{"id":755,"date":"2017-05-09T09:55:43","date_gmt":"2017-05-09T13:55:43","guid":{"rendered":"http:\/\/riodacasca.com.br\/wd\/?p=755"},"modified":"2021-08-03T16:02:16","modified_gmt":"2021-08-03T20:02:16","slug":"engenho-sao-romao-em-1781","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/riodacasca.com.br\/wd\/2017\/05\/09\/engenho-sao-romao-em-1781\/","title":{"rendered":"Engenho de S\u00e3o Rom\u00e3o no Rio da Casca, em 1781 (Texto Prof.\u00aa Ms. Maria Am\u00e9lia Assis Alves Crivelente)"},"content":{"rendered":"<h5><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-763 aligncenter\" src=\"https:\/\/riodacasca.com.br\/wd\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/engenho-150x150.jpg\" alt=\"\" width=\"248\" height=\"248\" srcset=\"https:\/\/riodacasca.com.br\/wd\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/engenho-150x150.jpg 150w, https:\/\/riodacasca.com.br\/wd\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/engenho-300x300.jpg 300w, https:\/\/riodacasca.com.br\/wd\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/engenho-400x400.jpg 400w\" sizes=\"(max-width: 248px) 100vw, 248px\" \/><\/h5>\n<h5>Prof.\u00aa Ms. Maria Am\u00e9lia Assis Alves Crivelente \u00a0 \u00a0 \u00a0 Doutoranda em Demografia<\/h5>\n<p>Hist\u00f3rica Orientadora : Prof.\u00aa Doutora Maria Norberta Amorim Universidade do Minho \u2013 Portugal. Para: Associa\u00e7\u00e3o Nacional de Hist\u00f3ria &#8211;<\/p>\n<p>Hist\u00f3ria, acontecimento e narrativa JO\u00c3O PESSOA\/PB: 27\/07 A 01\/08\/2003<\/p>\n<p>Concubinato, escravid\u00e3o e fragilidade humana em Mato Grosso: A \u201cfam\u00edlia\u201d do minhoto Valentim e sua escrava Joaquina, mina. Santana do Sacramento de Chapada- 1781- 1866 Este artigo, reduzido para o XXII Simp\u00f3sio, faz parte de estudos em investiga\u00e7\u00e3o para tese de doutoramento: Reconstitui\u00e7\u00e3o de Par\u00f3quias &#8211; Metodologia para uma sociedade complexa: Perspectiva atrav\u00e9s da Par\u00f3quia do Senhor Bom Jesus do Cuiab\u00e1 \u2013 1780 a 1890.<\/p>\n<p>Orientadora: Professora Doutora Maria Norberta Amorim. \u2013 Universidade Do Minho \u2013 Portugal.<\/p>\n<p>Para uma an\u00e1lise da peculiaridade das rela\u00e7\u00f5es il\u00edcitas de concubinatos, das fragilidades humanas, do grau de ilegitimidade e da a\u00e7\u00e3o da Igreja no controle moral de uma regi\u00e3o de fronteira, mineradora, com engenhos e escravaria mais acentuada de toda a prov\u00edncia, como foi Chapada dos Guimar\u00e3es em Mato Grosso, tomei como ponto de partida, uma personalidade bastante interessante ao meu ver, neste espa\u00e7o peculiar da col\u00f4nia do Brasil.<\/p>\n<p>No ent\u00e3o Lugar de Guimar\u00e3es, o imigrante portugu\u00eas, minhoto de S\u00e3o Miguel de Alvarans, Arcebispado de Braga, Termo de Barcelos, Valentim Martins da Cruz, j\u00e1 era conhecido como o senhor do engenho S\u00e3o Rom\u00e3o, em 1781, quando o encontramos na documenta\u00e7\u00e3o pela primeira vez.<\/p>\n<p>Neste ano, requereu uma sesmaria na freguesia de Chapada, pr\u00f3xima \u00e0s terras onde j\u00e1 cultivava cana, \u00e0s margens do Rio da Casca, por j\u00e1 ter nelas currais, gado e cavalos. A C\u00e2mara a concede por reconhecer nele um pretendente de bastantes posses, o que lhe conferia prest\u00edgio e poder regi\u00e3o. Em 1798, contava com um total de 100 escravos entre grandes e pequenos e de ambos os sexos, divididos entre a lavoura de cana para produ\u00e7\u00e3o de a\u00e7\u00facar e aguardente, as ro\u00e7as de milho e feij\u00e3o e as lavras de ouro.<\/p>\n<p>1\u00a0 Conforme as den\u00fancias das Visita\u00e7\u00f5es Paroquiais do ano de 1785, vivia em concubinato \u201cp\u00fablico e escandaloso\u201d e com \u201cafabilidade\u201d, com sua escrava Joaquina, uma africana Mina2 , com quem teve nove filhos. Sendo seis mulheres e tr\u00eas homens. Valentim personificava, no sert\u00e3o de Mato Grosso, o aristocr\u00e1tico senhor de engenho tal como eram conhecidos e respeitados na col\u00f4nia. Homem empreendedor, que al\u00e9m de senhor de engenho era criador de gado e minerador.<\/p>\n<p>Em ato um tanto inusitado na col\u00f4nia, antes de morrer em 1812, Valentim legitima, por testamento, os nove filhos pardos tidos com Joaquina, redimindo-se assim, do \u201cpecado\u201d. Entre as filhas, Escol\u00e1stica Martins da Cruz, a que ser\u00e1 a mais importante nos neg\u00f3cios da fam\u00edlia, era a segunda filha, nascida em 1781.<\/p>\n<p>No registro de casamento de Escol\u00e1stica aos 26 anos, em 1807, ela aparece como filha natural de Valentim e Joaquina. O nome do pai j\u00e1 \u00e9 ent\u00e3o conhecido. Isto deve ter ocorrido apenas na ocasi\u00e3o do registro de casamento, tendo sido o pai inc\u00f3gnito no batismo, tal como no registro de Jer\u00f4nimo, irm\u00e3o mais novo de Escol\u00e1stica, nascido dez anos depois.<\/p>\n<p>Anna, ao que tudo indica, era a mais velha, nascida em 1779. Em seguida seriam: Francisco, em 1783, Escol\u00e1stica em 1781, e Anna Maria, que aparece com a mesma idade de Escol\u00e1stica. Seriam g\u00eameas ou o p\u00e1roco errou na anota\u00e7\u00e3o dos dados delas? Manoel, nasceu em 1787; Jer\u00f4nimo em 1789; Emerenciana em 1792 e Luiza em 1794.<\/p>\n<p>H\u00e1 ainda Maria, que n\u00e3o tem sua idade anotada, no testamento do pai, como os demais. Em 1812, na data deste, j\u00e1 era casada com Domingos Jos\u00e9 Rodrigues. Para Escol\u00e1stica, agora, era necess\u00e1rio o reconhecimento da paternidade, afinal, a filha parda e bastarda estava casando-se com um Alferes, imigrante portugu\u00eas como o sogro, filho leg\u00edtimo de portugueses do Bispado de Aveiro. A administra\u00e7\u00e3o do engenho, ap\u00f3s a morte do sogro e \u00a0por vontade deste no testamento, coube, em primeiro lugar, compreensivelmente, ao genro militar, Manoel Rodrigues Tavares.<\/p>\n<p>O fato de deixar ao genro, branco e militar a responsabilidade de administrar o engenho para os filhos, e n\u00e3o para nenhum deles, pode revelar uma preocupa\u00e7\u00e3o de Valentim em rela\u00e7\u00e3o ao respeito aos direitos dos filhos pardos, que provavelmente encontraria obst\u00e1culos no cumprimento de suas designa\u00e7\u00f5es testamentais. Afinal, todos eram frutos de uma rela\u00e7\u00e3o de concubinato com a escrava Joaquina, mina, j\u00e1 conhecida da Igreja e da sociedade chapadense, denunciada nas devassas de 1785.<\/p>\n<p>Como lembra Maria Beatriz Nizza da Silva, os filhos naturais brancos, n\u00e3o enfrentavam tanta resist\u00eancia quanto os filhos bastardos de m\u00e3es mesti\u00e7as, \u201cm\u00e3e de cor\u201d. A autora ressalta inclusive que, era muito raro, na sociedade do fim do per\u00edodo colonial, o pai fazer do filho que tivera com uma escrava seu herdeiro. O m\u00e1ximo que ele ganhava era a liberdade e mesmo essa obedecia por vezes a certas condi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>3\u00a0 No testamento, como de praxe, \u00e9 que de fato Valentim se fez desvendar, expondo primeiramente sua condi\u00e7\u00e3o de Cat\u00f3lico Romano temente a Deus, encomendando sua alma ao padre. Em seguida exp\u00f4s sua origem e condi\u00e7\u00e3o de filho leg\u00edtimo de pais portugueses j\u00e1 falecidos. Imigrante minhoto de S\u00e3o Miguel de Alvarans, termo de Barcelos, arcebispado de Braga, vindo num per\u00edodo de intensa migra\u00e7\u00e3o portuguesa para as minas do Brasil. A seguir exp\u00f5e seu estado civil de solteiro, sua condi\u00e7\u00e3o financeira e sua rela\u00e7\u00e3o com a sociedade em que estava inserido. Era propriet\u00e1rio de f\u00e1brica de a\u00e7\u00facar, aguardente, lavras de minera\u00e7\u00e3o, lavoura de v\u00edveres e gado. Irm\u00e3o da Irmandade de S\u00e3o Miguel e Almas e do Sant\u00edssimo Sacramento muito comum em Portugal, e tamb\u00e9m entre a elite cuiabana, de quem foi indigno irm\u00e3o.<\/p>\n<p>4 Assim como outros senhores de engenho de Chapada, pediu que fosse enterrado com a mortalha de S\u00e3o Francisco, que guardava em casa. Solicitou que seu corpo fosse acompanhado por um padre, por quatro sacerdotes e dos irm\u00e3os das Irmandades, que pagariam estes servi\u00e7os e enterrado na sepultura que a Irmandade do Sant\u00edssimo Sacramento designasse. Assim as Irmandades cumpriam, para Valentim, seu papel principal: assegurar-lhe uma boa morte.<\/p>\n<p>6\u00a0 Na regi\u00e3o de onde emigrou, S\u00e3o Miguel era o Santo Padroeiro. No Brasil, a Irmandade de S\u00e3o Miguel e Almas seria uma convers\u00e3o da Irmandade das Almas tamb\u00e9m portuguesa.<\/p>\n<p>7\u00a0 Ou seja, trouxe consigo toda uma religiosidade que, apesar da nova conjuntura com a qual passaria a viver, manteria um elo do qual n\u00e3o queria prescindir, com um Portugal minhoto, agora muito distante geogr\u00e1fica e culturalmente. Um homem com tais caracter\u00edsticas n\u00e3o poderia jamais assumir um relacionamento com Joaquina, al\u00e9m do que j\u00e1 era p\u00fablico e escandaloso, ou seja, um concubinato. A legitima\u00e7\u00e3o via testamento, tirava dos filhos de Valentim e Joaquina o estigma de bastardos e dava-lhes o status de filhos leg\u00edtimos de um poderoso minerador e senhor de engenho. Apesar de ter sido fruto de um relacionamento entre um senhor de engenho e sua escrava, Escol\u00e1stica e seus irm\u00e3os estavam distante do universo da maioria de seus semelhantes na col\u00f4nia, nascida de abusos do poder do senhor para com suas escravas e cujos filhos, muitas vezes, permaneciam escravos, ampliando o plantel. Jer\u00f4nimo, o irm\u00e3o mais novo, pardo, livre, requer, junto ao Juiz de \u00d3rf\u00e3os de Cuiab\u00e1, em 1816, o direito de poder herdar o que lhe pertencia por ser filho de Valentim, ainda que, ao ter sido revisto seu registro de batismo que foi feito em 1791, a filia\u00e7\u00e3o n\u00e3o lhe garantia isso, como se pode ver nos dados do documento: Aos dezessete dias do m\u00eas de maio de mil setecentos e noventa e um anos, no engenho de Valentim Martins da Cruz, estando eu em desobriga, batizei e pus os santos \u00f3leos a Jer\u00f4nimo, filho natural de Joaquina, preta forra e de pai desconhecido, nascido a trinta de setembro de mil setecentos e noventa. Assinado pelo Vig\u00e1rio Francisco Coelho. Jer\u00f4nimo, contudo, fora reconhecido pelo pai em seu testamento de 1812.<\/p>\n<p>8\u00a0 Escol\u00e1stica assumiu a administra\u00e7\u00e3o ap\u00f3s a morte do marido, at\u00e9 o fim de seus dias no engenho, em 1867, aos 86 anos. Em seu testamento passado ao Ju\u00edzo de \u00d3rf\u00e3os da cidade de Cuiab\u00e1 em 1866, declara que foi casada com Manoel Rodrigues Tavares, segundo a lei do Imp\u00e9rio e que de cujo matrim\u00f4nio n\u00e3o tiveram filho algum. Aproveita o momento do testamento para reconhecer o filho Antonio, tido por fragilidade humana antes do casamento e que at\u00e9 ent\u00e3o era exposto na casa de Catharina dos Reis: Declaro que em tempo de solteira tive por fragilidade humana um filho que foi exposto por minhas circunst\u00e2ncias de filha de fam\u00edlia, na casa de Catharina dos Reis e foi batizado de Antonio. Depois de tr\u00eas anos de idade mudando-se as minhas condi\u00e7\u00f5es eu o recolhi para minha companhia onde se conservou at\u00e9 depois de casado e sua morte, reconhecendo-o portanto como meu filho.<\/p>\n<p>9\u00a0 A fragilidade humana nas rela\u00e7\u00f5es il\u00edcitas da fam\u00edlia, n\u00e3o foi contudo, um pecado apenas de Escol\u00e1stica. Tamb\u00e9m Luiza Martins da Cruz, que vimos depois se chamar Anna Luiza\u00a0Martins da Cruz, casou-se em 1818 aos 21 anos, com um senhor de engenho, como o pai, o Capit\u00e3o Mor, Antonio da Silva Albuquerque, senhor do engenho S\u00e3o Francisco. Curiosamente, apontando para uma pr\u00e1tica de estabelecer relacionamentos que pode revelar a realidade local, suas dificuldades de acesso e mesmo de se estabelecer no sert\u00e3o t\u00e3o distante, selvagem e in\u00f3spito, um filho n\u00e3o reconhecido em testamento por Valentim, Antonio, casa-se com Damiana, filha tamb\u00e9m bastarda do Capit\u00e3o Antonio da Silva Albuquerque, esposo de Luiza, portanto, meia-irm\u00e3 de Antonio que, casada com o Capit\u00e3o, assume o papel de sua sogra. O casamento se realizou no engenho do Capit\u00e3o e Luiza. Damiana aparece ainda como filha natural deste. Anna por sua vez, casou, em 1862, aos 81 anos, seu neto Agostinho Pereira de Macedo, que era filho leg\u00edtimo de Feliciana Pereira Martins da Cruz, filha natural de Anna Martins. Anna j\u00e1 tivera anteriormente, outra filha ileg\u00edtima, Ana Josefa, que se casou com Tobias Rodrigues Andrade e geraram Valentim, nome do bisav\u00f4, em 1834.<\/p>\n<p>10\u00a0\u00a0Como vimos, ao longo das pesquisas, em diversos testamentos, quando da sua elabora\u00e7\u00e3o, aproveitava-se o momento para reparar qualquer falha cometida, injusti\u00e7as ou simplesmente para reconhecer e pagar favores e aten\u00e7\u00f5es tidas em vida por parentes, amigos ou empregados e, especialmente, para livrar-se dos pecados antes do ju\u00edzo final. Libertar os escravos pelos servi\u00e7os prestados, tamb\u00e9m se configurava como um \u00faltimo ato de caridade diante da morte pr\u00f3xima.<\/p>\n<p>Isabel Nobre de Figueiredo, analfabeta, vi\u00fava de Francisco, que falecera nas matas do Rio de Janeiro \u201cpaup\u00e9rrimo\u201d, possu\u00eda como todo seu patrim\u00f4nio, oito escravos. Em 1881, faz um testamento especialmente para proporcionar-lhes a liberdade: cinco deles pertenciam a uma mesma fam\u00edlia. Eram filhos de Mariana, todos \u201ccrias\u201d de Isabel, assim como Benedito de trinta anos que a serviu durante vinte e nove anos, vendido ao sobrinho que o deixou com ela para uso-fruto. Ela conseguiu troc\u00e1-lo com o sobrinho apenas para poder liberta-lo.<\/p>\n<p>11\u00a0 A posse da terra era o principal indicador de status social assim como um conjunto de outros fatores, como pertencer a uma Irmandade religiosa e estabelecer la\u00e7os matrimoniais entre seus iguais, fortalecendo o poder e o prest\u00edgio.<\/p>\n<p>Quando solteira, Escol\u00e1stica, filha deste rico senhor de engenho, n\u00e3o se sentiu \u00e0 vontade para reconhecer e assumir o filho diante da sociedade Chapadense e Cuiabana. Filha de fam\u00edlia, como se define e que portanto, n\u00e3o deveria ter se envolvido em rela\u00e7\u00f5es il\u00edcitas, n\u00e3o poderia assumir publicamente o filho bastardo. Ela se achava, inclusive, uma indigna irm\u00e3 da Irmandade de Nossa Senhora da Boa Morte da qual fazia parte na data do testamento.<\/p>\n<p>As declara\u00e7\u00f5es de Escol\u00e1stica mostram bem as diferen\u00e7as de comportamento sobre suas rela\u00e7\u00f5es amorosas, entre as mulheres de elite e as escravas e livres pobres. A primeira tinha uma reputa\u00e7\u00e3o a preservar. Um filho bastardo era motivo de vergonha e que, portanto, era preciso esconder. J\u00e1 n\u00e3o foi comum tal atitude entre as demais mulheres da col\u00f4nia. A quest\u00e3o da quase inutilidade da Roda dos Expostos em Cuiab\u00e1 \u00e9 um indicativo desse comportamento.<\/p>\n<p>Em maio de 1834, \u00e9 institu\u00edda a Roda dos Expostos na Santa Casa de Miseric\u00f3rdia de Cuiab\u00e1, pelo ent\u00e3o presidente da Prov\u00edncia Ant\u00f4nio Correa da Costa. Apesar de toda pompa do ato, a Roda na verdade pouca utilidade teve. Desde o seu estabelecimento, apenas tr\u00eas crian\u00e7as foram ali depositadas durante o per\u00edodo de sua vig\u00eancia que foi 1834 a 1870.12 Uma explica\u00e7\u00e3o para este reduzid\u00edssimo n\u00famero de crian\u00e7as expostas na Roda, pode estar nas especificidades da regi\u00e3o: uma fronteira, tanto cultural quanto geogr\u00e1fica, bastante tensa com o constante embate com os \u00edndios e com os espanh\u00f3is, estes, vizinhos \u00e1vidos pelo ouro que aqui se garimpava.<\/p>\n<p>Regi\u00e3o de aventureiros, homens e mulheres com coragem o bastante para se arriscarem t\u00e3o distante do litoral, no in\u00f3spito e agressivo sert\u00e3o. Mulheres sem muitas op\u00e7\u00f5es de escolha para um relacionamento amoroso est\u00e1vel. Homens que na maioria das vezes n\u00e3o vinham para ficar em definitivo.Vinham apenas com o sonho de conseguir ouro suficiente para voltarem ricos \u00e0s suas regi\u00f5es de origem. Era uma regi\u00e3o que vivia o fen\u00f4meno da imigra\u00e7\u00e3o tanto interna quanto externa. A mobilidade era intensificada a cada novo veio aur\u00edfero ou diamant\u00edfero descoberto. As mulheres dessa regi\u00e3o, na sua maioria, eram mulheres escravas, \u00edndias, mesti\u00e7as e livres pobres. Estas n\u00e3o tinham muita preocupa\u00e7\u00e3o com a moral e os bons costumes. N\u00e3o tinham status a perder como as filhas de senhores de engenho, da visada elite local, que como vimos com as filhas de Valentim, j\u00e1 se preocupavam em n\u00e3o exporem os filhos bastardos com muita facilidade. Ainda que, no caso delas, tenham sido consideradas bastardas, filhas de escrava com senhor nos documentos iniciais de suas vidas. Pelo menos at\u00e9 o reconhecimento legal da paternidade. Escol\u00e1stica, ao se colocar como filha de fam\u00edlia, j\u00e1 nos informa o tipo de relacionamento tinha em casa, ainda que nascida nas condi\u00e7\u00f5es de bastardia, imposta pelas normas eclesi\u00e1ticas.<\/p>\n<p>Uma fam\u00edlia. Maria Adenir Peraro, ao abordar o fen\u00f4meno dos raros expostos de Cuiab\u00e1, evidencia a rede de solidariedade entre as m\u00e3es de ileg\u00edtimos, estabelecida principalmente entre a popula\u00e7\u00e3o pobre13. A peculiaridade da regi\u00e3o, contudo, n\u00e3o foi o fator preponderante para o n\u00famero de ileg\u00edtimos e a pouca utilidade da Rodas na col\u00f4nia. Conforme Renato Pinto Ven\u00e2ncio, tamb\u00e9m na popula\u00e7\u00e3o de Salvador e Rio de Janeiro, um n\u00famero consider\u00e1vel de mulheres brancas assumiam o\u00a0filho ileg\u00edtimo.14<\/p>\n<p>O fato de haver maior n\u00famero de mulheres brancas pobres em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s \u201cdonas\u201d explica, somado o fato de estarem estas, na sociedade, sempre sujeitas \u00e0 boa moral e os bons costumes. Para Ven\u00e2ncio, a casa da Roda n\u00e3o alcan\u00e7ou seu prop\u00f3sito de proteger e ocultar uma bastardia inc\u00f4moda, na medida que, ao menos na Bahia de 1850, a ilegitimidade cresce ao mesmo tempo em que cai a procura pela Roda.15 As not\u00edcias sobre crian\u00e7as abandonadas nas ruas de Cuiab\u00e1, antes da institui\u00e7\u00e3o da Roda possivelmente tratavam-se de um ou outro beb\u00ea rec\u00e9m nascido e indesej\u00e1vel por ser fruto de rela\u00e7\u00f5es adulterinas ou ef\u00eameras, tidos por fragilidade humana e que denunciariam esta situa\u00e7\u00e3o com perigo para a m\u00e3e.16<\/p>\n<p>No caso das escravas africanas, desfazer-se dos filhos n\u00e3o fazia parte de seu universo mental. Dif\u00edcil seria desfazer-se desse universo ainda que numa situa\u00e7\u00e3o de escravid\u00e3o. Principalmente para as chegadas de pouco tempo e mulheres traficadas da \u00c1frica Central Atl\u00e2ntica, cuja pr\u00e1tica cultural, tinha na m\u00e3e a linha de sucess\u00e3o. O filho bastardo, portanto, para a africana banto n\u00e3o existia por dois motivos \u00f3bvios: primeiro por sua cultura matrilinear e segundo por ser a bastardia, uma quest\u00e3o da Igreja dos brancos e cat\u00f3licos.17 Sacramentar suas rela\u00e7\u00f5es afetivas, legitimar seus filhos tidos por uma fragilidade humana, ou como resultados de uma rela\u00e7\u00e3o duradoura, est\u00e1vel, perante a Igreja Cat\u00f3lica, para os escravos, serviria muito mais para garantir-lhes m\u00ednimos diretos poss\u00edveis, livrar-se de persegui\u00e7\u00f5es e principalmente de proteger a si e ao filho das separa\u00e7\u00f5es ainda que isto n\u00e3o era uma garantia real.<\/p>\n<p>Como se sabe, as Constitui\u00e7\u00f5es garantia-lhes o direito de se casarem e de batizarem os filhos, entretanto n\u00e3o tirava de seus propriet\u00e1rios o direito de se disporem deles como lhes fosse conveniente.18 Pelo menos at\u00e9 1869, quando se torna proibida a separa\u00e7\u00e3o de casais escravos e de seus filhos menores de quinze anos.<\/p>\n<pre>1 NDHIR \u2013 UFMT \u2013 Fazenda Real - RECIBOS. Rolo 05.\n\n2 ACMRJ. Visita das Comarcas de Cuyab\u00e1 e Villa Bella da Capitania de Mato Grosso pelo Reverendo Bruno Del Pina. Setembro de 1785.\n\n3 SILVA, Maria Beatriz Nizza da. Vida privada e quotidiano no Brasil - Na \u00e9poca de D.Maria e D.Jo\u00e3o VI, Lisboa: Estampa, 1993, p.194-195.\n\n4 APMT \u2013 Cart\u00f3rio do 5.\u00ba Of\u00edcio \u2013 Testamentos e Invent\u00e1rios. Cx.1812.\n\n5 O portugu\u00eas Luiz Monteiro Salgado por exemplo, minhoto como Valentim, senhor do engenho N.S.Do Carmo tamb\u00e9m pertencia a Irmandade do S.Sacramento. APMT, cart\u00f3rio do 5o . Of\u00edcio.\n\n6 LEBRUN, Fran\u00e7ois. As Reformas: Devo\u00e7\u00f5es comunit\u00e1rias e piedade pessoal, In: Hist\u00f3ria da vida privada \u2013 Da renascen\u00e7a ao s\u00e9culo das luzes. Vol .3, S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 1991, p, 90.\n\n7 SCARANO, Julita. Devo\u00e7\u00e3o e escravid\u00e3o \u2013 A irmandade de Nossa Senhora do ros\u00e1rio dos Pretos no Distrito Diamantino no s\u00e9culo XVIII. S\u00e3o Paulo: Ed. Nacional, 1978, p. 26.\n\n8 CRIVELENTE, Maria Am\u00e9lia Assis Alves, Casamentos de escravos africanos \u2013 Um estudo sobre Chapada dos Guimar\u00e3es \u2013 1798 \u2013 1830, Disserta\u00e7\u00e3o de Mestrado, com apoio da CAPES, UFMT, 2000, p.158. O grifo \u00e9 meu.\n\n9 APMT, cx.1867 \u2013 Cart\u00f3rio de 5.\u00ba Of\u00edcio \u2013 Invent\u00e1rios e Testamentos.\n\n10 ACMT \u2013 Livro de Registro de Batismos de 1820 a 1841 de Chapada e Livro de Registros de Casamentos da Igreja Matriz de Santana do sacramento de Chapada. Livro 2. \n\n11 APMT, cx 1881 \u2013 Cart\u00f3rio do 5o . Of\u00edcio - Invent\u00e1rios e testamentos.\n\n12 NOVAIS, Sonia Maria de Oliveira. Perfil da inf\u00e2ncia cuiabana no s\u00e9culo XIX: 1834-1870, p. 37. Monografia de conclus\u00e3o de curso de gradua\u00e7\u00e3o em Hist\u00f3ria \u2013 UFMT.\n\n13 PERARO, Maria Adenir. Bastardos do Imp\u00e9rio: Fam\u00edlia e sociedade em Mato grosso no s\u00e9culo XIX. S\u00e3o Paulo: Contexto, 2001, p. 191.\u00a0\n\n14 VEN\u00c2NCIO, Renato Pinto. O abandono de crian\u00e7as no Brasil antigo: Mis\u00e9ria, ilegitimidade e orfandade In: Hist\u00f3ria, vol.14, S\u00e3o Paulo: Ed.Unesp, 1995, p. 164. \n\n15 Id.Ibid. p. 164. \n\n16 NOVAIS, op. cit, p, 36. \n\n17 Ver minha disserta\u00e7\u00e3o de mestrado Casamentos de escravos africanos em Mato Grosso: Um estudo sobre Chapada dos Guimar\u00e3es \u2013 1798 \u2013 1830 - 2000, UFMT. \n\n18 CONSTITUI\u00c7\u00d5ES Primeiras do Arcebispado da Bahia (1707) \u2013 Livro 1, T\u00edtulo 71, p. 366.<\/pre>\n<p>BIBLIOGRAFIA CITADA NO TEXTO. CONSTITUI\u00c7\u00d5ES Primeiras do Arcebispado da Bahia (1707), Livro 1,T\u00edtulo 71.<\/p>\n<p>CRIVELENTE, Maria Am\u00e9lia Assis Alves, Casamentos de escravos africanos: Um estudo sobre Chapada dos Guimar\u00e3es \u2013 1798 \u2013 1830, Disserta\u00e7\u00e3o de Mestrado, com apoio da CAPES, UFMT, 2000.<\/p>\n<p>LEBRUN, Fran\u00e7ois. As Reformas: Devo\u00e7\u00f5es comunit\u00e1rias e piedade pessoal, In: Hist\u00f3ria da vida privada \u2013 Da renascen\u00e7a ao s\u00e9culo das luzes. Vol .3, S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 1991.<\/p>\n<p>NOVAIS, Sonia Maria de Oliveira. Perfil da inf\u00e2ncia cuiabana no s\u00e9culo XIX: 1834-1870, p. 37. Monografia de conclus\u00e3o de curso de gradua\u00e7\u00e3o em Hist\u00f3ria \u2013 UFMT.<\/p>\n<p>PERARO, Maria Adenir. Bastardos do Imp\u00e9rio: Fam\u00edlia e sociedade em Mato grosso no s\u00e9culo XIX. S\u00e3o Paulo: Contexto, 2001<\/p>\n<p>SCARANO, Julita. Devo\u00e7\u00e3o e escravid\u00e3o \u2013 A irmandade de Nossa Senhora do ros\u00e1rio dos Pretos no Distrito Diamantino no s\u00e9culo XVIII. S\u00e3o Paulo: Ed. Nacional, 1978<\/p>\n<p>SILVA, Maria Beatriz Nizza da. Vida privada e quotidiano no Brasil &#8211; Na \u00e9poca de D.Maria e D.Jo\u00e3o VI, Lisboa: Estampa, 1993.<\/p>\n<p>VEN\u00c2NCIO, Renato Pinto. O abandono de crian\u00e7as no Brasil antigo: Mis\u00e9ria, ilegitimidade e orfandade In: Hist\u00f3ria, vol.14, S\u00e3o Paulo: Ed.Unesp, 1995.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Prof.\u00aa Ms. Maria Am\u00e9lia Assis Alves Crivelente \u00a0 \u00a0 \u00a0 Doutoranda em Demografia Hist\u00f3rica Orientadora : Prof.\u00aa Doutora Maria Norberta Amorim Universidade do Minho \u2013 Portugal. Para: Associa\u00e7\u00e3o Nacional de Hist\u00f3ria &#8211; Hist\u00f3ria, acontecimento e narrativa JO\u00c3O PESSOA\/PB: 27\/07 A 01\/08\/2003 Concubinato, escravid\u00e3o e fragilidade humana em Mato Grosso: A \u201cfam\u00edlia\u201d do minhoto Valentim e [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":767,"featured_media":763,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_import_markdown_pro_load_document_selector":0,"_import_markdown_pro_submit_text_textarea":"","two_page_speed":[],"_joinchat":[],"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[],"class_list":["post-755","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-historia"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/riodacasca.com.br\/wd\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/755","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/riodacasca.com.br\/wd\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/riodacasca.com.br\/wd\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/riodacasca.com.br\/wd\/wp-json\/wp\/v2\/users\/767"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/riodacasca.com.br\/wd\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=755"}],"version-history":[{"count":10,"href":"https:\/\/riodacasca.com.br\/wd\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/755\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1274,"href":"https:\/\/riodacasca.com.br\/wd\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/755\/revisions\/1274"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/riodacasca.com.br\/wd\/wp-json\/wp\/v2\/media\/763"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/riodacasca.com.br\/wd\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=755"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/riodacasca.com.br\/wd\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=755"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/riodacasca.com.br\/wd\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=755"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}