O ano de 1919 seria uma data crucial na memória dos cuiabanos. Sua cidade, a capital de todos os matogrossenses, faria 200 anos. Para a intelectualidade local aquela oportunidade mostravase ímpar para construir signos e reafirmar a identidade de seu povo. Alguns dos preparativos deveriam ser pensados com muita antecedência. Entre outros, prover a cidade de um sistema energia hidroelétrica. Assim, entre 1915/16, no governo do General Manuel Faria de Albuquerque, o tema foi retomado com força. Foi dada concessão, com privilégio de exploração dos serviços por 30 anos, a João Pedro Dias. A Resolução nº 740 de 24 de julho de 1916 autorizava ao concessionário o aproveitamento de uma das quedas do rio da Casca ou do Aricá-Mirim, para instalação de uma usina geradora elétrica e facultava a ocupação, durante o prazo do privilégio, dos terrenos municipais ou devolutos que forem necessários para a construção de estações, galpões, estradas, etc. (Mendonça: 1973/74). Três anos se passaram.
Na abertura do ano legislativo de 1919, o Bispo Dom Aquino Corrêa, então há um ano na presidência do Estado, lamentava que a cidade ainda padecesse da ausência de serviços de iluminação elétrica e denunciava as falhas do sistema de iluminação a gás. Ao mesmo tempo lembrava a demora do concessionário João Pedro Dias em implementar a geração e distribuição de energia elétrica. Na oportunidade, rememorava as cláusulas do contrato assinado em 1916 e advertia para a necessidade de cumprimento do mesmo. O discurso proferido por Dom Aquino deixa entrever que já estavam adiantados os serviços, que eram feitos em caráter emergencial, por dificuldade de importar maquinários e equipamentos necessários para a implantação daquela que seria a primeira usina hidroelétrica de Mato Grosso (Mensagem à Assembleia Legislativa: 1920).
Quando da assinatura do termo de concessão entre João Pedro Dias e o Estado de Mato Grosso, em 1916, havia um acontecimento dramático que impedia a importação de máquinas, qual seja: entre 1914 e 1918 a Europa vivia a experiência fatídica da I Guerra Mundial. Os países do mundo Ocidental que, desde a abertura da navegação do rio Paraguai, haviam fornecido maquinário para Mato Grosso, Inglaterra e Alemanha, estavam em guerra. Na tentativa de solucionar tal problema, João Pedro Dias foi buscar uma saída no Rio de Janeiro onde só foi possível adquirir equipamentos para montar uma termoelétrica e não a tão almejada hidroelétrica. O sonho de construção da usina hidroelétrica no rio da Casca foi alimentado até o último momento.
No início do ano de 1919, Dom Aquino Corrêa ainda nutria esperanças e argumentava em sua Mensagem Presidencial: Caso os machinismos para a installação da usina no rio da Casca cheguem em tempo, o Governo auxiliará na … Urgia o tempo e as autoridades de Mato Grosso pressionavam João Pedro Dias a dotar a cidade de luz elétrica até o dia 08 de abril de 1919. Afinal, seria uma grande jogada política para o presidente do Estado, o Bispo Dom Aquino Corrêa, ser o governante que, finalmente, tiraria a cidade das trevas quando a mesma completava 200 anos.
Mas a tarefa não era nada fácil! Como não havia modo de importar máquinas e equipamentos o jeito foi comprar uma usina termoelétrica usada no Rio de Janeiro. Transportá-la até Cuiabá foi outra epopeia. Se de fato a viagem demorou apenas um mês é possível que o trajeto percorrido tenha sido o mais rápido à época: do Rio de Janeiro ao porto de Santos o transporte foi de navio. Subiram a Serra do Mar em trens de ferro até Jundiaí ou Bauru e, dali, pelos trilhos da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, alcançaram as barrancas do rio Paraguai em Porto Esperança, passaram para um vapor e subiram os rios Paraguai, São Lourenço e Cuiabá até a capital dos mato-grossenses.
Vencidas as dificuldades de transportes era preciso instalar o equipamento e fazê-lo funcionar no prazo exigido. A ‘Casa de Força’ foi montada às margens do rio Cuiabá no prédio da velha hidráulica que abastecia a cidade de água. A partir de uma caldeira movida à lenha movimenta-se todo o maquinismo que gerava 125 KVA de energia a ser distribuída pela cidade. Ficava o concessionário obrigado a substituir essa instalação provisória pela definitiva, tão logo as condições de mercado permitissem. Mas para levar a energia da caldeira até as ruas e aos lares cuiabanos era preciso uma rede de distribuição. Para tanto cuidou-se da instalação dos postes. O projeto original previa-os de ferro, mas, como tudo era provisório, acabou-se por aceitá-los de madeira de lei, desde que pintados. Apesar de todas as pressões que sofreu, não foi possível a João Pedro Dias inaugurar o novo sistema de iluminação elétrica de Cuiabá no dia em que a cidade comemorava seus aniversário de 200 anos de fundação.
Essa falta, talvez involuntária, a ele traria sérios problemas políticos. Para complicar sua situação, João Pedro Dias foi um dos introdutores do protestantismo em Cuiabá. Bem, num estado governado por um Bispo, o não cumprimento de um prazo, revestido de aura política, por um protestante, foi um prato cheio de desgostos e sobre ele pairava a suspeita de ter agido, literalmente, de má fé.
De qualquer modo, a 15 de agosto de 1919, foi inaugurada solenemente a nova iluminação pública de Cuiabá. De início era composta de 119 combustores elétricos que, até o final daquele ano, foram aumentados para 390 lâmpadas. Provisório, o sistema, em poucos meses alcançou seu limite de carga instalado. Apesar dos esforços, a demanda por energia continuava maior que a oferta e a ideia da construção de uma hidroelétrica era alimentada pelo governo e ansiada pelo povo.
Por motivos que não se sabe, finda a guerra na Europa, João Pedro Dias, não deu continuidade ao projeto de importação de maquinários e de construção da projetada hidroelétrica no rio da Casca.
Em maio de 1923 o presidente do estado, Pedro Celestino, reclamava que os serviços de geração e distribuição de energia continuavam precários em Cuiabá, mas mesmo assim havia renovado, em janeiro daquele ano, os direitos de concessão atribuídos a João Pedro Dias.
Na foto percebe-se duas formas de iluminação pública. Do lado direito e fixado na parede de uma residência está um combustor a gás. Do lado esquerdo, um poste de madeira com sua lâmpada elétrica que seria alimentada pela energia gerada pela usina Hidráulica do Porto – na data da foto (08 de abril de 1919), ainda não inaugurada.
Mais para o final do ano, Pedro Celestino, argumentando que o concessionário dos serviços em pouco cumprira o que rezava no contrato, resolveu rescindi-lo. Entretanto, sabendo que os moradores não mais aceitariam ficar às escuras, chamou o problema para a esfera do governo estadual e tomou duas medidas: primeiro comprou de João Pedro Dias todo o equipamento existente na termoelétrica pelo valor de trezentos contos de réis (duzentos e setenta em dinheiro e setenta e quatro em apólices). Com esse ato incorporava a Usina Térmica, mais conhecida como Hidráulica do Porto, não ao patrimônio público do estado mas, ao municipal (APMT, Mensagem à Assembleia Legislativa: 1924).
A energia elétrica fornecida pela máquina a vapor apresentou problemas. Consumia parcela significativa de orçamento destinado ao setor de abastecimento de luz e água da capital apenas na compra de lenha. E, em pouco tempo, produzia energia em quantidade inferior à demanda. Mais uma vez se constatava que a solução viria do aproveitamento do potencial hídrico.
Em 1925 o vice-presidente do estado, Estevão Alves Corrêa, contratou uma empresa alemã com escritório em São Paulo, a A. E. G. Companhia Sul Americana de Eletricidade, para realizar os serviços de construção de uma usina no rio da Casca. O contrato foi assinado na Secretaria Geral em março de 1925. Mas o contrato não se cumpria naquela gestão administrativa.
No seu primeiro relatório, datado de 1926, o novo presidente de Mato Grosso, Mário Corrêa, informava sobre as negociações entre o governo anterior e a A. E. G. Companhia Sul Americana de Eletricidade. Acompanhemos suas palavras: O serviço de iluminação da cidade, encontrei-o em lamentável situação, achando-se mesmo a capital completamente privada de luz… Tendo já chegado o material em Santos, verifiquei que até então nenhuma providência no tocante ao recebimento nesta capital e transporte desta ao rio da Casca, do pesadíssimo material encomendado e cuja chegada estava eminente .
Na continuidade do discurso, percebe-se que trabalhos como o da abertura da estrada até o rio da Casca e os dos serviços de alvenaria no local da obra não estavam sequer iniciados. Ou seja, as obras de construção da primeira usina hidroelétrica de Mato Grosso transcorreriam, de fato, na sua administração. (APMT, Mensagem à Assembleia Legislativa: 1926)
Em julho, uma equipe técnica da Companhia Sul Americana de Eletricidade chegou para vistoriar os trabalhos e nela vieram o gerente Tito Rocker e o encarregado de montagem das máquinas Carlos Rinke. Segundo Mário Corrêa o projeto original estava repleto de equívocos e foi preciso readequá-lo o que, não só aumentou os custos da obra, como também acarretou no seu atraso. No fim daquele ano (de 1926) dar-se-ia a criação da Inspetoria / Diretoria de Luz e Água com a finalidade de regularizar os serviços de geração, captação e distribuição de energia e água na capital.
Os seis últimos meses de 1926, todo o ano de 1927 até julho de 28 foram gastos nas obras de construção da usina, na preparação das redes de alta e baixa tensão, nas instalações de postes (das linhas de transmissão e de distribuição), na construção da primeira subestação transformadora no Morro da Prainha, na preparação de ruas, praças e jardins da cidade para receber a nova iluminação. No caso das praças e jardins havia a novidade de usar fiação subterrânea.
Aliás, para o governo Mário Corrêa, a preocupação com a estética da cidade era uma constante. Foi ele quem remodelou o até então mal cuidado Largo da Sé ou Praça da Matriz numa bela e bem cuidada Praça, esmerando-se em sua iluminação que possuía 13 postes de ferro trabalhado sendo: oito com uma lâmpada, quatro com três lâmpadas e um com cinco lâmpadas. Tais postes, apesar de mal cuidados, ainda se encontram na Praça da República.
A baixo foto do belo Jardim Alencastro e o Palácio do Governo já com seus artísticos postes de ferro e lâmpadas, abastecidos por eletricidade gerada na hidroelétrica Rio da Casca I.
Entre junho de 1926 e julho de 1928 foi construída e inaugurada a primeira usina hidroelétrica no rio da Casa, depois conhecida como Casca I. Por dois anos foram despedidas uma gama considerável de esforços políticos, humanos e recursos financeiros para levar a cabo um antigo sonho de prover a capital dos mato-grossenses de energia elétrica. Não se pode creditar ao acaso tal empreendimento. O homem que teve a capacidade de dotar a cidade de uma usina hidroelétrica era integrado ao mundo moderno. Quando assumiu o governo de Mato Grosso, em 1926, Mário Corrêa da Costa, era médico com fama consolidada no Rio de Janeiro e algumas passagens pela Europa onde fora se especializar.
No dia 26 de julho de 1928 foi inaugurado o complexo sistema de geração, transmissão, distribuição e de iluminação pública e residencial em Cuiabá a partir de uma usina hidroelétrica. Entre a necessidade, a intenção e a inauguração foi um longo e árduo caminho percorrido e os obstáculos vencidos foram enormes: o transporte de grandes e pesadas peças de São Paulo a Cuiabá, a necessidade de contratação de técnicos estrangeiros, os desafios para os construtores locais devido à falta de mão de obra e materiais, a construção das linhas de transmissão e distribuição, entre tantas coisas, e de tudo fez-se um grande aprendizado.
Ficaram responsáveis pelo sistema de transmissão Artur Gervásio, Ramiro Moreira da Silva, Orestes e Amidio Lima (Guarda fios) que percorriam as serras e chapadões a qualquer hora e sob qualquer tempo, para devolver a luz à cidade. De Cuiabá a Pindaival, dali a Capão do Boi, passando pela Serra das Russas, até usina, esses quatro homens, em princípio a pé e depois em lombo de burros, não mediam sacrifícios para reparar os defeitos sempre traiçoeiramente camuflados (Ribeiro: 1983).
Casca I teve uma vida útil de mais de cinquenta anos e passou por muitas reformas e adaptações. Em 1941, esta usina teve a sua capacidade duplicada no governo do interventor Júlio Strubing Müller. Em 1954, no governo do Dr. Fernando Corrêa da Costa, voltou a ser reformada, quando também foi decida a construção de uma nova usina hidroelétrica no rio da Casca, pouco à jusante da primeira, com disponibilidade energética quatro vezes superior àquela. Mas antes que isto acontecesse foi criada a Centrais Elétricas Matogrossenses (Cemat), tema que tratamos no primeiro capítulo.



