a terra em Santa Catarina, pois de um lado era uma terra herdada, que n\u00e3o seria vendida, do outro, uma empresa inglesa.Em Santa Catarina, plantavam cevada para vender \u00e0 cervejaria <em>Antarctica<\/em>, trigo, milho, soja e feij\u00e3o. No Mato Grosso, plantaram arroz. Kothrade queixa-se que n\u00e3o havia variedades de soja naquela regi\u00e3o, que n\u00e3o crescia mais que 10 cent\u00edmetros. Possu\u00edam maquin\u00e1rio que j\u00e1 haviam trazido do Sul.<br \/>\nA viagem durava 4 dias durante a seca. Durante a \u00e9poca de chuva, era imprevis\u00edvel o tempo.<br \/>\nA vida era muito dif\u00edcil: n\u00e3o havia energia. Tinham que usar um motor. A \u00e1gua era de po\u00e7o, e qualquer movimento brusco sujava o balde. Tinham que lavar roupa no rio, onde as crian\u00e7as tomavam banho.<br \/>\nN\u00e3o havia incentivo, mas havia financiamento. Sr. Werner comprou uma posse. O INCRA obrigava a derrubar 80% da terra, caso contr\u00e1rio, n\u00e3o recebia-se a escritura. N\u00e3o havia pol\u00edtica de preserva\u00e7\u00e3o. Na \u00e9poca em que Sr. Werner comprou a terra, poucos parceleiros sa\u00edram; antes eles voltavam muito para o Rio Grande do Sul, em troca da passagem de \u00f4nibus. Outros foram para Terranova, ou para trabalhar com garimpo.<br \/>\nKothrade conta que n\u00e3o houve conflito com os locais. Os posseiros eram bem de vida, pois podiam vender as posses para os ga\u00fachos, comenta.<br \/>\nSr. Werner comprou uma terra em parceria com o irm\u00e3o, de 3000 hectares. Pagaram o equivalente a uma garrafa de cerveja por hectare. Um conhecido seu, Matsubara, pagou uma carteira de cigarro por hectare.<br \/>\nEntre 1985 e 86, Sr. Werner participou das atividades da igreja cat\u00f3lica. Foi presidente, e construiu um sal\u00e3o paroquial muito grande, conta.<br \/>\nLucas do Rio Verde fica \u00e0 240 Km de Diamantino, munic\u00edpio antigo, que n\u00e3o ajudou a desmembrar, porque n\u00e3o interessava. Em 1989, 5 munic\u00edpios foram emancipados; ele foi convidado para ser prefeito, mas n\u00e3o queria, porque n\u00e3o entendia de pol\u00edtica. Aceitou, para apaziguar os desentendimentos que estavam ocorrendo entre amigos por causa da pol\u00edtica. Foi avalista de muitas propriedades, pela confian\u00e7a.<br \/>\nConstruiu 18 escolas no interior: havia mais comunidades no interior do que atualmente, quando muitas se desmancharam nos munic\u00edpios.<br \/>\nFizeram a primeira exposi\u00e7\u00e3o de produtos agropecu\u00e1rios sob um barraco de lona.<br \/>\nEntre 1991 e 1992, a situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica melhorou, e puderam asfaltar e sanear, depois de haverem passado por todos os planos inflacion\u00e1rios com muita dificuldade.<br \/>\nSeu mandato durou de 1989 a 1992. Durante este per\u00edodo, o estado passou por 5 governadores.<br \/>\nHouve grandes crises na lavoura nesta \u00e9poca, tiveram que fazer muitos testes com adubo por conta pr\u00f3pria. Tudo era muito longe para a pesquisa, conta Sr. Werner, os pr\u00f3prios plantadores criavam tecnologia. Se na \u00e9poca, colhiam-se 22 sacas por hectare, hoje, s\u00e3o 60 sacas. Na \u00e9poca da colheita, o padre rezava a missa mais cedo e mais r\u00e1pido.<br \/>\nO banco mais pr\u00f3ximo ficava em Ros\u00e1rio d\u2019Oeste, comarca de Sorriso, \u00e0 260 Km de Lucas do Rio Verde. No caminho de Lucas para Diamantino, tinham que parar no Posto Gil, \u00fanico estabelecimento por muitos anos, e refer\u00eancia local, e pegar um \u00f4nibus para Cuiab\u00e1. Muitas vezes os passageiros tinham que empurrar o \u00f4nibus.<\/p>\n<p>Sr. Werner acha que a tradi\u00e7\u00e3o ga\u00facha \u00e9 mais forte no norte do que no pr\u00f3prio Rio Grande.<br \/>\nO Sr. Klaus Huber \u00e9 presidente do Instituto Padre Jo\u00e3o Peter, fundado em maio de 1988, que d\u00e1 apoio ao desenvolvimento da regi\u00e3o. Su\u00ed\u00e7o de origem, e paulista por ado\u00e7\u00e3o, era diretor da escola da Holambra em Paranapanema: implantou o Ensino M\u00e9dio propedeutico e o curso de Economia Dom\u00e9stica, com uma proposta similar a que se seguiu no Mato Grosso, para desenvolvimento da regi\u00e3o. Mais tarde, querendo mudar de \u00e1rea, formou um grupo cooperativo, junto com sua fam\u00edlia para trabalhar com agropecu\u00e1ria. Cada fam\u00edlia, individualmente n\u00e3o tinha condi\u00e7\u00e3o de comprar terras. O grupo, ent\u00e3o, se juntou com uma s\u00e9rie de trabalhadores rurais e propriet\u00e1rios que venderam suas propriedades para sanar d\u00edvidas. Formaram a Cooperlucas, para come\u00e7arem as atividades em Lucas do Rio Verde. Seu irm\u00e3o foi o primeiro presidente da cooperativa, que assumiu muitas atividades sociais da cidade.<br \/>\nSr. Klaus chegou em maio de 1982, ap\u00f3s ter recebido um lote, como os outros; seus irm\u00e3os administraram, e posteriormente, ele arrendou, pois n\u00e3o sabia lidar com agricultura. Ele fundou, com a esposa, todas as escolas do munic\u00edpio, e fez acompanhamento pedag\u00f3gico. Sr. Klaus alivia-se disto, por n\u00e3o ter \u201cca\u00eddo na tenta\u00e7\u00e3o de desmatar\u201d, e do fato de sua terra ser uma das poucas reservas que restam. Conta que quando chegaram, n\u00e3o havia mais \u00edndios, porque foram expulsos muito antes por mineradores e posseiros. A reserva do Xing\u00fa fica \u00e0 aproximadamente 200 Km de Lucas do Rio Verde.<br \/>\nO Governo Federal teria desapropriado pretensos propriet\u00e1rios anteriores aos assentamentos, mas n\u00e3o h\u00e1 comprova\u00e7\u00e3o.<br \/>\nDois de seus irm\u00e3os eram agricultores, e conseguiram empr\u00e9stimos e vendas vinculados ao d\u00f3lar. Os implementos e m\u00e1quinas n\u00e3o eram vinculados.<br \/>\nA idealiza\u00e7\u00e3o do projeto do grupo dos \u201cInteressados\u201d, como se auto-denominam os fundadores da Cooperlucas, \u00e9 anterior ao projeto do INCRA, diz Sr. Klaus. Este grupo de 200 pessoas, pagava uma mensalidade para que a diretoria procurasse locais para assentar o grupo. Foram para todas as regi\u00f5es, e Lucas do Rio Verde era onde havia menos problemas com grileiros. Ao final, dos 200 \u201cInteressados\u201d, apenas 60 foram assentados; 40 em um primeiro momento, e 20 em segundo.<br \/>\nO governo dava autoriza\u00e7\u00e3o apalavrada, mas n\u00e3o havia documento escrito. O processo durou 3 anos. Os cooperados pediam ao INCRA que impedisse a chegada de grileiros: o \u00f3rg\u00e3o n\u00e3o tinha funcion\u00e1rios suficientes, mas contratou.<br \/>\nA vantagem, realmente foi o afastamento de intrusos, mas por outro lado, o governo percebeu que aquela \u00e1rea estava protegida, e garantida para projetos p\u00fablicos, assentando os sem-terra da Encruzilhada Natalino em primeiro plano, e os cooperados em segundo, argumenta Huber. Os parceleiros vieram dois meses antes, e no local havia 15 fam\u00edlias de posseiros anteriormente \u00e0 chegada dos novos grupos.<br \/>\nO PRODECER II foi solicitado pela Cooperlucas, que foi escolhida para ser beneficiada pelo acordo nipo-brasileiro. O contato se deu atrav\u00e9s de um vizinho de Sr. Klaus, Matsubara, co-fundador do Instituto Padre Jo\u00e3o Peter, hoje, e que foi \u00e0 fal\u00eancia, por fazer testes t\u00e9cnicos mal-remunerados, para o poder p\u00fablico. Atualmente Matsubara vive em Sinop.<br \/>\nO PRODECER II pesquisou a cooperativa antes dos associados saberem deste projeto. \u00c0 partir da\u00ed, a Cooperlucas cresceu muito. Um dos motivos do desmanche da cooperativa foram novas diretorias que entraram durante a associa\u00e7\u00e3o com o PRODECER II: pessoas gananciosas, que achavam a administra\u00e7\u00e3o muito lenta. Os novos diretores tinham mais dinheiro, e vinham de regi\u00f5es diversificadas, com forma\u00e7\u00f5es melhores. Entravam na cooperativa, na verdade para aumentar a produ\u00e7\u00e3o. Logo o idealismo do grupo original se dissolveu, despontou uma corrup\u00e7\u00e3o muito sutil, sobre a qual correm processos at\u00e9 hoje: foi colocada na cabe\u00e7a da chapa, algu\u00e9m que todos confiavam, de fam\u00edlia de posseiros; o vice, n\u00e3o era de nenhum dos grupos associados, n\u00e3o o conheciam bem. Sr. Klaus achava que o presidente n\u00e3o aguentaria, e realmente aconteceu. O vice-presidente, que havia tido conflitos com a cooperativa ainda no Sul, assumiu, e formou uma bolha de poder, que custou a ser percebida, ao avaliar o potencial da Cooperlucas. O novo presidente aproveitou para se desenvolver pessoalmente. Deu terras em troca da constru\u00e7\u00e3o de grandes obras, sem que os cooperados assinassem. O Banco do Brasil foi respons\u00e1vel, porque n\u00e3o controlou estas movimenta\u00e7\u00f5es, e tamb\u00e9m est\u00e1 sendo processado, aponta Sr. Klaus. Al\u00e9m disso, o novo presidente, que Huber n\u00e3o nomeia, por j\u00e1 haver recebido amea\u00e7as de morte, comprou uma parte de uma usina de mandioca em Sinop, enquanto os outros cooperados estavam endividados.<br \/>\n\u00c0 respeito das amea\u00e7as, \u201ca Pol\u00edcia Federal veio tr\u00eas vezes desarmar quem achava que devia.\u201d Comenta Sr. Klaus, que era visto como um empecilho para o assentamento dos chegantes da Encruzilhada, ao querer mostrar a quem recebeu terras e n\u00e3o era agricultor, que o Banco do Brasil lhes tiraria o direito.<br \/>\nPara os sem-terra, a Cooperalucas dava apoio t\u00e9cnico. O 9\u00ba BEC cedeu barracas, enquanto aguardavam o processo sempre \u00e0 beira da rodovia, durante 3 ou 4 semanas.<br \/>\nNos primeiros meses, o bairro de Itambiquara, nome que os \u00edndios davam ao Rio Verde, que fica \u00e0 35 Km do centro do munic\u00edpio, tinha mais estrutura que Lucas.<br \/>\nDos antigos posseiros, alguns se filiaram \u00e0 cooperativa, que teve que se abrir para todos, e teve sua sede deslocada posteriormente para a beira da rodovia BR 163 para facilitar o acesso, diz o Sr. Antonio Carlos, mineiro, atual presidente da cooperativa, fundada em 22 de dezembro de 1982.<br \/>\nO presidente da cooperativa acredita que alguns parceleiros associaram-se \u00e0 Cooperlucas para buscar poder de barganha e parceria de planta (para construir).<br \/>\nCom o PRODECER II, em 1986, vieram 39 pessoas, algumas da regi\u00e3o, entre mineiros, catarinenses, ga\u00fachos e sul-mato-grossenses, para produzir nos lotes de 400 hectares. Iniciaram logo a plantar em 200 hectares, ou seja, fizeram abertura de \u00e1rea de 50% durante a safra de 1986\/87. A cooperativa adquiriu os lotes e repassou para esses colonos. No primeiro ano, plantaram arroz; a cultura principal era a soja, mas o arroz crescia muito rapidamente ap\u00f3s a derrubada da mata, o que n\u00e3o ocorria com a soja. Tamb\u00e9m reservavam 20% do espa\u00e7o para cultura perene (seringueiras). O financiamento era direcionado \u00e0 soja. Nas \u00e1reas de pastagem, j\u00e1 se poderia plant\u00e1-la, mesmo com a necessidade de se trabalhar mais o solo.<br \/>\nO Sr. Antonio Carlos conta que o PRODECER II foi para Lucas do Rio Verde gra\u00e7as a Anton Huber, irm\u00e3o do Sr. Klaus, caso contr\u00e1rio seria em Mutum, e a Cooperlucas faria parte da Coopervale. O Jap\u00e3o mandou incentivo para constru\u00edrem barrac\u00e3o e armaz\u00e9m. Diz que lutaram muito para existir como cooperativa. O PRODECER, no Mato Grosso, nasceu como loteamento da Cooperlucas, financiado pelo Banco do Estado do Mato Grosso. As fun\u00e7\u00f5es principais da Cooperlucas, conta o presidente, eram fornecer insumos e padronizar para venda, al\u00e9m de auxiliar na comercializa\u00e7\u00e3o. N\u00e3o era uma colonizadora; deu suporte \u00e0 reforma agr\u00e1ria.<\/p>\n<p>Em 1994, a cooperativa teve problemas financeiros e ainda est\u00e1 se recuperando: n\u00e3o h\u00e1 mais capital para fornecer insumos.<br \/>\nO Sr. Luiz Carlos Nava \u00e9 ga\u00facho de Espumoso, no planalto m\u00e9dio. Foi diretamente para Lucas do Rio Verde em 1984. Tinha uma franquia de um escrit\u00f3rio de planejamento agr\u00edcola com sede em Passo Fundo. Seu pai tinha uma pequena lavoura arrendada para os cunhados. De 42 hectares, plantavam-se 35 ou 36. Um colega trabalhava para um grupo familiar de curtume, chamado Basso, de Santo \u00c2ngelo, que era associado ao estaleiro Verolme, do Rio de Janeiro. O grupo passou a ver no centro-oeste uma boa oportunidade de produ\u00e7\u00e3o. Abriu uma sede em Ponta-Por\u00e3, entre 1977 e 78. Um colega de Nava que trabalhava nesta empresa, foi transferido para este munic\u00edpio, e no ano seguinte, trabalhou em Rondon\u00f3polis. A Bassoabriu uma divis\u00e3o em Lucas do Rio Verde, e precisava de um engenheiro agr\u00f4nomo. Nava foi contratado, e foi viver diretamente na fazenda, onde achava mais confort\u00e1vel que no centro. Conta que aproximadamente 150 pessoas moravam na fazenda. L\u00e1 havia, por exemplo, energia para a oficina mec\u00e2nica, e \u00e1gua de po\u00e7o, conta Lira, o que era inexistente na cidade. Um caminh\u00e3o ia para Cuiab\u00e1 toda semana, e podia trazer o que os empregados, que tinham uma conta aberta, pedissem.<br \/>\nA fazenda plantava soja e arroz e criava gado. Quando chegaram, diz Nava, s\u00f3 havia pecu\u00e1ria. Eram 28.980 hectares no munic\u00edpio pr\u00f3ximo de Tapur\u00e1.<br \/>\nEm 1987, o grupo se dissolveu, e Nava foi para Cuiab\u00e1, assumir a fun\u00e7\u00e3o do amigo, de gerente de produ\u00e7\u00e3o, onde ficou at\u00e9 1992, quando voltou para morar na cidade, devido \u00e0 crise do governo Collor, para administrar mais de perto a produ\u00e7\u00e3o. Neste momento, conta Nava, j\u00e1 havia energia na cidade.<br \/>\nDe 1992 em diante, deu suporte gerencial a uma fazenda vizinha. Come\u00e7ou uma lavoura pequena, pr\u00f3xima da cidade, junto com o vizinho, com incentivo da Cooperlucas do BNDES e do Banco do Brasil.<br \/>\nEm 1995, abriu uma loja de insumos agr\u00edcolas, a <em>Plantar<\/em>.<br \/>\nA principal atividade da cidade \u00e9 realmente a agricultura, diz Nava. \u201cN\u00e3o h\u00e1 ind\u00fastria, apenas soja e milho.\u201d Apenas beneficia-se o algod\u00e3o. Tece-se muito na Bahia e em Santa Catarina.<br \/>\nNava diz que n\u00e3o participa muito do Movimento Tradicionalista Ga\u00facho, mas diz que ficou mais participativo quando mudou para o Centro-Oeste.<br \/>\nO Sr. Eg\u00eddio Raul Vuaden \u00e9 o atual presidente da Expolucas, feira de exposi\u00e7\u00f5es agropecu\u00e1ria. Foi de Sobradinho (RS) para Lucas do Rio Verde, em junho de 1986. Tinha um minif\u00fandio e plantava fumo no sul. Conta que tinha uma condi\u00e7\u00e3o de trabalho muito sofrida, pois a terra tinha 15 hectares. Ap\u00f3s ter conclu\u00eddo a faculdade de agronomia, com uma poupan\u00e7a e a venda do im\u00f3vel, pagaram, com o pai e a m\u00e3e, 20% de entrada no PRODECER II em Pi\u00fava. Com eles foram outros 38 produtores selecionados do Brasil todo, com cadastro na Campo, a empresa colonizadora, que existe at\u00e9 hoje. O crit\u00e9rio de sele\u00e7\u00e3o era a tradi\u00e7\u00e3o em produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola, ser arrendat\u00e1rio ou ter uma pequena posse de terra, sem condi\u00e7\u00e3o de ampliar na origem.<\/p>\n<p>Compraram 409 hectares aqui. Moravam na propriedade, em um galp\u00e3o que constru\u00edram que servia de garagem para m\u00e1quinas: n\u00e3o havia servi\u00e7o de sa\u00fade, \u00e1gua, nem energia e a estrada era ruim, n\u00e3o havia servi\u00e7o p\u00fablico; para fazer chamadas telef\u00f4nicas, tinham que esperar em fila por 24 horas; s\u00f3 havia bancos em Diamantino, que fica \u00e0 200 Km de Lucas, conta Sr. Eg\u00eddio. O \u201cLinh\u00e3o\u201d, fornecimento de energia, de Furnas, s\u00f3 existe h\u00e1 6 anos.<br \/>\nPlantaram arroz e soja, pagando financiamento que inclu\u00eda: a terra, a escritura p\u00fablica; os 20% de entrada do financiamento que cobriam a casa, o barrac\u00e3o, a corre\u00e7\u00e3o do solo, maquin\u00e1rio, abertura de \u00e1rea, juro normal de cr\u00e9dito rural.<br \/>\nOs Vuaden faliram duas vezes, em 1989, e de 1994 para 95, por causa dos planos econ\u00f4micos: mesmo que tivessem capital, n\u00e3o havia m\u00e1quinas \u00e0 venda. Ficaram inadimplentes, porque n\u00e3o foram enquadrados no plano de securiza\u00e7\u00e3o de cr\u00e9dito rural. Apenas em 2001 conseguiram repactuar a d\u00edvida que terminar\u00e3o de pagar em 2019.<br \/>\nPensaram em voltar, mas n\u00e3o tinham para quem vender a terra.<br \/>\nSr. Eg\u00eddio \u00e9 presidente do PPS- Partido Popular Socialista, o partido do atual prefeito. Atualmente, produz soja, milho, arroz, algod\u00e3o e su\u00ednos, em 1400 hectares de \u00e1rea pr\u00f3pria.<br \/>\nAirton Callai \u00e9 de Giru\u00e1 (RS). L\u00e1, trabalhava com faturamanto de uma cerealista que atendia toda a regi\u00e3o do Alto Uruguai. Vivia na cidade, e toda a sua fam\u00edlia tamb\u00e9m trabalhava no terceiro setor. Morava na cidade. Callai chegou em Lucas do Rio Verde em 1986. Antes, um irm\u00e3o seu havia ido em busca de oportunidades, porque n\u00e3o tinham posses, e voltou desiludido. Callai tinha apenas 15 anos, ficou 4 anos, n\u00e3o se adaptou e voltou, para servir na aeron\u00e1utica. Jo\u00e3o Callai, outro irm\u00e3o, que vivia no Mato Grosso desde 1982 foi quem o incentivou a vir de volta, em 1990.<br \/>\nAirton Callai foi contratado para fazer assist\u00eancia t\u00e9cnica para a Cooperlucas, e recebeu uma proposta de emprego. Ficou amigo dos presidentes.<br \/>\nEm 21 de agosto de 1991, mudou-se para Lucas definitivamente. A caixa da televis\u00e3o era a mesa, o colch\u00e3o ficava no ch\u00e3o. A mudan\u00e7a durou 4 dias.<br \/>\nDepois de um ano, os pais de T\u00e2nia, sua esposa, mudaram-se tamb\u00e9m para Lucas.<br \/>\nPassou \u00e0 ger\u00eancia de CPD e Tania trabalhava no faturamento, ambos na Cooperlucas.<br \/>\nSua fam\u00edlia n\u00e3o pretende voltar para o Sul, pois considera o Mato Grosso uma terra de oportunidades, que ele soube aproveitar, mesmo o pa\u00eds tendo passado por grandes crises, justamente naquele momento. Exemplifica: \u201ca Cooperlucas, que era a terceira cooperativa em faturamento no Brasil, em 1995 quebrou.\u201d Neste momento, Callai saiu da cooperativa e montou um neg\u00f3cio pr\u00f3prio de inform\u00e1tica.<br \/>\nEm 1997, tornou-se patr\u00e3o do CTG: Centro de Tradi\u00e7\u00e3o Ga\u00facha de Lucas, renovou, e um ano depois foi escolhido como presidente do MTG do Estado. Ficou por dois anos, per\u00edodo em que fez um levantamento de onde estavam os ga\u00fachos do Estado. Havia 43 CTG\u2019s, em quase 30% das cidades do Mato Grosso, que t\u00eam identifica\u00e7\u00e3o forte com o tradicionalismo ga\u00facho;&nbsp; assim pesquisou Callai. As regi\u00f5es do estado, de acordo com o crit\u00e9rio dos grupos tradicionalistas, foram divididas pelo presidente anterior. Callai fez um cadastro dos ga\u00fachos para manter contato, e assim conseguiram organizar encontros regionais maiores atrav\u00e9s dos contatos. Fizeram regulamentos. Callai foi eleito por dois anos consecutivos, faz parte da confedera\u00e7\u00e3o dos CTG\u2019s como um todo. Organiza rodeios com 400 pessoas.<br \/>\n\u00c9 interessante notar que Callai n\u00e3o participava do CTG no Sul. Conta que ia, mas n\u00e3o se sentia \u00e0 vontade para competir nas provas; porque na sua fam\u00edlia n\u00e3o havia est\u00edmulo. Diz que o envolvimento s\u00f3 come\u00e7ou no norte, por identifica\u00e7\u00e3o com os sulistas. Este relato, assim como muitos outros, nos mostram que o MTG: Movimento Tradicionalista Ga\u00facho, foi a forma que os migrantes encontraram de se relacionar, de se encontrar, e de ter lazer.<br \/>\nO Sr. Jaime Ferrari, dono de um hotel de mesmo nome que comprou em 2001, chegou muito recentemente, em 19 de agosto 1999, o que \u00e9 interessante para estabelecerem-se par\u00e2metros comparativos das experi\u00eancias dos ga\u00fachos que chegaram na Amaz\u00f4nia Legal&nbsp; em diversas \u00e9pocas.<br \/>\nEm Get\u00falio Vargas, regi\u00e3o norte do Alto Uruguai, era agricultor (tinha um lote de 80 hectares) e comerciante: era propriet\u00e1rio de um posto de gasolina e um mercado geral. Foi para o Mato Grosso, sem precisar vender nada, porque queria achar mais espa\u00e7o, tentar melhorar de vida. Foi \u201ctocar\u201d um posto de gasolina, mas \u201cn\u00e3o deu certo\u201d, conta Ferrari. Um amigo tamb\u00e9m era dono de um posto de gasolina em Sorriso, o qual administraram por aproximadamente 3 anos.<br \/>\nSr. Ferrari conta que s\u00f3 n\u00e3o veio antes porque a m\u00e3e n\u00e3o podia ficar sozinha, j\u00e1 que o pai morrera quando ele era uma crian\u00e7a. A m\u00e3e ainda vive no Sul. Seus filhos est\u00e3o na faculdade, tamb\u00e9m em Lucas do Rio Verde. Um deles j\u00e1 est\u00e1 no Par\u00e1, e tem uma propriedade de terra. Ele vendeu uma terra no Sul e depois de dois anos comprou uma terra no Mato Grosso, de600 hectares, que est\u00e1 sendo preparada para a pecu\u00e1ria. A propriedade no Par\u00e1, em Guarant\u00e3, \u00e9 de 1000 hectares. Sr. Ferrari conta que muitos ga\u00fachos \u201cse deram bem l\u00e1\u201d, sendo que h\u00e1 quem seja propriet\u00e1rio de 9000 hectares.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>SORRISO<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ivo e Nelson, pioneiros fundadores da Cooperativa Sorriso, contam que em 1974, vieram abrir divisas na \u00e1rea adquirida. Ivo relata: \u201cEu fiquei acampado quase um ano, eu e o Nelson, na balsa do Teles-Pires, em baixo de um barraco de pl\u00e1stico. Para ver as divisas e para sobreviver, n\u00f3s colocamos uma borrachariazinha.\u201d A carne que ca\u00e7avam, dividiam com os funcion\u00e1rios do 9\u00ba BEC, que os ajudou muito.<br \/>\nEm pouco tempo, voltaram para o Sul. J\u00e1 em 10 de janeiro de 1975, retornaram, alugaram uma madeireira \u201cpica-pau\u201d desativada para serrar madeira para as casas. Voltaram mais uma vez para o sul, e depois novamente para o norte. Foram morar em Sinop que tinha uma estrutura melhor, como escolas, etc.<br \/>\nCatarina e Nelson Fr\u00e2ncio mudaram-se de Sinop para Sorriso, em agosto de 1975, quando o restaurante estava quase pronto. Mas continuava&nbsp; o problema da dist\u00e2ncia da escola. Na tentativa de resolver o problema, a Colonizadora alugou uma <em>van<\/em> para levar e buscar, mas as crian\u00e7as tinham que acordar \u00e0s 4:30 da manh\u00e3; ent\u00e3o mudaram de volta para Sinop.<br \/>\nDna. Catarina e seus tr\u00eas filhos, contra\u00edram mal\u00e1ria, e foram curados pelas freiras de Vera.<br \/>\nAnt\u00f4nio Capellari, chegou em Sorriso h\u00e1 quase trinta anos. Conta que o que hoje \u00e9 a cidade, era uma plan\u00edcie \u00e0 beira da rodovia Cuiab\u00e1-Santar\u00e9m, com algumas barracas de lona. Hoje h\u00e1 pr\u00e9dios, casas e pessoas para todos os lados. Hoje t\u00eam uma vida confort\u00e1vel, mas passaram por dificuldades: a ag\u00eancia banc\u00e1ria mais pr\u00f3xima ficava \u00e0 280 Km de dist\u00e2ncia, e s\u00f3 se chegava quando a estrada estava trafeg\u00e1vel. As m\u00e1quinas agr\u00edcolas eram compradas no Sul, \u00e0 mais de 2000 Km de dist\u00e2ncia de Sorriso. Para trazer a carga, tinham que convencer um caminhoneiro a faz\u00ea-lo; raramente aceitavam porque ficavam atolados na estrada.*<br \/>\nAtilano Albino da Silva, o T\u00e2nio, nos anos 70 foi para Sorriso com mais um pe\u00e3o buscar servi\u00e7o tempor\u00e1rio. Hoje \u00e9 s\u00f3cio de uma imobili\u00e1ria, tem um avi\u00e3o, v\u00e1rias fazendas, planta soja na Bol\u00edvia e possui 2,5 milh\u00f5es de hectares de terra para negociar. Seus pais, pequenos agricultores de Cruz Alta, mudaram-se para o sudoeste catarinense na d\u00e9cada de 40. Conta que o neg\u00f3cio da terra j\u00e1 foi muito perigoso: uma s\u00f3 fazenda chegava a ter 12 escrituras falsas e pistoleiros para defend\u00ea-las. Hoje os assuntos s\u00e3o resolvidos por advogados. Com a implanta\u00e7\u00e3o da lavoura da soja, o pre\u00e7o da terra s\u00f3 sobe, conta T\u00e2nio.<a href=\"http:\/\/www.klepsidra.net\/klepsidra25\/rs-mt.htm#_ftn69\" name=\"_ftnref69\">*<\/a><br \/>\nSorriso foi sede, no final de agosto de 2004, do FEMART, festival estadual dos CTG, que durou 3 dias. Sua estrutura \u00e9 a melhor do estado, e seus grupos (dan\u00e7as, declama\u00e7\u00e3o, la\u00e7o, bocha, etc.) s\u00e3o os mais \u201ctemidos\u201d do estado. Neste evento, tive a oportunidade de conhecer ga\u00fachos de munic\u00edpios que n\u00e3o visitei, como \u00e9 o caso da fam\u00edlia Bertotti.<br \/>\nO Sr. Eug\u00eanio e a Sra. Cleonice Maria Bertotti, chegaram em Alto Gar\u00e7as em 1974, de Frederico Westphalen. Seu pai era comerciante, dono de churrascaria. Chegaram a ter terra no Rio Grande do Sul, mas n\u00e3o nos \u00faltimos anos. Como sua situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica estava ruim, foram para o norte em busca de condi\u00e7\u00f5es melhores de vida. Segundo eles, o futuro estava no Mato Grosso. Bertotti conseguiu um servi\u00e7o em uma fazenda, e voltou em 1975 para levar a fam\u00edlia. Esta \u00e9poca foi justamente quando come\u00e7ou o desenvolvimento da agricultura, com o arroz, logo ap\u00f3s a abertura do Cerrado. A soja come\u00e7ou a ser plantada, em rota\u00e7\u00e3o de culturas, em 1981.&nbsp; A fam\u00edlia morava na cidade e o pai na lavoura. Ele n\u00e3o comprou terra.<br \/>\nQuando chegaram, j\u00e1 havia a estrutura da cidade, que era muito pobre. Havia pr\u00e9dios p\u00fablicos, dois mercados, dois postos de gasolina. A popula\u00e7\u00e3o girava em torno de 4.000 habitantes. Na d\u00e9cada de 80, colhia-se entre 30 e 35 sacas de arroz e soja por hectare. Hoje, com o aperfei\u00e7oamento, chegam a colher de 55 at\u00e9 65 sacas por hectare, conta Sr. Eug\u00eanio.<br \/>\nO algod\u00e3o foi introduzido em 1988; hoje, h\u00e1 80.000 hectares plantados.<br \/>\nA cidade, \u00e0 beira do rio Gar\u00e7as, \u00e9 mais antiga que as anteriores: foi emancipada em 1956, mas apenas em 1975, junto com a abertura de fronteiras estimulada pelo governo, come\u00e7ou-se a abrir a mata. At\u00e9 ent\u00e3o, a principal atividade era o garimpo de diamantes, que ainda existe em propor\u00e7\u00e3o muito menor atualmente.<\/p>\n<p>O governo deu incentivo atrav\u00e9s do Banco do Brasil, e o faz at\u00e9 hoje.<br \/>\nN\u00e3o houve atua\u00e7\u00e3o de nenhuma colonizadora em Alto Gar\u00e7as.<br \/>\nSr. Eug\u00eanio foi eleito vereador pelo PFL com 158 votos, em 1992. reelegeu-se em 1996 com 236 votos. Quando chegou, j\u00e1 havia estrutura pol\u00edtica, conta.<br \/>\nEm 1981, foi fundado o CTG, que \u00e9 bastante grande. Mais da metade dos moradores da cidade \u00e9 ga\u00facha. H\u00e1 poucos catarinenses e paranaenses. Sr. Eug\u00eanio conta que pouca gente voltou, mas que muitos foram adiante, ou com sucesso, ou por n\u00e3o terem conseguido desenvolver-se no Mato Grosso.<br \/>\nO agricultor Carlos Mouro, migrou de Nonoa\u00ed para Terranova do Norte na d\u00e9cada de 80, ao receber uma parcela de 250 hectares. Pegou mal\u00e1ria mais de 60 vezes. Todas as manh\u00e3s, ele e a mulher, ambos com mais de 40 anos, caminham cerca de 10 Km em mata fechada para chegar \u00e0 ro\u00e7a; Leva sempre um fac\u00e3o e um rifle, porque h\u00e1 muitos animais selvagens. Sem ter com quem negociar a produ\u00e7\u00e3o, ele alterna a agricultura com o garimpo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Conclus\u00e3o:<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>As fontes prim\u00e1rias e secund\u00e1rias analisadas possibilitaram a compreens\u00e3o de v\u00e1rios aspectos do tema. \u00c9 importante, no entanto fazer algumas considera\u00e7\u00f5es sobre o resultado da pesquisa.<br \/>\nIselda Corr\u00eaa Ribeiro fez um estudo bastante minucioso e rico sobre a migra\u00e7\u00e3o dos ga\u00fachos de Tenente Portela (RS) para Canarana (MT), refer\u00eancia sobre o tema da migra\u00e7\u00e3o no Brasil. Ela afirma que as pr\u00e9-condi\u00e7\u00f5es para que os ga\u00fachos se tornassem grandes propriet\u00e1rios j\u00e1 estavam dadas no Sul: estes, com reservas agr\u00edcolas ainda no seu estado, fundaram uma companhia colonizadora, a Cooperativa de Coloniza\u00e7\u00e3o 31 de Mar\u00e7o, Ltda. No entanto, \u00e9 importante observar que nem todos os cooperados fundaram-na e n\u00e3o faziam parte do conselho diretivo. Muitos foram selecionados para participar do programa de coloniza\u00e7\u00e3o, pois se encaixavam no crit\u00e9rio de sele\u00e7\u00e3o j\u00e1 discutido anteriormente, que era: possuir o m\u00ednimo de capital para sustentar-se por um ano. Realmente estes colonos tinham condi\u00e7\u00f5es, mas com a falta de estrutura do Projeto, um n\u00famero grande desistiu, pois suas reservas esgotaram-se rapidamente, j\u00e1 que n\u00e3o recebiam alimentos, nem medicamentos, devido a fraudes, al\u00e9m de submeterem-se a pre\u00e7os especulativos muito altos dos produtos. Portanto, n\u00e3o discordo que a diretoria da cooperativa tornou-se uma elite local, e desde sua chegada j\u00e1 havia se firmado economicamente; o estudo de Jos\u00e9 Tavares dos Santos explicita muito bem em que bases isto ocorreu: para ele, o lucro foi obtido sobre a renda dos cooperados, e a corrup\u00e7\u00e3o mas, um estudo mais superficial, mas geograficamente mais abrangente, de outras regi\u00f5es de coloniza\u00e7\u00e3o ga\u00facha em diferentes moldes: como a oficial de Lucas do Rio Verde, a particular, de Sinop e Sorriso, ou a independente, como foi o caso de Primavera do Leste, mostra que as reservas econ\u00f4micas dos migrantes ao chegarem no norte, eram muito variadas: alguns, tinham capital suficiente para comprar grande extens\u00e3o de terra, outros venderam parte das propriedades para comprar um lote, outros ainda, trabalhavam no setor de servi\u00e7os, e n\u00e3o possu\u00edam propriedade, o que os levou a arriscar com trabalhos diferentes daqueles que realizavam no Sul. Portanto, considero arriscado afirmar sobre a exist\u00eancia de um padr\u00e3o de renda para todos os migrantes.<br \/>\nO discurso modernizador da coloniza\u00e7\u00e3o do noroeste do Rio Grande do Sul repete-se na coloniza\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia, ao escolherem-se ga\u00fachos para povoar a Amaz\u00f4nia Legal, tinham como objetivo faz\u00ea-los servir de exemplo aos nordestinos e nortistas, mostrando a ideologia de que eram um povo que trabalhava, porque suas ra\u00edzes estavam no <em>labor.<\/em> Na propaganda dos projetos, o uso do maquin\u00e1rio, que em muitos casos n\u00e3o era feito no Sul \u00e9 outro exemplo do n\u00edtido discurso modernizante.<br \/>\nA exclus\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o local foi velada, mas transparece nitidamente na historiografia e nos depoimentos, tais eram o deslocamento de grupos ind\u00edgenas de suas terras originais para reservas criadas \u00e0s pressas, al\u00e9m do conflito com posseiros (pequenos produtores), que viviam nas regi\u00f5es de coloniza\u00e7\u00e3o havia muito tempo. Concordo com a tese de Jos\u00e9 Vicente Tavares dos Santos, de que os colonizadores que chegaram tinham um projeto social, e esfor\u00e7aram-se para mant\u00ea-lo. N\u00e3o \u00e9 uma mera coincid\u00eancia: continua a l\u00f3gica da mercantiliza\u00e7\u00e3o da terra, conceito de Jos\u00e9 de Souza Martins, discutido no corpo do trabalho, que faz valer a propriedade a quem tem t\u00edtulo. No caso das colonizadoras e projetos econ\u00f4micos, muitos receberam terras devolutas da Uni\u00e3o. A coloniza\u00e7\u00e3o resolveria duas zonas de conflito, repassando o problema do INCRA para particulares: no Rio Grande do Sul (sem-terras, afogados, etc.) e na Amaz\u00f4nia Legal (propriet\u00e1rios de t\u00edtulos falsos, pequenos posseiros, garimpeiros e \u00edndios), pois agora a terra seria ocupada, com comprovante.<br \/>\nA maior parte dos ga\u00fachos que migrou, era estrangeira, pois o noroeste do Rio Grande do Sul, regi\u00e3o de expuls\u00e3o para as \u00e1reas estudadas nesta pesquisa, foram regi\u00f5es, no s\u00e9culo XIX, receptoras de estrangeiros. O governo organizou a concess\u00e3o de col\u00f4nias: parcelas de terra de 25 hectares, para atividades agr\u00edcolas, mantendo assim, a tradi\u00e7\u00e3o familiar. Os parceleiros, menos ambiciosamente que um projeto social, tinham um projeto familiar: n\u00e3o queriam se mudar para a cidade, e sim que se mantivesse a tradi\u00e7\u00e3o da agricultura.&nbsp; Os grupos que vivam naquela regi\u00e3o de floresta, antes da chegada dos imigrantes, que eram \u00edndios, ou caboclos, foram retirados do local: os primeiros, para reservas rec\u00e9m delimitadas, e os segundos, para as periferias das cidades, ou para os acampamentos sem-terra, pois n\u00e3o tinham t\u00edtulo de propriedade. Na sele\u00e7\u00e3o dos sulistas para as cooperativas, n\u00e3o havia interesse nos caboclos.<br \/>\nCom o crescimento das fam\u00edlias, e a concentra\u00e7\u00e3o agro-industrial monocultora na m\u00e3o de poucos e grandes propriet\u00e1rios, os colonos n\u00e3o viram outra solu\u00e7\u00e3o para a sua fam\u00edlia, al\u00e9m de migrar para o norte, regi\u00e3o naquele momento indicada pela m\u00eddia como \u201cterra prometida\u201d.<br \/>\nTodos os migrantes, sem exce\u00e7\u00e3o, apontam para precariedade de condi\u00e7\u00f5es que, ou o Governo, ou as colonizadoras ofereciam: no caso dos projetos oficiais, os lotes n\u00e3o haviam sido demarcados; a refei\u00e7\u00e3o e medicamentos b\u00e1sicos n\u00e3o foram distribu\u00eddos, as promessas de constru\u00e7\u00e3o de barrac\u00e3o, casinha e de que as parcelas j\u00e1 teriam bois eram falsas. N\u00e3o havia encanamento de \u00e1gua nem eletricidade. Nos projetos ao longo da rodovia Transamaz\u00f4nica, aos quais n\u00e3o me detive por delimita\u00e7\u00e3o metodol\u00f3gica, os relatos s\u00e3o ainda mais denunciadores: os trabalhadores foram deixados \u00e0 beira da rodovia sem absolutamente nada: acamparam por muitos meses, pois as estruturas, sob responsabilidade do INCRA n\u00e3o estavam prontas, e os que denunciassem ou quisessem voltar, eram amea\u00e7ados e poderiam ser presos. Pode-se concluir que os ga\u00fachos migrantes, viveram nas mesmas condi\u00e7\u00f5es que os posseiros.<br \/>\nAs den\u00fancias, no entanto, n\u00e3o t\u00eam car\u00e1ter de queixa: muitos, hoje v\u00eaem suas dificuldades como aventuras at\u00e9 divertidas. Nenhum ga\u00facho entrevistado pretende voltar para o Sul para viver, pois apontam-no como uma regi\u00e3o atrasada, sem potencialidade de produ\u00e7\u00e3o. Seus filhos, por outro lado, partem em busca dos centros urbanos, nos estados do Sul. Isto \u00e9 um reflexo de que a cultura ga\u00facha est\u00e1 fortemente arraigada nestas fam\u00edlias, que procuram viver de acordo com as antigas tradi\u00e7\u00f5es, muitas vezes ainda de maneira mais contundente do que quando viviam no Rio Grande do Sul. O gauchismo foi uma maneira de se protegerem enquanto grupo, de n\u00e3o perderem sua cultura, e de certa maneira, de manter a coer\u00eancia com seu modo de trabalho, pois observam ter sido esta a raz\u00e3o de seu sucesso econ\u00f4mico na atualidade.<br \/>\nN\u00e3o se pode esquecer, que nem todos os ga\u00fachos na Amaz\u00f4nia Legal hoje s\u00e3o grandes propriet\u00e1rios: muitos s\u00e3o pequenos comerciantes, caminhoneiros, garimpeiros, pescadores e pe\u00f5es. Mas os que chegaram ainda na d\u00e9cada de 70, fazendo estes trabalhos, e se dispusessem a plantar, receberam benef\u00edcios do Governo, o que possibilitou seu enriquecimento. Nem todos os ga\u00fachos que vieram independentemente das cooperativas eram agricultores: muitos vinham do setor de servi\u00e7os, e partiram para a lavoura no norte, ou permaneceram no setor de origem, com constru\u00e7\u00e3o, transportes,&nbsp; restaurantes, postos de gasolina, hot\u00e9is, etc.<br \/>\nNa maior parte dos casos, os ga\u00fachos que perderam seus bens no Mato Grosso, viajaram para tentar se desenvolver mais ao norte: no Acre, Par\u00e1, Rond\u00f4nia, Tocantins e Goi\u00e1s. Tamb\u00e9m, os bem sucedidos no Mato Grosso, est\u00e3o subindo o Brasil em dire\u00e7\u00e3o a mais terras: est\u00e3o fazendo a derrubada, comercializando madeira, criando gado e come\u00e7ando a plantar soja. O Par\u00e1, \u00e9 o novo destino da agro-ind\u00fastria. O ciclo de reprodu\u00e7\u00e3o da concentra\u00e7\u00e3o fundi\u00e1ria se repete, desta vez por pessoas que foram expulsas do Sul pela mesma causa, e que deixaram de enxerg\u00e1-la.<\/p>\n<p><em>&nbsp;<\/em><\/p>\n<p><em>\u201cAcho que encontrei o lugar para ficar at\u00e9 o fim de minha vida, porque n\u00e3o tenho mais coragem de enfrentar a busca de outros lugares. A sa\u00fade at\u00e9 que tenho para isso, mas j\u00e1 sei tudo que tinha que sofrer, quantas vezes tive que mudar, em todos os lugares que fui, tive que construir tudo de novo, da primeira estaca at\u00e9 o telhado.\u201d<a href=\"http:\/\/www.klepsidra.net\/klepsidra25\/rs-mt.htm#_ftn70\" name=\"_ftnref70\">[64]<\/a><\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>&nbsp;<\/em><\/p>\n<p>POSF\u00c1CIO<\/p>\n<p>Esta pesquisa foi realizada em 2004 e n\u00e3o teve acr\u00e9scimos posteriores. No presente, a situa\u00e7\u00e3o das lavouras no Mato Grosso n\u00e3o \u00e9 mais a mesma. O pre\u00e7o das sacas de soja caiu e os agricultores n\u00e3o t\u00eam o mesmo otimismo que tinham h\u00e1 dois anos atr\u00e1s. Vale um novo estudo para avaliar as consequ\u00eancias desse tipo de coloniza\u00e7\u00e3o que j\u00e1 s\u00e3o vis\u00edveis naquela regi\u00e3o do pa\u00eds. Creio que este trabalho aponta para uma an\u00e1lise mais cr\u00edtica a esse tipo de ocupa\u00e7\u00e3o do solo, que inicialmente traz um resultado muito positivo para os agricultores e para o pa\u00eds, mas que muito rapidamente leva a uma baixa produtividade, al\u00e9m do dano ambiental, por falta de planejamento a longo prazo.<br \/>\n<b>FONTES<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&lt;&gt;<\/p>\n<ol>\n<li>Jornal da Cotriju\u00ed \u2013 COTRIJORNAL, de Iju\u00ed, de 07\/1973 a 05\/1974.<\/li>\n<li>Arquivo da Comiss\u00e3o Pastoral da Terra (CPT)\/ RS<a href=\"http:\/\/www.klepsidra.net\/klepsidra25\/rs-mt.htm#_ftn71\" name=\"_ftnref71\">[65]<\/a>:<\/li>\n<\/ol>\n<p>2.1. Correio do Povo, de Porto Alegre, de 04\/02\/1964 \u2013 17\/02\/1968:<\/p>\n<p>2.2. Jornal Zero Hora, de Porto Alegre, de 27\/04\/1970 \u2013 20\/08\/1978<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ol start=\"3\">\n<li>Arquivo do Centro de Estudos Migrat\u00f3rios Cristo-Rei:<\/li>\n<\/ol>\n<p>3.1.Jornal Sem-Terra, <em>Boletim Informativo da Campanha de Solidariedade aos Agricultores Sem-Terra<\/em> &#8211; 02\/1983<\/p>\n<p>3.2. Peri\u00f3dico do CEMCREI, Migra\u00e7\u00f5es Internas: Tend\u00eancias Nacionais e Regionais, 1978.<\/p>\n<p>3.3. Jornal Zero Hora, Porto Alegre, 07\\08\\1971.<\/p>\n<p>3.4. Peri\u00f3dico do CEMCREI, Realidade das Migra\u00e7\u00f5es na Regi\u00e3o Sul do Brasil, 1989.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ol start=\"4\">\n<li>IBGE- Dados gerais dos Censos Demogr\u00e1ficos de 1970 e 1980.<\/li>\n<\/ol>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ol start=\"5\">\n<li>Mapas:<\/li>\n<\/ol>\n<p>5.1. SIMIELLI, Maria Elena, Geoatlas, S\u00e3o Paulo, \u00c1tica, 2000.<\/p>\n<p>Vegeta\u00e7\u00e3o, pps. 86-87.<\/p>\n<p>Impactos ambientais, pp. 89.<\/p>\n<p>Migra\u00e7\u00e3o: (1950-1970; 1970-1990; d\u00e9cada de 90), pp. 97.<\/p>\n<p>5.2. SUDAM-BASA, Veja\/Exame, 1972, acervo da mapoteca da Biblioteca Municipal de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ol start=\"6\">\n<li>INCRA, Estatuto da Terra- Lei n\u00ba 4.504, 30 de novembro de 1964, extra\u00eddo da publica\u00e7\u00e3o \u201cCOLET\u00c2NIA\u201d- MEAF\/1983.<\/li>\n<\/ol>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ol start=\"7\">\n<li>ARRUDA, H\u00e9lio Palma (org.), INCRA, A Coloniza\u00e7\u00e3o no Brasil: Situa\u00e7\u00e3o Atual, Proje\u00e7\u00e3o e Tend\u00eancias em Rond\u00f4nia \u2013Folheto Informativo Apresentado ao Curso Superior de Guerra Naval da Escola de Guerra Naval, em Rond\u00f4nia \u2013 07\/1972.<\/li>\n<\/ol>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ol start=\"8\">\n<li>Contribui\u00e7\u00e3o da disciplina Geografia Regional Norte: Amaz\u00f4nia, ministrada pelo Professor Wanderley Messias da Costa, no segundo semestre de 2003 no Departamento de Geografia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ci\u00eancias Humanas da Universidade de S\u00e3o Paulo.<\/li>\n<\/ol>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ol start=\"9\">\n<li>Depoimentos e Entrevistas: seguem ao longo do texto, relatos de ga\u00fachos que vivem no Rio Grande do Sul, e ga\u00fachos migrados para a Amaz\u00f4nia Legal, al\u00e9m de depoimentos de pessoas relacionadas ao processo, que n\u00e3o sofreram-no diretamente.<\/li>\n<\/ol>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ol start=\"10\">\n<li>Fotografias \u2013 do Rio Grande do Sul e do Mato Grosso. Acervos da autora e de Luiz Erard\u00ed (MT).<\/li>\n<\/ol>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ol start=\"11\">\n<li>SILVA, Golbery do Couto e, Geopol\u00edtica do Brasil, Rio de Janeiro, Biblioteca do Ex\u00e9rcito, 1955.<\/li>\n<\/ol>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>BIBLIOGRAFIA:<\/p>\n<p><b><\/b>&nbsp; &lt;&gt;<\/p>\n<p>\u00c1VILA, Luiz Carlos, Hist\u00f3ria de Iju\u00ed Atrav\u00e9s da Imprensa, Colet\u00e2nia de Artigos do Correio Serrano e Jornal da Manh\u00e3, Iju\u00ed, 1984.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>CHAGAS, Valdecir, Hist\u00f3rico de Lucas do Rio Verde at\u00e9 os Dias de Hoje, Tupi Comunica\u00e7\u00f5es, Lucas do Rio Verde, TV Rio Verde, 01\/08\/2001.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>CORREIA, Valmir Batista, Coron\u00e9is e Bandidos no Mato Grosso, Campo Grande, ed. UFMS, 1995.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>DIAS, Elisia Aparecida, e BORTONCELLO, Odila, Resgate Hist\u00f3rico do Munic\u00edpio de Sorriso \u2013 \u201cPortal da Agricultura no Cerrado Mato-Grossense\u201d, Iju\u00ed, Ed. Uniju\u00ed, 2000.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>DUNKE, Ernesto Martins, Tese de Mestrado em Direito Agr\u00e1rio, Goi\u00e2nia, Ed. UFGO, 1997.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>ESTERCI, Neide, Conflito no Araguaia, pe\u00f5es e posseiros contra a grande empresa, Ed. Vozes, Rio de Janeiro, 1987.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>FERNANDES, Bernardo Man\u00e7ano, MST, Forma\u00e7\u00e3o e Territorializa\u00e7\u00e3o, S\u00e3o Paulo, Ed. Hucitec, 1996.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>FISCHER, Martin e Kunert, Pe. Augusto, Comunidade Evang\u00e9lica de Iju\u00ed \u2013 85 anos \u2013 1890-1980, Iju\u00ed, 1985.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>GUIMAR\u00c3ES, Alberto Passos, Quatro S\u00e9culos de Latif\u00fandio, S\u00e3o Paulo, Ed. Fulgor, 1963.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>HAESBAERT, Rog\u00e9rio, A No\u00e7\u00e3o de Rede Regional, e a Migra\u00e7\u00e3o Ga\u00facha no Brasil, <em>in:<\/em> O Fen\u00f4meno Migrat\u00f3rio no Limiar do Mil\u00eanio -desafios pastorais, Petr\u00f3pilis, Vozes, 1998<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>IOKOI, Zilda M\u00e1rcia Gr\u00edcoli, Igreja e Camponeses &#8211; teologia da liberta\u00e7\u00e3o e movimentos sociais no campo, Brasil e Peru, 1964-1986, S\u00e3o Paulo, Ed. Hucitec, 1996.<\/p>\n<p>______. O Brasil Atual e a Mundializa\u00e7\u00e3o, S\u00e3o Paulo, Edi\u00e7\u00f5es Loyola, 1997.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>MARTINS, Jos\u00e9 de Souza, N\u00e3o H\u00e1 Terra Para Plantar Neste Ver\u00e3o, Petr\u00f3polis, Ed. Vozes, 1986.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>MARTINEZ, Pedro Fernando Castro, Fronteras Abiertas -expansionismo e geopol\u00edtica em el Brasil contempor\u00e2neo, M\u00e9xico-Espanha-Argentina-Col\u00f4mbia, Ed. Siglo Ventiuno, 1980.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>MELLO, Leonel Itauss\u00fa, A Geopol\u00edtica do Brasil e a Bacia do Prata, Manaus, Ed.<\/p>\n<p>Universidade do Amazonas, 1997.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>NOGUEIRA, Adriano, O Sujeito Irreverente, Campinas, Papirus, 1993, pp. 100-102.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>OLIVEIRA, Ariovaldo Umbelino, Revista Orienta\u00e7\u00e3o, S\u00e3o Paulo, v. 5, pp. 94-95, 1985.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>_________. Amaz\u00f4nia, Monop\u00f3lio, Expropria\u00e7\u00e3o e Conflitos, Campinas, Ed. Papirus, Col. Educar Aprendendo, 1987.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>RIBEIRO, Iselda Corr\u00eaa, Pioneiros Ga\u00fachos, a Coloniza\u00e7\u00e3o do Norte Mato-Grossense, Porto Alegre, Ed. Tch\u00ea, 1987.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>SANTOS, Jos\u00e9 Vicente Tavares dos, Matuchos: Exclus\u00e3o e Luta -Do Sul para a Amaz\u00f4nia, Petr\u00f3polis, Ed. Vozes, 1993.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>SKIDMORE, Thomas, Brasil: de Castelo a Tancredo, Ed. Paz e Terra, Rio de Janeiro, 1989.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>SOARES, Mozart Pereira, Santo Antonio da Palmeira, Porto Alegre, ed. Bels, 1974.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>SOUZA, Edison Antonio, org. BARROZO, Jo\u00e3o Carlos, Sinop: Hist\u00f3ria, Imagens e Relatos \u2013 um estudo sobre a coloniza\u00e7\u00e3o de Sinop, Cuiab\u00e1, UFMT, 2001.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Tenente Portela 1955-1980. Publica\u00e7\u00e3o em homenagem ao jubileu de prata da emancipa\u00e7\u00e3o pol\u00edtico-administrativa do munic\u00edpio. Prefeitura municipal de Tenente Portela, 1983.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>WAGNER, Carlos, O Brasil de Bombachas, Porto Alegre, Ed. LP&amp;M, 1995.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>ZARTH, Paulo Afonso, Do Arcaico ao Moderno -o Rio Grande do Sul agr\u00e1rio do s\u00e9culo XIX, Iju\u00ed, Ed. Uniju\u00ed, 2002.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.klepsidra.net\/klepsidra25\/rs-mt.htm#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Idem, Pp.270-271.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.klepsidra.net\/klepsidra25\/rs-mt.htm#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Correio do Povo, Porto Alegre, 04\/02\/1964.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.klepsidra.net\/klepsidra25\/rs-mt.htm#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> IOK\u00d3I, Zilda M\u00e1rcia Gr\u00edcoli, Igreja e Camponeses, teologia da liberta\u00e7\u00e3o e movimentos sociais no campo, Brasil e Peru, 1964-1986, S\u00e3o Paulo, Hucitec, 1996. Pp. 81<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.klepsidra.net\/klepsidra25\/rs-mt.htm#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> CASALD\u00c1LIGA, D. Pedro, Apresenta\u00e7\u00e3o, <em>in:<\/em>RIBEIRO, Iselda Corr\u00eaa, Pioneiros Ga\u00fachos \u2013a coloniza\u00e7\u00e3o do norte matogrossense, Porto Alegre, Tch\u00ea, 1987, pp. 11.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.klepsidra.net\/klepsidra25\/rs-mt.htm#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> IOK\u00d3I. Pp. 69.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.klepsidra.net\/klepsidra25\/rs-mt.htm#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> Peri\u00f3dico do CEMCREI, Migra\u00e7\u00f5es Internas: Tend\u00eancias Nacionais e Regionais, 1978<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.klepsidra.net\/klepsidra25\/rs-mt.htm#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> Jornal Zero Hora, Porto Alegre, 12\\05\\81. Pp. 23 Apud: IOKOI. Pps. 79-80.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.klepsidra.net\/klepsidra25\/rs-mt.htm#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">[8]<\/a> <em>Sem-Terra, boleti n\u00ba 10, agosto de 1981Folha de S. Paulo, <\/em>17\/11\/81. Apud: IOKOI. Pp. 81.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.klepsidra.net\/klepsidra25\/rs-mt.htm#_ftnref9\" name=\"_ftn9\">[9]<\/a> IOKOI. Pps. 85-86.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.klepsidra.net\/klepsidra25\/rs-mt.htm#_ftnref10\" name=\"_ftn10\">[10]<\/a> Idem. Pp. 88.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.klepsidra.net\/klepsidra25\/rs-mt.htm#_ftnref11\" name=\"_ftn11\">[11]<\/a> Ibidem. Pp. 129.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.klepsidra.net\/klepsidra25\/rs-mt.htm#_ftnref12\" name=\"_ftn12\">[12]<\/a> Correio do Povo, Porto Alegre, 13\\12\\1967.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.klepsidra.net\/klepsidra25\/rs-mt.htm#_ftnref13\" name=\"_ftn13\">[13]<\/a> Correio do Povo, de Porto Alegre, de 04\/02\/1964 \u2013 17\/02\/1968<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.klepsidra.net\/klepsidra25\/rs-mt.htm#_ftnref14\" name=\"_ftn14\">[14]<\/a> Jornal Zero Hora, Porto Alegre, 27\/04\/1970 \u2013 20\/08\/1978<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.klepsidra.net\/klepsidra25\/rs-mt.htm#_ftnref15\" name=\"_ftn15\">[15]<\/a> Jornal Zero Hora, Porto Alegre, 07\/08\/1971- acervo CEMCREI<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.klepsidra.net\/klepsidra25\/rs-mt.htm#_ftnref16\" name=\"_ftn16\">[16]<\/a> Jornal Sem-Terra, <em>Boletim Informativo da Campanha de Solidariedade aos Agricultores Sem-Terra<\/em> \u2013 02\/1983<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.klepsidra.net\/klepsidra25\/rs-mt.htm#_ftnref17\" name=\"_ftn17\">[17]<\/a> Centro de Estudos Migrat\u00f3rios Cristo-Rei, Realidade das Migra\u00e7\u00f5es na Regi\u00e3o Sul do Brasil, Porto Alegre, 1989.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.klepsidra.net\/klepsidra25\/rs-mt.htm#_ftnref18\" name=\"_ftn18\">[18]<\/a> DUNKE, Roberto, Tese de Direito Agr\u00e1rio, UFGO, Goi\u00e2nia, 1997. Pp. 26.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.klepsidra.net\/klepsidra25\/rs-mt.htm#_ftnref19\" name=\"_ftn19\">[19]<\/a> OLIVEIRA, Ariovaldo Umbelino, Amaz\u00f4nia, monop\u00f3lio, expropria\u00e7\u00e3o e conflitos, Campinas, Papirus, col. Educar Aprendendo, 1987. Pp. 12.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.klepsidra.net\/klepsidra25\/rs-mt.htm#_ftnref20\" name=\"_ftn20\">[20]<\/a> IOKOI, Zilda M\u00e1rcia Gr\u00edcoli, Igreja e Camponeses, teologia da liberta\u00e7\u00e3o e movimentos sociais no campo, Brasil e Peru, 1964-1986, S\u00e3o Paulo, Hucitec, 1996. Pp. 129.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.klepsidra.net\/klepsidra25\/rs-mt.htm#_ftnref21\" name=\"_ftn21\">*<\/a> 1ha equivale a 10.000m\u00b2.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.klepsidra.net\/klepsidra25\/rs-mt.htm#_ftnref22\" name=\"_ftn22\">[21]<\/a> IOKOI, Zilda M\u00e1rcia Gr\u00edcoli, O Brasil Atual e a Mundializa\u00e7\u00e3o, S\u00e3o Paulo, Edi\u00e7\u00f5es Loyola, 1997, pp. 40.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.klepsidra.net\/klepsidra25\/rs-mt.htm#_ftnref23\" name=\"_ftn23\">[22]<\/a> OLIVEIRA, Ariovaldo Umbelino, Amaz\u00f4nia, monop\u00f3lio, expropria\u00e7\u00e3o e conflitos, Campinas, Papirus, col. Educar Aprendendo, 1987. Pp. 26.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.klepsidra.net\/klepsidra25\/rs-mt.htm#_ftnref24\" name=\"_ftn24\">[23]<\/a> IOKOI. Pp. 123<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.klepsidra.net\/klepsidra25\/rs-mt.htm#_ftnref25\" name=\"_ftn25\">[24]<\/a> OLIVEIRA. Pp. 100.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.klepsidra.net\/klepsidra25\/rs-mt.htm#_ftnref26\" name=\"_ftn26\">[25]<\/a> SANTOS, Pp. 197.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.klepsidra.net\/klepsidra25\/rs-mt.htm#_ftnref27\" name=\"_ftn27\">[26]<\/a> SANTOS, pp. 65.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.klepsidra.net\/klepsidra25\/rs-mt.htm#_ftnref28\" name=\"_ftn28\">[27]<\/a> SANTOS, pp. 66.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.klepsidra.net\/klepsidra25\/rs-mt.htm#_ftnref29\" name=\"_ftn29\">[28]<\/a> SANTOS, pp. 70.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.klepsidra.net\/klepsidra25\/rs-mt.htm#_ftnref30\" name=\"_ftn30\">[29]<\/a> JORNAL DA TERRA, Tenente Portela, n\u00ba 47, pp. 3 <em>in<\/em>: SANTOS, Op. Cit., pp. 71.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.klepsidra.net\/klepsidra25\/rs-mt.htm#_ftnref31\" name=\"_ftn31\">[30]<\/a> PREFEITURA MUNICIPAL DE TENENTE PORTELA. Tenente Portela (1955-1980), T.P., 1980, pp. 46, <em>in<\/em>: SANTOS, pp. 73.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.klepsidra.net\/klepsidra25\/rs-mt.htm#_ftnref32\" name=\"_ftn32\">[31]<\/a> SANTOS, J.V.T., pp. 80.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.klepsidra.net\/klepsidra25\/rs-mt.htm#_ftnref33\" name=\"_ftn33\">[32]<\/a> Idem, pp. 93.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.klepsidra.net\/klepsidra25\/rs-mt.htm#_ftnref34\" name=\"_ftn34\">[33]<\/a> SANTOS, Pp. 106.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.klepsidra.net\/klepsidra25\/rs-mt.htm#_ftnref35\" name=\"_ftn35\">[34]<\/a> SANTOS, pp. 122.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.klepsidra.net\/klepsidra25\/rs-mt.htm#_ftnref36\" name=\"_ftn36\">[35]<\/a> SANTOS, Pp. 127.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.klepsidra.net\/klepsidra25\/rs-mt.htm#_ftnref37\" name=\"_ftn37\">[36]<\/a> Ver o depoimento do Sr. \u00canio, de Tenente Portela, e SANTOS, pp. 143.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.klepsidra.net\/klepsidra25\/rs-mt.htm#_ftnref38\" name=\"_ftn38\">[37]<\/a> SANTOS, pps. 140-1.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.klepsidra.net\/klepsidra25\/rs-mt.htm#_ftnref39\" name=\"_ftn39\">[38]<\/a> Idem, Pp. 170.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.klepsidra.net\/klepsidra25\/rs-mt.htm#_ftnref40\" name=\"_ftn40\">[39]<\/a> DIAS, Elisia Aparecida, e BORTONCELLO, Odila, Resgate Hist\u00f3rico do Munic\u00edpio de Sorriso \u2013 \u201cPortal da Agricultura no Cerrado Mato-Grossense\u201d, p. 73.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.klepsidra.net\/klepsidra25\/rs-mt.htm#_ftnref41\" name=\"_ftn41\">[40]<\/a> DIAS, Pp. 81.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.klepsidra.net\/klepsidra25\/rs-mt.htm#_ftnref42\" name=\"_ftn42\">[41]<\/a> Idem, Pp. 86.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.klepsidra.net\/klepsidra25\/rs-mt.htm#_ftnref43\" name=\"_ftn43\">[42]<\/a> DIAS, Pp. 199.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.klepsidra.net\/klepsidra25\/rs-mt.htm#_ftnref44\" name=\"_ftn44\">[43]<\/a> Idem, Pp. 200.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.klepsidra.net\/klepsidra25\/rs-mt.htm#_ftnref45\" name=\"_ftn45\">[44]<\/a> Idem, Pp. 97.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.klepsidra.net\/klepsidra25\/rs-mt.htm#_ftnref46\" name=\"_ftn46\">[45]<\/a> Ibidem, Pp. 105.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.klepsidra.net\/klepsidra25\/rs-mt.htm#_ftnref47\" name=\"_ftn47\">[46]<\/a> DIAS, Pp. 110.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.klepsidra.net\/klepsidra25\/rs-mt.htm#_ftnref48\" name=\"_ftn48\">[47]<\/a> ZAVIASKY, P., Liturgia do Cargo, Di\u00e1rio de Cuiab\u00e1, 16\/10\/04. Frederico Campos era primo do General Dilermando Gomes Monteiro um cuiabano que era, na \u00e9poca, o Comandante do II\u00ba Ex\u00e9rcito sediado em S\u00e3o Paulo. Constava da lista para ser o Presidente da Rep\u00fablica no lugar de Geisel.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.klepsidra.net\/klepsidra25\/rs-mt.htm#_ftnref49\" name=\"_ftn49\">[48]<\/a> DIAS, pp. 113.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.klepsidra.net\/klepsidra25\/rs-mt.htm#_ftnref50\" name=\"_ftn50\">[49]<\/a> DIAS, Pps. 119-20.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.klepsidra.net\/klepsidra25\/rs-mt.htm#_ftnref51\" name=\"_ftn51\">*<\/a> WAGNER, Pps. 70-73.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.klepsidra.net\/klepsidra25\/rs-mt.htm#_ftnref52\" name=\"_ftn52\">[50]<\/a> ARRUDA, Z. A., Sinop: Territ\u00f3rio de M\u00faltiplas e Incompletas Reflex\u00f5es, UFP, Recife, 1997, p. 35 <em>in:<\/em> SOUZA, Edison Antonio, org. BARROZO, Jo\u00e3o Carlos, Sinop: Hist\u00f3ria, Imagens e Relatos \u2013 um estudo sobre a coloniza\u00e7\u00e3o de Sinop, Cuiab\u00e1, UFMT, 2001, Pp. 105-6.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.klepsidra.net\/klepsidra25\/rs-mt.htm#_ftnref53\" name=\"_ftn53\">[51]<\/a> SOUZA, Pp. 96.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.klepsidra.net\/klepsidra25\/rs-mt.htm#_ftnref54\" name=\"_ftn54\">[52]<\/a> Idem, Pp. 102.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.klepsidra.net\/klepsidra25\/rs-mt.htm#_ftnref55\" name=\"_ftn55\">[53]<\/a> ARRUDA, Pp. 36.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.klepsidra.net\/klepsidra25\/rs-mt.htm#_ftnref56\" name=\"_ftn56\">[54]<\/a> MIRANDA, A Coloniza\u00e7\u00e3o em Sinop. O Papel da Coloniza\u00e7\u00e3o Dirigida-expans\u00e3o da fronteira na Amaz\u00f4nia p. 51, UFRJ, 1990 <em>in:<\/em>SOUZA, p. 99.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.klepsidra.net\/klepsidra25\/rs-mt.htm#_ftnref57\" name=\"_ftn57\">*<\/a> WAGNER, Pp. 86.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.klepsidra.net\/klepsidra25\/rs-mt.htm#_ftnref58\" name=\"_ftn58\">[55]<\/a> CHAGAS, Valdecir, Hist\u00f3rico de Lucas do Rio Verde at\u00e9 os Dias de Hoje, Tupi Comunica\u00e7\u00f5es, TV Rio Verde, 01\/08\/2001.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.klepsidra.net\/klepsidra25\/rs-mt.htm#_ftnref59\" name=\"_ftn59\">[56]<\/a> Idem.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.klepsidra.net\/klepsidra25\/rs-mt.htm#_ftnref60\" name=\"_ftn60\">[57]<\/a> Jornal da Cotriju\u00ed \u2013 COTRIJORNAL, Iju\u00ed, de 07\/1973 a 05\/1974.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.klepsidra.net\/klepsidra25\/rs-mt.htm#_ftnref61\" name=\"_ftn61\">[58]<\/a> WAGNER, Pp. 17.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.klepsidra.net\/klepsidra25\/rs-mt.htm#_ftnref62\" name=\"_ftn62\">[59]<\/a> Primavera do Leste, Desenvolvimento e Qualidade de Vida em Primeiro Lugar. Prefeitura de Primavera do Leste. Gest\u00e3o 1997-2000. Gest\u00e3o \u00c9rico Pereira.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.klepsidra.net\/klepsidra25\/rs-mt.htm#_ftnref63\" name=\"_ftn63\">[60]<\/a> Primavera do Leste, Idem.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.klepsidra.net\/klepsidra25\/rs-mt.htm#_ftnref64\" name=\"_ftn64\">[61]<\/a> IBGE: Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica, censos demogr\u00e1ficos de 1970 e 1980.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.klepsidra.net\/klepsidra25\/rs-mt.htm#_ftnref65\" name=\"_ftn65\">*<\/a> WAGNER, Pp. 130.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.klepsidra.net\/klepsidra25\/rs-mt.htm#_ftnref66\" name=\"_ftn66\">[62]<\/a> Primavera do Leste, Desenvolvimento e Qualidade de Vida em Primeiro Lugar. Prefeitura de Primavera do Leste. Gest\u00e3o 1997-2000. Gest\u00e3o \u00c9rico Pereira.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.klepsidra.net\/klepsidra25\/rs-mt.htm#_ftnref67\" name=\"_ftn67\">[63]<\/a> Primavera do Leste, Idem.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.klepsidra.net\/klepsidra25\/rs-mt.htm#_ftnref68\" name=\"_ftn68\">*<\/a> WAGNER, Pp. 86.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.klepsidra.net\/klepsidra25\/rs-mt.htm#_ftnref69\" name=\"_ftn69\">*<\/a> WAGNER, Pps. 70-73.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.klepsidra.net\/klepsidra25\/rs-mt.htm#_ftnref70\" name=\"_ftn70\">[64]<\/a> <em>In: <\/em>SANTOS, Op. Cit., pp. 110. depoimento de um colono de Canarana.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.klepsidra.net\/klepsidra25\/rs-mt.htm#_ftnref71\" name=\"_ftn71\">[65]<\/a> A CPT foi fundada em 1975 com o objetivo de trabalhar em prol de trabalhadores expulsos da terra. Os artigos anteriores \u00e0 1975 foram doados por colecionadores.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A migra\u00e7\u00e3o dos trabalhadores ga\u00fachos para a Amaz\u00f4nia Legal (1970-1985) III &#8211; Os projetos de coloniza\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia e suas oposi\u00e7\u00f5es Larissa Kashina Rebello da Silva Bacharel e Licenciada em Hist\u00f3ria pela USP larissa@klepsidra.net APRESENTA\u00c7\u00c3O: Este \u00e9 a terceira e \u00faltima parte de um texto que procura abarcar a coloniza\u00e7\u00e3o de ga\u00fachos no norte do [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":767,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_import_markdown_pro_load_document_selector":0,"_import_markdown_pro_submit_text_textarea":"","two_page_speed":[],"_joinchat":[],"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[],"class_list":["post-473","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-chapada-dos-guimaraes"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/riodacasca.com.br\/wd\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/473","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/riodacasca.com.br\/wd\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/riodacasca.com.br\/wd\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/riodacasca.com.br\/wd\/wp-json\/wp\/v2\/users\/767"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/riodacasca.com.br\/wd\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=473"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/riodacasca.com.br\/wd\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/473\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2587,"href":"https:\/\/riodacasca.com.br\/wd\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/473\/revisions\/2587"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/riodacasca.com.br\/wd\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=473"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/riodacasca.com.br\/wd\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=473"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/riodacasca.com.br\/wd\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=473"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}