{"id":738,"date":"2017-05-03T10:32:39","date_gmt":"2017-05-03T14:32:39","guid":{"rendered":"http:\/\/riodacasca.com.br\/wd\/?p=738"},"modified":"2019-03-11T08:47:43","modified_gmt":"2019-03-11T12:47:43","slug":"grandeza-e-decadencia-da-serra-acima","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/riodacasca.com.br\/wd\/2017\/05\/03\/grandeza-e-decadencia-da-serra-acima\/","title":{"rendered":"GRANDEZA E DECADENCIA DA SERRA-ACIMA."},"content":{"rendered":"\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/riodacasca.com.br\/wd\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/image007-e1506000051829.gif\" alt=\"\" class=\"wp-image-689\"\/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<pre class=\"wp-block-preformatted\">JOS\u00c9 DE MESQUITA (Do Instituto Hist\u00f3rico de Mato Grosso) GRANDEZA E DECAD\u00caNCIA DA SERRA-ACIMA \n\nCuiab\u00e1 Revista do Instituto Hist\u00f3rico e Geogr\u00e1fico de Mato Grosso Anos XII e XIV N\u00fameros XXVII a XXVIII 1931 e 1932 JOS\u00c9 DE MESQUITA 2 \n\nJos\u00e9 Barnab\u00e9 de Mesquita (*10\/03\/1892 \u202022\/06\/1961) Cuiab\u00e1 - Mato Grosso Biblioteca Virtual Jos\u00e9 de Mesquita<\/pre>\n\n\n\n<p>Ao meu venerando amigo coronel Pedro Celestino I Quem quer que se proponha a estudar, \u00e1 luz dos methodos contempor\u00e2neos, a evolu\u00e7\u00e3o racial e o desenvolvimento social cuiabano, ou melhor do homem do norte de Matto-Grosso, de que somos hoje representantes, for\u00e7a lhe ser\u00e1 deter-se ante uma figura typica, que marca, por assim dizer, um estagio da nossa civiliza\u00e7\u00e3o: o \u201csenhor de engenho\u201d da Serra-Acima. Posto n\u00e3o constitu\u00eda uma cria\u00e7\u00e3o isolada do nosso meio, pois que se enquadra nos moldes dos seus similares, sobretudo do Nordeste, magnificamente estudados por Gilberto Freyre (1), o \u201csenhor do engenho\u201d mattogrossense possue caracter\u00edsticas suas, muito pr\u00f3prias, que as influencias mesol\u00f3gicas vincaram profunda e indelevelmente dos seus sulcos inconfund\u00edveis. Percorrendo-se hoje, ao passo ronceiro dos animaes de sella ou ao leve deslizar dos autos ligeiros, essa zona deserta e merenc\u00f3ria que as \u201ctaperas\u201d pontilham, aqui e acol\u00e1, dos seus vultos espectraes e silentes, o viajante sentir\u00e1 perpassar-lhe pelo esp\u00edrito o eco amortecido da vida de outros tempos e a dolorida repercuss\u00e3o de um assado estuante de anima\u00e7\u00e3o e de riqueza, de pompas e esplendor, que, por cerca de um s\u00e9culo, encheu de seus rumores essa regi\u00e3o hoje entregue \u00e1 paz desolada da morte ou esquecimento.<\/p>\n\n\n\n<p>Vest\u00edgios, a cada passo, da opul\u00eancia de antanho, nos acodem \u00e1s vistas: nos sobrad\u00f5es em ru\u00edna, que desapparecem, entre o mato que lhes encobre o terreiro, grimpalhes pelo muro e c\u00e1e-lhes do tecto, em extranhos cortinados de parasitas; nos \u201cengenhos\u201d parados, alguns reduzidos \u00e1s \u201ccertid\u00f5es\u201d de pedra, pittoresca maneira por que lhes d\u00e3o a conhecer os alicerces antigos; nas planta\u00e7\u00f5es de cafeeiros centen\u00e1rios, brilhando, ao sol planaltino, como a ostentar a sua resist\u00eancia e vigor; em todo esse conjuncto m\u00e1gico e sombrio de vida que se foi e teima, obstinada, em subsistir \u00e1 pr\u00f3pria ru\u00edna. . . Foi numa excurs\u00e3o desse g\u00eanero, vai por uma d\u00e9cada, que, armado o pouso r\u00fastico, em noite fria de julho, ao p\u00e9 do \u201ctaper\u00e3o\u201d solit\u00e1rio do engenho de S\u00e3o Jos\u00e9, cabeceiras do Rio Manso, me invadiu, obsidente e invenc\u00edvel, o desejo de escrever, algum dia, para os que vierem depois de n\u00f3s e j\u00e1 nem estes palimpsestos encontrarem \u2014 a epop\u00e9a da grandeza e decad\u00eancia da Serra-Acima. Reuni materiais, colligi dados, perquiri paciente e cuidadosamente os archivos, desgastei dias e dias sem desanimo, no rude e benedictino esfor\u00e7o de pedir a um morto que nos falasse de sua vida, e eis que, ao cabo, saem-me estas laudas escriptas ainda mais com o cora\u00e7\u00e3o do que com o c\u00e9rebro, norteadas pelo sentimento antes que pela raz\u00e3o, mas onde, seja como for, se encontrar\u00e1 de futuro, algum manadeiro, \u00ednfimo embora, para melhor e completo estudo do assumpto.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 que, em se tratando do passado a que nos ligam ecos de affectividade profunda, quase diria at\u00e1vica, difficil se torna guiar a penna pelo puro racioc\u00ednio, sem se impregnar de um pouco de romantismo. E, como bem exprimiu Afr\u00e2nio Peixoto, noutra ordem de id\u00e9as mas que se casa ao que vai dito: \u00abO romantismo n\u00e3o morreu. Todos os que amam e aspiram neste mundo, s\u00e3o rom\u00e2nticos.\u00bb II A mais antiga referencia que, em letra de f\u00f4rma, se nos depara \u00e1 Chapada, data de 1727, quer dizer menos de um decennio ap\u00f3s ao descobrimento das minas do Subtil. \u00c9 o capit\u00e3o Jo\u00e3o Antonio Cabral Camello que, nas noticias que d\u00e1 ao Revdo. P. Diogo Soares, allude a \u00abhum \u00fanico engenho existente no sitio onde chamam a Chapada\u00bb (2). Entretanto, Milliet de Saint Adolphe, em seu valioso \u201cDiccionario Geographico, Hist\u00f3rico e Descriptivo do Imp\u00e9rio de Brasil\u201d, traduc\u00e7\u00e3o de Caetano Lopes de Moura, (3) assim se refere \u00e1 povoa\u00e7\u00e3o serrana, cuja funda\u00e7\u00e3o fixa erroneamente em 1735: \u00abChapada de S. Anna \u2014 chamada tamb\u00e9m por vezes Chapada de Guimarens (sic). A mais antiga de todas as freguezias da prov\u00edncia de Matto Grosso, situada na garganta da serra de S\u00e3o Jer\u00f4nimo, 10 legoas a leste da cidade de Cuiab\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p>Um vieiro d\u2019ouro muito abundante que se descobriu em 1735 nestas montanhas fez que a ellas acodissem quase todos os aventureiros derramados pelas margens do Cuiab\u00e1. Edificou-se dentro de pouco tempo naqelle lugar uma igreja da invoca\u00e7\u00e3o de Santa Anna, que gozou das prerogativas de freguezia, primeiro que nenhuma das desta prov\u00edncia. Como a mina da serra de S\u00e3o Jer\u00f4nimo se fosse esgotando uma parte dos seus habitantes se entregar\u00e3o \u00e1 agricultura, e fizer\u00e3o grand\u00edssimos benef\u00edcios vendendo por alto pre\u00e7o o producto de suas lavras aos que se occupav\u00e3o exclusivamente nas minas. Consta esta freguezia de 4.000 habitantes.\u00bb<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 evidentemente um engano de Saint Millet quando \u00e1 funda\u00e7\u00e3o da Chapada. Os Chronistas da historia mattogrossense registam em 1735 a descoberta de ouro no ribeir\u00e3o Sant\u2019Anna, chapada do mesmo nome, no districto de Matto-Grosso (4). A homonymia das localidades \u2014 Chapada, Sant\u2019Anna \u2014 determinou no esp\u00edrito daquelle douto diccionarista a confus\u00e3o, que Francisco Ign\u00e1cio Ferreira, mais tarde, encampou e tem servido a justificar outros enganos semelhantes (5). A chapada, como povoado, deve a sua origem a aldea de \u00edndios fundada pelo 1\u00ba Governador, D. Antonio Rolim de Moura Tavares, em 1750, e entregue \u00e1 dire\u00e7\u00e3o do padre jesu\u00edta Estev\u00e3o de Castro. Luiz Pinto pos-lhe, em 1766, o nome de Santa Anna da Chapada de Guimar\u00e3es, levado pela \u00abmania de lusitanizar o Brasil, que ent\u00e3o vigorava\u00bb (6). Em 1775 foram mandados para a Miss\u00e3o muitos \u00edndios Chiquitos, segundo relata o mesmo Melga\u00e7o, que d\u00e1 a cria\u00e7\u00e3o da freguezia por alvar\u00e1 de setembro de 1814. Effectivamente traz data de 28 de setembro daquelle anno, o alvar\u00e1 da crea\u00e7\u00e3o da freguezia, sendo mais antigas do que ella a do Bom Jesus de Cuiab\u00e1 (1722), a de Matto-Grosso, da SS. Trindade (1733), a de Vila Maria (1799) e a de Diamantino (1811). A miss\u00e3o logo entrou em decl\u00ednio, com o afastamento do seu director, que o sectarismo pombalino sacrific\u00e1ra. Mas o germe ficou. O povoado veio a tornar-se o centro da vasta zona agr\u00edcola, disseminada pelos engenhos e s\u00edtios, pelos arredores, num vasto raio de l\u00e9guas, vindo a ser o grande celleiro da capital. No come\u00e7o do s\u00e9culo XIX, Luis d\u2019Alincourt se referia ao lugar de Guimar\u00e3es, como sendo aquelle \u00abonde existe o maior numero e melhores engenhos dos Cuyabanos\u00bb(7)<\/p>\n\n\n\n<p>E Hercules Florence que por l\u00e1 andou, no segundo quartel do s\u00e9culo passado, allude \u00e1 igreja a Chapada como \u00abguardadas as propor\u00e7\u00f5es, a mais rica de toda a prov\u00edncia em ornamenta\u00e7\u00e3o architectonica e em baixos relevos dourados\u00bb. (8) Ainda hoje, a quem visite o decadente povoado, impressionar\u00e3o, sem duvida, as propor\u00e7\u00f5es do vasto templo, como que deslocado naquelle villarejo, dando a id\u00e9a da sua grandeza extincta, de que \u00e9 \u00edndice expressivo. De como, nos fins do s\u00e9culo XVIII, j\u00e1 se desenvolvera a industria dos engenhos na Serra-Acima, temos flagrante depoimento na seguinte estat\u00edstica de 1796, publicada na serie dos \u201cDocumentos Interessantes para a Historia e Costumes de S\u00e3o Paulo\u201d, vol. 44:<\/p>\n\n\n\n<p>ENGENHOS DE ASSUCAR, RAPADURA E MELADO DISTRICTOS Fabricas Fabricas Escravos Grandes Pequenas Vila Maria \u2014 2 9 S. Pedro d\u2019El-Rei 1 11 49 Cocaes 3 8 68 Porto Geral p\u00aa baixo 4 7 96 Serra acima \u2014 2 10 Somma 11 38 300<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">ENGENHOS DE AGUARDENTE E MONJOLOS DE FARINHA DISTRICTOS<\/h4>\n\n\n\n<p>Engenhos Monjolos Canadas de Alqueires de Escravos aguardente farinhas Vila Maria 2 \u2014 150 600 59 S. Pedro d\u2019El-Rei 2 2 175 280 42 Cocaes 3 \u2014 24 500 66 Rio abaixo 5 \u2014 240 1.100 95 Rio acima 2 \u2014 180 \u2014 70 Serra acima 20 6 4030 16.400 728 Somma 34 6 5015 18.880 1.060 (8) Ver. I. H. e G. B., XXXVII<\/p>\n\n\n\n<p>Como se v\u00ea, s\u00f3 o districto de Serra-Acima possu\u00eda, em escravos e empregados nos engenhos de aguardente, mais do dobro do total dos outros districtos, sendo a sua produ\u00e7\u00e3o de aguardente e farinha igualmente superior, em avantajadas propor\u00e7\u00f5es, \u00e1 produc\u00e7\u00e3o global das demais zonas. T\u00e3o prospera era a industria que, em 1799, a Metr\u00f3pole tributou os engenhos de aguardente com um imposto de \u00bd oitava de ouro, para occorrer \u00e1s despesas com os estudantes mattogrossenses enviados a Portugal, a fim de continuar os seus estudos, aos quaes fixou uma pens\u00e3o annual de 110\u00a7000 (9).<br>\n<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">III<\/h4>\n\n\n\n<p>Uma estat\u00edstica dos engenhos da Serra-Acima, obedecendo quanto poss\u00edvel \u00e1 ordem chronologica, f\u00f4ra trabalho de grande alcance para a reconstitui\u00e7\u00e3o da Phase \u00e1urea, que foi, para essa regi\u00e3o, a primeira metade do s\u00e9culo XIX. Tentou-a, em ligeiro e interessante estudo, dedicado investigador do nosso passado Prof. Antonio Fernandes de Souza, auxiliado segundo declara, pelas informa\u00e7\u00f5es do major Paula Correa (10). Mas a men\u00e7\u00e3o ali feita de 49 engenhos n\u00e3o contem referencia alguma chronol\u00f3gica, que lhes permita estabelecer a maior ou menor antiguidade, alem de trazer repeti\u00e7\u00f5es, com differentes nomes dos propriet\u00e1rios, dos mesmos engenhos, como Burity, Rio da Casca, Gloria, Santo Antonio (mencionado tr\u00eas vezes, duas como da Fartura), Quilombo etc.<\/p>\n\n\n\n<p>Com os elementos que me ensejou o archivo ecclesi\u00e1stico, procurei organizar um censo dos engenhos mais antigos, cuja exist\u00eancia j\u00e1 se assignala nos fins do s\u00e9culo XVIII e come\u00e7os do XIX. S\u00e3o elles os do sargento-m\u00f3r Antonio da Silva Albuquerque (S\u00e3o Francisco Xavier), de Jos\u00e9 \u00c1lvares dos Santos, (Santo Antonio da Serra), de D. Maria Rodrigues Vilamendes, de D. Maria Theresa de Jesus, vi\u00fava de Francisco Corr\u00eaa da Costa, (Bom Jardim), de Paulo da Silva Coelho (Santo Antonio das Palmeiras da Lagoinha de Baixo), de Thomaz Felix de Aquino, (Itamb\u00e9), do capit\u00e3o-m\u00f3r Jos\u00e9 Corr\u00eaa dos Anjos, (Quilombo), do cap. Antonio Leite do Amaral Coutinho, do sargento-m\u00f3r Antonio Joaquim Moreira Serra, (Santo Antonio da Serra), de Valentim Martins da Cruz, de Manoel Rodrigues Tavares (S\u00e3o Rom\u00e3o), de Domingos Jos\u00e9 de Azevedo (Quilombo), de Joaquim da Silva Prado, (Burity), de Jo\u00e3o Baptista Ribeiro, (Santa B\u00e1rbara), de Jos\u00e9 Soares de Barros (no Rio da Casca).<\/p>\n\n\n\n<p>De 1820 em diante vamos encontrando referencias a outros engenhos, como sejam, os de Jos\u00e9 de Sampaio (Itacolomy), de Jeronymo Gomes Monteiro (Baguass\u00fa), vendido em 1835 a D. Maria Teresa Guimar\u00e3es e Silva (11), de Manoel Pereira da Silva Coelho (Abrilongo), de Jo\u00e3o Manoel Fernandes da Rocha, de Victoriano Jos\u00e9 do Couto, do Bom Successo, de Francisco Vieira de Azevedo (Nossa Senhora do Carmo), do P. Antonio Tavares Corr\u00eaa da Silva, da \u00c1gua Fria, de Jos\u00e9 de Lara Pinto (Campo Alegre, da Bigorna, do S\u00e3o Jos\u00e9, de Santo Antonio do Monte Alegre, da Ponte Alta, de Jo\u00e3o Fernandes de Mello (do Gloria), de Paulo Luis Barata (Barroca) e outros. Obedecendo ao esp\u00edrito religioso do tempo, cada engenho tinha seu orago a que se consagrava a capelinha, erigida sempre ao lado da fabrica e da \u201ccasa grande\u201d, dominando a senzala e as planta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando o nome do padroeiro n\u00e3o constitu\u00eda a pr\u00f3pria denomina\u00e7\u00e3o do estabelecimento \u2014 S. Rom\u00e3o, S. B\u00e1rbara \u2014 vinha anteposto \u00e1 designativa do local \u2014 S. Antonio das Palmeiras, S. Jo\u00e3o do Rio da Casca. Succedida, \u00e0s vezes, viver mais de um engenho com egual denomina\u00e7\u00e3o, oriunda da sua situa\u00e7\u00e3o \u00e1 margem do mesmo rio ou junto da mesma serra. Distinguiam-se, ent\u00e3o, pelos seus propriet\u00e1rios, ou por differencia\u00e7\u00f5es topographicas: Rio da Casca, dos Corres ou dos Borges, Lagoinha, de Cima ou de Baixo.<br>\n<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">IV<\/h4>\n\n\n\n<p>J\u00e1 em 1780 a Chapada constitu\u00eda um apreci\u00e1vel n\u00facleo de popula\u00e7\u00e3o, com v\u00e1rios engenhos em roda, quando o juiz de fora doutor Jos\u00e9 Carlos Pereira, em visita \u00e1 Miss\u00e3o de Sant\u2019Anna do sacramento, erigiu o templo que o chronista dos Annaes qualifica \u00abhuma famosa Igreja, coberta de telha, rebocada e cayada, com capella mor, sachristia e caza para o Parocho\u00bb (12). A lavoura se desenvolvera, n\u00e3o s\u00f3 a da canna de assucar, empregada no fabrico de aguardente, assucar, rapadura, mas a dos cereaes, e sobretudo a do feij\u00e3o e milho. A cria\u00e7\u00e3o de porcos \u2014 assignalada por Hercules Florence, nos come\u00e7os do s\u00e9culo XIX \u2014 era tamb\u00e9m grande. O bra\u00e7o escravo constitu\u00eda o elemento b\u00e1sico do trabalho. No recenseamento de 1829 apareceram v\u00e1rios senhores de engenhos, com men\u00e7\u00e3o de \u00abmorada no seu sitio da Chapada\u00bb e refer\u00eancia \u00e1 escravatura, or\u00e7ando algumas vezes por mais de 50.<\/p>\n\n\n\n<p>Florence, o chronista da expedi\u00e7\u00e3o Langsdorff, em 1827, nos tra\u00e7a dois curiosos pain\u00e9is da vida dos \u201cengenhos\u201d na sua fase \u00e1urea \u2014 do Burity e do Quilombo. Neste ultimo, houve minera\u00e7\u00e3o, e animada. Alem de Florence, que relata o caso do achado de um diamante de 6.000 gs., o minudente Luis d\u2019Alincourt, na sua Estat\u00edstica, diz: \u00abNo rio Quilombo, da serra da Chapada, aproveit\u00e3o alguns mineiros bons jornaes\u00bb (13). A leitura da curiosa mem\u00f3ria do s\u00e1bio, cuja vida Bourroul esmiu\u00e7ou, permitte-nos esbo\u00e7ar a largos tra\u00e7os, o ambiente de um \u201cengenho\u201d serrano, no primeiro quartel do s\u00e9culo passado, que foi precisamente o seu per\u00edodo de explendor.<\/p>\n\n\n\n<p>O \u201cengenho\u201d, propriamente dito, compunha-se da fabrica, com os seus compartimentos accessorios, alem do monjolo, o moinho de fub\u00e1, as tulhas e o paiol. Os \u201cengenhos\u201d mais importantes tinham olaria e alguns at\u00e9 serraria, para o apparelhamento de madeiras. Ao lado da fabrica e capella, a \u201ccasa grande\u201d, vasta e patriarchal, com seus c\u00f4modos enormes, para abrigar as fam\u00edlias quase sempre numerosas que se reuniam nas occasi\u00f5es das festas religiosas, dos anivers\u00e1rios ou no come\u00e7o da safra, sempre commemorando. Havia os compartimentos especialmente destinados aos hospedes, no que alias, se observava \u00e0 boa praxe da hospitalidade brasileira e em parte, o prudente conselho de Antonil, que, no come\u00e7o do s\u00e9culo de setecentos, inculcava aos senhores de engenhos: \u00abTer casa separada para os hospedes, he grande acerto; porque melhor se recebem e com menor estorvo da fam\u00edlia, e sem preju\u00edzo do recolhimento, que h\u00e3o de guardar as mulheres e as filhas, e mo\u00e7as do servi\u00e7o interior occupadas no apparelho do jantar e da ceia\u00bb (14). Ressuscita-se o ambiente austero das velhas casas brasileiras, com sua mob\u00edlia pesada, de jacarand\u00e1, suas caixas e arcas enormes, de couro tauxiado, ou de madeira, os orat\u00f3rios, a baixella prata, a lou\u00e7aria, as \u00abcamas de vento\u00bb, as commodas de Castella com gavetas marchetadas, os candelabros de prata velha para o sal\u00e3o e os candieiros de cobre, para o terreiro, o nos dias de \u00abbatuque\u00bb, \u2014 e tudo, enfim, que compunha e integrava um estagio social que j\u00e1 desappareceu inteiramente. As viagens eram feitas nos bangues, carregados por possantes escravos \u201cminas\u201d ou \u201ccongos\u201d, sendo pouco usada a \u201ccadeirinha\u201d, de que sobre-existe, entretanto, um specimem \u00fanico, digno de ser decantado por um outro Affonso Arinos, em poder do caprichoso antiqu\u00e1rio dr. Euphrasio Cunha.<\/p>\n\n\n\n<p>Vinham sempre os \u201csenhores de engenho\u201d passar na cidade as \u201cfestas\u201d da Semana-Santa e do Bom Jesus, coincidindo o inicio da moagem com o fim da primeira daquellas festas (quasi sempre Abril ou Maio) e o termino do servi\u00e7o do engenho com a aproxima\u00e7\u00e3o do Natal e Anno Bom. Estacionavam, dest\u2019arte, na cidade, justamente no per\u00edodo das \u201c\u00e1guas\u201d, o rigor da esta\u00e7\u00e3o chuvosa, em que o trabalho paralysava nos \u201cengenhos\u201d e, de resto, a vida, confinada ao trato da lavoura, dispensava boa parte dos escravos e aggregados.<br>\n<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">V<\/h4>\n\n\n\n<p>A import\u00e2ncia que, no seu per\u00edodo de esplendor, chegou a ganhar a zona serrana, afere-se, por um lado, atrav\u00e9s da sua situa\u00e7\u00e3o de grande emp\u00f3rio da Capital, como productora de g\u00eaneros de primeira necessidade e, por outro, pelo relevante papel desempenhado em nossa vida politica e social pelos grandes propriet\u00e1rios e \u201csenhores de engenho\u201d da Serra-Acima. Sem chegarem \u00e1quella phase em que \u00abo dom\u00ednio rural \u00e9 omniproductivo\u00bb e na qual aos donos de engenhos foi licito dizer \u00abnesta casa s\u00f3 se compram ferro, sal, p\u00f3lvora e chumbo\u00bb (15), os \u201cengenhos\u201d cuyabanos da Serra-Acima attingiram elevado grau de desenvolvimento e alguns delles podiam ser apontados como estabelecimentos modelares, de accordo com o que o progresso contempor\u00e2neo facultava \u00e1 actividade. Apezar de ser quase todo o trabalho feito pelo bra\u00e7o escravo, que era a \u00fanica e verdadeira machina agr\u00edcola do tempo, grande e not\u00e1vel foi \u00e0 vida desses estabelecimentos.<\/p>\n\n\n\n<p>Moutinho que, em 1868, visitou um engenho, o das Palmeiras, pertencente ao capit\u00e3o Jos\u00e9 Leite Pereira Gomes, assim se refere ao que ali observ\u00e1ra: \u00abA planta\u00e7\u00e3o consiste, como em todos os outros de serra-acima, em feij\u00e3o, canna, arroz, milho, etc., mais o rendimento maior \u00e9 o produzido pela venda de aguardente, que tem um consumo extraordin\u00e1rio na prov\u00edncia, raz\u00e3o do seu pre\u00e7o elevado, de que j\u00e1 falamos em um dos cap\u00edtulos deste livro. O assucar tamb\u00e9m ali se fabrica, e de boa qualidade. As moendas que servem para a moagem da canna s\u00e3o, na maior parte dos s\u00edtios, feitas de madeiras, com var\u00f5es puchados por mulas ou bois, que, no sitio de que tratamos, s\u00e3o substitu\u00eddos por grande roda movida por \u00e1gua. Quanto \u00e1 farinha \u00e9 feita, como sempre, por meio de monjolo ou moinho. A aguardente \u00e9 enviada ao mercado em barris feitos de pau de combar\u00fa, compondo-se apenas de duas aduelas solidamente ligadas por arcos de ferro, contendo cada um canada e meia de liquido (16).<\/p>\n\n\n\n<p>De par com as culturas mencionadas pelo auctor da \u201cNoticia sobre a Prov\u00edncia de Matto Grosso\u201d, floresceu, na Serra-Acima, a do caf\u00e9, que se aclima perfeitamente no altiplano mattogrossense. Em seu precioso livrinho \u201cA estrada de ferro para Matto-Grosso\u201d, o dr. Antonio Gon\u00e7alves e Carvalho assim se referia, em Maio de 1875, a respeito: \u00abDissemos que todos os districtos da Prov\u00edncia em geral produzem o caf\u00e9. Em particular, a Chapada (o grypho \u00e9 nosso) orgulha-se de sua aptid\u00e3o para essa proveitosa cultura.<\/p>\n\n\n\n<p>Ahi os cafeeiros crescem at\u00e9 acima de tr\u00eas metros, d\u00e3o regularmente mais de dez libras de producto e n\u00e3o raro uma arroba. Ainda existem os primeiros p\u00e9s plantados em t\u00e3o f\u00e9rtil solo: velhos, quanto \u00e1 edade, de mais de meio s\u00e9culo de exist\u00eancia, perdidos alguns no meio do matto que ao redor se desenvolveu, expostos ao estrago dos animaes, ostentam o mesmo vigor antigo, florescem e frutificam sempre\u00bb (17). Nesse mesmo interessante ensaio, allude o grande amigo de MattoGrosso ao plantio da batata ingleza \u00abque se aclimatou na Chapada\u00bb, e diz, como prevendo poss\u00edveis objec\u00e7\u00f5es \u00e1s suas assertivas: \u00abQue n\u00e3o ha exagera\u00e7\u00e3o no que escrevemos, maxim\u00e9 no tocante ao districto da Chapada (\u00e9 nosso o it\u00e1lico), dar\u00e1 fidedigno testemunho a Commiss\u00e3o de engenheiros, que ora se occupa com os estudos da via-f\u00e9rrea desta capital para esse districto.\u00bb \u00c9 ainda esse instructivo op\u00fasculo que nos d\u00e1 conta, em se referindo \u00e1 riqueza de Matto-Grosso em madeiras de construc\u00e7\u00e3o, de \u00abque o finado commendador Jo\u00e3o Jos\u00e9 de Siqueira, cidad\u00e3o amante do progresso da sua terra e que importantes noticias nos deu sobre ella, offereceu na \u00e9pocha da administra\u00e7\u00e3o do tamb\u00e9m finado conselheiro Ferreira Penna, para figurarem na Exposi\u00e7\u00e3o Nacional de 1864, assenta bellas amostras de differentes madeiras, tiradas do districto da Chapada, que l\u00e1 foram devidamente apreciadas\u00bb (18). N\u00e3o constituem um depoimento isolado e sem eco as palavras com que se refere \u00e1 Chapada o \u201cpoeta da Flor de Neve\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>A Commiss\u00e3o Cala\u00e7a, como ficou sendo conhecida, do nome do seu chefe Dr. Jos\u00e9 Gomes Cala\u00e7a, em relat\u00f3rio de 1876, \u2014 \u00e9 justamente aquella a que se refere o dr. Carvalho \u2014 assim se exprimiu acerca do districto chapadense, que estudou minuciosamente: \u00abNos sub\u00farbios da Chapada, que, como j\u00e1 fiz ver se acha num dos pontos mais elevados da serra, existem as melhores planta\u00e7\u00f5es de caf\u00e9 da prov\u00edncia; ahi a fertilidade torna maravilhosa, e o caf\u00e9 produz com tal abundancia, que pessoas do lugar, merecedoras de toda a confian\u00e7a, asseveram-me que, em um dos annos passados, em um s\u00f3 p\u00e9, colheu perto de uma arroba. Tive occasi\u00e3o de ver cafeeiros com mais de tr\u00eas metros de altura, dando ainda fructos, e que disseram-me ter mais de trinta annos\u00bb (19). Pimenta Bueno (F. A.) que, pouco depois, em 1879, percorreu parte de Matto-Grosso, no desempenho de importante Commiss\u00e3o do Minist\u00e9rio da Agricultura, corrobora dest\u2019arte com sua autoridade os conceitos anteriores: \u00abNo districto da Chapada e na serra de S\u00e3o Louren\u00e7o as terras s\u00e3o bastante f\u00e9rteis: o caf\u00e9 produz perfeitamente nessas alturas e tamb\u00e9m outros g\u00eaneros de cultura que se pode obter nas demais prov\u00edncias do Imp\u00e9rio . . .\u00bb (20).<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1876, \u2014 pouco antes de por ali passar o engenheiro illustre, filho do marquez de S\u00e3o Vicente, tamb\u00e9m ligado \u00e1 nossa Historia \u2014 colhiase, no Bomfim, sitio de Jos\u00e9 de Lara Pinto, a primeira partida de caf\u00e9 destinada \u00e1 venda no mercado publico de Cuyab\u00e1. Quem nol-o conta \u00e9 o douto ephemerista Estev\u00e3o de Mendon\u00e7a, que, ao depois de relatar o acolhimento favor\u00e1vel que teve o producto serrano, enviado, em amostra, para Londres, conclue: \u00abA cultura do cafeeiro, porem, apesar da assombrosa fertilidade das terras do districto da Chapada, encontra-se quasi extinta neste Estado\u00bb (21). VI A hegemonia da chapada, como emp\u00f3rio agr\u00edcola e industrial do Norte, vinha de longa data, e manteve-se durante o per\u00edodo de um s\u00e9culo, aproximadamente. A vida do campo estava confinada a estas duas actividades que se completavam e se integravam: a cultura da terra e o fabrico dos productos e sub-productos da canna de assucar. A esse estagio social \u00abvincularam-se \u2014 como bem accentua o moderno ensa\u00edsta Azevedo Amaral \u2014 a escravid\u00e3o e o predom\u00ednio social e pol\u00edtico dos propriet\u00e1rios territoriaes, que imprimiam cunho t\u00e3o peculiar \u00e1 vida do paiz\u00bb (22). Circumscripta a actividade rural aos engenhos, engenhocas ou \u201cfabricas\u201d, espalhados pelos arredores das cidades ou villas, bem \u00e9 de ver-se que uma fei\u00e7\u00e3o particular caracterizaria esse per\u00edodo, matizando o ambiente social e pol\u00edtico da \u00e9poca de suas tintas inconfund\u00edveis.<\/p>\n\n\n\n<p>Alfredo Brand\u00e3o, citado pelo douto Professor Bernardino de Souza, na \u201cOnom\u00e1stica Geral da Geographia Brasileira\u201d, nos d\u00e1, em um livro valios\u00edssimo, curiosa pintura da vida do engenho no Norte, offerecendo similitude, em v\u00e1rios pontos, com a dos nossos engenhos da Serra (23). Diversos eram os systemas de uso na prov\u00edncia \u2014 desde as moendas pequenas ou escaro\u00e7adores, com alambiques \u00abque formavam de tachos\u00bb, os engenhos a boi (parece n\u00e3o ter sido usado o cavallo como instrumento de trac\u00e7\u00e3o, a exemplo de outras zonas) at\u00e9 o \u201cengenho d\u2019\u00e1gua\u201d, que representava o maior gr\u00e3o de progresso no g\u00eanero (24), predecessor do engenho a vapor e das usinas de hoje. A quem se deve attribuir a primazia do cultivo e explora\u00e7\u00e3o da canna de assucar na Serra-Acima ? Virgilio Corr\u00eaa Filho confere ao brigadeiro Antonio de Almeida Lara a gloriosa dessa iniciativa (25).<\/p>\n\n\n\n<p>Effectivamente, parece haver sido o grande sertanista o introductor da canna em Cuyab\u00e1, segundo o affirma o tosco rhapsodo das nossas primeiras eras, Barbosa de S\u00e1, quando, na Rela\u00e7\u00e3o dos Povoados, narra, nas aphemerides do anno de 1728, que Lara, ap\u00f3s a partida do capit\u00e3o-general Rodrigo C\u00e9sar, preparou \u00abduas canoas de guerra, com outras de montaria, com escravos seus e alguns homens brancos, todos com boas armas, e fazendo isto \u00e1 sua custa os enviou a procurar as canas, com que fez o brigadeiro um bom quartel . . .\u00bb Jo\u00e3o Severiano que reproduz, em nota, esse t\u00f3pico do primeiro chronista cuyabano, presume ser a canna ind\u00edgena da prov\u00edncia, pelo facto de, pouco antes, o mesmo S\u00e1 se referir \u00e1 exist\u00eancia della \u00abpelos ser\u00f5es das vargens da habita\u00e7\u00e3o dos Guatoz, Xaco\u00e9res e outras\u00bb (26).<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o h\u00e1, entretanto, fonte segura que auctorize crer a tenha sido Lara o introductor da canna de assucar na Chapada, comquanto o pr\u00f3prio monographista das \u201cNotas \u00e1 margem\u201d, em uma das suas preciosas annota\u00e7\u00f5es \u00e1s Chronicas do Cuiab\u00e1 assevere haver Lara tido a Chapada por fazenda sua (27). V. Corr\u00eaa Filho deve ter-se baseado para fazer tal asserto nos linhagistas Pedro Tasques e Silva Leme, segundo os quaes o filho de Jo\u00e3o Raposo, figura de alta relev\u00e2ncia nas gestas de nossa Historia, possu\u00edra uma \u00abfazenda assaz populosa\u00bb na Chapada (28).<\/p>\n\n\n\n<p>Seria porem, na Chapada cuyabana, que, ao depois, veio a chamar-se de Guimarens ou na de Matto-Grosso, de fallaz homonymia, por ser tamb\u00e9m de Sant\u2019Anna, que levou Saint-Milliet a um deplor\u00e1vel engano, como j\u00e1 verificamos no inicio deste ensaio ?<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o vejo elementos que induzam a uma affirmativa assaz clara e fora de duvida. Por um lado, temos a presun\u00e7\u00e3o de se tratar da Chapada de Leste, por que os ANNAES de Cuyab\u00e1 contam que o ouvidor Lanhas se fora \u00abcom o brigadeiro Antonio de Almeida (Lara) para a chapada, por onde andou alguns tempoz em descobrimentoz de ouro e cassando perdizes\u00bb (29).<\/p>\n\n\n\n<p>Por outro, entretanto, for\u00e7a \u00e9 convir que Lara andou tamb\u00e9m pela chapada de Oeste, e a essa circumstancia allude o chronista de Villa Bella, Nogueira Coelho, nas ephemerides do anno 1736 (30). \u00c9 para notado ainda o facto de n\u00e3o constar na rela\u00e7\u00e3o das sesmarias concedidas em Matto-Grosso, nos annos de 1726 e seguintes, nenhuma de nome Chapada do Tte. Cel. Almeida Lara, cujo nome, alias, figura naquela valiosa separata do vol. XXVI da Revista I. H. e G. de S\u00e3o Paulo. Tr\u00eas sesmarias foram concedidas, com a denomina\u00e7\u00e3o de Chapada, uma ao ouvidor Lanhas Peixoto, a 27 de Novembro, outra a Gerv\u00e1sio Leite Rabelo, a 9 e outra ainda a Pl\u00e1cido de Moraes, a 12 de Dezembro de 1726, sendo que a segunda foi declarada sem effeito, por ser o concession\u00e1rio Secretario do Governador, o que diz bem alto da moralidade administrativas dessas eras distantes e t\u00e3o caluniadas (31).<\/p>\n\n\n\n<p>Lara, o grande sertanista, que desempenhou na phase colonial, quando nem siquer Capitania independente era Matto-Grosso, um papel de extraordin\u00e1ria sali\u00eancia, bem pode n\u00e3o ter sido o primeiro introductor da canna na Chapada, o patriarcha da incipiente industria sacharifera que tanto dinheiro canalizou para essa zona previlegiada da Serra-Acima, hoje entregue, com rara excep\u00e7\u00e3o, ao abandono e ao indifferentismo das administra\u00e7\u00f5es republicanas. Certo, porem, \u00e9 que a elle se deve a preced\u00eancia sobre qualquer outro plantio da canna no Norte de MattoGrosso. E isto s\u00f3 j\u00e1 lhe confere direito incontest\u00e1vel \u00e1 gratid\u00e3o dos posteros e ao culto dos que aprenderam a ler, nos pergaminhos do Passado, os actos dignos e nobres dos bem feitores da humanidade (32).<\/p>\n\n\n\n<p>Antonio de Almeida Lara, Brigadeiro e sargento-m\u00f3r das Minas do Cuiab\u00e1, descendia pelos 4 costados de illustres bandeirantes. Faleceu em Cuiab\u00e1, em 1742, sendo nesse mesmo anno inventariado, n\u00e3o em 1750, como por equivoco, affirma na nota referida V. Corr\u00eaa Filho.<br>\n<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">VII<\/h4>\n\n\n\n<p>Os \u00edndices demographicos da Chapada, comquanto falhos e calcados em documentos truncados e muitas vezes deficientes, permittem esbo\u00e7ar, em linhas geraes, o diagrama evolutivo da zona que faz objecto deste ensaio. O districto de Serra-Acima, que teve sua origem na miss\u00e3o da Aldeia Velha, em 1750, desenvolveu-se lentamente, atrav\u00e9s de crises de varias esp\u00e9cies, attingindo a phases de relativo progresso, como as que marcam o decennio de 1820 a 1830 e o inicio do terceiro quartel do s\u00e9culo XIX.<\/p>\n\n\n\n<p>Dos livros de assentamentos relativos \u00e1 freguezia de Sant\u2019Anna do Sacramento, que sobreexistem no archivo ecclesi\u00e1stico, pude colligir dados estat\u00edsticos que auctorizam a crer haja sido o per\u00edodo mediante entre 1850 e 1865 o do explendor e grandeza da Serra-Acima. Paciente trabalho de pesquiza nesses velhos c\u00f3dices, datantes os mais antigos do s\u00e9culo XVIII \u2014 o livro 1\u00ba de casamentos \u00e9 de 1798 \u2014 levaram-me a concluir com seguran\u00e7a que a Chapada teve nesse per\u00edodo o seu maior florescimento. O numero de baptismos que, na d\u00e9cada 1820-130, oscilara entre o m\u00ednimo de 6 (1830), e o maximo de 28 (1829), para descer na seguinte at\u00e9 1 (em 1833), e na de 1840-1850 conservar-se entre 8 (em 1846) e 24 (em 1841), eleva-se, a partir de 1854, aos seguintes algarismos significativos: 1854 &#8211; 50; 1855 &#8211; 49; 1856 &#8211; 43; 1857 &#8211; 38; 1858 &#8211; 22; 1859 &#8211; 58; 1860 &#8211; 31; 1861 &#8211; 34; 1862 &#8211; 54; 1863 &#8211; 36; 1864 &#8211; 24; 1865 &#8211; 40 e 1866 &#8211; 43. Os \u00f3bitos, por outro lado, que em 1827, n\u00e3o ultrapassavam de 12 e na d\u00e9cada de 1840 andavam entre 4 (1842) e 6 (1844), attingem em 1855 a 15, subindo progressivamente a 17, em 1856, 24, em 1859, 27 em 1863, 30 em 1865 e 32 em 1866, com curvas de pequena depress\u00e3o nos annos intermedi\u00e1rios. Quanto aos casamentos, offerece-nos o cotejo entre o primeiro e terceiro quartel do s\u00e9culo passado estas cifras expressivas \u2014 maximo em 1803, com 28 casamentos, sendo 12 de escravos e m\u00ednimo em 1804, com 6, dos quaes 4 de escravos (seria por ser o anno bissexto ?); \u2014 1810 a 1820: maximo em 1811, com 17, 6 dos quaes de captivos e m\u00ednimo em 1813 e 1819, com 8 cada anno, sendo no primeiro 6 de livres e 2 de escravos e no segundo 5 de livres e 3 de escravos; \u2014 1820 a 1830: maximo em 1824, com 25 casamentos e m\u00ednimo em 1830, com 2 apenas; de 1854 a 1866 com estes n\u00fameros: 1854 &#8211; 3; 1855 &#8211; 6; 1856 &#8211; 4; 1857 &#8211; 10; 1858 &#8211; 11, 1859 &#8211; 7; 1860 &#8211; 6; 1861 &#8211; 3; 1862 &#8211; 4; 1863 &#8211; 4; 1864 &#8211; 4; 1865 &#8211; 6 e 1866 &#8211; 2.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 preciso notar, quanto aos casamentos, que certo desequil\u00edbrio que se verifica na progress\u00e3o vai \u00e1 conta da circunstancia de muitos enlaces, sobretudo da fidalguia rural, se fazerem na cidade, o que se n\u00e3o d\u00e1, pelo menos com a mesma propor\u00e7\u00e3o, a respeito dos nascimentos e \u00f3bitos. Esses elementos se aliam e completam si os considerarmos tendo em vista outras fontes informativas, como, por exemplo, relat\u00f3rios da presid\u00eancia da prov\u00edncia, entre outros o do Bar\u00e3o de Melga\u00e7o, datado de 3 de maio de 1852, que d\u00e1 para a freguesia da chapada 136 votantes, quota bastante avultada e indicativa da vida e anima\u00e7\u00e3o daquella zona rural. J\u00e1 em 1869 \u2014 depois da \u201cvar\u00edola\u201d que devastou a prov\u00edncia (33) e no fim quasi da \u201cguerra do Lopez\u201d, um recenseamento feito pelo bispo D. Jos\u00e9 e mencionado por Moutinho arrolava 350 fogos, dentro do povoado, com 1600 moradores, 900 dos quaes escravos. Trez annos ap\u00f3s, o censo de 1872 accusava um total de 2611 habitantes em toda a Serra-Acima, assim distribu\u00eddos: homens \u2014 1358, dos quaes 416 escravos e mulheres \u2014 1253, das quaes 328 escravas. Pimenta Bueno, no seu trabalho j\u00e1 citado, d\u00e1, em 1879, um total de 2165 habitantes para o districto da Chapada, sendo 1092 do sexo masculino e 1073, do feminino, o que, mesmo representando uma linha decrescente, em rela\u00e7\u00e3o \u00e1s cifras anteriores, ainda collocava a Serra-Acima em n\u00edvel demographico, superior a Diamantino e Villa Bella e pouco inferior a Pocon\u00e9 e Guia (34). \u00c9, por sem duvida, a edade \u00e1urea da Serra-Acima, o seu per\u00edodo de esplendor, a assignalada d\u00e9cada e meia que vai de 1850 a 1865, aproximadamente. Os engenhos prosperam francamente. A introduc\u00e7\u00e3o de escravos avoluma-se. Novas estradas se abrem, rasgando, aqui e ali, fraldas escarpas e as penedias do grande massi\u00e7o central. \u00c9 a velha Bocaina que o commendador Jo\u00e3o Jos\u00e9 de Siqueira, senhor do \u201cBurity\u201d, adapta ao trafego, melhorando-lhe as condi\u00e7\u00f5es de actividade no \u201cPega-m\u00e3o\u201d e no \u201cTope de Fita\u201d; s\u00e3o as outras vias de penetra\u00e7\u00e3o e acesso, desde a do \u201cCapit\u00e3o Agostinho\u201d, na extrema sulina da Serra at\u00e9 a do \u201cQuebra-Gamella\u201d a mais septentrional, passando pela de \u201cManoel Antonio\u201d, do \u201cXavier\u201d, da \u201cRu\u00e7a\u201d (35) e do \u201cMagessi\u201d. Expande-se o dom\u00ednio rural dos \u201csenhores de engenho\u201d, numa penetra\u00e7\u00e3o ousada, devastando sert\u00f5es, levando as suas posses,&nbsp;numa arrancada her\u00f3ica, pelo planalto a dentro, num raio de dez e mais l\u00e9guas, cujo ponto de apoio e centro de irradia\u00e7\u00e3o ficou sendo o antigo arraial e aldeia mission\u00e1ria, j\u00e1 ent\u00e3o convertida em povoa\u00e7\u00e3o de Sant\u2019Anna da Chapada, centro nuclear da vida, da industria e da lavoura de toda a Serra-Acima. F\u00e1cil se torna enquadrar o phenomeno hist\u00f3rico do esplendor da Chapada, no per\u00edodo alludido, dentro da pr\u00f3pria evolu\u00e7\u00e3o politica da Prov\u00edncia e do Imp\u00e9rio de que esta fazia parte. Matto-Grosso, refeito das borrascas jacobinas em que estourara, como preia-mar irreprim\u00edvel, o motim sangrento de 1834, tinha entrado, justamente ao abrir-se a segunda metade do s\u00e9culo XIX, numa phase de acalmia e serenidade, de trabalho e de paz, synthetizada na politica moderada de um presidente como Leverger e na ac\u00e7\u00e3o constructora de um Delamare, de um Albino de Carvalho e de um Couto de Magalh\u00e3es.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa situa\u00e7\u00e3o manteve-se, inalterada, at\u00e9 o deflagrar de novos flagellos, como a guerra, em 1864, e a var\u00edola, em 1867. Fica assim esse per\u00edodo, entre 1850 e 1865, como um parenthesis de bonan\u00e7a, na vida tormentosa da infeliz prov\u00edncia, quasi sempre abandonada dos poderes centraes, e ainda hoje entregue \u00e1 sua pr\u00f3pria sorte nas mais duras e \u00e1rduas vicissitudes. Si volvermos, por outro lado, a vista para o quadro geral da situa\u00e7\u00e3o brasileira, certo nos convenceremos, sem dificuldade, de que o pa\u00eds atravessava, nesse per\u00edodo, uma dessas quadras de lento labor reconstructivo, com o advento do segundo reinado, inaugurada a chamada \u201cpolitica de concilia\u00e7\u00e3o\u201d do marquez de Paran\u00e1, fechado o cyclo das guerras intestinas, a ultima das quaes, a \u201crevolu\u00e7\u00e3o praieira\u201d, tivera justamente o seu remate em 1849. Abria-se para a na\u00e7\u00e3o aquella \u00ab\u00e9poca de renascimento, de expans\u00e3o, de recome\u00e7o, em que se renovou o antigo systema pol\u00edtico decr\u00e9pito, em que se creou o apparelho moderno de governo, e se dilatou extensivamente, n\u00e3o para a classe politica somente, para todas as classes, o horizonte que as comprimia\u00bb (36). Era, pois, o Brasil, a prov\u00edncia, o districto da Serra-Acima, num rythmo un\u00edssono, caminhando, a passadas seguras, para o progresso, na paz tranquilla em que se arrima o trabalho, se esteia a produc\u00e7\u00e3o e se consolidam as finan\u00e7as. Phase de auspiciosas esperan\u00e7as, mas, infelizmente, ephemera, pois n\u00e3o tardaria a estalar, como um raio em noite serena, a guerra externa, de que Matto-Grosso seria uma das primeiras victimas e, como sempre, das mais sacrificadas. (36) Joaquim Nabuco \u2014 Um estadista do Imp\u00e9rio, I, 176. JOS\u00c9 DE MESQUITA 18 VIII 1867 marca para o prospero districto da Serra-Acima o inicio fat\u00eddico da sua decad\u00eancia. J\u00e1 tr\u00eas annos antes o fantasma aterrador da guerra ermara s\u00edtios e engenhos, desorganizando profundamente o trabalho rural. Sobre um flagello \u2014 o da guerra \u2014 outro viera, mais cego e virulento na for\u00e7a inconsciente da sua expans\u00e3o \u2014 a peste. A extens\u00e3o e intensidade do surto epid\u00eamico das \u201cbexigas\u201d na zona Norte da prov\u00edncia s\u00e3o assaz conhecidas. N\u00e3o havia poupar-se na l\u00fagubre trag\u00e9dia, que enluctou talvez 90% dos lares cuyabanos, a florescente povoa\u00e7\u00e3o Planaltina. A esses revezes, outros viriam accrescentar-se, conjugados mallignamente na tarefa de precipitar o decl\u00ednio da formosa regi\u00e3o serrana. Entre os factores prec\u00edpuos da decad\u00eancia da Serra-Acima um avulta, que escapou \u00e1 perspic\u00e1cia do nosso historiographo V. Corr\u00eaa Filho quando em seu \u201cMatto-Grosso\u201d, obra de cabeceira para quantos se dediquem aos estudos das cousas de nossa terra \u2014 apontou como causa \u00fanica do degresso da Chapada \u00aba extin\u00e7\u00e3o do bra\u00e7o escravo, que apparentemente compensava, pela sua barateza, as difficuldades de transportes, serra acima\u00bb (37). Referimo-nos \u00e1s incurs\u00f5es dos \u00edndios, cujos ataques, sobretudo no decennio anterior a 1880, chegaram quase \u00e1s portas da pr\u00f3pria Chapada. Documentos coevos nos auctorizam a reconstituir o ambiente de terror criado por essas aggress\u00f5es freq\u00fcentes, de dram\u00e1tico desfecho muitas vezes. A aboli\u00e7\u00e3o veiu apenas desferir o gole de miseric\u00f3rdia, accelerar o collapso, que uma lenta agonia de cerca de 12 annos vinha processando. Como \u00e9 sabido e familiar a quem se dedique \u00e1 investiga\u00e7\u00e3o do nosso passado, data de 1886, no governo de Galdino Pimentel, a primeira tentativa bem organizada de catechese dos coroados que infestavam o altiplano, desde as cercanias da Chapada at\u00e9 o alto sert\u00e3o, constituindo-se tem\u00edvel perigo para os viajantes e tropas que demandavam o Rio Grande (hoje Registro do Araguaya), a caminho da Corte. A situa\u00e7\u00e3o anterior fica delineada em synthese expressiva nas seguintes palavras de Jo\u00e3o Augusto Caldas, que, em interessante e pouco divulgada monographia, se occupou do assumpto: \u00abCome\u00e7aram com freq\u00fcentes correrias em repres\u00e1lia; e foi tal a ousadia com que as praticavam que n\u00e3o escapou dellas os s\u00edtios mais pr\u00f3ximos da capital. O desanimo foi geral: lavradores houve que perderam a fam\u00edlia toda; seus bens n\u00e3o tinham seguran\u00e7a; suas casas eram incendiadas; tudo abandonavam e iam&nbsp;procurar abrigo nos lugares povoados\u00bb (38).<\/p>\n\n\n\n<p>De longa data vinham as depreda\u00e7\u00f5es dos selvagens na regi\u00e3o Planaltina, podendo-se dizer que ellas foram assumindo, num crescendo espantoso, propor\u00e7\u00f5es taes que se constitu\u00edram, alfim, verdadeiro terror e angustia permanente para os habitantes da zona. J\u00e1 em 1857, o \u201cNoticiador Cuiabano\u201d assim se exprimia com rela\u00e7\u00e3o ao assumpto: \u00abApezar dessa fertilidade, a lavoura definha consideravelmente. As fabricas desapparecem e o excessivo pre\u00e7o dos escravos \u00e9 uma barreira aos que pretendem estabelecimentos agr\u00edcolas. Por uma parte as hordas selvagens que em pilhagem accometem os lavradores destitu\u00eddos de for\u00e7as e recursos de afugental-os para o interior das matas, destruindo as ro\u00e7as \u2014 incendiando os pr\u00e9dios, matando os escravos e trabalhadores . . . (39). O mesmo jornal, dois annos ap\u00f3s, aludia, em seu artigo de fundo \u201cA actualidade\u201d, \u00e1s \u201cfabricas\u201d \u00abcercadas de ind\u00edgenas, que acomettem a vida dos escravos (hoje t\u00e3o caros) e a dos propriet\u00e1rios e suas fam\u00edlias sujeitos ao excessivo pre\u00e7o das bestas, \u00fanicos vehiculos de conduc\u00e7\u00e3o, e nestes \u00faltimos tempos t\u00e3o extraordinariamente conducentes a prejudicar os fazendeiros, em raz\u00e3o da peste cadeira, que a\u00e7outa tudo, tudo desacoro\u00e7oa\u00bb 40). Aponta a referida folha ainda, como concousas do esmorecimento da vida rural na Serra-Acima, a aggrava\u00e7\u00e3o dos impostos e o pavor do recrutamento aberto, que determinavam \u00abreceios dos camaradas em descerem dos s\u00edtios\u00bb, adiantando que a presid\u00eancia ordenara \u00e1 policia fizesse \u00absoltar immediatamente toda pessoa, que for presa para recruta, uma vez que tenha vindo em canoa ou com carregamento de g\u00eaneros aliment\u00edcios\u00bb (41). A Situa\u00e7\u00e3o vai se engravecendo a partir de 1866, com o \u00eaxodo occasionado pela guerra e pela var\u00edola, rarificando os n\u00facleos de popula\u00e7\u00e3o campesina e tornando, des\u2019arte, menos efficaz a resist\u00eancia e, conseq\u00fcentemente, mais amiudados e ousados os assaltos. Em 1879 o presidente Jo\u00e3o Jos\u00e9 Pedrosa no seu relat\u00f3rio \u00e1 Assembl\u00e9a diz haver-lhe officiado, a 4 de fevereiro desse anno, o chefe de policia \u00abparticipando que os \u00edndios, em numero de 200 a 300, aproximav\u00e3o-se da freguesia da Chapada\u00bb e, pouco adiante, transcreve um outro officio da mesma autoridade, que era ent\u00e3o o dr. Milciades Augusto de Azevedo Pedra, em que se l\u00eaem as seguintes palavras bastante expressivas para memorar o estado da zona sacrificada: \u00abCom especialidade a Comarca desta Capital, a mais populosa e rica, \u00e9 a que tem sido e continua a ser a mais vexada; porquanto quasi a um s\u00f3 tempo tem sido assaltada, pelo norte \u2014 na Chapada \u2014 pelo nascente \u2014 no Aric\u00e1 \u2014 e pelo poente \u2014 na Guia, \u2014 de modo que quasi podemos dizer que nos achamos em estado de sitio\u00bb (42). \u00c9 ainda o mesmo dr. Pedra que, no officio referido, narra um ataque dos \u00edndios no lugar chamado \u201cSoberbo\u201d, a 15 l\u00e9guas da Capital, sendo mortas 8 pessoas e allude a uma communica\u00e7\u00e3o do sub-delegado da Chapada de haver mais \u00ab17 victimas a lamentar, inclusive uma gravemente ferida.\u00bb \u201cO Povo\u201d, de Jos\u00e9 Maria Velasco, ainda nesse anno de 1879, noticia, em correspond\u00eancia da Chapada, que os \u00edndios coroados se achavam \u00abestacionados em grande numero nas immedia\u00e7\u00f5es dessa Freguezia cujos habitantes amea\u00e7avam\u00bb, tendo chegado a aggredir o dono do engenho \u201cAbrilongo\u201d, Francisco Correa da Costa (43). Pouco depois de 1881, j\u00e1 na d\u00e9cada abolicionista, \u201cA Prov\u00edncia de Matto Grosso\u201d d\u00e1 conta das medidas tomadas pelo Governo abrindo um credito de 25:000\u00a7000 para a organiza\u00e7\u00e3o de uma for\u00e7a de 50 homens, sob commando de Generoso Alves Correa, senhor do engenho do \u201cRio da Casca\u201d, \u00abpata bater as partidas e ir at\u00e9 as malocas dos selvagens com o mesmo fim\u00bb (44). Pouco ap\u00f3s, em 1882, lemos n\u2019\u201dA locomotiva\u201d, numa curiosa descrip\u00e7\u00e3o das \u201cfestas da Chapada\u201d, este t\u00f3pico indicativo do estado de animo reinante: \u00abE ao passo que a popula\u00e7\u00e3o rar\u00eaa procurando abrigar-se nos centros populosos, affugentadas pelos abor\u00edgines que infest\u00e3o as suas paragens, onde fazem constantemente os mais hediondos mortic\u00ednios, enfraquecendo assim a lavoura, \u2014 a Igreja campeia altiva e sombranceira no centro daquela plan\u00edcie immensa . . .\u00bb<\/p>\n\n\n\n<p>(45). \u201cA Brisa\u201d, em 1884, dizendo que \u00abn\u00e3o ha lugar algum da serra acima e ser\u00e1 abaixo, at\u00e9 as adjac\u00eancias desta cidade, que n\u00e3o tenha sido atacado!\u00bb (46) e \u201cO Expectador\u201d, em 1886, fazendo no seu editorial, \u201cOs Selvagens\u201d doloroso e flagrante appello ao governador sobre alarmante situa\u00e7\u00e3o criada pelas \u00abincessantes correrias dos selvagens, cuja ousadia recrudesce e assume propor\u00e7\u00f5es assustadoras\u00bb (47) \u2014 s\u00e3o tantos depoimentos fidedignos a nos convencer da deplor\u00e1vel situa\u00e7\u00e3o daquella \u00e9poca, que a expedi\u00e7\u00e3o Duarte veiu attenuar, posto n\u00e3o a solucionasse de todo em todo.<\/p>\n\n\n\n<p>Mais eloq\u00fcentes, entretanto, que as noticias dos peri\u00f3dicos locaes, se nos antolham, pela sua fidelidade e precis\u00e3o, os assentamentos de \u00f3bitos da freguezia, nos quaes os vig\u00e1rios, com rara minudencia, inseriam as particularidades que cercavam os fallecimentos. Assim \u00e9 que, para n\u00e3o alongar de muito este capitulo, citaremos os ataques do \u201ccoroados\u201d a 11 de agosto de 1875 no sitio \u201cOlhos d\u2019\u00c1gua\u201d, matando Manoel Pereira Borges; a 19 do mesmo m\u00eas e anno, no \u201cQuilombo\u201d, trucidando a africana Theresa Pereira da Silva e outra escrava de nome Rita; a 27 de janeiro de 1877, na Bocaina, em que foi morto Manoel Victal, filho de Maria Gouveya; a 21 de junho desse anno, nos \u201cOlhos d\u2019\u00c1gua\u201d, meia l\u00e9gua distante da sede da freguezia, em que pereceram \u00abassassinados barbaramente pelos \u00edndios\u00bb a referida Maria Gouveya, solteira, de 43 anos, Maria da Concei\u00e7\u00e3o, solteira de 14 annos e Manoel do Nascimento, solteiro, de 80 annos; e, finalmente a 18 de abril de 1878, no \u201cengenho do Burity\u201d, sucumbindo a uma flechada, na horta, o escravo Felippe (48).<\/p>\n\n\n\n<p>Souza Lobo, em um interessante livro \u201cS\u00e3o Paulo na Federa\u00e7\u00e3o\u201d assim se externou, com muita felicidade, acerca da extinc\u00e7\u00e3o do trabalho servil em nosso pa\u00eds: \u00abA aboli\u00e7\u00e3o dos escravos foi mais um problema sentido que raciocinado.\u00bb. Delle \u00e9 tamb\u00e9m este incisivo conceito: \u00abLibertos os escravos, o trabalho nacional,de chofre, desabou\u00bb (49). Si, em outras zonas, a esse desmoronamento foi, pouco a pouco, se seguindo o trabalho lento de reconstrucc\u00e3o, com elementos extranhos, n\u00e3o assim na prov\u00edncia de Matto-Gosso, e sobretudo na regi\u00e3o serrana, cujo afastamento, al\u00e9m das condi\u00e7\u00f5es peculiares da vida, n\u00e3o permittiu a substitui\u00e7\u00e3o do bra\u00e7o escravo pelo bra\u00e7o livre, que viesse reavivar as industrias e a lavoura feridas de morte com a aboli\u00e7\u00e3o. A situa\u00e7\u00e3o da Serra-Acima era, depois da guerra, a que ficou esbo\u00e7ada no ultimo capitulo, de terror, de desanimo, de deperecimento, diante dos assaltos cont\u00ednuos dos ind\u00edgenas, das difficuldades de transporte, do aggravamento dos impostos e encarecimento dos escravos e dos animaes de trac\u00e7\u00e3o e carga, quando, de s\u00fabito, a noticia da lei \u00e1urea caiu como uma granada sobre um arraial j\u00e1 quasi deserto, naquella meia-vida a que se reduzira o tumulto e a anima\u00e7\u00e3o dos velhos \u201cengenhos\u201d. Era a estase final, ap\u00f3s dura e prolongada agonia. Percebem-se naquelles rinc\u00f5es solit\u00e1rios, como Euclydes da Cunha visionava no Valle do Parahyba, victima do mesmo phenomeno hist\u00f3rico, \u00abna calada dos ermos, todas as sombras de um povo que morreu, errantes, sobre uma natureza em ru\u00ednas\u00bb (50).<\/p>\n\n\n\n<p>Colhi, na ultima excurs\u00e3o que fiz pela Chapada, em Dezembro, impress\u00f5es curiosas acerca do desfecho dram\u00e1tico da campanha abolicionista nas propriedades da Serra-Acima. Engenhos e fabricas houve que se ermaram do dia para a noite, mal apenas a noticia, transmitida por mensageiros interessados, ech\u00f4ou, alvissareiramente, pela plan\u00edcie serrana, como um \u00abhallali\u00bb de liberdade e de victoria para os infelizes captivos e, ao mesmo tempo, como o \u00abdies ir\u00e6\u00bb doloroso para os \u201csenhores\u201d que se viam, de repente, empobrecidos e defraudados no maior acervo dos seus haveres.<\/p>\n\n\n\n<p>No Rio da Casca, \u201cengenho\u201d de Generoso Alves Corr\u00eaa, festejava-se o casamento de sua filha Umbelina com Jo\u00e3o Ludgero de Siqueira, filho do Com. Jo\u00e3o Jos\u00e9 de Siqueira (j\u00e1 ent\u00e3o fallecido) e um dos cond\u00f4minos do \u201cBurity\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma festa ruidosa, eis que se tratava da allian\u00e7a de duas importantes fam\u00edlias serranas, de \u201csenhores de engenhos\u201d, vale dizer da aristocracia rural da \u00e9poca. Afflluiram \u00e1 propriedade moradores dos arredores e parentes dos noivos. Era ao inicio da moagem, a \u00e9poca alegre dos \u201cengenhos\u201d, rumorosa e trepidante, que evoca o barulho das rodas d\u2019\u00e1gua, o mon\u00f3tono canto-ch\u00e3o dos monjolos, a cantilena dos escravos no cannavial, que o sol do inverno redoura, e o aroma dulc\u00edssimo do mel, a encher os ares circumdantes de sua deliciosa e ennervante poesia. . . Depois do per\u00edodo de \u00abfogo morto\u00bb, que \u00e9 o que vai de Outubro a Abril, em que s\u00f3 a terra trabalha, no lento labor de sua gesta\u00e7\u00e3o, e o \u201cengenho\u201d dorme, parado e silencioso, \u00e1 espera da nova \u201csafra\u201d, exsurge, com os primeiros frios da \u201cSanta Cruz\u201d, a vida, a anima\u00e7\u00e3o, o ru\u00eddo da moenda, a azafama alegre do trabalho. Era pouco depois do S\u00e3o Jo\u00e3o e, no terreiro grande,ardiam ainda, no brasido, as fogueiras votivas com que a cren\u00e7a ing\u00eanua do povo festeja o Baptista. Estava marcada para 28 de Junho a festa das bodas, j\u00e1 havendo chegado, alem do vig\u00e1rio, o P. Jo\u00e3o Xavier, as testemunhas, Jo\u00e3o Augusto de Siqueira e Joaquim Sulpicio de Cerqueira Caldas \u2014 irm\u00e3o e cunhado do noivo \u2014 e grande numero de parentes, amigos e vizinhos. No dia marcado celebrou-se, com suggestiva belleza do ritual catholico, o enlace do Jo\u00e3o e Umbelina. A boda continuava, porem, como de praxe, ainda por alguns dias, at\u00e9 que se retirassem os rec\u00e9mcasados e os convivas. E a alegria, o prazer, a anima\u00e7\u00e3o reinava ainda no \u201cengenho\u201d, interrompido o labor num parenthesis festivo, entre a sanfona do sal\u00e3o e a viloa r\u00fastica do \u201csiriri\u201d, quando, ao longo chiar das rodas cantadeiras, um carro de boi entra pelo terreiro do \u201cengenho\u201d, trazendo noticias da cidade, donde provinha. E, como um raio que estalasse em noite serena, corre numa entremescla de sorpresa, prazer e m\u00e1goa, a nova de que \u00abj\u00e1 n\u00e3o havia escravos no Brasil\u00bb. Comquanto muito intensa andasse na prov\u00edncia a campanha redemptora, a aboli\u00e7\u00e3o immediata e sem restric\u00e7\u00f5es sorprehendeu grandemente n\u00e3o s\u00f3 aos senhores de escravos \u2014 que viam desapparecer na voragem de um decreto imperial quase toda a sua riqueza, como os pr\u00f3prios captivos, prezas que ficaram de verdadeira desorienta\u00e7\u00e3o ante a liberdade total e imprevista. No \u201cRio da Casca\u201d ficaram apenas tr\u00eas escravos. Nem houve prender aos outros com a continua\u00e7\u00e3o da festa: foram sahindo, sem mais, num alvoro\u00e7o de ave que se desengaiola, tonta de luz e \u00e9bria da liberdade de voar. Epilogava-se assim, num ambiente de tristeza, aquella festa, entre rumor e risos iniciada.<\/p>\n\n\n\n<p>Testemunha ocular desse evento significativo contou-me que D. Deolinda, esposa do senhor do \u201cRio da Casca\u201d, chorava, ao ter, de chofre, a noticia. Um desnorteio completo, uma debandada em regra, tumultu\u00e1ria e c\u00e9lere. No \u201cBurity\u201d, quando chegaram os noivos, \u2014 que se casaram ricos e accordaram pobres, como num sonho \u2014 a mesma desola\u00e7\u00e3o, a mesma impress\u00e3o de abandono. De mais de uma trintena de escravos que existiam no \u201cengenho\u201d dos Siqueiras restava uma meia d\u00fazia, si tanto, de inv\u00e1lidos, que n\u00e3o viam mais pre\u00e7o em ser livres e um ou outro cuja dedica\u00e7\u00e3o aos donos se sobrepunha heroicamente ao pr\u00f3prio sentimento nativo de independ\u00eancia. O mesmo quadro, com pequenas variantes, nos demais \u201cengenhos\u201d e s\u00edtios. A \u201cSerra-Acima\u201d recebia o ultimo golpe, o ferimento mortal incicatriz\u00e1vel, pelo qual se lhe escoariam as derradeiras energias morrentes. Os escravos, ao env\u00e9s dos que \u00abfugindo ao captiveiro\u00bb, no lindo poemeto de Vicente de Carvalho, rumaram \u00e1s \u00abcollinas azues do Jabaquara\u00bb, procuravam, procuravam, agora que ningu\u00e9m os detinha, a baixada propicia, rumo \u00e1 cidade que os attrahia com vida livre e sem peias, longe da disciplina do trabalho rural a que se viam at\u00e9 pouco manietados. Era um \u00eaxodo geral e completo; era o irrepar\u00e1vel fracasso da industria assucareira e da lavoura na Chapada, desprovida, dess\u2019arte de bra\u00e7os, sem possibilidade de substituir no momento pelo bra\u00e7o JOS\u00c9 DE MESQUITA 24 livre ou pela machina; era, emfim, o cyclo da decad\u00eancia que se precipitava num desfecho doloroso, ap\u00f3s o lento processus de duas d\u00e9cadas de agonia. Ouvia, entre curioso e commovido, a narra\u00e7\u00e3o do episodio das n\u00fapcias no \u201cRio da Casca\u201d e, sem que o sentisse, a lembran\u00e7a me trazia \u00e1 mente aquelle passo do \u201cNatalia\u201d de Alberto de Oliveira, em que o m\u00e1gico evocador e colorista de nossa vida rural pinta, em tercetos admir\u00e1veis, a debandada dos escravos da fazenda \u201cEsperan\u00e7a\u201d, ap\u00f3s o 13 de Maio.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00e3o versos \u2014 mas n\u00e3o destoam, por muito verdadeiros no desenho, de um bosquejo hist\u00f3rico, antes como que lhe empresta, com sua delicadeza e gracialidade musical, um encanto que doutra forma jamais teria este ensaio. Fechemos, pois, este capitulo, que se poderia chamar o da desesperan\u00e7a e morte dos \u201cengenhos\u201d, com estas estrophes commovedoras em que o velho pai de Natalia relata ao viandante o \u201cdelenda\u201d merenc\u00f3rio da sua \u201cEsperan\u00e7a desesperan\u00e7ada\u201d: \u00ab\u2014 A flor do cafezal, filha de Outubro, Reclamando a colheita, a rir-se agora, J\u00e1 mudada se achava em fructo rubro. Naquelle mez a v\u00e1rzea se melhora Com a esta\u00e7\u00e3o mais regrada e \u00e1gua da serra, Ao sol pompeando todo caule enflora; Vi\u00e7a o vesco faval, com o humor que encerra; Os gr\u00e3os amojam nas espigas de ouro; Racha com as grossas tuberas a terra. Mas com que m\u00e3os colher tanto thesouro? As m\u00e3os Maio as levou, levando o escravo, Maio agora tornado sestro agouro. Meu mal, assim pensando, afflicto aggravo; Nas terras, nas lavouras em abandono Em desespera\u00e7\u00e3o os olhos cravo. Depois, apouco e pouco, um meio somno Me vem. Olho estas cousas com fastio, E deixo-as ir, como se vae sem dono Barco largado na tens\u00e3o do rio.\u00bb (51)<\/p>\n\n\n\n<p>Dahi por diante, a historia da \u201cSerra-Acima\u201d \u00e9 a de um velho burgo abandonado, digno de figurar na galeria lobatiana das Oblivions e Ita\u00f3cas, em que \u00abtoda a liga\u00e7\u00e3o com o mundo se resume no cord\u00e3o umbilical do correio \u2014 magro estafeta bifurcado em ponteagudas \u00e9guas pisadas, em eterno ir e vir com duas malas postaes \u00e1 garupa, murchas como figos seccos\u00bb (52). Assim foi que a conheci, quando, a 5 de Julho de 1924, pela primeira vez l\u00e1 estive, tendo feito a viagem a cavalo, pela \u201cBocaina\u201d e voltado, dias ap\u00f3s, pela serra do \u201cQuebra-Gamela\u201d. Tenho viva, presente, real impress\u00e3o da chegada, \u00e1 noite, depois de uma longa caminhada, ao ar frio do planalto, que me impressionara desde o \u201cTope de Fita\u201d. Ao fim da plan\u00edcie intermin\u00e1vel, daquella chan formosa, que a vira\u00e7\u00e3o dos come\u00e7os de imverno varria docemente, \u00e1 hora rom\u00e2ntica do crep\u00fasculo, vi apontarem, \u00e1 beira do trilho, que a noite j\u00e1 mal permittia distinguir, os primeiros casebres, ranchinhos beira-ao-ch\u00e3o, que me delatavam a aproxima\u00e7\u00e3o do hist\u00f3rico e vestuto povoado. E foi com indissimul\u00e1vel commo\u00e7\u00e3o que saltei na pra\u00e7a ampla, toda a crepitar em meio \u00e1 noite negra, ao clar\u00e3o das lumin\u00e1rias, emquanto no c\u00e9u, alto e escuro, outras infinitas lumin\u00e1rias se accendiam, como para uma recep\u00e7\u00e3o festiva aos viandantes retardat\u00e1rios. Via aquelle vasto largo, com a sua enorme igreja, cujo adro \u00e9 feito de pedrinhas do Coxip\u00f3, que lenda affirma terem sido conduzidas pelos \u00edndios, sob dire\u00e7\u00e3o dos \u201cpadres da miss\u00e3o\u201d, e, na calada da noite morta, depois que todos se retiraram, eu me pus a evocar-lhe os dias antigos da Aldeia Velha, os dias mais recentes da Chapada de Guimar\u00e3es, como n\u00facleo radiador e centralizador dos \u201cengenhos\u201d, produzindo para abastecer a capital, a que os cargueiros e as tropas, em lotes de muares, tangidos aos suggestivos gritos dos arrieiros e ao toque das sinetas das \u201cmadrinhas\u201d, levavam, seguidamente, cereaes, assucar, aguardente e outros artigos, para trocar pelas mercadorias \u201cde fora\u201d. Imaginava a Chapada ruidosa e festiva de outros tempos e, ao ver, da janella da sacristia onde fizera o meu pouso, as ultimas lumin\u00e1rias que se iam lentamente apagando, ao cantar dos gallos, n\u00fancio da madrugada pr\u00f3xima e bemvinda, minha imagina\u00e7\u00e3o se desenhava, num expressivo symbolismo, a lembran\u00e7a da Chapada de hoje, moribunda e decadente, como aquellas luzes que ha pouco viramos estrellejando a linda noite serrana . . .<\/p>\n\n\n\n<p>A zona assucareira se deslocou do planalto para a beira-rio. J\u00e1 em 1884, antes da aboli\u00e7\u00e3o, o relat\u00f3rio do Bar\u00e3o de Batovy accusava a exist\u00eancia, nas margens do Cuyab\u00e1, de dois engenhos a vapor, aperfei\u00e7oados \u2014 o de Joaquim Jos\u00e9 Paes de Barros (Concei\u00e7\u00e3o), que foi o iniciador dessa industria no Rio Abaixo, e o Ces\u00e1rio Corr\u00eaa da Costa (Flechas) (53). Em 1885, organizava-se a \u201cCompanhia Engenho Central de Cuyab\u00e1\u201d, \u00abcom o fim de estabelecer uma fabrica de assucar e aguardente, empregando dentre os apparelhos e processos mais aperfei\u00e7oados, os mais convenientes . . .\u00bb (54). \u00c9 a machina, pouco a pouco, substituindo o homem, na evolu\u00e7\u00e3o natural da industria. As zonas do Rio Abaixo e Rio Acima offereciam melhores possibilidades de transporte, gra\u00e7as \u00e1 natural condi\u00e7\u00e3o, que faz dos rios \u00abroutes qui marchent\u00bb no conceito de Pascal.<\/p>\n\n\n\n<p>Por outro lado, a navega\u00e7\u00e3o do Prata, depois da guerra, franca e desimpedida, diminuiu o transito pelo sert\u00e3o, pouco a pouco abandonado devido \u00e1s correrias dos \u00edndios. E os \u00faltimos governos da monarchia, bem como as primeiras administra\u00e7\u00f5es republicanas, em Matto Grosso, viram, com um indifferentismo chocante, consumar-se a obra do decl\u00ednio e da quase extin\u00e7\u00e3o da Chapada (55). No governo do dr. Antonio Corr\u00eaa da Costa, em 1896, cogitou-se na \u00ababertura de uma estrada de f\u00e1cil transito para essa Capital\u00bb e ao mesmo tempo na \u00abentrada de immigrantes ou colonos, com vista de localisal-os em serra acima\u00bb (56).<\/p>\n\n\n\n<p>O lament\u00e1vel desfecho que encerrou, ainda a meio caminho, a administra\u00e7\u00e3o do dr. Corr\u00eaa, n\u00e3o permittiu a execu\u00e7\u00e3o dos seus planos e ainda uma vez ficou a Chapada \u00e1 espera de um soccorro que lhe impedisse a completa ru\u00edna e o total abandono.<\/p>\n\n\n\n<p>No governo do cel. Antonio Ces\u00e1rio uma leva de immigrantes nacionaes, cearenses na sua mor-parte, localizou-se na \u201cPonte Alta\u201d, formando uma esperan\u00e7osa col\u00f4nia, de que subsistem algumas fam\u00edlias, radicadas definitivamente na Serra. Essa tentativa, porem, de coloniza\u00e7\u00e3o, se destinava ao mesmo mallogro a que, em ponto maior, havia de condemnar-se a introduc\u00e7\u00e3o de immigrantes estrangeiros, na maioria rumenos, scheco-slovacos e alem\u00e3es, que, em 1927, o governo Mario Corr\u00eaa pretendeu localizar na col\u00f4nia do \u201cCajur\u00fa\u201d. Bellos sonhos, por sem duvida, mas, como sonhos, destitu\u00eddos de base real que os tornasse exeq\u00fc\u00edveis!<\/p>\n\n\n\n<p>Assim foi a malfadada cidade serrana, na beira da escarpa que desce entre o Cap\u00e3o Secco e o Apertado, com um panorama de duma belleza estonteante e que deslumbra o pr\u00f3prio europeu . . . mas que, a n\u00e3o ser isso, condi\u00e7\u00e3o nenhuma possu\u00eda para se tornar um centro habit\u00e1vel. A administra\u00e7\u00e3o que deveria notabilizar-se pelo seu carinho para com a zona chapadense foi a do cel. Pedro Celestino, que, com ser filho do \u201cBom Jardim\u201d, districto da Serra-Acima, nas duas vezes que governou o Estado, em 1908 &#8211; 1911 e em, 1922 &#8211; 1925, encarou resolutamente e resolveu com efficiencia problemas importantes de via\u00e7\u00e3o que interessavam \u00e1 Chapada. No primeiro governo de Pedro Celestino, sob a direc\u00e7\u00e3o do engenheiro civil Virgilio Alves Corr\u00eaa Filho, foi reconstru\u00edda a estrada da Boacina, que, atravessando o Coxip\u00f3, no Juru-Mirim, segue, depois de transpor o Aric\u00e1sinho, rumo \u00e1 serra, que come\u00e7a a galgar desde as chamadas lavras do \u201cM\u00e9dico\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 a velha estrada re\u00fana da Serra, a de maior trafego, por onde, annos a fio, se escoaram tantas riquezas e se intercambiaram tantos productos agr\u00edcolas e fabris. Os trabalhos de reconstrucc\u00e3o, cujo relat\u00f3rio traz data de 18 de outubro de 1910, foram levados a effeito dentro do primeiro per\u00edodo governativo de cel. Pedro Celestino, a quem, cerca de um deccenio ap\u00f3s, caberia pela segunda vez, novamente \u00e1 testa da administra\u00e7\u00e3o, realizar a grandiosa obra da rodovia Cuyab\u00e1 \u2014 Chapada, pela estrada do \u201cPort\u00e3o do Inferno\u201d. A 13 de maio de 1924, dando conta a Assembl\u00e9a Legislativa dos emprehendimentos do seu governo, dizia haver determinado os necess\u00e1rios estudos, dos quaes resultaria um percurso de 70 kms. a vencer, com um or\u00e7amento calculado em 350:000\u00a7000 (57). Um anno depois a 13 de maio de 1925, o dr. Estev\u00e3o Alves Corr\u00eaa, que o succedera no governo, podia annunciar na sua Mensagem a construc\u00e7\u00e3o de \u00abmais de 50 kilometros, incluindo 14 na sec\u00e7\u00e3o da subida do planalto\u00bb (58). E ao transmittir o governo, a 22 de janeiro de 1926, ao dr, Mario Corr\u00eaa da Costa, o dr. Estev\u00e3o Corr\u00eaa dava conta de achar-se constru\u00edda a estrada at\u00e9 120 kilometros alem de Rondon\u00f3polis, em demanda de Santa Rita do Araguaya (59). Em novembro de 1925 a estrada de rodagem j\u00e1 era francamente transitada e, nessa occasi\u00e3o, ti- (57) Mensagem de 13 de Maio de 1924, pag.59. (58)<\/p>\n\n\n\n<p>Mensagem de 13 de Maio de 1925, pag.52. (59) A synthese de um governo, p\u00e1gs. 21 e 27. JOS\u00c9 DE MESQUITA 28 v\u00ea opportunidade de percorrel-a em optimas condi\u00e7\u00f5es de trafego A instala\u00e7\u00e3o da Usina hydro-electrica do Rio da Casca, no governo Mario Corr\u00eaa, veio, por outro lado, despertar a atten\u00e7\u00e3o e interesse pela zona Planaltina, que, assim, nas administra\u00e7\u00f5es que se seguiram, continuou a merecer certo carinho e cuidado por parte dos governos. Ha muito, entretanto, ainda a fazer em prol dessa zona da \u201cSerraAcima\u201d, que merece dos contempor\u00e2neos, t\u00e3o ego\u00edstas e indifferentes, pelo menos a respeitosa estima e o carinho filial que nos desperta a presen\u00e7a de uma velha avozinha a nos evocar os bons e saudosos tempos de antanho. Que essa estima e esse carinho lhe n\u00e3o faltem por parte das futuras administra\u00e7\u00f5es de nossa ter\u00e1, bem orientadas pelo desejo de engrandecer este torr\u00e3o querido, valorizando-lhe os productos, explorando-lhe os inexgottaveis v\u00eaeiros de riquezas, para que, olhos fitos no porvir distante, jamais lhes deslembre o passado glorioso e evocativo, de que a Chapada constitue uma das paginas mais bellas e immorredouras . . .\n<\/p>\n\n\n\n<pre class=\"wp-block-preformatted\">(Da s\u00e9rie \u201cGENTE E COUSAS DE ANTANHO\u201d) (Cuiab\u00e1, Nov.\u00ba 1931 a Janeiro 1932)\n\n(1) Vida social no Nordeste, no Estado de Pernambuco, edi\u00e7\u00e3o do Centen\u00e1rio, pag. 75\n\n(2) Rev. do I.H. e G.B., volume IV, 497. \n\n(3) Vol. I, pag. 271.\n\n(4) MELGA\u00c7O \u2014 Apontamentos chronologicos, na Rev. M. Grosso, anno I, n.6, pag. 183; V. CORREA FILHO, \u00c1 cata de ouro e diamante, pag. 22.\n\n(5) F. IGNACIO FERREIRA, Diccionario Geoagraphico das Minas do Brasil, pag. 722.\n\n(6) Nota da Rev. I.H. e G. Brasileiro, vol XLVII, 483, nos apontamentos para o Diccionario, de Leverger.\n\n(7) Officio do Bar\u00e3o de Lages. Rev. I.H. e G.B. , XX, pag. 389.\n\n(8) Ver. I. H. e G. B., XXXVII\n\n(9) Doc. Hist\u00f3ricos, XLIV, 335. \n\n(10) O Matto Grosso, de 17 de Janeiro de 1926\n\n(11) Escriptura no L. VI, 27v do 2. Cart\u00f3rio. \n\n(12) Ver, nesta serie, o folhetim, XII \u201cUm fervoroso e devo Ministro\u201d.\n\n(13) Annaes da Biblioteca Nacional, III, 269. \n\n(14) Cultura e opul\u00eancia do Brasil, edi\u00e7\u00e3o de 1923.\n\n(15) Oliveira Vianna \u2014 Evolu\u00e7\u00e3o do povo brasileiro, 63.\n\n(16) Itiner\u00e1rio da viagem de Cuyab\u00e1 a S\u00e3o Paulo, pag.14.\n\n(17) A. Bueno \u2014 Ob. Cit. nota 2\u00aa. Pag. 59.\n\n(18) Ob. Cit. Nota 4\u00aa. pag.67.\n\n(19) Estrada de ferro de Cuyab\u00e1 \u00e1 Lagoinha, Rio, 1876.\n\n(20) Mem\u00f3ria justificativa dos trabalhos de que foi encarregado \u2014 Rio \u2014 1880, pag.57.\n\n(21) Datas Mattogrossenses, I, 357.\n\n(22) Ensaios Brasileiros, 162.\n\n(23) Vi\u00e7osa de Alagoas, p\u00e1gs. 215 e seguintes.\n\n(24) Festejou-se, faz pouco, o centen\u00e1rio do engenho d\u2019\u00e1gua, do Norte, sendo celebrado como o \u00abgrande instrumento do progresso brasileiro\u00bb.\n\n(25) MATTO-GROSSO, 325. (26) Viagem ao redor do Brasil, I, 149, nota A.\n\n(27) Ver. do I. H. M. Grosso, III, 76 nota H.\n\n(28) Nobiliarchia Paulistana, 459 e Genealogia Paulistana, III, 544.\n\n(29) Annaes do Senado da C\u00e2mara, anno de 1727.\n\n(30) Mem\u00f3rias Chronologicas, R. I. H. e Goegraphico, XIII,133.\n\n(31) Patentes, provis\u00f5es e sesmarias, J. B. Campos Aguirre, p\u00e1gs 39 e seguintes.\n\n(33) Somente as victimas das \u201cbexigas\u201d cujo \u00f3bito foi registado pelo ent\u00e3o vig\u00e1rio P. Caldas, attingem a 124, de Setembro a Dezembro de 1867. Ver, nesta serie \u201cO anno das bexigas\u201d, II, que traz minudente dados estat\u00edsticos sobre a extens\u00e3o do flagello que assolou a Prov\u00edncia de Matto-Grosso. \n\n(34) Pimenta Bueno, op. cit. 75. \n\n(35) V. Correa Filho d\u00e1-lhe essa graphia no seu \u201cRelat\u00f3rio sobre o melhoramento da Estrada da Chapada\u201d, 1910, e posto j\u00e1 tenha visto com a forma Russa prefiro aquella, pois penso derivar de \u00abru\u00e7a\u00bb que, na Serra, traz o significado de neblina, cerra\u00e7\u00e3o muito forte, phenomeno athmosferico ali commum e que d\u00e1 \u00e1 paisagem um ar \u00abru\u00e7o\u00bb, grisalho.&nbsp;\n\n(37) Matto Grosso, 333.\n\n(38) Mem\u00f3ria hist\u00f3rica sobre os ind\u00edgenas da prov\u00edncia de Matto Grosso, Rio, 1887, p\u00e1gs. 19 e 20.\n\n(39) N. 23, de 4 de Outubro de 1857.\n\n(40) N. 98, de 20 de Mar\u00e7o de 1859.\n\n(41) N. 99, de 27 de Mar\u00e7o de 1859.\n\n(42) A Prov\u00edncia de Matto Grosso, ns. 40 e 41, de 5 e 12 de Outubro de 1879.\n\n(43) Edi\u00e7\u00e3o de 22 de Agosto de 1879.\n\n(44) Numero de 27 de Fevereiro de 1881.\n\n(45) N. 6, de 26 de Fevereiro de 1882.\n\n(46) N. 6, de 17 de Fevereiro de 1884.\n\n(47) N. 123, de 3 de Julho de 1886.\n\n(48) Archivo Ecclesi\u00e1stico, 2\u00ba livro de \u00f3bitos, 1854\u20141878. (49) Ob. Cit. p\u00e1gs. 112 e 113.\n\n(49) Ob. Cit. p\u00e1gs. 112 e 113.\n\n(50) Contrastes e confrontos, 6\u00aa. Ed. Pag. 218.\n\n(51) Poesias, III, 274.\n\n(52) M. Lobato \u2014 Cidades Mortas, pag. 10.\n\n(53) Relat\u00f3rio de 1 de Outubro de 1884. Fala tamb\u00e9m num engenho de Carcano &amp; Colombo, em Corumb\u00e1.\n\n(54) O Espectador, de 22 de Janeiro de 1885.\n\n(55) O projeto de estrada de ferro do Cala\u00e7a foi a ultima tentativa s\u00e9ria em favor da Chapada, levada a effeito na administra\u00e7\u00e3o monarchica, e infelizmente ineffic\u00e1s.\n\n(56) O Republicano, de 16 de Abril de 1896.<\/pre>\n\n\n\n<h6 class=\"wp-block-heading\">Nota de pesquisa: \u201cGrandeza e Decad\u00eancia de Serra-Acima\u201d, consta como verbete, nos seguintes livros de refer\u00eancia: \uf0b7 Revista portuguesa de hist\u00f3ria; Volume 33, Part 1, Universidade de Coimbra. Instituto de Estudos Hist\u00f3ricos Dr. Ant\u00f4nio Vasconcelos, 1999, p\u00e1g. 329; \uf0b7 Casa-Grande &amp; Senzala: forma\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia brasileira sob o regime da economia patriarcal; Volume 2, Gilberto Freyre, J. Olympio, 1978, p\u00e1g. 398; \uf0b7 Int\u00e9rpretes do Brasil, Volume 2, Silviano Santiago, Editora Nova Aguilar, 2000, p\u00e1g. 575.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>JOS\u00c9 DE MESQUITA (Do Instituto Hist\u00f3rico de Mato Grosso) GRANDEZA E DECAD\u00caNCIA DA SERRA-ACIMA Cuiab\u00e1 Revista do Instituto Hist\u00f3rico e Geogr\u00e1fico de Mato Grosso Anos XII e XIV N\u00fameros XXVII a XXVIII 1931 e 1932 JOS\u00c9 DE MESQUITA 2 Jos\u00e9 Barnab\u00e9 de Mesquita (*10\/03\/1892 \u202022\/06\/1961) Cuiab\u00e1 &#8211; Mato Grosso Biblioteca Virtual Jos\u00e9 de Mesquita Ao [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":767,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_import_markdown_pro_load_document_selector":0,"_import_markdown_pro_submit_text_textarea":"","two_page_speed":[],"_joinchat":[],"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[],"class_list":["post-738","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-historia"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/riodacasca.com.br\/wd\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/738","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/riodacasca.com.br\/wd\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/riodacasca.com.br\/wd\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/riodacasca.com.br\/wd\/wp-json\/wp\/v2\/users\/767"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/riodacasca.com.br\/wd\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=738"}],"version-history":[{"count":10,"href":"https:\/\/riodacasca.com.br\/wd\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/738\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1056,"href":"https:\/\/riodacasca.com.br\/wd\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/738\/revisions\/1056"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/riodacasca.com.br\/wd\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=738"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/riodacasca.com.br\/wd\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=738"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/riodacasca.com.br\/wd\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=738"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}